Se isso parecer com um elogio passivo agressivo, me desculpe, porque não é um elogio e nem é a minha intenção.
Eu acho que talvez Brandon Sanderson seja um ótimo escritor, ou, ao menos um escritor minimamente decente - haja visto o quanto já produziu e vendeu, e, o fato que conseguiu angariar tantos fãs em tão pouco tempo - mas com toda a certeza não é através do primeiro livro da 'trilogia original' (seja lá o que isso signifique) de Mistborn que esses predicados serão reconhecidos.
Ao que eu vejo, existe um elemento muito forte de marketing que supera em diversas vezes a qualidade do material, e, de tal maneira inclusive uma galera que tenta divulgar o livro se empolga mais pelo marketing nele imbuído que efetivamente pelo material.
Não que o livro seja ruim, longe disso, mas não há nada particularmente interessante aqui também.
Os personagens não são originais, a história não é original, a forma de contar a história não é original... É tudo um grande requentado das sobras de ontem que vão formando um gigantesco monstro de Frankenstein literário enquanto Sanderson parece mais alguém buscando agradar todos os públicos como um marqueteiro ou consultor de Hollywood apelando para o público médio.
Com isso a obra opera em partes que funcionam para todos os públicos ao mesmo tempo que apelam para noções universais e tão conhecidas e reconhecidas da cultura popular (como um império maligno com um líder terrível com poderes incríveis - sabe, igual a Plasma Sword! - enquanto longas cenas de baile e intrigas entre a nobreza claramente parecem aludir ao público fã de Bridgerton e não obstante o herói tal qual Errol Flyn pulando por telhados e treinando um aprendiz no combate ao crime e super poderes não se parece com nada que eu conheça)...
Então é todo um resto de ontem requentado e que tenta apelar para todos os públicos (que não é muito diferente do que Hollywood faz de novo e de novo e de novo desde que Hollywood é Hollywood), e por mais que nada seja original, ao menos nada é particularmente ruim.
São arquétipos bastante conhecidos, são estruturas bastante familiares, mas é escrito bem o suficiente para funcionar e, Sanderson consegue criar personagens interessantes - como o líder rebelde Kelsier - e situações interessantes, com a estrutura de super poderes do livro e toda a dinâmica do regime opressor que quer bombardear o Irã, digo, que quer controlar a vida de todas as pessoas do reino.
Só que eu disse que não é minha intenção fazer qualque tipo de comentário elogioso, então mesmo que o livro tenha alguns predicados, ele joga tudo isso fora em seu ato final, e, não quero estabelecer spoilers para alguém que pretenda ler o livro então a versão sem spoiler é a seguinte:
Minha reação foi de embasbacamento com esse final.
Eu genuinamente não consigo imaginar um livro que eu li, não apenas recentemente, que de maneira tão súbita se resolva e conclua, e, pra mim, se conclua de maneira tão estúpida, excluindo é claro um material do Mark Millar ou algum livro muito ruim como, sei lá, a fase Richard Bachman do Stephen King, mas nenhum desses exemplos são de material que uma única pessoa tenha em qualquer momento dito que são bons.
O livro se divide em 5 partes (mais um epílogo), e, basicamente nas primeiras quartas partes desse material os rebeldes preparam seus planos e, tal qual Rocky Balboa apanham taxativamente round após round, após round, após round, e quando não seria possível que o juiz mantivesse a luta continuando (mesmo num filme do Rocky Balboa), você entra na última parte do livro e numa sequência de Deus Ex Machina dos infernos (pelas minhas contas foram uns três consecutivos numas trinta ou quarenta páginas), e tudo termina bem.
Perdão se é um spoiler leve, mas até essas reviravoltas da última parte, não tinha nada que apontaria que o livro terminaria com os heróis vencendo, na verdade os capítulos finais parecem inclusive manter o tom e a estrutura que vinha até ali - e os heróis tomam mais uma baita surra até que se inicia uma sucessão de sorte e eles ganham.
E para explicar melhor isso, eu não tenho como fazer sem spoilers, então fica a o aviso que daqui pra frente eu falarei de boa parte dos spoilers dos capítulos finais do livro, siga por sua conta e risco.
OK? Ok.
No final da quarta parte do livro, o Obi-Wan Kenobi/Batman morre assassinado pelo vilãozão e isso funcionaria muito bem como o fim do livro na minha humilde opinião. Um final devastador, os planos fracassaram e não resta muita esperança - ainda que, e aí tem uma sacada interessante, a morte do protagonista inspire uma revolução na população até ali mais passiva, e isso crie uma nova religião (ou seja, cabia um epílogo ao menos pra isso, mas deixando de lado o restante do bando do Kelsier).
Só que não é o que acontece, e a Robin invade a fortaleza do vilão, é capturada, espancada, humilhada e presa (onde ouve a história de sua origem secreta como filha de uma figura relevante no império do mal) e com a Robin presa e derrotada o negócio começa a virar - pois o Alfred aparece e tira ela da cadeia, mas não só isso porque o interesse romântico chega com um exército e inicia uma insurreição e ao mesmo tempo um personagem dado como morto reaparece e derrota todos os vilões extremamente poderosos durante o restante do livro e o vilãozão poderoso é derrotado com relativa facilidade...
E tudo isso num intervalo de dois ou menos capítulos, terminando com um tom de clara vitória para os rebeldes que tomaram um 7 a 1 a cada dez páginas.
Pô, é muito ruim esse final do livro e não tem como justificar uma coisa dessas!
Inclusive porque existia um tal livro com as memórias do vilãozão e ele não apresenta nada de novo ou relevante (ou que poderia ajudar a derrotá-lo) - afinal esse personagem dizimou rebeliões por mil anos e sobrevive a ataques diretos a si (inclusive tem um momento em que ele é atingido por lanças e segue andando como se fosse uma farpinha de nada)... E assim, nem o vilão é desenvolvido direito e nem a forma como ele acaba derrotado, ele tipo escorrega numa casca de banana porque precisavam terminar o livro e já tinha um baile beneficiente agendando em sequência então não dá pra enrolar muito mais.
Eu não consigo recomendar e não consigo entender como se tornou tão popular.



