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9 de outubro de 2025

{Hallowsenhas} A Hora do Mal (Weapons)

Se existe algo que me assusta realmente sobre o filme A Hora do Mal é o quanto ele demonstra o anafalbetismo crítico e literário que se expõe com o filme. Eu perdi as contas de quanta gente viu a necessidade "explicar" o filme.

Não vou entrar em spoilers da melhor maneira possível, só que o filme tem várias cenas que dão as 'pistas' do motivo do que está acontecendo e mais tarde no filme ele expõe todos os elementos. Claro que o filme não explica cada detalhe (afinal não é uma obra de engenharia, a explicação fantasiosa não precisa de mais do que temos na tela...). Droga, e mesmo assim o filme mostra em detalhes "como" os eventos se dão (só, de novo, são uma lógica de fantasia e não de matemática).

Claro que existe um metacomentário afinal toda obra de terror opera com algum tipo de metacomentário de uma forma ou de outra, e, muitos filmes operam com muito mais do que apenas um tipo de comentário mais abrangente. Não é difícil ver nas obras de horror uma preservação de valores conservadores (não obstante a 'garota final' é a moça virgem que resiste às tentações), por mais que a patota conservadora odeie tanto os filmes de terror, e, nem é preciso muito para ver exemplos de críticas e xenofobia como plataforma, e, francamente o filme poderia buscar algum metacomentário diferente com uma narrativa diferente - se focasse somente na personagem da excelente Julia Garner de começo ao fim sem revelar categoricamente o que acontece com as crianças ou mesmo com os outros personagens do filme, bem, teríamos uma outra história completamente diferente e bem mais um suspense que um filme de horror.

Do jeito que está os elementos são apresentados ao espectador, e, honestamente se faz necessário um esforço hercúleo para não entender o filme (é extremamente mastigado).

A história segue um grupo de crianças que, uma bela madrugada, somem de suas casas o que inspira uma enorme revolta e indignação de pais e moradores de uma pacata cidade. A professora da sala destes alunos é imediatamente vista como a principal suspeita (ou ao menos alguém que sabe mais sobre o que aconteceu) e acaba perseguida e atormentada pelos familiares e moradores do local.

Esse não é o filme, no entanto - na verdade se você olhar o poster, esse parágrafo meio que resume o que está ali - e essa é apenas a primeira de seis partes que acompanharão outros personagens (um dos pais, um policial, um drogado/morador de rua, o coordenador da escola e o único garoto da turma que não desapareceu) onde todos os demais elementos serão explicados - pouco por vez nestas partes que se seguem, e, concluindo no capítulo final em que se resolvem os eventos.

A conclusão, pra mim, falha em alguns elementos (e talvez eu seja o problema pois eu me vi rindo e me lembrando mais de um filme de comédia do Mel Brooks que efetivamente investido na cena que estava se desfraldando), mas não diminui o material.

Quer dizer, é decente no geral - longe de algo como Pecadores ou A Substância que tem algumas cenas realmente incríveis e consegue trabalhar brilhantemente a construção de personagens e elementos, além de servir a um metacomentário bem mais interessante - e, de novo, talvez o problema seja eu especificamente que olhei para a solução (ou o monstro se você preferir) que o filme apresenta e achei 'meh'.

 Se você não quer saber qual é o monstro do filme e qual a solução pare por aqui na área sem spoilers e assista ao filme para suas próprias conclusões.

Pra mim não funcionou, ainda que eu considere o filme bem amarradinho, com ótima direção e excelentes atuações (principalmente da Julia Garner e o Josh Brolin).

Nota: 7/10 

 

Ok? Aqui vamos com os spoilers:

 


O monstro do filme é uma bruxa (que é quem sequestrou as crianças e quem causou todas as coisas bizarras que ocorrem com os outros personagens durante todo o restante do filme), e, como eu disse, isso não funcionou muito bem para mim.

Não vou questionar as escolhas (a atriz nesse papel é muito boa ainda que a maquiagem utilizada - tá, é impactante e chama a atenção, isso eu tenho que concordar - mas faz com que ela pareça que saiu de uma orgia exclusiva com palhaços e não se limpou depois), e, honestamente acho que tinha como trabalhar a ideia geral de maneira mais interessante de outra forma (eu curiosamente fiquei pensando no Flautista de Hamelin e como isso serviria com um metacomentário de manipulação de massa) mas, é, o vilão do filme é uma bruxa com uma maquiagem bizarra.

E não é que ela não seja ameaçadora (de novo a atriz é excelente e suas cenas são fantásticas mesmo com a maquiagem bizarra), é mais que pra mim não funcionou e o final eu achei particularmente ruim (de novo, me lembrando do final de Banzé no Oeste com a bruxa fugindo e atravessando casas enquanto o caos se segue - mas até pela forma um tanto exagerada e caricata com que a atriz conduz esses momentos finais). 

23 de janeiro de 2025

{Resenhas de Castores} Centenas de Quintas.

Se existe algum filme que eu possa recomendar mais que Centenas de Castores (Hundreds of Beavers), eu honestamente não assisti ainda.

A comédia que é uma versão com atores (inclusive nos papéis de animais) de Looney Tunes em preto e branco com o mínimo de diálogo possível, um roteiro extremamente simplista e incrivelmente divertido. Fora o fato de que o filme não é fácil de achar, mesmo na era da internet e com tantos serviços de streaming (e infelizmente só se junta a uma quantidade enorme de ótimos filmes que são extremamente difíceis de se achar).

Não quero estragar a história e contar muitos dos detalhes (até porque não é exatamente algo amplamente complexo, ainda que tenha umas boas surpresas e reviravolas) mas posso dizer que é um dos melhores filmes que eu assisti dos últimos anos, e, com toda a certeza eu não consigo pensar em uma única comédia melhor.

Passa fácil dos testes de cinco risadas de Mark Kermode para definir se uma comédia é boa (eu acho que gargalhei forte bem mais que cinco vezes e tiveram algumas risadas menores em vários outros momentos), e mais até, tem um roteiro bem costurado além da comédia e da construção de cenas cômicas.

Ele funciona bem na narrativa que conta, na construção de personagens e principalmente nos rumos idiotas e bizarros que toma  (como uma dupla de castores investigando os crimes na floresta ou mais para o final quando o filme revela o propósito da ação do grupo de castores - inclusive relembrando momentos chaves que explicam o que vimos mais cedo durante o filme).

Não sei o que mais dizer além de recomendar efusivamente.

Vale muito a pena conferir centenas de vezes.

10 de outubro de 2024

{Resenhas de Quinta} Coringa 2 Medo e Delírio em Gotham City

Eu honestamente não acho que Coringa Delírio à Dois é um filme ruim, apesar de, bem, toda a opinião de público e crítica. A continuação do filme de 2019 (chamado apenas de Coringa e que garantiu um Oscar e uma ressurgência na carreira de Joaquin Phoenix - depois daquela fase bem esquisita entre 2009-2010, e que o colocou no mapa estrelando uns dez filmes ou mais nos últimos cinco anos) continua de onde o primeiro filme parou seguindo os passos de Arthur Fleck enquanto aguarda o julgamento (pelos muitos crimes cometidos ali) e onde acaba conhecendo a Arlequina vivida por Lady Gaga (e que leva a algumas sequências musicais).

A discussão é longa afinal revolve a uma série de fatores que vão bem além do filme em si (e talvez até por isso eu vá falar bem menos sobre ele e bem mais sobre a percepção e críticas ao filme e seu antecessor) e começa com a reação extremamente exagerada ao primeiro filme passando por um estúdio desesperado para ganhar dinheiro (e que passa por uma fuuuuusão com outro estúdio enquanto produz toda uma gama de projetos fadados ao fracasso) enquanto a recepção a filmes de super-heróis declinou substancialmente desde 2019... E eu nem sei se é honesto imaginar que isso cubra todos os tópicos ou problemas.

Particularmente, me parece em muitos aspectos que a ideia toda é de que temos essencialmente um único filme (com elementos que remontam que tudo é a preparação e estrutura para a audiência pública de Arthur Fleck/Coringa) enquanto ele detalha os eventos como um narrador pouco confiável e, mais importante, ao mesmo tempo aumentando sua participação em eventos e trabalhando para explorar a empatia do público a seu favor.

Deixando bem claro, eu não tenho grandes opiniões nem sobre o filme de 2019 nem sobre esse, talvez somente de que o primeiro é supervalorizado enquanto este vem recebendo críticas severas demais. Essencialmente são filmes medíocres, algo para você ver uma vez e seguir com a vida. Droga o primeiro filme é o diretor da trilogia Se Beber Não Case sugando tudo o que ele conseguisse da lixeira de Martin Scorcese dos anos 1970 enquanto nesse ele tenta fazer algo diferente (mas menos Martin Scorcese e mais colocar num liquidificador praticamente todos os clichês de filmes sobre julgamento, prisão - ou no caso sanatórios mais especificamente) agregando uma estrutura de musical. 

Somando com algo que me incomoda bastante sobre o personagem (mas que eu vi piorar depois do primeiro filme) que tentava retratar a relação do Coringa com a Arlequina de, bem, maneiras que eu confesso que me preocupam bastante como se fosse um amor proibido, com psicopatas sexies num negócio bizarro para fazer um Crepúsculo com psicopatas no lugar de vampiros e lobisomens... E, honestamente, me parece que o público realmente gosta e até se identifica com essa percepção (que repito eu acho realmente preocupante) e em partes é um dos pontos que acaba incomodando o público conforme Phillips não leva tudo para um final feliz, pimpão e contente.

Quer dizer, o filme de 2024 incomoda o público em muitas coisas... E se são coisas justificadas ou não, realmente só o tempo dirá.

Dentre os elementos que eu vejo realmente incomodar o público está  o fato de deixar bem mais claro que seu antecessor que esse não é um filme sobre o Batman, o universo DC e etcs e sim sobre uma exploração de personagem e até mesmo a contextualização do homem por trás da maquiagem e não apenas uma caricatura boba que pode fazer qualquer coisa (e meio que é o ponto pois o personagem faz qualquer função que um roteirista ruim o coloque para fazer - não, sério, vai por mim).

Ao aterrar o personagem num semblante de realidade - se não realismo (sabe, com uma origem, história, personalidade e motivações) ele deixa de ser o Coringa das outras adaptações que escapa do Arkham a cada duas semanas ou derrota um homem mais rápido que uma bala ao passo que muita gente tenta culpar Todd Phillips pelos problemas - ou ao meu ver, pelo que não gostaram - do filme (enquanto meu comentário sobre Mortal Kombat 1 e as interferências da fusão com a Discovery acho que fazem bastante sentido nas interferências nos filmes, seriados e demais projetos nesse período), ignorando elementos bem mais evidentes de interferências de executivos e mesmo pelos fatores externos no geral.

Só que concomitante é importante destacar que também padece do mesmo problema da segunda temporada de A Casa do Dragão. Depois da maratona de miséria que você precisa aguentar no primeiro filme até que Arthur Fleck 'se liberte' e o filme tome uma direção mais caótica (e francamente interessante que é o que o filme efetivamente tem de memorável) o segundo filme não parece interessado em continuar desse ponto mais interessante e seguir em frente, ao contrário parece mais disposto em voltar para a perspectiva da maratona de miséria de novo e de novo.

E enquanto isso cai na condição de que talvez alguns filmes não precisem de continuações mas será que nós vamos realmente aprender isso em algum momento com Gladiador 2, Velozes e Furiosos 11, Star Wars 10 e toda essa cascata sem fim de continuações? (Droga, eu ainda me surpreendo que não tivemos um Casablanca 2 em produção até agora...) Isso sem falar de universos compartilhados e toda uma estrutura de filmes que fazem parte da mesma estrutura de outros filmes e precisam partilhar de séries, livros, jogos de videogame e grafitis para que você consiga entender a continuidade toda (e sim, isso é parte do problema com o filme para o grande público num contexto em que quando saiu o primeiro filme havia o Batman de Ben Affleck do universo DC e essa história que se passava nos anos 1970, mas agora além disso e de toda uma gigantesca miríade de outros Batmen graças ao filme do Flash ainda temos uma outra estrutura do universo do Matt Reeves com o - ótimo - seriado do Pinguim construindo mais o terreno para uma continuação que provavelmente não terá nenhuma ligação com o universo de filmes que James Gunn prepara para a DC)

Quer dizer, mais que isso acaba entrando um pouco em território de spoilers ainda que não somente sobre o filme mas em uma escala maior sobre o quanto a DC quer dessa mística sobre o passado do Coringa e do quanto ele não tem uma identidade ou nome real.

Se te incomodam spoilers sobre o filme, bem, pare por aqui.





Ei, eu avisei que teríamos spoilers, se você ainda está aqui é porque você está ciente que eu vou falar sobre o fim do filme e o que acontece nele.



Basicamente Arthur Fleck nunca foi o Coringa (até há uma perspectiva de que o Coringa é uma personalidade da mente de Arthu Fleck) uma vez que o filme termina com o personagem assassinado na cadeia por um sujeito que, bem, exibe o emblemático sorriso do princípe palhaço do crime - e Arthur Fleck confessa durante seu julgamento que ele tem total controle sobre suas ações e não é um sujeito criminalmente insano como, bem, o personagem dos quadrinhos.

Se Fleck é assassinado pela persona do Coringa que assume de vez o controle das ações, se novamente temos que lembrar que Fleck é um narrador não confiável (sabe, como no primeiro filme) e a forma como ele conta a história pode muito bem servir para inspirar simpatia ao passo que se exume da culpa pelos seus atos.

Se isso é decisão do James Gunn para criar um universo DC cinematográfico integrado (e que não teria como funcionar no mesmo contexto destes filmes de Todd Phillips), de algum outro figurão da DC (afinal não se pode ter revelado o nome real ou o passado do Coringa) ou se é uma decisão do próprio Phillips, eu não sei exatamente se importa além de que o resultado final desagradou muito mais gente do que deveria... Mas ao mesmo tempo eu realmente acho que o público tem parcela de culpa nisso também.

Quer dizer, a recepção extremamente negativa (após uma recpeção extremamente positiva - de um primeiro filme bastante medíocre) é exagerada, mas em grande parte vem da recepção que o público que não quer ou aceita ver o personagem crescer e mudar. Fleck tem que morrer para que surja o Coringa que não tem uma identidade e enfrentará o Batman de novo e de novo, seja Nicholson, Ledger, Hammil, Leto ou Barry Keoghan. De novo, e de novo presos num oroboros perpétuo...

12 de setembro de 2024

{Resenhas de Quinta} Fallout: New Borderlands

Porque Borderlands fracassou quando Fallout funcionou talvez seja uma pergunta simplista e até a pergunta errada a se fazer depois que os materiais foram produzidos e os resultados tabulados.

Mas analisando antes dos lançamentos, as apostas eram inversas com toda a certeza. Um filme com orçamento de 120 milhões com elenco de Cate Blanchett, Jamie Lee Curtis, Jack Black e Kevin Hart com direção de Eli Roth contra um seriado da Amazon (que já colecionou um bocado de fracasssos nos últimos anos - com quase 1 bilhão gasto para Os Anéis do Poder, por exemplo, que menos de metade dos espectadores chegou ao episódio final) com um elenco bem mais modesto (Walton Goggins e Kyle MacLachlan devem ser os nomes mais famosos entre os atores, ainda que também inclua Jonathan Nolan que colaborou na direção/roteiro).

O orçamento da série é um tanto maior, é verdade, com 150 milhões para 8 episódios, e, considerando o material fica visível que foi muito bem investido pois consegue recriar o universo dos jogos de Fallout com incrível fidelidade... Enquanto eu fico distraído com o cabelo da Cate Blanchett em Borderlands tentando entender se eles usaram uma peruca ruim, tintura ruim (com papel crepom?) ou o que diabos. E mais importante, quem olhou o resultado e pensou 'É, tá bom o suficiente para um filme de alto orçamento de um grande estúdio (mesmo que não funcione para um filme de fã)'.

E eu sei que os fãs de Borderlands estão defendendo o filme e dizendo que o 'hate' é injustificado e que o filme é divertido ou qualquer outra bobagem do tipo, mas eles são fãs, não precisam de muito incentivo para gostar...

Só que para quem não conhece a franquia - no que eu me incluo, que nunca joguei nenhum deles e nem conheço a história mesmo que de maneira tangencial - o filme precisa de mais. É preciso apresentar os personagens e o mundo em que estão inseridos. E enquanto eu gosto bastante de Fallout, não acredito que haja enviesamento de minha parte favorecendo uma franquia e prejudicando a outra.

Fallout faz isso desde o primeiro episódio, apresentando os habitantes do abrigo, destacando a protagonista Lucy, depois nos mostrando o mundo externo com a Irmandade do Aço, com o segundo protagonista Maximus enquanto nos mostra também o Ghoul em sua jornada pelo ermo (ou Wasteland), ao mesmo tempo que nos mostra os paralelos com os jogos (cada um dos três protagonistas representa as escolhas de moralidade que delineam as escolhas dos jogos). Roteiro bem escrito e direção coesa ajudam, claro, mas tudo depende da construção de personagens e universo.

Borderlands não faz isso, ainda que essa seja uma falha de Eli Roth desde seu começo como diretor de filmes de horror (que achava mais importante criar uma cena chocante ou algum evento bombástico do que, sabe, uma estrutura narrativa lógica). Do pouco que assisti de filmes de Eli Roth, eu sempre tive a impressão que ele é do tipo que assiste Zack Snyder (que eu não carinhosamente apelidei de 'Capitão Óbvio') como um bulldog assiste a um forno de padaria com a baba escorrendo e pensado no quanto o sujeito é brilhante. E enquanto o diretor começou a produzir filmes infantis (?) ao mesmo passo que continua a produzir filmes ruins (sabe, o remake de Desejo de Matar com Bruce Willis?), não é como se ele tivesse aprendido alguma coisa no caminho ou sequer melhorado.

Eli Rotten (sim, sim, eu sei que o sobrenome dele não é 'podre' em inglês) não parece preocupado com a construção de cenas ou mesmo em criar algo interessante e empolgante. Na verdade pelo que eu conheço do diretor, ele parece plenamente contente em fazer seu trabalho de maneira mais distinta de um processo de plágio possível. Sem criação, sem invenção, só uma cópia legalmente distinta e estamos todos bem.

Com Borderlands é o que ele faz do começo ao fim.

Desde os trailers que tentavam emular James Gunn e seus Guardiões da Galáxia para as cenas que tentam fazer uma mescla de tudo e mais um pouco (que vai dos Guardiões da Galáxia já citados a Mad Max, uma caralhada de filmes do Kevin Hart - incluindo Jumanji que também traz o Jack Black e a lista segue, mas não melhora muito) enquanto uma batida genérica dá o tom, mas, o que é pior efetivamente, em momento algum o diretor ou roteiro parecem se importar e isso vai produzindo um efeito cascata para praticamente todo mundo envolvido.

Se o problema é que o material é genérico e uma tentativa de ser Fallout mas num contexto legalmente distinto (e mais espacial/futurista) ou que o diretor não conseguiu capturar a ideia para produzir algo interessante eu não sei responder, mas o que eu sei é que alguém viu uma franquia de videogames como potencial para lucrar fácil e rápido - produzindo algum filme rápidos e fácil para lançar o quanto antes - e o resultado foi o que foi, um filme que será esquecido tão rapidamente quanto o reboot do Corvo que algumas pessoas inclusive acreditam que nem aconteceu.

22 de agosto de 2024

{Resenhas Passadas} Vidas de Quinta

Eu confesso que o que mais me assustou ao assistir Vidas Passadas foi o quanto tempo me levou para lembrar qual foi o último filme que eu assisti que tinha esse tipo de qualidade (tá, eu lembrei de Parasita quase na hora, mas eu não consegui pensar em um filme de Hollywood por uns bons vinte minutos até eu lembrar de Tár - ainda que eu tenha ficado mais um bom tempo internalizando sobre Paddington e o fato que ele passou a nota de Cidadão Kane no rotten tomatoes).

Quer dizer, não tem nada particularmente brilhante aqui. Os personagens são bastante comuns, seu diálogo mundando e não é como se acontecesse algo notável e extraordinário na história (são dois amigos de infância que se reencontram na internet décadas mais tarde), e esse é o trunfo do material.

Ao pegar algo tão pedestre e elevar com uma direção fantástica e edição soberba, Celine Song constroi algo que realmente vale a pena e memorável... Pelo menos do ponto de vista da direção (por mais que seja bem escrita e tenha bons diálogos e ótima atuação, continua sendo bastante pedestre).

Vai superar Cidadão Kane? Ei, talvez se tivesse um número musical com Hugh Grant, quem sabe? Mas como eu disse, não é um filme que faz nada além de um feijão com arroz bem feito - diálogos mundanos mas que parecessem verossímeis e bem construídos (ao contrários de tantos filmes que não sabem produzir algo que não seja sarcástico, bobo ou uma combinação de ambos), personagens que de fato se parecem com pessoas que você encontraria na farmácia ou mercado (mesmo que vivam em outros países com realidades bem diferentes da sua).

Não deveria ser tão difícil, e no entanto o que vemos de novo e de novo é justamente o quão difícil isso é, o que leva a novas espirais de questionamentos.

Porque, de novo, enquanto a direção/edição são extraordinárias, não existe nada no roteiro que chame atenção. É um filme ótimo para se assistir para limpar o palato, ao mesmo tempo que estudantes de cinema vão babar pela técnica e etcs, mas para a grande maioria dos espectadores, eu realmente acho difícil de empolgar depois da marca de uma hora.

Inclusive porque, e eu vou usar o termo spoiler de maneira bem generalista mas eu possivelmente vou estragar a história (?) nesse parágrafo, o filme não traz nenhum grande evento ou tem qualquer ramificação e fato relevante. Os protagonistas tiveram um breve relacionamento na infância, se reencontram anos mais tarde (através da internet e depois pessoalmente), e, por mais que se gostem seguem seus caminhos separados. Não tem nenhum conflito, uma noite quente de amor apaixonado ou algo do tipo, só conversa e suposições sobre o que poderia ter sido. Realista? Sim... Mas interessante? Não (qualé, se você procura realismo geralmente assiste a um documentário, e geralmente um documentário é sobre alguma pessoa ou evento marcante, não dois jovens coreanos que se reencontram mais de uma década depois).

Eu sei que tem filmes de arte que acompanham horas de tinta secando e isso muda a perspectiva de diretores e etcs, só que não significa que são filmes interessantes ou que valem a pena discutir pelos méritos narrativos, enquanto vale lembrar que não é porque um filme é artístico que não precisa de uma história ou narrativa. Truffaut, Almodóvar, Bergman (e a lista segue) produziram todos filmes artísticos com escolhas brilhantes de cinematografia e que tem histórias interessantes e empolgantes. Droga, a gente nem precisa voltar tanto, Parasita de 2019 mesmo...

Então, é uma recomendação com ressalva. Filme bom (não ótimo, nao excelente) com uma direção brilhante, mas uma história que você provavelmente esquecerá no momento em que o filme terminar.

8 de agosto de 2024

{Resenhas de Oh, Deadpool where are thou?} Flashpool e o Multiverso da Loucura ao mesmo tempo e em todo lugar

Dizer que eu não gostei de Deadpool & Wolverine é tipo dizer que eu não gostei de pisar em cocô de cachorro na rua, é algo que não precisaria ser dito. Mas os fãs gostam e eles ficaram por meses e até mesmo anos dizendo que isso seria a salvação do universo Marvel cinematográfico, não é mesmo?

Bem, e quem se importa com o universo Marvel cinematográfico e suas cifras além da Disney?

Se os filmes são bons ou não, isso deveria importar para o público (e crítica que me inclui nesse caso específico), mas se são lucrativos ou manterão uma franquia viva? E manter uma franquia viva para fazer mais e novos filmes trazendo atores para reviver seus papéis de vinte anos atrás ou produzir alguma montagem boba com CGI bem sem vergonha... Onde eu vi isso mesmo?

O que acontece, no entanto, é que Deadpool de 2016 foi um filme bom, mas não porque Ryan Reynolds é o Will Smith branco dos anos 2010 e consegue fazer ação e comédia com tiradas sarcásticas mas porque Tim Miller soube produzir o filme com recursos limitados para otimizar o que ele tinha (um astro com basicamente zero de elenco minimamente reconhecido e um orçamento de 58 milhões (pouco mais que o orçamento de Superman, de 1978 e quase 1/4 do orçamento do filme dos X-men de 2 anos antes, Dias de um Futuro Esquecido com 200 milhões), o filme aposta em bom uso de câmera para disfarçar um orçamento baixo e trabalhar cenas de ação de maneira eficiente enquanto enfatiza num roteiro simples que permite o desenvolvimento de personagens.

Sabe, tipo a montagem que denota o romance entre o Wade e a Vanessa (denota a passagem de tempo e reforça o sentimento desses dois personagens pontuando tudo com a conclusão dramática de que o Wade tem câncer), apresentando de maneira bem simples a motivação e conflito do personagem e estabelecendo os passos seguintes para o que viria no filme.

Dois anos mais tarde com o dobro do orçamento, Deadpool 2 tem participações especiais a rodo (Brad Pitt, Terry Crews, Matt Damon e boa parte dos X-men de filmes anteriores para cenas minúsculas, Josh Brolin - que já era Thanos na Guerra Infinita do mesmo ano - e Zazie Beetz de Atlanta, além de uma versão para crianças com Fred Savage, porque não?), e, bem, não se importa minimamente em fazer um trabalho bem feito e interessante como Tim Miller fez anos antes. O roteiro é uma bagunça e não trabalha para o desenvolvimento cadenciado de personagens (viagens no tempo, prisões de mutantes e Deadpool extremamente apegado ao Rick Baker por algum motivo), enquanto Reynolds recebe crédito de roteirista e insiste vocal em uma campanha para produzir um terceiro filme no qual Deadpool se encontraria com Wolverine.

Seis anos mais tarde após Fox ser comprada pela Disney que não vem encontrando muito sucesso com seus filmes de super-herói e bem, temos um filme de mais de 200 milhões de dólares e com participações especiais de todo mundo possível, imaginável e disponível (droga, se você verificar em um pequeno frame na marca da 1h 44 minutos você verá que eu estou no filme também) que simplesmente joga para o vento qualquer ideia de desenvolvimento de personagem, roteiro simples e coerente ou efetivamente qualquer coisa que não se pareça com uma criança pegando uma coleção de bonecos para fazê-los brigar...

Algumas piadas funcionam e certas cenas são divertidas? Bem, o filme de 2018 fez exatamente a mesma coisa - e com um orçamento menor - mas continua sendo um filme desinteressante. A diferença, claro, é que Hugh Jackman como Wolverine é muito melhor que John Brolin como Cable (ao passo que Cable por si só é um personagem bosta de todo jeito). É melhor que o filme de 2018? Sim, mas isso é algum mérito?

Olha, eu comparei inicialmente com cocô de cachorro, mas é só cocô de gato, ufa...

Porque vamos deixar claro, enquanto o filme de 2018 é bastante ruim e tem no máximo umas três piadas que funcionam e umas duas cenas que são bem produzidas, o roteiro é terrível e faz pouco ou nenhum sentido, há zero desenvolvimento de personagem(ns) e essencialmente o material agrega nada ou coisa alguma à mitologia do personagem. O filme de 2024 faz exatamente a mesma coisa (o roteiro é péssimo tentando constantemente ser meta para deixar claro que a Fox e o universo de filmes da Fox não mais existem e agora são parte de algo maior no conglomerado Disney, não existe desenvolvimento de personagem algum e nada do que acontece nas telas agrega para a mitologia maior do[s] personagem[ns] ou do universo maior em que estão inseridos), só que acerta um pouco mais com umas cinco piadas a mais e talvez quatro cenas mais interessantes, enquanto continua sendo uma bagunça de proporções épicas que só serve para agradar fã babão (ei, aquele ali aparecendo por uma fração de segundo é um vilão criado por Steve Gerber ou só um sino mesmo?).

Vale mais a pena esperar que o filme chegue ao Disney Plus do que pagar mesmo meia entrada nos cinemas.

27 de junho de 2024

{Resenhas deprimidas de Quinta} Divertida mente 2

Puta merda eu odeio fazer resenhas de animações infantis porque não importa o meu argumento eu sempre vou parecer um velho idiota reclamando para as crianças sairem do meu gramado, né?

Quer dizer, quando eu gosto ainda eu pareço o velho simpático pedindo educadamente para as crianças sariem do meu gramado...

Quer dizer, as crianças gostam do filme e querem uma pelúcia da Ansiedade ou de outro dos personagens novos, a Disney consegue muita publicidade e merchandising e o filme é um sucesso de público e crítica e o velho idiota reclama que não gostou porque não trouxeram de volta o Bill Hader enquanto oferecendo um gigantesco aumento salário para a Amy Poehler (que tem ainda mais tempo de tela que no filme anterior) ou porque não faz sentido dentro do contexto do filme que existam mais que as 5 emoções (sabe, que os adultos também só tem 5 emoções, assim como os cachorros e gatos conforme a sequência final nos mostra).

É uma sinuca de bico.

Criticar e ser o velho idiota, não criticar e ser o idiota conivente que aceita qualquer porcaria comercial de Hollywood desde que gere receita.

E eu poderia ignorar e falar de outra coisa qualquer (meio que o que eu costumo fazer já regularmente, mas sabe, perdendo oportunidades de falar de um filme, seriado ou mesmo série de quadrinhos quando ela é relevante e todo mundo está falando sobre ela - como eu já fiz com Fallout esse ano, e com toda a certeza farei com a segunda temporada de House of The Dragon).

Olha, de todos os filmes da Pixar, Divertida Mente de 2015 claramente apontava para uma continuação (estava bem ali no final quando eles encontram o botão da puberdade no painel de controle), só que, e me perdoe se eu estiver errado, mas eu confesso que não me lembro de ouvir durante a 1:30 de filme a palavra 'hormônio' dita uma única vez nessa continuação que efetivamente É sobre puberdade.

Talvez seja alguma coisa da Disney para não usar palavras que soariam controversas num filme para crianças e colocar novas emoções além de permitir mais merchandising é mais fácil que explicar hormônios atrapalhando o funcionamento apropriado de suas emoções, e, eu concordo.

Só que esse é o ponto onde o filme de 2015 funciona. É um filme para crianças mas com uma temática extremamente complexa de análise e psicologia da mente humana e dos processos internos do funcionamento do cérebro. Claro, não é científico e preciso (é uma animação para crianças no final do dia, não um documentário), ainda assim num sentido mais abstrato ele consegue explorar conceitos extremamente complexos e difíceis mesmo para filmes mais adultos de maneira bastante madura.

A garota lida com depressão enquanto 'enterra' seus sentimentos, e no processo precisa aprender a lidar melhor com suas emoções (inclusive com aquelas que parecem mais 'negativas' como tristeza e medo) para viver bem.

A continuação claramente define uma das emoções como a vilã (e ao final do filme claramente não aponta que ela pode oferecer algo de positivo e que é necessário aprender a lidar melhor com ela - mas que ao contrário levar a ansiedade para ver os coelhinhos parece uma ótima ideia), sem tentar oferecer alguma perspectiva de aceitação como no primeiro filme ou de algum cenário positivo de que todos os sentimentos tem sua função... E enquanto uma é a vilã do filme, as outras são claramente emoções negativas - que, ao contrário do primeiro filme - não demonstram nenhuma função clara ou útil.

Mais que isso, parecem até redundantes. Tanto Vergonha como Ansiedade parecem partes que o Medo controla (ou, se preferir que o Medo e a Nojinho combinados controlam), enquanto a Inveja e a Raiva também tem muito mais em comum do que deveriam (e o Tédio é só a Tristeza gótica).

Honestamente mesmo a 'árvore da convicção' não é exatamente algo do qual eu tenha visto agregar grande coisa pro conceito ou oferecer algo a mais para o filme. Não sei se é um grande conceito de psicologia que o filme tenta contextualizar com uma alegoria simplificada (e que para a galera dessa área seja um orgasmo gigantesco ver uma representação do conceito), mas não foi algo que eu particularmente achei interessante no contexto do filme, ou achei que funcionou.

No geral, a milhagem pode variar...

Só que talvez se essa franquia fosse como Carros ou algum dos outros filmes estúpidos que a Pixar produziu e ninguém se importa (sabe, tipo aquele com o Tom Holland que o pai dele reencarna da cintura pra baixo), qualquer mudança mesmo que incrivelmente estúpida e contraditória, poderia funcionar - ou porque ninguém se importa com algum desses filmes ou porque, bem, qualquer coisa já é melhor do que o original ao ponto que qualquer melhora marginal sobre o anterior seria suficiente para tornar a experiência mais interessante. Outros filmes como Ratatouille, Wall-E ou Up já são muito bons como são e qualquer mudança à fórmula pode mudar demais o resultado, ou prejudicar o resultado final.

E nem é como se a Pixar não soubesse fazer boas continuações, pois Toy Story surpreende a cada novo capítulo e por mais que seja o maior sucesso do ano e com certeza vá agradar muita gente (crianças e adultos), fingir que está no mesmo patamar do primeiro é absurdo.

É só mais um sintoma da 'sequelite' que Hollywood tanto se esforça para produzir produtos rápidos e experiências de marketing e consumo e não necessariamente filmes bons.

11 de junho de 2024

{Resenhas de Quinta} Godzilla Menos Kong

Godzilla completa 70 anos em 2024, e bem, pra dizer que a longeva franquia tem altos e baixos é uma hiperbole. É mais para baixos e abismos.

Coisas como Jet Jaguar, baby Godzilla e o remake com Mathew Broderick. Ou seja, tolo, campy e terrível são palavras que geralmente se associam à franquia, mas talvez ainda caibam aqui e ali algumas palavras de espanto pelo absurdo terrível que novas iterações planejam e nos trazem. Quer dizer, você geralmente sabe que não será bom, mas nada te prepara para o quão ruim de fato será... Mas claro, tudo depende de percepção e, efetivamente do tipo de filme que você realmente quer ou espera quando pensa em Godzilla.

Se o clássico original de 1954 que coloca um monstro gigante como a força destrutiva da natureza (humana) análoga à bomba atômica ou um homem numa fantasia mal feita de lagarto gigante brigando numa maquete mal projetada contra um muppet de uma mariposa que solta pólen como (d)efeitos especiais enquanto destroem a cidade toda, e, nesses 70 anos da série, a segunda parte (de pessoas fantasiadas de monstros se enfrentando em maquetes mal construídas) compõe quase que a totalidade dos filmes com o personagem (mais numa proporção de 20 para 1 ou 2 dependendo a sua percepção,daí os filmes americanos e com o filme de 2014 no meio do caminho entre filme de monstros e alguma nuance sobre o poder destrutivo humano - mas sem muita coragem para construir nenhum dos dois).

Francamente não me agradam os filmes em que Godzilla enfrenta outros monstros gigantes, sejam animações por computador, atores fantasiados ou animações tradicionais... Não importa muito se é um outro lagarto gigantesco, um robô lagarto gigantesco, um dragão ou o King Kong (ou o King Kong de novo, mas com um braço mecânico), mas, eu entendo o apelo para quem gosta e que esse tipo de filme produz. É tipo Velozes e Furiosos só que para uber nerds, não importa muito se faz sentido desde que tenham grandes e espetaculares cenas de destruição (nesse caso promovidos por lagartos anabolizados criados por computador e não por lagartos anabolizados carecas do mundo real).

Eu, particularmente, sou mais para algo como Godzilla Menos Um, que é uma espécie de remake do filme original - se passando num período imediatamente após a segunda guerra mundial enquanto o Japão vem se reconstruindo - mas com um foco maior nos personagens humanos lidando com as consequências de um gigantesco lagarto anabolizado criado por computador destruindo tudo em seu caminho.

São as pessoas tentando lidar com a destruição e reconstruir suas vidas, com seus dramas pessoais e muitas vezes banais que fazem do filme muito melhor que, bem, quase 90% dos outros filmes de Godzilla na minha opinião, mas, entendo que faltam monstros e explosões espetaculares para fazer o filme funcionar para a galera que gosta dos outros filmes (ainda que, e de novo, eles já tenham os quase 90% outros filmes de Godzilla para assistir e quase todos já fazem exatamente isso). E, desculpa, mas funciona quando o filme gasta tempo desenvolvendo a relação entre os personagens e as cenas colocam os personagensem risco real, funciona quando o público se envolve em suas histórias (e os personagens não são basicamente super heróis sobrevivendo incólumes por todo o caos e destruição à sua volta).

Pode não funcionar para todo mundo, eu mesmo que gostei do filme acho que uns bons 20-30 minutos a menos beneficiariam bastante ao material, mas eu acho que mesmo que não te agrade, vale a pena pelo menos para ver que a franquia tem mais para oferecer que apenas criaturas gigantes causando caos e destruição.


{Editado, agora que eu vi que a publicação não foi na quinta, mas, ei... Continua valendo}

30 de maio de 2024

{Resenhas de Quinta} Fallout New Furiosa

Antes de falar sobre Furiosa, vamos deixar bem claro que eu não acho que Mad Max seja tão incrível, brilhante ou relevante quanto, bem, toda uma galera gosta de fazer parecer. Claro, o fato que George Miller conseguiu dirigir o primeiro filme na Austrália em 1979 com um orçamento minúsculo mostra muito sobre o talento do diretor (e o fato que ele produziu Babe, o Porquinho Atrapalhado em 1995 mostra o quanto o diretor é versátil, afinal dúvido que Cronenberg ou David Fincher conseguiriam um 180 dessa proporção).

Meu real interesse na série veio com A Estrada da Fúria de 2015, e, a partir daí eu comecei a prestar mais atenção aos filmes antigos - e realmente não achei que nenhum deles era metade tão interessante. Existem boas ideias, existem conceitos interessantes e personagens fascinantes num mundo pós apocalíptico e caótico, mas nada chega perto da alta octanagem do começo ao fim que é o filme de 2015. Quando parece que o ritmo vai diminuir, surge um novo problema, uma nova ameaça e o filme engata mais uma marcha e parte para mais um ciclo gigantesco de explosões e violência.

Furiosa não é isso.

Furiosa tem 2 horas e meia, (meia hora mais que o filme de 2015), e a protagonista Anna Taylor-Joy aparece pela primeira vez na tela mais de 45 minutos depois do filme começar (contextualizando longamente todos os traumas de infância da personagem - e olha que não são poucos), e eu não quero parecer que isso seja uma crítica ou um ponto negativo, só reforça que o filme é bem diferente em tom do filme anterior. Ele usa muitos dos mesmos personagens e do mesmo contexto, como Immortan Joe, seus filhos e toda a galera estranha que anda com eles, enquanto a Estrada da Fúria é um item importante para definir Furiosa e Jack - seu parceiro/interesse romântico - mas não é uma sucessão frenética e constante de cenas de ação e violência.

Tudo é mais espaçado. Tudo é mais cadenciado.

Inclusive o filme tem capítulos que vão traçando a trajetória desde a pequena Furiosa (Furiosinha?) até o momento em que ela se torna a irmã do Colossus/campeã do xadrez Taylor Joy, e a iminente conclusão de sua jornada (que, espero não pareça como spoiler uma vez que esse filme é uma prequela, sim, a conclusão do filme é chegar mais próximo do ponto de Estrada da Fúria).

Isso significa que é melhor ou pior? Bem, se você vai esperando Estrada da Fúria (e eu meio que fui), vai se desapontar. Ainda assim o filme é muito sólido, duas horas e meia passam voando na trama que é incrivelmente bem contada e com atores fantásticos que realmente conseguem vender o absurdo desse mundo pós-apocalítico que George Miller cria como ninguém (e ninguém mesmo, porque faz pouco mais de um mês que a série Fallout foi lançada, e, mesmo com todo o dinheiro da Amazon por trás, é palpável a difernça entre o deserto de Miller e o ermo do seriado).

Se o filme de 2015 é um A ou A+ (e eu realmente acho que esteja nessa faixa), o de 2024 é um sólido B+, e funciona perfeitamente para se assistir em uma maratona/dose dupla.

27 de julho de 2023

{Resenhas destruidoras de mundos} Barbie

Eu confesso que me assusta a ideia do filme Barbie ser um grande sucesso como tudo aponta que será (com lojas de roupas já há alguns meses vendendo as cores da boneca assim como apetrechos com seu nome vinculado, mas parece que todo mundo quis entrar na onda e lanches, milk shakes e mais um bocado de itens comestíveis rosa estão por todos os lados), não porque eu tenha qualquer coisa contra a ideia de adaptarem um produto infantil adorado por uma vasta parcela da população e que talvez tenha alguns problemas de mensagem ou de ter envelhecido mal (o filme brilhantemente endereça essas questões, ainda que eu duvide realmente que as crianças e adolescentes lotando as salas estejam entendendo qualquer coisa disso). Droga, essa descrição cairia como uma luva para metade dos personagens da Marvel e da DC e esse blog não demonstrou qualquer motivo para desgostar destes produtos por este motivo (só que, honestamente, nenhum destes universos de quadrinhos foi capaz de produzir uma onda tamanha como o tsunami rosa que está diante de nós todos).

Não, meu medo reside justamente no fato que o sucesso estrondoso e arrebatador do filme (quase como uma bomba atômica criada por Oppenheimer de Christopher Nolan - e que merece todos os Oscar, e eu repito TODOS OS OSCAR do próximo ano) seja o catalisador da mudança de perspectiva dos filmes que veremos nos próximos anos, e, que, verdade seja dita parece que veio moldando 2023 com Super Mario e Dungeons & Dragons, e é o fim dos filmes de super heróis (que, sejamos honestos já passou da hora) e os filmes de brinquedos (e dá-lhe esperarmos Chris Pratt como Lion-O em 2026 ou Ryan Reynolds como um dos Ratos motoqueiros de Marte, é isso nunca vai acontecer...) tomarem a Terra.

Isso me assusta um pouco justamente pela base específica do que isso é e o que pode ser. Sim, os dois filmes Lego (assim como Lego Batman) são muito divertidos, assim como os outros filmes citados aqui (Mario, Dungeons & Dragons e claro, o filme em questão, Barbie), mas, será que algum destes ou dos vindouros filmes baseados em brinquedos, consegue captar algo maior que uma bela oportunidade para marketing, merchandising e estúdios faturarem alguns milhões a mais? Ou como aconteceu antes persistirá num futuro de mais e mais filmes aprovados a toque de caixa para capitalizar num grande sucesso e com qualidades questionáveis (para dizer o mínimo)? Ainda mais quando se trata de filmes baseados em brinquedos e com foco específico para crianças (onde o piso tem um alçapão e a falta de qualidade não conhece limites). Droga, com o sucesso que Barbie vem conseguindo nos cinemas, eu não ficaria surpreso se a continuação (inevitável nesse ponto) simplesmente substitua a brilhante Greta Gerwig pra trazer alguém que aceite produzir um filme bem próximo das tantas animações já produzidas com a personagem que não tem nenhuma pretensão ou propósito maior.

Sim, são filmes comerciais e esse é o ponto (são baseados em brinquedos produzidos em massa) para vender mais produtos, inclusive os ingressos deste produto, e, ei, é o capitalismo, baby. Só que me assusta um pouco, ainda mais vendo no retrospecto dos últimos 20 e tantos anos de filmes de super heróis (com tanta coisa ruim que saiu) e mais especificamente com o que já saiu baseados em brinquedos ou jogos (como a franquia Transformers ou a Batalha Naval da Rihana), o quanto é possível produzir algo bobo com o simples propósito de faturar uma grana rápida para explorar fãs babões. Entendeu porque me assusta um futuro próximo em que os brinquedos nostálgicos comecem a surgir mais e mais como filmes?

Barbie em si é, bem, uma história de um peixe fora d'água que precisa encontrar seu lugar no mundo e/ou sua própria voz, mas com uma mensagem mais complexa sobre valores tradicionais de gênero (inclusive toda a construção do patriarcado em nossa sociedade, contratada pelo mundo de Barbie onde as mulheres literalmente mandam e fazem qualquer coisa - e obviamente por esses motivos você pode imaginar que tem uma galerinha raivosa sobre isso). Funciona pelo excelente elenco e direção (que consegue lidar tanto com os aspectos cômicos como mais sérios - ainda que não haja nada particularmente desafiador como uma série da HBO - ou o filme Oppenheimer de Christopher Nolan que merece todos os Oscar, e eu repito, TODOS OS OSCAR do próximo ano). Consegue lidar com vários dos elefentes da sala, inclusive o fato de que é um produto com uma história controversa (para dizer o mínimo) e aproveita de um bom momento para arrebatar público senão a crítica. Talvez não seja algo revolucionário e quebrador de barreiras - mas honestamente, com o histórico de 2023, é fácil um dos melhores filmes do ano.

Mas ei, se qualquer coisa nisso te incomode, você pode assistir Oppenheimer do Christopher Nolan (que merece todos os Oscar do próximo ano) e ver que enquanto o diretor continua excelente e o filme é extraordinário, ele ainda cai em alguns senão todos os velhos e já esperados problemas do diretor (ausência de um elenco feminino relevante, uma trama rocambolesca não linear na qual é fácil perder o fio da meada e um ato final que acaba decepcionando ou ao menos ficar longe da qualidade dos demais). Droga, via de regra você pode assistir ambos na sequência nos cinemas e ser feliz.

Foi o que eu tentei, e até agora não me decepcionou.

15 de junho de 2023

{Resenhas de Quinta} Homem Flash: Através do Snyderverso

Por um lado, Homem Aranha através do Aranhaverso é um filme que eu queria muito gostar. É a continuação do ganhador de Oscar filme de 2018, Homem Aranha no Aranhaverso (que facilmente é o melhor filme do personagem, e, um dos melhores 10 filmes de super heróis de todos os tempos), e, tem uma base sólida, atores brilhantes e, bem, tudo o que é necessário para um filme espetacular.
Mas não é.
Enquanto eu queria dizer que 'falta algo', a verdade é que não é exatamente isso. Principalmente falta foco (enquanto o primeiro filme tem uns 6 ou 7 Homem Aranhas e um vilão focal no Rei do Crime pesquisando pelo multiverso por sua falecida esposa, aqui, sabe-se lá quantas centenas ou milhares de miranhas estão na tela por segundo e o 'vilão' é o destino inevitável), mas eu queria dizer que o grande problema desse filme está nos excessos. São personagens demais em um filme que é longo demais (e principalmente longo demais para terminar com um 'continua') e com história 'de menos'. E sinceramente, o filme é mais uma fábrica de memes que uma narrativa coerente e interessante.

Quer dizer, eles pegaram a história da Citadela dos Rickys de Ricky e Morty e, pronto, já temos uma base para nosso filme (o que inclusive vai de encontro com a base do personagem e traz toda uma gama de problemas na estrutura de predestinação contra acaso e que - sem spoilers - é a base do personagem, afinal ele é literalmente uma pessoa aleatória que está num lugar onde uma aranha radioativa o pica, não é o herói predestinado que é auxiliado pelas nornes para tirar uma espada da pedra - exceto no musical da Broadway). Isso é um problema enorme e central para a lógica interna do Amigão da Vizinhança, Homem Aranha (sabe, não 'amigão do multiverso, Miranha'), porque não funciona na lógica interna do personagem.

Ricky é o homem mais inteligente do universo ao mesmo tempo que é paranoico e irrita as pessoas sem muito motivo (ele inclusive se compara com o Pernalonga em um episódio), então faz sentido que a única pessoa que ele "confie" (entre aspas pois isso vale somente até a segunda página) seja ele mesmo, e por isso forme a Citadela dos Rickys. O mesmo funciona para o herói Reed Richards (que vê no multiverso a resposta para todos os problemas do mundo, mas também vê a perspectiva de abusar deste conhecimento e por isso forma um grupo multiversal) ou para o Superman (para enfrentar ameaças que são grandes demais para um único Superman). Para o Homem Aranha? Não parece coerente com a lógica do personagem, ainda mais com a temática do filme de garantir que eventos 'pré-determinados' que acontecem em todo o multiverso aconteçam neste também (o que, além de tudo, é simplesmente estúpido).

Eu sei que tem muita gente babando no ovo do filme e defendendo como se ele fosse, bem, seu antecessor, mas, honestamente não é apenas o fato que é inferior a ele (o que dada a qualidade é altamente normal e aceitável), mas por sua falta de foco e mesmo de originalidade que o coloca numa escala geral mais próximo da média que do topo e a falta de um final - mesmo que para criar expectativa para a sequência, como aconteceu com O Império Contra Ataca ou toda a trilogia de O Senhor dos Anéis - genuinamente não ajuda (mais ou menos como na trilogia de O Hobbit - sabe quando a luta com o dragão é cortada ao meio para se concluir no início do filme seguinte?). Talvez seja um forte candidato ao Oscar do próximo ano, de fato, mas bem mais por falta de concorrência que por mérito próprio.

Por outro lado, o Flash vem uma fase terrível que é difícil você de fato comentar ou reconhecer o filme sem considerar tudo o que vem antes dele.
É como o jogo de volta de uma fase eliminatória em que o primeiro jogo foi em casa e o time perdeu por 5 a 0 tendo seus melhores jogadores expulsos (e nisso impedidos de continuar no próximo jogo), e agora precisa ganhar por um a mais na casa do adversário... Quer dizer, Ezra Miller é um pesadelo como astro em todos os sentidos, com uma, perdão ao trocadalho mas, ficha que não é só corrida e sim maratonada e uns dois ou três anos em que seu nome só aparece devido a alguma nova polêmica, controvérsia ou crime, e isso é só o começo (você ainda tem todo o Snyderso colapsando desde a Liga da Justiça de 2017 - que eu ainda acho que é melhor que o corte de 5 horas e meia de Scott Snyder, mas talvez seja o fato que a cada ano eu gosto menos do diretor, aí tem a história que é basicamente algo que o seriado do Flash já fez com o final da segunda temporada e começo da terceira - porque basicamente Geoff Johns que é agora um bam bam bam na DC acha que sua história Flashpoint tem que ser enfiada goela abaixo em tudo que envolva o personagem).

Dito tudo isso, o que pensar sobre o filme de 2023...? 
Indiferente se com a direção de James Gunn, Ezra Miller será removido do papel ou se manterá como o Flash, ou mesmo se os rumos desse Flashpoint serão mínimos ou drásticos para toda a continuidade de filmes da DC, bem, é difícil separar tudo o que acontece extra filme para julgá-lo somente pelo que é, e a verdade é que o terceiro ato é espetacular enquanto o restante do filme tem alguns momentos interessantes aqui e acolá (nada de extraordinário, mas também não acaba como o primeiro Vingadores com dois atos que são completamente 'puláveis' para se chegar à conclusão) mas leva um tempo para engrenar, e, ao contrário de filmes melhores que fazem isso, não parece exatamente merecido.
É empolgante, sem sombra de dúvidas é um filme muito bom (não excelente, verdade seja dita, ele tem sua não pequena lista de defeitos por si só) mas toda a bagagem negativa compromete e prejudica com toda a certeza o material.

Talvez daqui alguns anos quando a poeira baixar em toda a repercussão negativa de Ezra Miller, e toda a bobagem que foi o Snyderverso parecer somente um sonho febril acabemos recuperando esse filme e olhando para ele com olhos melhores (mesmo se esse filme em questão for mais pra medíocre do que excelente e de fato memorável - mas, verdade seja dita, diversos filmes medíocres, com um certo filme veloz que lançou seu décimo filme furioso recentemente, acabam encontrando seu público cativo). O que é uma pena no geral, pois existe bastante potencial ao filme e muito do que se vê nas telas realmente vale a pena se ver nas telas grandes de cinema.

Mas no fim das contas, são dois filmes medíocres e divertidos que não vão reinventar a roda.

2 de março de 2023

{Resenhas de Oscar} Não é o que não pode ser ao mesmo tempo e em qualquer lugar... Hein?

Sim, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo é um filme visualmente impressionante e com muitas cenas bem construídas. Só que é um filme sobre multiverso que é basicamente a declaração clara e rompante de falência intelectual. "Ei, não temos muitas ideias e queremos jogar o máximo de referências marotas a outras franquias - sem fazer um novo Space Jam ou Vingadores... O que acha? Multiver$o!". E, ei, a atuação é ótima, a direção é fantástica e tem muitos positivos, mas eu realmente tenho dificuldades com todo esse papo recente e fascínio da cultura popular com realidades alternativas e probabilísticas.

Principalmente porque, e isso é importante, isso é tendência moderna porque vivemos no mundo da pós-verdade, e, se não existe uma única verdade (e fatos), portanto existem variáveis e ramificações não exploradas que, bem, são igualmente válidas.  A indústria visando sempre mais e potencial lucro vê na condição em que, ei, todo ponto de vista é válido e igualmente aceitável como uma condição para atrair tanto o maluco evancrente de direita que acha que tomar vacina te transforma em jacaré quanto a pessoa minimamente inteligente que sabe que não e talvez até a pessoa realmente inteligente - mas essa eu já tenho minhas dúvidas de que ainda se interesse no que é produzido pela indústria cultural como um todo e busque, no geral, material de nicho e obras além dos eixos mais comuns.

Então, resumindo, a ideia de que todas essas visões antagônicas de mundo possam compartilhar uma perspectiva comum (também chamada de verdade) é o que dá vazão ao fenômeno de tantas obras recentes explorando o tema de condições do multiverso. Isso e a declaração clara e rompante de falência intelectual porque afinal de contas é basicamente jogar pra cima e aceitar tudo e qualquer opção como válida numa obra de ficção sem restrição qualquer. Robôs e feitiçaria? Claro!

Mas, parece que eu não estou falando muito do filme em si e somente do que eu não gosto da ideia em geral...? E, bem, é. Porque nem tem muito a se falar do filme.

Não foge muito de filmes de humor antigos que tinham várias esquetes vagamente ligadas por sequências comuns, como A história do Mundo Parte 1 ou Monty Python e o Sentido da Vida, só que aqui, bem, sem a necessidade de ligação entre as esquetes. Passa uma transição e parte de um mundo para outro e vida que segue, efeitos especiais, algum coadjuvante e mais uma transição até o final do filme. Droga, não foge nem da fórmula dos filmes (e seriados) ruins de super heróis... Um vilão genérico que incorpora o tema central do filme surge para perseguir nosso herói incauto que está preso em um mundo que não construiu.

Vale pela construção visual, vale pela atuação e, droga, pela imaginação do material. Mas fingir que não é algo idiota sobre o multiverso como estrutura de empresas gigantescas para incorporarem cada vez mais da produção intelectual em uma única massa disforme e sem personalidade... Tipo a Disney.


PS: E, sim, eu sei que nos quadrinhos existem estruturas de Multiverso (inclusive uma série escrita pelo Grant Morrison com esse nome - e que eu mesmo elogiei bastante) mas existe uma diferença bem grande entre a noção de multiverso dos quadrinhos e do que vemos atualmente na cultura popular.

Nos quadrinhos, a ideia é de encapsular as diversas versões de personagens, seus diversos autores/artistas e seus estilos (e diversas condições que hoje soam anacrônicas e bobas como as muitas histórias do Capitão Marvel/Shazam com um tigre falante) como parte de uma construção única, mais como um mosaico e colcha de retalhos que outra coisa, como quando o Grant Morrison em uma edição de Multiverso refaz Watchmen com os personagens da editora Charlton Comics (uma editora que faliu e foi comprada/incorporada pela DC e cujos personagens serviram de inspiração para aqueles de Watchmen). São facetas da mesma narrativa, dos mesmos personagens que foram mudando com o passar de décadas e que compõem essa tapeçaria rica e complexa, e não somente o teste de limiares do infringimento de direito autoral para mencionar propriedade intelectual famosa de outra pessoa.

20 de outubro de 2022

{Resenhas de Quinta} O Bom, o Michael e o Feio - edição de Halloween

Em 1978 John Carpenter lançou um dos filmes mais importantes do gênero de filmes de terror slasher com psicopatas assassinos atacando subúrbios, e chamou a atenção (de estúdios principalmente pelo alto retorno em relação aos custos), mas mais que isso formou toda uma geração de fãs.

A ideia do filme, na época, era bem diferente do que acabou se tornando com sequências sem fim e o vilão ressurgindo de novo e de novo (mesmo depois da morte), tanto que o segundo filme da série encerrava a história de Michal Myers (yeah, baby) e o terceiro filme trazia algo completamente diferente - e foi um fracasso retumbante, então trouxeram o psicopata de novo (e de novo).

Tentaram refazer o filme algumas vezes e reaproximá-lo do cenário mais moderno e recente (fosse com H20 ou a versão de Rob Zombie) até que em 2018 Halloween foi lançado como uma continuação do filme de 1978 focando nos (muitos) traumas da sobrevivente dos eventos do filme original, Laurie (interpretada por Jamie Lee Curtis) que passou 40 anos com medo, que o bicho-papão pudesse voltar, e, bem, ele volta (o que nem de longe é a parte interessante do filme). Esse filme de 2018 é sobre a Laurie superando seu trama e vencendo finalmente o fantasma de Myers, exorcizando até numa pira nórdica todo o mal do psicopata ao final do filme...

E aí nós temos mais duas partes para continuar a história. Myers sobrevive ao final de Halloween (de 2018) e inicia uma nova e sangrenta empreitada contra a população de Haddonfield para basicamente matar todo mundo (meio que até literalmente), e, diferente do filme de 2018, em Halloween Kills o psicopata é realmente uma força sobrenatural imparável e incontestável. Ele é capaz de derrotar os 10 faixas pretas que o Ip Man enfrentava com um braço nas costas (droga, ele provavelmente enfrentaria 10 Batmen sozinho com um braço nas costas), no que todo o potencial do primeiro filme se perde, assim como o foco e a perspectiva.

Mayers não é mais um psicopata, Laurie não é mais uma sobrevivente traumatizada - agora para competir com o monstro sobrenatural ela vira o Liam Neeson de saias que não deve nada para qualquer herói anabolizado dos anos 1980. Não existe mais tensão, e francamente, isso pode ser mais opinião minha que qualquer outra coisa, mas acaba muito mais como Tom e Jerry causando caos e confusão sem notar a destruição que deixam pelo caminho.

O que mais dizer? Assista os dois primeiros (Halloween de 1978 e Halloween 2 de 1981) pule todos os outros até o filme de 2018 e depois ignore a série fingindo que ela terminou exatamente na cena final daquele filme.

Ou sei lá, se você é do tipo que assiste a Lobisomem pela noite da Disney e acha aquilo legal (sabe, um filme de 2022 com orçamento da Disney mas que tem efeitos especiais piores que um filme de 1981), talvez você vá gostar de Halloween Kills e Halloween Ends. A má notícia é que talvez você não goste de filmes de terror...

14 de julho de 2022

{Resenhas de quinta} Três pelo preço de um - The Boys 3ª Temporada, Stranger Things pt 2 e Morbius

The Boys: Eu não entendo o pessoal que gosta da série (mas até aí é aquele ciclo vicioso). Violência gratuita, peitinhos e muitos palavrões. Junte a isso a super-heróis e você tem um combo explosivo.

Pra mim parece difícil apreciar essa noção de 'maturidade' (através de vulgaridade e nudez) quando a série em si não tem nada a mais que isso - e francamente nenhum comentário relevante ou interessante a dizer além de "Ei, super-heróis em um mundo real seriam escrotos, há, há" (Watchmen foi publicado mais de trinta anos atrás - era muitíssimo melhor escrita - e dizia basicamente isso além de muitas outras coisas). Quer dizer, a temporada anterior terminou com a vilã nazista sendo desmascarada e derrotada, e essa inicia (além de continuar esse ponto) com o presidente da Vought deixando bem claro que essa gigante da indústria farmacêutica não deveria trabalhar com super heróis e sim com fármacos (Não diga, Sherlock). E nada disso segue para qualquer ponto novo ou interessante (além do fato que eles realmente não conseguem contextualizar a porcaria da ideia de forma coerente).

Além de cenas grotescas com supersurubas e um sujeito transando com um polvo ou Seth Rogen assistindo pornografia, a série é bastante vazia, inclusive em suas piadas. Tá, o vídeo de Imagine foi ridículo durante a pandemia, não foi, mas e aí? Nada, né? Não tem um comentário ou uma piada. A piada É fazer uma versão (quase idêntica) do vídeo de Imagine, mas aqui é uma paródia, entendeu? Igual as críticas à Marvel (depois que todo mundo já criticou e que soam bastante hipócritas com Karl Urban que fez parte de filme da Marvel, né?), entendeu?

Quer dizer, não é exatamente a coisa mais sútil do mundo... Acho que todo mundo já tinha sacado isso três temporadas atrás, mas, bem, e qual é o ponto disso tudo? Capitão Pátria é um fascista simpatizante de nazistas e o que isso efetivamente diz sobre o estado atual dos Estados Unidos ou o que a série quer dizer sobre isso categoricamente...? Além das piadas fáceis e das cenas grotescas, o material não parece efetivamente (querer) se decidir ou posicionar em qualquer sentido, ficando na tangente e fingindo que isso é parte do material ou de seu comentário (só que não é porque, de novo, eles não tem nenhum comentário a fazer).

"Ei, mas efetivamente colocamos na visão do Capitão Pátria esse sujeito à Trump porque é nossa crítica ao...", só que não, né? O Capitão Pátria foi criado em 2006 quando a série iniciou pelo selo Wildstorm ainda. As críticas eram outras - e seguiam para outro caminho - que ainda que funcionem e se adaptem nesse contexto, não são exatamente o ponto. Ennis (e a série) mantem a condição de que pessoas com super poderes em um contexto realista seriam bem mais escrotas que o que já vemos no mundo real (sabe, com bilionários destruindo pontes milenares para que seus iates passem?). Então o comentário sobre esse Capitão Pátria caipira e republicano não acrescenta ou muda a condição de que super heróis são escrotos e num contexto de mundo real seriam ainda mais escrotos.

Pelo contrário, só se perde uma vez que a ideia de porque diabos uma empresa (farmacêutica ou de qualquer outro ramo) investiria tanto tempo, energia e recursos para que esse universo fosse dessa maneira, e, essa é a história maior e relevante - mas desaparece porque os roteiristas não se dão ao trabalho de desenvolvê-la - não se o Capitão Pátria é um monstro maníaco e assassino ou o Profundo transa com peixes (piada que o Pacificador fez bem melhor sem partir para algo gráfico).

Stranger Things 4 Parte 2: Não muda muito do que eu disse na primeira parte da temporada - além de duas coisas.

1) Não entendo porque dividiram em duas partes e não vejo a lógica nisso de jeito algum (melhor que lançassem semanalmente ou algo do tipo do ponto de vista de manter os fãs engajados e voltando para o serviço de streaming para assistir os novos episódios), ainda mais quando o final aponta tão claramente que terá mais uma (e provavelmente mais) temporada(s). Dividir em 7 e depois 2 episódios parece arbitrário, e francamente, não faz com que flua ou funcione melhor.

2) Eu simplesmente não consigo acreditar que uma parte chave para a conclusão da temporada é um grupo de adolescentes entrando numa loja de armas (e comprando várias delas), incluindo outros adolescentes que estão ali só passeando (porque nada melhor que adolescentes comprando armas, né?). Ainda mais depois do recente tiroteio em Uvalde (que se deu um dia depois do lançamento da 1ª parte dessa temporada) e mais um agora no último 04/07... E se considerando o histórico horroroso de crimes de natureza similar na 'Múrica, eu tenho que dizer que me incomodou - ainda mais quando básica e essencialmente a série depende da Menina-Careca-Maravilha fazendo gestos e vencendo os monstros com seus poderes mentais torna basicamente as armas compradas pelos adolescentes totalmente inúteis no contexto final.

Morbius: Repita comigo: Jared Leto é um péssimo ator.

Por algum motivo, mais precisamente no início da carreira, Jared Leto ainda buscava papeis mais sérios e com diretores competentes era possível domar o lado canastrão e suas tentativas exageradas com trejeitos e tentativas fúteis para fingir que ele de fato é capaz de encarnar o personagem e transmitir qualquer senso de emoção. E seja com o Coringa, como Niander Wallace (de Blade Runner) e agora como Morbius, é quase impossível ver qualquer semblante de nuance ou atuação.

É sempre o mesmo modo ridículo e exagerado para compensar pela falta de talento do ator. Aí você soma com um roteiro ruim para adaptar um vilão de terceira do Homem-Aranha para os cinemas e você já sabe o que se dá, né? Sei que o filme em questão não ajuda (qualé, você já sabia que seria mais um filme da Sony tentando ordenhar a franquia do Homem-Aranha ao máximo quando você viu que depois de Morbius sairá Kraven, o Caçador e El Muerto...?), mas pô, é pedir demais que eles se esforcem ao menos um pouquinho?

Silver Sable e a Gata Negra estão logo ali, não é como se eles precisassem desses vilões de quinta categoria e nada interessantes, e feitos ainda menos interessantes (e repetitivos) com poderes pouco imaginativos enquanto enfrentam basicamente espelhos de si mesmos. Venom enfrenta um outro simbionte alienígena nos dois filmes, assim como Morbius enfrenta outro vampiro com seus exatos mesmos poderes.

Pra mim o mais difícil mesmo vem das tentativas de cenas extras criando um futuro para a franquia - com o Abutre querendo formar uma parceria com Morbius para combater o Homem-Aranha...

Sinceramente, passe longe disso aqui.

19 de maio de 2022

{Resenhas de Quinta} Animais Fantásticos e o Multiverso da Loucura (talvez tenha spoilers?)

Enquanto existe algo de comum em Animais Fantásticos Os Segredos de Dumbledore e Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura - até porque no geral ambos são filmes bem fracos e ruins - é importante destacar que existem pontos que os diferenciam, no caso, em favor do filme da Disney/Marvel.

A fórmula já está batida e já é bastante conhecida: Vilão A tem um plano idiota B e precisa derrotar o herói C para conseguir isso - mas, obviamente, o vilão A será impedido pelo herói C por alguma idiotice convoluta D, e, por fim esperar os milhões para o bolso do estúdio E - k-$hing! 

A favor do filme da Marvel, obviamente, é Sam Raimi. Mesmo com um roteiro idiota de algum refugo de Rick e Morty para tentar contextualizar o "futuro" do Universo Marvel Cinematográfico (que segue sem qualquer rumo ou algo digno de nota em seu quinto filme da fase 4), mas também vale destacar a qualidade de Benedict Cumberbatch que raramente desaponta (mesmo que seu personagem seja ruim nos cinemas e a essa altura uma grande piada sem graça).

Tudo bem que isso é pouco no quanto a história se perde e escapa para todo lado ou direção - esse não é um filme de Sam Raimi contando uma história do Doutor Estranho, esse é o quase trigésimo filme da Marvel em 20 anos e ele precisa reforçar que agora existe um multiverso (com todos os socos na realidade - que, honestamente, são a ideia mais idiota que alguém já tentou executar desde que eu vi ideias idiotas em quadrinhos e não funcionaram em Crise Infinita ou o saco de pancadas favorito da Marvel, o Fanático - aproveitando para trazer os X-men e outras franquias que não faziam parte do MCU antes da Disney comprar a Fox - quase um Space-Jam 2) e enormes perigos que nele aguardam (bwa-ha-ha!). E esse é o problema da Marvel de seguir numa fórmula batida e não dar chance ou vazão para o excelente talento que eles conseguem reunir somente para garantir algum prazo pré-estabelecido (e que por todos os motivos deveria ser ignorado contanto que um filme melhor fosse produzido).

Aconteceu com Homem Formiga demitindo Edgar Wright para entregar um filme clichê e sem graça, acontece com Doutor Estranho, e tudo isso chega a um ponto de pasteurização assustadora ao ponto que você pode assistir dois, cinco ou dez desses filmes da Marvel e dificilmente apontar quem dirigiu o material de tão parecidos que são uns com os outros (seja esteticamente ou estruturalmente ou em qualquer aspecto que o talento de um diretor conseguiria transformar a experiência).

Do resto os problemas são equivalentes ao filme da Warner: Roteiro raso e que faz pouco sentido (mas que se você acompanhar todos os 390 apêndices e materiais complementares de outros filmes, livros, tweets e biscoitos da sorte da rede patrocinadora do filme, talvez faça 0,5% mais de sentido), personagens nada ou pouco cativantes (mas, curiosamente, cada vez mais e mais deles - incluindo aqueles que surgem do nada para resolver a p0))@ toda) e uma constante e enlouquecedora diluição de qualquer coisa que passe por material em busca de alguns cifrões a mais.

No caso da Warner, ao meu ver, é pior pelo fato que a história toda até aqui (afinal, esse já é o terceiro desses filmes dos 'Animais Fantásticos') faz sentido ou é interessante. A trama deveria acompanhar algo como o Charles Darwin da magia que correu o mundo para descobrir e catalogar os ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM (sabe, o título do maldito primeiro filme e do livro que Harry Potter e companhia estudava em Hogwarts), mas tudo se dissipa e muda para abrigar enormes conspirações, vilões terríveis e uma gigantesca e épica narrativa em cinco (CINCO) filmes que francamente não são nem de longe assim tão interessantes... É aquela nota de rodapé do último filme/livro da série Harry Potter quando alguém citou Grindenwald e que ele combateu Dumbledore... Só que, como já sabemos a conclusão da história (né?) não existe qualquer impacto, aposta ou surpresa.

Isso é um universo ficcional tentando contextualizar seu passado (recente) onde personagens agem de maneira que nós já sabemos exatamente como vai terminar - Dumbledore vence, Grindenwald perde - e é bastante estúpida a forma como escolheram contextualizar ou contar essa história (até porque, como sugere o primeiro filme, não parece que fosse o caso ou plano desde o começo). Enquanto a rota de Better Call Saul (e que, honestamente, até hoje é o exemplo perfeito de como se fazer uma prequela direito) não seria exatamente possível para a franquia de Harry Potter (dos dois atores que viveram Dumbledore, Richard Harris morreu em 2002 e Michael Gambon já passou dos 80, ao passo que outros tantos atores da franquia também já morreram como Alan Rickman), talvez a série poderia contextualizar "toda" essa história (que sairia em cinco CINCO filmes) em um único filme mais longo... Ou partir em alguma direção completamente diferente com algo que denotasse um intervalo maior de tempo entre os filmes - sei lá, iniciando nos 1300 em que 'trouxas' e magos viviam em harmonia e cooperação até a peste negra eliminando os dois grupos ou algo do tipo, nem sei se isso faz parte da mitologia da série.

Talvez em algum lugar do multiverso exista uma versão boa de um - quiçá ambos - desses filmes, mas nesse, sinceramente, não vale o preço do ingresso.

Nem da assinatura dos serviços de streaming para onde irão daqui alguns meses - pelo menos não somente pra assistir a um destes dois.

Nesse dilema indigesto, vale mais mesmo é comprar pipoca e ficar com seu doguinho assistindo à boa e velha televisão de cachorro.

28 de abril de 2022

{Revenhas de Quinta} Senom: Tempo de zzz

Nota: 2 pelo preço de 1
Venom é um personagem que pra mim é aquele testamento do que existe de errado com a indústria de quadrinhos (e nossa sociedade). "Pô, Tiago, isso é um exagero, você precisa ver que o personagem é um fanfarrão e...", vamos parar por aqui, por favor?

O personagem surge nos quadrinhos em 1988 (mesmo ano do Homem Animal de Grant Morrison e Hellblazer do Jamie Delano, só para efeito de comparação) que é ali um ponto do zeitgeist dos quadrinhos norte-americanos, com Alan Moore publicando clássico após clássico, Grant Morrison e Neil Gaiman surgindo, assim como grandes nomes como Chris Claremont, Frank Miller e John Byrne fazendo história na Marvel Comics (com os X-men, Demolidor e Quarteto Fantástico respectivamente). Só que enquanto todo esse talento fervilhava e despontava, também surgiam as ervas daninhas para miná-lo e ir corroendo, porque afinal de contas, nós não merecemos coisas boas. A ideia era de fazer um 'Homem Aranha violento' (entende o 'Protetor Letal'?).

A Marvel apostou bastante nessas ervas daninhas e Jim Lee, Todd Macfarlane e Rob Liefield são exemplos tremendos disso tudo. Todd dominava as páginas do Homem Aranha com um estilo mais dinâmico (ainda que fosse o artista Erik Larsen o verdadeiro talento da fase, mas, de novo não é o foco aqui) e o artista buscava sempre que possível através do vilão Venom uma forma de mostrar algo de mais intenso para a vida do cabeça-de-teia. E enquanto as histórias eram essencialmente estúpidas e idiotas - afinal, toda a trama já fora conduzida até o momento em que o simbionte e o Homem Aranha se separam - a fórmula continuaria por anos e anos e renderia histórias mais e mais idiotas.

Histórias idiotas como "e se além de um simbionte preto nós tivéssemos também um vermelho"? "E um amarelo?" "E um planeta cheio de simbiontes incluindo toda uma religião, deuses e tudo mais?" Não é por nada que Neil Gaiman escreve hoje somente livros e Alan Moore sente um enorme desprezo pela indústria de quadrinhos norte-americana.

O personagem perdeu espaço e acabou virando meio que mais um vilão ou personagem secundário pouco utilizado da galeria de personagens do Homem Aranha, aparecendo de vez em quando em alguma história da mesma forma que o Rino ou outro vilão idiota. E a vida segue.

Aí por algum milagre que acontece uma vez a cada lua cheia e os astros se alinharam e filmes de super-heróis se tornaram populares e, bem, os estúdios começaram a reservar todo e qualquer personagem que algum dia fez sucesso (ou não, afinal, quem diabos é El Muerto? Sério, eu não faço a menor ideia). No entanto, cadê meu filme do Homem Animal?

Com o sucesso cinematográfico de Deadpool, pareceu tão bom momento quanto outro que a Sony tentasse trazer às telas o 'protetor letal'. É claro que Tom Hardy não é Ryan Reynolds, mas é aquele tipo de óbvio que precisa ser dito: Tom Hardy jamais, em um milhão de anos e por mais que queira ou se esforce conseguiria ser Ryan Reynolds.

Hardy é o sujeito de filmes sérios e densos, de personagens complexos e heróis taciturnos. Hardy está mais para um Eastwood moderno. Reynolds é o sujeito de comédias românticas com a Sandra Bullock, não se levando à sério mesmo em filmes sérios (se é que ele fez algum até o momento) e talvez seria um Tom Hanks antes de Filadélfia, inclusive com o carisma e magnetismo instantâneos. Então é óbvio um dos dois teria maior facilidade com a ideia de um personagem com propósito e função mais cômica e que não se levaria tão a sério. Acaba meio que perdendo o ponto da coisa - é para ser ridículo, mas não faz sentido se a pessoa que atua nisso parece levar à sério demais a coisa toda.

Ajuda, é claro, que a estrutura do mercenário tagarela Deadpool é de romper a quarta margem e buscar uma estrutura menos linear desde que faça sentido para a piada (e isso inclui colocar um dos atores mais conhecidos do mundo como o Homem Invisível e outro com tanta maquiagem e prostéticos para fazer uma cena sobre o devido uso de papel higiênico) enquanto, bem, o outro personagem é Venom (o traje alienígena do Homem Aranha que se viu ressentido e se juntou com outra pessoa querendo vingança).

Então o primeiro (grande) problema da franquia se faz em tentar criar Venom sem qualquer ligação com o Homem Aranha, e, acabamos com uma narrativa genérica e sem muita imaginação mas que essencialmente é a origem do personagem sem o Homem Aranha. Alienígena melequento na terra se funde a um jornalista em desgraça. Onde expandir a partir daqui? Oras, com o grande vilão de Venom, Carnificina, é claro!

E no que isso muda para o filme...? Bem, no primeiro nós tivemos dois monstros de geléca escura gigantescos bastante equivalentes brigando sem que ficasse exatamente claro porque ou o que qualquer um deles ganharia no confronto, enquanto no segundo nós tivemos dois monstros de geléca escura gigantescos bastante equivalentes brigando sem que ficasse exatamente claro porque ou o que qualquer um deles ganharia no confronto. Ah, só quem um desses monstros é de geléca vermelho escura dessa vez e ele era um assassino serial que tudo o que queria no mundo era um amigo (que dó, né?). Então completamente diferente!

28 de janeiro de 2022

{Resenhas - de sexta} 007 COM tempo para Spoilers

Na resenha sem spoilers eu mais falei dos outros filmes do que de Sem Tempo Para Morrer, curiosamente, mas é difícil falar do filme sem comentar que, (bem, a partir daqui como o título sugere e deixou bem claro TEREMOS SPOILERS) Bond não é mais 007 e inclusive morre no final.

O fato de Bond não ser 007 é mais aquele meta comentário e, bem, aquela bobagem para blindar o filme de críticas, como aquela versão feminina dos Caça Fantasmas tentou fazer. "Ei, se você critica por isso você é misógino", ainda que nesse caso em particular, não mude exatamente coisa alguma.

Além da nova 007 repetindo diversas vezes sobre como ela é a nova 007 (sem que para a narrativa isso seja de fato importante, e, efetivamente no final das contas seja o velho 007 que salve o dia), assim como uma miríade de novas agentes femininas para mostrar que são novos tempos e o jogo de espiões não é mais um clube do bolinha como nos antigos filmes. Algo como 'Esse não é mais o Bond de seus pais', mesmo que traga os aparatos idiotas e planos mirabolantes que fazem os do Cebolinha parecerem de fato infalíveis.

Porque, como na versão sem spoilers, esse é o constante conflito da franquia: Seguir no mundo camp e irônico ou construir uma narrativa legítima, humana e interessante.

Então o filme navega nessa tentativa de ser dramático enquanto alude a filmes que absolutamente nada tem de sérios, porque afinal de contas, esse é o marco do 25º na longeva franquia.

Aí você pergunta: Mas uma 007 muda alguma coisa na narrativa e no filme além de irritar os fãs velhões e incels que não se confirmam com a ideia revolucionária que mulheres podem trabalhar?

Francamente, vendo o filme parece muito mais um comentário PARA a audiência - e até para irritar os incels e velhões que se ofenderiam com o "absurdo" da ideia de um 007 que não seja Bond (e homem). Mas francamente... É assim tão absurdo?

Uma hora Bond se aposenta, e, antes de Bond ser um agente, a numeração deve(ria) pertencer a alguém, certo? Então, do que importa QUEM é o(a) 007...?

Ainda mais quando ao final de Spectre de maneira tão categórica e clara Bond resolve aposentar e seguir com sua vida como um homem de família que se casa e não quer mais saber dessa vida loka de aventuras, esportes radicais e a conquista da semana...?

Droga, esse era um ponto que mesmo em Skyfall já vinha se desenvolvendo e firmando, depois da cena inicial em que Bond meio que se aposenta (forçosamente) - e volta apesar de claramente não preparado e capacitado para executar o trabalho.

E qual a conclusão desse mundo em que Bond está velho, cansado e talvez não tenha mais um papel no mundo (que é a constante da série, também explícita em Skyfall e Spectre)...? Que talvez Bond tenha que morrer para dar fim a essa era de espionagem do século XX (tanto do primeiro romance lançado em 1952 quanto do filme lançado em 1962)...

Algo que basicamente o filme faz. Bond morre ao final do filme e os créditos dizem desavergonhadamente que Bond retornará. Claro que eles sabem que uma franquia como essa (que talvez seja a única coisa que a, outrora gigante, MGM tenha de significativo no momento) não ficaria morta por muito tempo de toda forma, mas o filme faz isso de propósito e de maneira explícita porque existe uma mensagem maior, que é a de que o espião inglês, assim como filmes de espionagem em geral, para continuarem relevantes no século XXI que já começou há umas boas duas décadas, precisam deixar pra trás toda essa bagagem e se reinventar.

Nós já temos aparelhinhos espiões super legais que podemos usar (e comprar na deep web ou nem tão deep na Amazon, Alibaba e Shopee), então pra que essas invenções mirabolantes do Quartermaster (ou Q, para não confundir com o outro divulgador de teorias de conspiração e que acredita que John Kennedy ressurgirá dos recônditos sombrios dos infernos para fazer a américa grande de novo).

O mundo já tem tanta e tamanha informação disponível e jogada na web, então ainda existe espaço para o espião com uma arma na mão e um sorriso nos lábios para seduzir toda e qualquer rabo de saia (com uma longa lista de despesas para o cartão corporativo do governo)?

Essas são perguntas que a franquia veio, de novo e de novo se perguntando, e, que com personagens análogas ao espião - com algumas espiãs, todas quais com seus estilos diferentes, e todas mulheres para solapar a mensagem de que "SIM O MALDITO MUNDO MUDOU, CONFORME-SE!", mas eu estou apenas parafraseando.

Curiosamente, até o momento eu não mencionei o vilão do novo filme, né? O vencedor do Oscar, ator da premiada série Mr Robot Rami Malek, né? Sim, ele é uma droga de vilão e tão esquecível quanto um vilão da franquia pode ser. Não é exatamente novidade (fiquei surpreso ao lembrar que Andrew Scott também foi vilão de Bond em Spectre), mas não ajuda muito que um filme de quase 3 horas tenha um vilão genérico e esquecível.

Então, basicamente o filme é bastante medíocre, poderia ter, fácil, uma hora e meia a menos e ainda contar a mesma história com o mesmo impacto. Talvez até funcionaria melhor.

Nota: 6,5/10.