Pesquisar este blog

6 de abril de 2026

{Filosofia de Segunda} Somos os vilões...?

 

Se a galera de direita tivesse alguma consciência ou inteligência, será que eles chegariam a essa mesma conclusão?

5 de abril de 2026

{Revisitando Clássicos} Y: O Último Homem - Brian K Vaughan e Pia Guerra 2002-2008

A série de 2002 de Brian K Vaughan Y: O Último Homem conta a história de Yorick Brown e seu macaco (sim) Ampersand que sobrevivem a um evento cataclísmico que elimina todos os seres com cromossomos masculinos do planeta. Esse cenário que, num primeiro momento poderia funcionar como uma paródio pornô e fantasia adolescente (certo? Ser o último homem do planeta), rapidamente degringola para algo bem mais apocaliptico e problemático.

Vaughan apresenta aos leitores do selo Vertigo do início do século XXI que ele claramente sabia pelas análises de mercado que seriam adolescentes ou jovens adultos em sua maioria homens, e, pelo fato que estavam lendo uma série de quadrinhos, gente mais introspectiva e que no geral era submetida a um tipo de material e conteúdo, bem, em que mulheres eram na melhor das hipóteses coadjuvantes de luxo e ou objetos para permear sonhos molhados (como a Psylocke do Jim Lee constantemente em trajes sumários ou, bem, a Vampira da Terra Selvagem).

Esses jovens adultos - não diferente dos jovens adultos de hoje - dificilmente compreendia a perspectiva e realidade feminina, e, através do substituto do público na forma de Yorick, Vaughan vai apresentando os cenários e problemas das mulheres na América e no mundo, certo? O personagem se depara com um grupo de presidiárias e ali surgem estatísticas sobre como mulheres são condenadas a sentenças maiores que homens pelos mesmos crimes, enquanto em outro momento uma freira católica busca encontrar um homem ainda vivo para permitir alterações na Igreja (Católica, de novo) para que assim mudem as regras na escolha de um papa (ou mais especificamente nesse caso, uma papisa)...

O mesmo vale para política - com primeiras damas querendo rasgar a constituição em nome de sua manutenção no poder - e outros aspectos da vida cotidiana - com super modelos tendo de trabalhar como lixeiras por exemplo. Tudo isso enquanto lidando com o luto (pela morte de seus maridos, filhos, irmãos e todos os homens que conheciam) além de uma gigantesca bomba relógio ambiental (considerando que animais bastante importantes para a subsistência e manutenção do ecossistema desapareceriam, com sorte, em questão de semanas - e o mesmo em se tratando de gado e alimentos).

Mas, e desculpe por dizer ou reforçar isso, a história de um sujeito que sozinho sobrevive sozinho a um evento cataclismíco rodeado por mulheres e que examina o papel das mulheres na sociedade não é uma série sobre o que é ser uma mulher. Essa é uma série sobre o que é ser um homem.

E eu sei que isso é extremamente narcisista e egocentríco, de que mesmo num mundo em que 99,999% da população é feminina, ainda assim o único homem restante continuaria sendo o ser mais importante da face da Terra, mas, a história é contada pela perspectiva de Yorick e seu grupo (a agente 355, a Doutora Alison Mann e o macaquinho Ampersand) e não de outras sobreviventes ou pessoas, cujas histórias são meros relatos ou narrativas tangenciais que cruzam seus caminhos.

Inclusive porque cada um destes personagens tem suas narrativas e objetivos próprios. Yorick quer encontrar sua ex-namorada (a quem ele propôs em casamento momentos antes do evento que exterminou 50% da vida no planeta), enquanto lida com desejos subconscientemente suicidas (da culpa de sobrevivente, mas não apenas ela).

A Doutora Mann se sente culpada e responsável pelo evento e busca reparar seu erro - o que motiva a toda uma busca ao redor do globo por um laboratório melhor assim como mais informações, enquanto a agente 355 lida com seu dilema de proteger e salvaguardar a vida dos outros enquanto abrindo mão de sua própria identidade. E Ampersand é um macaco capuchinho, não é como se você pudesse esperar mais sobre ele...

No entanto, e aí vem a grande sacada de Vaughan, Yorick e seu grupo personagens pequenos no contexto maior das coisas também. Yorick que é o nome de um minúsculo personagem de Shakespeare é alguém que vai migrar de lugar a lugar em busca de respostas enquanto encontrando mais perguntas, e, de maneira geral, mais dos problemas do velho mundo que ficou para trás. 

Conforme a série avança é que vemos o restante do mundo e o impacto mais geral da sinopse (supra), pelos olhos de Yorick e companhia, mas a premissa não muda e continua sobre um mundo que sobreviveu a uma crise sem precedentes e está a beira da extinção (e sim, era algo em voga na época tanto que The Walking Dead em 2003 assim como filmes e jogos sobre o assunto).

A diferença evidente é que, ao invés de zumbis ou a destruição do mundo de maneira mais abrangente, o que temos é uma extinção seletiva que traz toda uma série de complicações e problemas (muitos dos quais não são previstos), o que coloca a série com algo mais próximo de The Leftovers, mas com uma ênfase na ficção científica e os desdobramentos lógicos do cenário, enfocando no que acontece com o mundo - e o que as pessoas que sobraram precisam fazer para continuar em frente.

Tanto que é justamente por isso que logo no primeiro arco a doutora Mann (sim, conveniente que seu nome se pareça com 'Homem' em inglês), especialista em clonagem é a principal esperança para a sobrevivência e manutenção da humanidade, e é algo importante para a história considerando a, ainda recente primeira clonagem de uma ovelha, em 1996, mais até do que descobrir os motivos do incidente - ainda que todo mundo tenha suas teorias, e, conspirações e vão variando de atos divinos, vírus construídos em laboratório (com propósitos militares de derrotar a população chinesa) e mais uma série de outras teorias que vão pululando ao redor das sessenta edições, o que nunca é relevante ou mesmo importante, pois descobrir o causador do evento não vai revertê-lo.

E, honestamente, Brian Vaughan é um autor tão foda para criar personagens interessantes que chega a me irritar. Droga, ele vai cria uma série nova e todos os personagens parecem tridimensionais e pessoas que você encontraria numa rua qualquer - mesmo que sejam super-heróis que se tornam prefeitos de Nova Iorque ao impedir os atentados às Torres Gêmea, gente lutando numa guerra sem fim e tentando extrair o melhor de uma situação ruim ou o último sobrevivente de um apocalipse genético, e, sinceramente isso são só as séries autorais onde ele tem maior liberdade e qualidade para produzir algo no seu próprio tempo e ritmo.

Nisso mesmo que você ignore a história principal, somente as interações entre os personagens, somente os diálogos e ações já funcionam como uma aula na construção de cenas e cenários, e, Vaughan brilha a cada momento na série, criando personagens que, mesmo quando detestáveis e odientos funcionam perfeitamente no cenário e contexto.

 

Ressalvas e Problemas

No cenário atual, com gente cretina da direita tentando lacrar confundindo sexo e gênero, a ideia de um vírus mortal que mata todos os "homens" do mundo, e, é fácil enxergar que isso pode degringolar para mais de uma discussão problemática e que ignora tanto a premissa quanto, bem, o cenário de 2002 que era bem diferente do que vemos hoje. Droga, quanto tempo faz que um apresentador cretino quis falar sobre uma mulher trans na comissão das mulheres (que, lógico, quando só tinha homens presidindo e atuando nessa mesma comissão não havia problemas).

Quer dizer, Friends ainda estava no ar quando os primeiros volumes de Y: O Último Homem estavam começando sua publicação, e a extremamente popular série de televisão tem seus momentos mais constrangedores no retrato de pessoas trans (como o pai de Chandler), e, sinceramente, esse ainda é um retrato muito melhor que praticamente 90% do que vem antes (mesmo lembrando do mundo de Priscilla ou Para Wong Foo..., mas lembrando como Thomas Harris retratava o assassino Fada do Dente - no ganhador de Oscar de 1991 - e, será que eu tenho que falar da Praça é Nossa de novo?).

Mas isso eu acho que é um problema nosso em não ser capaz de separar a obra do contexto histórico atual, e puta merda, vamos ser honestos que é muita infantilidade olhar sob o contexto atual para qualquer coisa feita num outro cenário - e cobrar que esse material tenha os mesmos valores atuais. É uma noção utópica e ridícula que já fracassou quando falamos sobre os cigarros nos desenhos antigos (sim) ou do Monteiro Lobato ou de qualquer outra coisa. Mas sabe o que é pior? Os adversários políticos não só estão cagando para o assunto como mesmo quando isso já é visto como ponto pacífico continuam a tentar criar polêmica - vide um apresentador nojento e corrupto de direita tentando criar caso tão recente quanto 2026, ou o deputado que andava em jatinho de bandido fingindo que não há problema ou preconceito em considerar gente negra como bandida...

Sinceramente eu não vejo motivo para qualquer incômodo ou mal estar, considerando o que é a proposta da série de funcionar como de maneira a introduzir conceitos bem mais complexos para um público que está acostumado a uma mídia onde criaturas super poderosas resolvem todos os problemas do mundo com seus punhos - ou mesmo da cultura popular tradicional quando personagens LGBTQIAPN+ são representados no geral. 

E, insisto, o problema não é ou está na série em si mas no mundo real e a percepção de gente que insiste em confundir sexo e gênero para lacrar na internet...

Quer dizer, não é nem necessário a gente procurar exemplos na do livro que é vendido como grande exemplo de moralidade, sim, a Bíblia em que ocorre a morte generalizada de pessoas ditas ruins ou imorais (no dilúvio ou em Sodoma e Gomorra só pra ficar em exemplos bem conhecidos) mas que não traz exatamente uma contextualização de que as pessoas boas conseguiram se salvar ou foram avisadas para dar uma voltinha uns dias antes, não é mesmo?

"E então o anjo Galadriel surgiu nos céus e clamou para todas as pessoas boas de Gomorra para segui-lo" ou um capítulo de erratas em que Deus se apresenta a todos os inocentes mortos nesses eventos e diz 'Pô, foi mal... Tava doidão'.

A ficção não precisa de muito contexto, apenas da ideia, e, aqui a ideia é debater uma questão mais complexa sobre gênero de maneria acessível e, para um público bem menos familiarizado com essas ideias (em 2002) e ao contrário do que acontece com 100 Balas (da outra resenha), as possibilidade de histórias aqui são muito maiores, e, Vaughan busca isso - explorando como esse mundo se adapta e sobrevive nos mais diversos aspectos - e se tivesse mais dez, vinte ou quarenta capítulos poderia facilmente abordar um número muito maior de questões e propostas.

Vaughan poderia abordar por exemplo tribos no meio da Amazônia que acabam descobertas décadas mais tarde e completamente intocadas pelos efeitos deste apocalipse ou mesmo o aspecto de mulheres trans sobrevivendo, e lidar sua perspectiva e dilema existencial em sobreviver num evento que matou todos os homens.

Recomendadíssimo, mesmo se não continuar 'atual'. 

2 de abril de 2026

{Resenhas de quuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuinta} Uma vida pequena - Hanya Yanagihara

Resumo dinâmico: Verborrágico (e masturbatório).

Eu poderia fazer como o livro e ficar dias te explicando porque isso é intragável, mas vamos para uma comparação simples?

Esse livro tem 784 páginas - pouco mais que o primeiro livro de Mistborn, sobre o qual eu falarei na próxima semana, com 864, enquanto o primeiro livro de O Senhor dos Anéis tem 576, e, quase o dobro de alguns dos meus livros favoritos de José Saramago como O Ano da Morte de Ricardo Reis, Levantando do Chão e Memorial do Convento, quase todos na faixa das 400 páginas.

(Só um parênteses aqui uma vez que épicos de fantasia tendem a um número maior de páginas justamente porque precisam apresentar uma grande quantidade de conceitos, muitas vezes suas histórias se passam em mundos diferentes do nosso e com raças, dinastias nobres e estruturas sociais completemante alienígenas aos nossos conceitos - e desenvolver estes aspectos leva naturalmente tempo e páginas - o que não é o caso do livro em questão). 

Ainda mais quando o livro é basicamente Friends mas para a HBO (sabe, com aquela ousadia de Euphoria com sexo, drogas, violência e pretensão).

Basicamente um grupo de amigos que se conhece na época da faculdade (ou seja, início da idade adulta) e tem de lidar com os perrengues de empregos, namoros, responsabilidades e amadurecimento (clap, clap, clap), só que, sabe, com personagens mais desagradáveis e desinteressantes. Eu não quero fingir que o material não possa funcionar para algumas pessoas, e, sinceramente não vou insultar qualquer uma das pessoas que gostaram ou gostam do material - mas eu vou sugerir a vocês que busquem outros autores como Kazuo Ishiguro com seu Uma Visão Pálida das Colinas ou Min Jin Lee com Pachinko e, droga, tem três livros fantásticos do Saramago no parágrafo anterior, para que vocês vejam o que é um material bem escrito e executado em comparação.

O livro perde muito tempo com os personagens secundários - uma vez que a 'vida pequena' da qual ele quer cobrir é do rapaz chamado Jude que passa por todo tipo de experiência desagradável durante sua infância/adolescência, que leva a um tipo de comportamento auto-destrutivo, e, uma incapacidade de aceitar coisas e pessoas boas ao seu redor - perdendo esses elementos para um personagem de família rica que se sente perdendo o contato com suas origens raciais, um outro personagem que cresceu em uma fazenda e teve pais pouco carinhosos e um terceiro que, bem, é só um babaca, enquanto navega pelos grupos crescentes de amigos, conhecidos, colegas de trabalho e outros tantos que vão cruzando pela vida de cada um destes personagens e aumentando exponenciamente a duração dos eventos, muitas vezes chegando em lugar nenhum, ao mesmo tempo que travando o progresso da trama principal.

Na trama principal, inclusive, tem um certo sadismo em que a autora vai levantando dúvidas sobre o evento que descrever ser o estopim e ponto mais desagradável da vida do protagonista (quando trará algo mais assombroso e terrível em seguida), e eu não quero relativizar ou diminuir o impacto das situações - e cenas - mais chocantes e perturbadoras que o protagonista passa, longe disso.
O que eu quero enfatizar é que acho desnecessário toda a fanfarra e talvez os requintes de crueldade que a autora usa para executar esses traumas ao personagem, algo que, com menos traumas e menos páginas funcionaria igualmente, diria até que muito melhor pois seria mais incisivo.

Talvez não tenha funcionado pra mim, talvez nunca vá funcionar pra mim... Mas eu simplesmente não consegui entrar na proposta do livro e conforme avançada a passos glaciais ficava cada vez mais distraído e pensando em outros livros melhores que eu podia ler no lugar dele (e até por isso tantas comparações no texto).

Só posso dizer que, honestamente, me parece muito pretensioso no quanto o livro gasta de tempo para contar uma história, que, talvez funcionasse melhor num conto curto, ou mesmo num livro beeeeem mais curto com umas 250-300 páginas indo direto ao ponto e focando no que realmente importa da tese central da história (que eu não sei dizer se é sobre trauma unicamente, ainda que pareça ao menos o cerne da questão, até porque me parece que existe bem mais elementos que a autora tenta trabalhar mas, honestamente me escapam).

30 de março de 2026

{Filosofia de Segunda} Vida

Voltando aos poucos, vou voltar com a 'filosofia de segunda' com algumas músicas que ultimamente eu venho ouvindo e que traduzem meu estado de espírito atual.

Um abraço a todos, quinta tem resenha (Uma Vida Pequena) e domingo a terceira parte de revisitando clássicos (Y O Último Homem), com a quarta parte (de Escalpo) já programada para daqui quinze dias.



 

1 de março de 2026

{Editorial} Luto

Minha mãe faleceu na última sexta-feira, e, ainda sem palavras ou cabeça para pensar em qualquer coisa eu só quero avisar que o blog ficará suspenso temporariamente, talvez apenas com alguns posts já programados para os próximos dias ou meses, até que eu consiga me situar melhor e, bem, voltar ao meu normal.

Isso não é fácil para ninguém - e quando a situação é mais rápida, nem dá muito tempo da gente pensar ou se preparar, e, foi justamente o caso - e minha mãe era uma pessoa difícil mas que, quanto mais eu penso nela nesses últimos dias, mais eu vejo e entendo o quanto isso também era muito difícil para ela.

Ela perdeu meu pai quando eu e meu irmão erámos muito pequenos ainda, e, ela teve que ralar muito para garantir o mínimo para nós dois - trabalhando demais e se esforçando mais que qualquer outra pessoa que eu conheça ou conheci. Ela voltou a estudar depois de adulta para completar o fundamental e o médio, ela se esforçou demais e por mais que fosse mais reservada (algo que eu também sou), eu entendo que parte disso para ela era mais geracional.

Pra geração dela a ideia de depressão era frescura e não obstante a ajuda especializada era buscar "médico de louco", formando um estigma social quase intrasponível para o pessoal da geração dela, e ainda que nada disso tenha a ver efetivamente com a morte dela - ela foi diagnosticada com leucemia pouco mais de 20 dias atrás e teve complicações com pneumonia na última semana - a depressão com toda a certeza foi um fator que a impediu de fazer mais, de viver mais, e o estigma social a impediu de buscar mais e melhor ajuda para seu problema.

Ela sempre falou que queria conhecer o Rio de Janeiro e o Cristo Redentor, e, uma das minhas maiores alegrias foi que eu pude levá-la para lá em 2010 (e com isso ajudá-la a realizar seu sonho), e, depois pude fazer parte de outra viagem que ela sempre quis fazer em 2018 para Foz do Iguaçu, e, na medida do possível tentei ajudá-la de uma forma ou de outra, por mais que, sempre nos fique a impressão de que nunca foi o suficiente e que sempre poderia ter feito algo a mais (como eu disse ela era fechada e reservada e eu não sou diferente).

Eu espero e muito que ela não tenha sofrido em seus momentos finais, e, que se falhei em algo com ela, que ela possa me perdoar, mas mais que qualquer coisa, espero que ela esteja em algum lugar melhor, e que possámos nos encontrar algum dia, pois eu devo uma série de abraços a ela.

 

 

 

Para aqueles que me acompanham e acompanharam até hoje, essa não é uma despedida, apenas um até breve para que eu possa organizar minha cabeça e minhas coisas.

26 de fevereiro de 2026

{Resenhas de Mo} Quinta

Mo é um seriado da Netflix sobre uma família palestina refugiada nos Estados Unidos e tentando lidar com o processo de imigração enquanto tenta prosperar ou, ao menos, sobreviver um dia após o outro, na terra do Pato Donald.

Por muitos motivos, não deveria funcionar para ninguém - o seriado é bastante crítico ao processo de cidadania nos Estados Unidos (que a primeira temporada inteira cobre e reforça que a família tentou por quase 20 anos sem sucesso), ao mesmo passo que vende a ideia do sonho e ideiais estadunidenses como se fossem o grande avanço civilizatório que, bem, os estadunidenses tentam vender.

E aí o protagonista sobrevive a um tiroteio num supermercado (que não tem mais nenhuma relevância para o restante da história), mas que mostra bastante a crítica à ideia do sonho da terra do Tio Sam e a realidade - e o que é mais curioso quando o protagonista acaba se envolvendo em uma confusão e passa a viver no México por um período, e de tudo que vemos, ele está em seu melhor numa vida ao sul da fronteira que em qualquer momento em sua vida na 'Murica.

Isso pra mim é o que mantém o material constantemente interessante e se esforçando para ser não apenas uma bobagem propagandística ou vender uma ideia moralista e idealista... Claro que o protagonista é um idiota e faz muita coisa que complica muito mais sua vida do que ajudaria (se ele ao menos ficasse calado por dois segundos a mais), mas estamos falando de uma comédia no final das contas, e, comédias se formam com a decisão errada de personagens tapados.

Não é algo que vai te fazer repensar tudo que sabe sobre comédias ou sobre uma perspectiva mais abrangente dos EUA ou qualquer coisa nesse sentido, mas, num momento em que imigrantes são caçados nas ruas por agentes da Gestrumpo (com o rosto coberto e atirando primeiro e fazendo perguntas depois), ao menos é interessante ver algumas das histórias das pessoas que tentam e lutam para ter uma vida digna e, sabem, buscarem seu quinhão enquanto os norte-americanos gordos e preguiçosos reclamam que os imigrantes estão roubando seus empregos...

16 de fevereiro de 2026

{Resenhas de Drogas} Como Vender Quintas Online (rápido)

Tentando reduzir a lista de séries que eu comecei e não terminei, Como Vender Drogas Online (rápido) é baseada numa história real - ainda que isso signifique absolutamente porcaria nada hoje em dia, afinal, 'baseado' pode significar que pura e simplesmente que um fatóide na história tem alguma verossimilhança com algo que pode ter acontecido realmente - e, enquanto é um Breaking Bad adolescente e alemão, bem, a verdade é que não é só isso pois também é uma comédia.

Eu posso argumentar mais que isso? Talvez, mas, vale a pena?

Quer dizer, se você não assistiu Breaking Bad ou Better Call Saul, não há necessidade de ver primeiro a versão adolescente (e alemã e de comédia), e, se você já viu qualquer um desses dois, o que existe aqui de particularmente diferente (porque melhor, sinceramente, não tem nada)?

Até é uma comédia razoável e que provoca algum riso espontâneo, ainda que dificilmente uma gargalhada, mas longe de algo que vale a pena recomendar... Ou mesmo argumentar sobre.

11 de fevereiro de 2026

{Revisitando Clássicos} Preacher - Garth Ennis e Steve Dillon 1995 a 2000

Essa era uma série que eu tinha medo de revisitar e esse medo se manteve na minha cabeça por anos conforme eu queria reler mas continuava imaginando o quanto a coisa toda envelheceria mal.

Quer dizer, parte da premissa vem da condição que o mundo acabaria no ano 2000 (de acordo com uma profecia católica - que envolve uma conspiração encabeçada pelo próprio Vaticano), além de um sujeito que tenta cometer suicídio e acaba com uma deformação (e passa a ser conhecido como 'O Cara de Cu'), mas sejamos honestos, não é isso que me assutava particularmente.

Eu sempre tive medo de reler, porque a verdade é que Garth Ennis foi um autor extremamente importante na minha formação como leitor e fã de quadrinhos. Hábitos Perigosos continua o melhor começo para Hellblazer, e o restante da fase tem excelentes momentos (que nesse caso eu continuo gostando de ler e reler), mas ele também é o cara que escreveu The Boys e Crossed que, puta merda, são obras cujo valor reside no choque e cenas cruéis e violentas.

Preacher fica na metade do caminho (entre Hellblazer e The Boys), com um bocado de bons momentos sentimentalistas e inteligentes intercalados em uma série de momentos nojentos e desagradáveis simplesmente para chocar (como a orgia de Jesus de Sade), e enquanto esse material foi extremamente importante para mim conforme eu estava desenvolvendo meu gosto e crítica de quadrinhos (e não apenas quadrinhos), existe um aspecto da transformação de Frank Miller que eu vejo refletida em Garth Ennis conforme os anos passam, e cada ano que passa (e com essa releitura) parece mais evidente que o ponto de virada foi Preacher, e, em grande parte o sucesso que a série conseguiu.

Tirando de lado o aspecto emocional de minha experiência pessoal temporariamente para focar no material, eu só quero dizer que, sim, o material foi muito importante na minha formação como leitor principalmente para a minha transição entre os quadrinhos mais tradicionais e simples da Marvel e DC para algo mais complexo e capaz de experimentar, em parte porque era mais fácil de achar nos sebos do que outros materiais (como Sadman ou Monstro do Pântano), ainda que achar completo já fosse um desafio extra, exceto se considerarmos as Rapaduras Açucaradas e outros caminhos da Romenia para encontrar com maior facilidade estes materiais.

E, verdade seja dita, era esse aspecto da dificuldade de completar a coleção, de buscar por diversos arremedos de editoras pequenas (como Atitude, Tudo em Quadrinhos, Metal Pesado, Brainstore, Pixel...) tentando publicar ou continuar de onde a antiga editora parou... Algo inclusive que facilmente unia colecionadores oferecendo um assunto comum e discutir sebos e onde comprar as edições ou a ordem para ler (afinal, não tinhamos guias tão bons como estes do Guia dos Quadrinhos ou lojas além da Rika para achar edições online).

Vale destacar que essas edições eram horríveis, produzidas por gente que tinha muito mais paixão por quadrinhos que competência técnica, e, enquanto eu não acredito que tivessem tantos erros quanto as edições modernas da Panini, eu confesso que não tenho mais nenhuma dessas edições ou reli qualquer uma delas recentemente para conferir e comparar (reli no kindle na edição em inglês).

 


Preacher conta a história do reverendo Jesse Custer que, vem enfrentando um dilema moral sobre sua fé cristã, e, acaba se tornando hospedeiro de uma entidade chamada Genesis (que é basicamente uma criatura meio anjo e meio demônio - e sim, esse conceito já foi trabalhado em Hellblazer se você quiser marcar os pontos).

Com o poder de Genesis, Jesse é capaz de forçar as pessoas a fazerem tudo que ele mandar (e os padrões de fala nos balões mostram bem essa entonação mais enfática, quase bíblica), e colocam o agora ex-reverendo no caminho de uma série de organizações que querem o controle deste poder, enquanto ele próprio resolve partir em busca de Deus (literalmente, ainda que a jornada tenha certo aspecto mais figurativo) para questioná-lo sobre a criação. Jesse se encontra com a ex-namorada Tulipa e o vampiro Cassidy enquanto encontram todo tipo bizarro e esquisito que Garth Ennis e Steve Dillon pareciam capazes de criar.

Como o (anti)vilão Herr Starr (que constantemente é usado como alívio cômico para a série se deparando com infortúnios cada vez maiores), ou o Santo dos Assassinos que é o mais próximo da maior ameaça para, bem, toda criatura vivente e pensante na história, mas a verdade é que essas figuras coloridas e estranhas são apenas ruído numa jornada de três amigos (que é o cerne de Preacher) e a tumultosa interrelação deles, assim como suas complexas motivações.

Se você extrair os elementos coloridos e buscar algo menos literal na história, muito dela passa a ganhar um contexto novo, reduzindo o realismo fantástico para algo mais realista, que fantástico, como metáforas e analogias para os problemas reais enquanto os persoangens tentam encontrar seu caminho e suas vozes.

Sim, Cassidy como um vampiro (literal) produz cenas interessantes, inusitadas e engraçadas na história, mas o fato mais coerente é que ele é um parasita que se aproveita das pessoas e nunca parece capaz de aprender ou reconhecer seus erros, o que leva para uma série de ressentimentos com, bem, absolutamente toda pessoa com a qual ele se relacionou durante sua vida.

De maneira parecida, Jesse vive com a família da mãe e não tem 'voz' (até um ponto em que ele é capaz de ordenar as pessoas a fazerem qualquer coisa com sua voz) e precisa se impor para crescer e encontrar seu lugar no mundo e, de maneira similar, Tulipa  uma mulher criada como uma decepção para o próprio pai (que queria um menino) e lidando com seu papel e aceitação no mundo, e traz em seu dilema o contexto de feminismo e feminilidade.

Não foge ainda uma busca por fé e moralidade cristã (haja vista a busca por Deus como mote da história, incluindo elementos em que ele literalmente se manifesta e comete ou permite coisas horríveis para enfrentar Jesse ou impedi-lo) conflito bastante comum, se não durante toda a história ao menos bastante comum na sociedade Irlandesa dos anos 1970-1980 (Ennis nasceu na Irlanda em 1970), resultando numa dualidade entre a racionalidade do constante progresso com as noções arcaicas do espiritualismo religioso cristão.

Isso, efetivamente, é o cerne da história enquanto os personagens viajam pelos Estados Unidos para aprenderem sobre seu passado enquanto se descobrirem. É uma jornada espiritual em busca da iluminação e voz própria (e é óbvio que isso traz paralelos de narrativas religiosas, de onde inclusive vem o título de 'Preacher' que significa padre), servindo como uma peregrinação em tempos modernos, questionando o valor e o papel da religião num mundo com a tecnologia como possuímos hoje em dia. Por isso os comentários sobre o Vaticano escondendo tantos segredos (sem spoilers), assim como das igrejas do sul dos Estados Unidos além de toda uma questão mais elaborada sobre estruturas de poder.

Isso leva a uma série de conflitos na personalidade e história pregressa deste trio conforme o trio segue em sua jornada e precisa lidar com suas limitações e sentimentos. Esse é o cerne e o ponto que mantém a série relevante e interessante mesmo todos esses anos (quer dizer, já estamos falando em mais de 30 anos do início da série e 26 do fim).

Dito isso, vale destacar que para que a série não seja apenas uma história sobre três amigos descobrindo sobre seus passados e lidando com sua bagagem eles encontram toda uma série de figuras e eventos bizarros, que, bem, tem seus variados níveis de graça e curiosidade, como a situação envolvendo o Vaticano sequestrando Cassidy - que acaba descobrindo a história secreta de Jesus no processo - ou Jesse se tornando um xerife numa cidadezinha onde o dono de um frigorífico gosta de transar com carne (eu nem vou tentar explicar mais que isso)...

E eu não sei dizer se essas histórias secundárias/terciárias/quaternárias das figuras peculiares que cruzam o caminho de Jesse e seus amigos são particularmente interessantes além da curiosidade e peculiaridade (o que é mentira, pois boa parte dessas histórias e personagens são bastante interessantes quando não bastante engraçadas - ainda hoje na minha humilde opiniõa), ainda que, numa releitura já conhecendo os personagens, e, sabendo quais deles não são interessantes ou trazem algum elemento significativo para a narrativa, esse ruído fica mais alto e acaba ofuscando o brilho da história principal.

Quer dizer, eu entendo a ideia de criticar o movimento grunge e a música dos anos 1990 ao colocar o 'Cara de Cu' como um cantor que se torna a voz da geração (quando ele mal consegue articular uma frase coerente), e acho que funciona e tem seu valor. O problema é que isso parece cada vez mais acrescentar páginas e páginas para prolongar a duração da história e não para oferecer algo interessante...

Você já deve ter visto as páginas de Herr Starr provando chapéus ou perucas (que trazem 3 páginas com 9 quadros e a primeira, literalmente, é a mesma imagem repetida 9 vezes), mas enquanto nada talvez seja tão descarado assim, existem vários episódios e situações que acabam desnecessários ou repetitivos.

Como o Santo dos Assassinos em, bem, praticamente toda aparição ou sua longa contextualização (e edição especial), ou, bem, o quanto vemos a partir do arco 'Guerra no Sol' (que termina na edição 37) parece titubear e caminhar um tanto sem rumo até o arco final.


Problemas e Ressalvas

Enquanto eu acredito que boa parte das ressalvas eu já fiz durante a resenha, vale destacar que, bem, o material foi produzido nos anos 1990 com a premissa, acima de tudo, de causar estranhamento e choque sim (não é à toa que a premissa central da história envolve um anjo e um demônio tendo um filho - que é a entidade Gênesis - ou que um dos personagens já do começo é 'você sabe quem'), porque nesse momento histórico, diversos autores buscavam de uma maneira ou de outra testar as barreiras e os limites do que poderia ou não ser aceitável, com diferentes graus de sucesso e, bem, de aceitação décadas mais tarde.

Eu vi bastante gente tentando recontextualizar Alan Moore pelas cenas de estupro em Monstro do Pântano e Watchmen como gratuitas e meramente para chocar leitores da mesma forma que, bem, o tatu bola em Preacher (que curiosamente diz muito sobre toda uma comunidade de bilionários em ilhas que precisam se sentir exclusivos, não?).

Nos quadrinhos que passaram décadas presos nos limites do Comics Code a ideia de testar todo e qualquer limite de bom gosto e de censura mesmo com conteúdo mais implícito de que explícito. E Ennis NESSE PERÍODO é um autor bem mais contido, e não dá nem de longe para comparar com o cara de anos mais tarde com The Boys ou principalmente Crossed (que é simplesmente atroz), afinal aqui ele parte para o escracho em todo momento e cada curva disponível, e, seu material foca no aspecto cômico sempre que possível.

Se isso passa hoje como algo mais problemático ou não será digerido com a mesma tolerância que num momento em que autores buscavam uma transgressão maior, bem, eu consigo entender, ainda que eu tenha que destacar que o contexto histórico é importante, inclusive com a necessidade da transgressão testar limites e encontrar a voz de autores e mesmo do gênero literário de maneira maior.

Dito isso, bem, a série foi produzida entre 1995 e 2000 e parte dos elementos (assim como Invisíveis que eu pretendo comentar mais pra frente) corriam pela ideia do fim do mundo como conhecemos na virada do ano 2000, o que, 26 anos mais tarde parecem cada vez mais realistas... Mas, verdade seja dita, existem alguns outros elementos anacrônicos e que envelheceram mal aqui e ali na história, ainda que, sinceramente pouquíssimos casos consigam fugir dessas armadilhas.

Então meu veredito? Ao contrário de 100 Balas que eu acho que se mantém bastante sólida hoje em dia (e talvez seja até mais atual hoje) e qualquer leitor pode pegar e ler sem medo de errar, Preacher é mais nichado e, eu duvido que qualquer pessoa com menos de trinta (e poucos ou até mesmo muitos) vá conseguir gostar.

Talvez pelos elementos cômicos, talvez pelo ruído mais que pela história, mas eu genuinamente não vejo a história se traduzindo para um público diferente daquele que leu originalmente quando ela foi publicada (ou que, se for ler hoje pela primeira vez, pelo menos estava vivo durante esse período para ter alguma lembrança e conhecimento de causa da época). 

9 de fevereiro de 2026

{Resenha Lixo} Anaconda 2025

Resumindo? A única coisa positiva do filme é a participação do Selton Mello (sério, eu não acho que tenha uma cena ruim em que ele esteja, e ele consistentemente é engraçado).

Fora isso, droga, o filme quer muito ser Deadpool, meta quebrando a quarta parede em todo momento possível no lugar de desenvolver uma narrativa, história ou bem qualquer coisa inteligente, interessante ou digna de nota não é mesmo?

É um filme sobre um grupo de amigos que quer fazer um filme (que é o remake de Anaconda, pisca, pisca), e, cada um deles está travado em algum aspecto de sua vida ou carreira, mas, obviamente, conseguem uma pausa perfeita para uma viagem ao Brasil para produzir o filme - sem nenhuma experiência real, recursos ou absolutamente qualquer coisa que justificaria fazer algo dessa forma e escala - quase como The Room do Tommy Wiseau.

Faz sentido que eles venham para o Brasil ao invés de gravar em estúdio? Não, mas parece que qualquer um dos outros elementos do filme faz sentido até agora (de um grupo de ferrados resolver produzir um remake de um filme - porque um desses amigos ferrados acredita que conseguiu os direitos autorais da franquia - com o qual ninguém realmente se importa/importou? Pois é)... 

Como eu disse, é aquela tentativa de fazer Deadpool quebrando a quarta margem e dando aquela piscadela pra câmera fingindo que isso, por ser irônico e sarcástico, então portanto tudo vale, dane-se qualquer coerência ou lógica interna.

E, puta merda, esse filme não tem qualquer respeito pela própria lógica interna e segue cada vez mais bizarro e bizarro - e desculpa e vai sair algum spoiler a partir daqui, mas eu já disse que o filme é ruim (e a única coisa que salva nele é o Selton Mello que aparece por menos de meia hora), mas depois do ponto que o Selton Mello sai do filme, o filme segue num rumo cada vez mais bizarro e insano.

Esse é o último aviso de spoiler mas se você quiser ler, duvido muito que vá estragar sua experiência com o filme de qualquer forma.




Depois que o Selton Mello sai do filme (afinal ele acaba devorado por uma anaconda criada por poluição - óbvio! A poluição deu os poderes para o Blanka e um terceiro olho para um peixe em Springfield, como não vai transformar uma cobra gigante em uma cobra ainda mais gigante e furiosa?), o material vai seguindo com um conflito com o aspecto dos terríveis brasileiros que exploram a floresta para fins ilícitos (afinal explorar a floresta para fazer um filme bosta é um fim extremamente nobre e valoroso) enquanto se encontram com a equipe do filme original que está gravando um remake de Anaconda (tá, eles só encontram o Ice Cube, e Jennifer Lopez aparece pouco antes dos créditos se não me falha a memória), enquanto usando os elementos da produção maior para assim dar cabo da cobra gigante criada por poluição... E ainda assim conseguir produzir um documentário que se torna um fenômeno nos Estados Unidos e chama a atenção de grandes estúdios!

E não, eu não estou inventando nada disso (no máximo lembrando alguma coisa errada ou fora de contexto).

Mas, bem, vamos lembrar que é um remake de um filme ruim dos anos 1990 com o qual ninguém se importa e que tem como premissa de que é um grupo de amigos ferrados que querem fazer o remake desse filme ruim dos anos 1990 com o qual ninguém se importa (entendeu? Como um paralelo para eles que cresceram nos anos 1990 e ninguém se importa com eles também, pisca, pisca, olha como somos meta).

Dispensável. 

5 de fevereiro de 2026

{Resenhas Magnéticas} X-men As Guerras de Quinta

Anteriormente, em X-men:

Para um breve contexto, X-men é uma série que surge nos anos 1960 com Stan Lee inflando as publicações da Marvel com toda ideia idiota que ele conseguisse colocar no papel, e, continuando o que lhe garantiu emprego na editora nas décadas anteriores, abraçou bastante a noção de romance - quando a verdade é mais 'novela ruim nível Gloria Perez'.

A série passa por uma gigantesca transformação com a Segunda Gênese, quando os personagens originais são substituídos por uma nova equipe completamente diferente que vai se desenvolvendo (e crescendo) na próxima década e além, conforme a série também cresce em popularidade. Com o crescimento de popularidade a editora começa a buscar crescer a franquia e isso nos leva a novos títulos e novos títulos e novos títulos para acomodar uma cada vez maior e mais crescente quantia de personagens. Isso leva a eventos crossovers a cada trimestre entre os múltiplos títulos (visando uma gigantesca sinergia corporativa e vendas) enquanto a qualidade das histórias declina consideravelmente no final dos anos 1980 e começo dos 1990, como o arco sobre a nação estado de Genosha (que escravizava mutantes para conseguir prosperidade - e que se concluí com a derrota de um vilão aranho-robótico), e isso se tornaria mais importante depois.

Com a virada dos anos 1990, o declínio vai avançando cada vez mais (enquanto paradoxalmente as vendas crescem ou seguem bem firmes e fortes) e as histórias vão para todo lado com clones, viajantes do tempo, linhas do tempo alternativas, mas não esqueçamos o comentário social através do vírus legado (que seria o equivalente do HIV, mas, sabe, afetando unicamente mutantes) e, no ápice (ou seria o nadir?) da coisa toda, temos o Massacre, onde não apenas as franquias X se reúnem mas todo o universo Marvel para combater a fuuuuuuuusão do professor Xavier e Magneto (que formam o vilão Massacre).

Após os eventos de Massacre, em 1998 a ideia é de limpar a casa e recomeçar (mais ou menos como na Segunda Gênese, inclusive trazendo de volta os personagens desse período e não por mera coincidência), com a ideia de reestabelecer a fraquia e consolidar os personagens, claro que pensando na sinergia corporativa do vindouro filme pela Fox. Ou seja, reapresentar os personagens (mais interessantes) num ponto de partida fácil para os leitores que sairem empolgados dos cinemas pelo filme da franquia.

 

Um pequeno parêneteses, porque pra mim foi exatamente isso quando eu comprei Fabulosos X-men 50 (que eu tenho ainda hoje, por mais que tenha me desfeito de uma quantidade enorme de quadrinhos da coleção ao longo dos anos) e que eu comprei bem empolgado justamente com a ideia do filme que estava em vias de estrear e eu queria saber mais sobre a franquia. Eu só não me lembro se comprei essa hq antes ou depois do lançamento do filme - mas os problemas disso eu já falarei em um instante.

E, eu confesso que não sei qual o problema aqui se foi editorial, se foi de quase uma década de autores num modo específico de escrita envolvendo múltiplos títulos (que os manteve fixos num modo específico) ou se foi pura e simplesmente o fato que eles não tinham os melhores nomes disponíveis ou se importavam com o resultado, mas o que vemos aqui é uma colagem de tudo de errado que poderiam fazer nesse sentido. 

Sim, é fácil olhar em retrospecto mais de vinte e cinco anos depois e ciente de tudo o que aconteceu (nos quadrinhos e fora deles) com a franquia para dizer que essa foi uma bola fora e que tinha tudo para dar errado, ainda que tivesse o gigantesco talento de Alan Davis, Chris Bachalo, Carlos Pacheco, Adam Kubert e Steven Seagle (escritor de vários sucessos e material conceituado na DC nos anos 1990)  por exemplo, tivesse o regresso de vários dos personagens mais populares da franquia no time principal (e isso fosse uma mensagem para os fãs de longa data clamando por seu retorno ou uma nova chance para a franquia) e, bem, todo o potencial que de fato existia aqui.

Esses não são os problemas aqui, pelo contrário, esses são os pontos fortes que me fizeram ler na época e rever agora vários anos mais tarde. O problema está no restante, que tenta manter uma estratégia fracassada da Marvel nesse período (que, lembremos, levou a editora a decretar falência em 1996), e que ainda parecia vigente na mente de vários dos editores da empresa.

No lugar de histórias simples e claras, temos material convoluto que tenta ligar eventos com uma longa (e estúpida) cronologia convoluta, e explicações que pouco fazem sentido ou funcionam. São raras histórias ou edições nesse período sem uma nota de editor apontando para outra edição ou arco ou história.

Como a ideia de que o professor X ressurge (após o Massacre, diga-se de passagem), porém substituído pelo super computador Cérebro (sim) que tomou corpo após o ataque de Bastion em outro mega-evento e resolveu montar seu super grupo para destruir os X-men e dominar o mundo, e, daí temos os alicerces da série por vir sempre com um pézinho para trás numa convoluta e absurda narrativa que nunca tenta avançar, se explicar ou desenvolver além do que os anos 1990 fizeram.

Gambit volta (após seu julgamento) e enquanto tenta reatar com Vampira, ela tem de discutir seus sentimentos com Magneto e/ou seu clone Joseph - que foi criado pela vilã Astra que sempre totalmente esteve ali e não é só uma recente (e desinteressante) criação, soma-se a isso toda uma lista de personagens desinteressantes que vão aparecer aqui, acolá e inflar o número de pessoas por página ao passo que desaparecer completamente na edição seguinte (ou mesmo no quadro seguinte em alguns casos), enquanto as coisas nunca parecem capazes de criar uma narrativa pungente e interessante.

O argumento da Guerra Magnética - de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - é interessante como conceito, mas que se perde conforme esse cerne da história dá lugar para o conflito entre o clone de Magneto (que é seu lado bom e nobre) com sua criadora Astra e posteriormente com o próprio Magneto em meio a uma série de explanações e mais explanações para tentar corrigir toda a estrutura narrativa desses dois personagens na última década.

Por outro lado a 'guerra' em si se resolve conforme uma personagem propõe à ONU um plano de conceder Genosha ao vilão e, bem, nós não temos muito mais detalhamento ou desenvolvimento nessa personagem chamada Alda Huxley (que, como você deve imaginar, não tem grande consequência ou relevância depois disso - e nem vamos fingir que é difícil ver de onde vem o nome da moça) e tudo parece se resolver fácil e simples demais sem um fluxo natural de história ou mesmo qualquer propósito para os personagens (os X-men enfrentam asseclas de Magneto durante boa parte da história enquanto o vilão em si está isolado enfrentando seu próprio clone, e, a história em si - sabe, de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - ocorre com um emissário robô do vilão lidando com personagens sem nome ou qualquer ação e decisão nos eventos).

A solução de oferecer Genosha à Magneto parece arbitrária e confusa num primeiro momento (inclusive quando consideramos histórias anteriores em que Magneto teve um asteróide ou um terreninho na Terra Selvagem e foram expropriar ele de lá), mas são ainda mais confusas quando nos trazem o Capitão América comparando diretamente as ações de Magneto às ações de Hitler (o que eu adoraria ouvir os pensamentos desse Capitão América de 1998 sobre um certo presidente que quer anexar o Groenlândia), quando curiosamente, a comparação mais clara é que a formação do estado de Israel, mas nesse caso aos mutantes (e claro, talvez o líder mutante seja alguém apto por se apropriar de terras vizinhas e dominar seus vizinhos, ao contrário do gentil e respeitoso povo de Israel, certo?).

Curiosamente, existe um problema aqui da própria Marvel que vem desde o evento Atos de Vingança (entre 1989 e 1990) que coloca Magneto trabalhando diretamente com o Caveira Vermelha (que era uma figura proeminente do regime nazista e que é em parte responsável pela morte da família do Magneto na Alemanha), e tudo isso tenta colocar o personagem num mesmo balaio que todo outro vilão da editora, além de desligitimizar suas motivações e, mais importante, o longo arco de redenção trabalhado por Chris Claremont nos anos anteriores (culminando no julgamento do personagem em 1985).

E de novo, é curioso que em 1984 a mesma Marvel faz num julgamento interplanetário de Reed Richards uma justificativa dialética (absurda) para justificar a existência de Galactus que é essa forma devastadora pelo universo - incluindo o genocídio do Império Skrull, algo do qual Richards é parcialmente responsável - mas quando a situação é bem mais próxima da nossa realidade, a perspectiva se inverte.

Porra, mesmo quando Magneto resolve deixar o planeta e levar os mutantes embora com ele - afinal se os humanos não os querem, que pelo menos os deixem em paz - é lançada uma bosta de uma ogiva nuclear para destruir o astróide e acabar com o Magneto e todos os mutantes nele!

Quando Magneto questiona a forma como os mutantes são tratados, sofrendo todo tipo de indignidade, agressão e forçados a trabalho escravo na Genosha no século XX, enquanto abertamente perseguidos nas ruas por máquinas inteligentes criadas ou pelo governo ou com a ajuda do governo dos Estados Unidos, ele é só um vilão tão estúpido quanto o Metalóide espumando de raiva, e, mais até que isso ele é visto, comparado e retratado como Hitler de novo e de novo (quando a própria Marvel tem o Caveira Vermelha que é basicamente Hitler sob efeito de esteróides e o Doutor Destino que mantém um país refém sob sua estrutura de poder e tentou em diversas ocasiões controlar o mundo).

O que é inclusive interessante quando, na mini-série Magneto Rex vemos com mais detalhes o que de fato o vilão recebe com Genosha - que é bem próximo de terra arrasada, haja visto que boa parte da população mutante foi exterminada pelo vírus legado (basicamente o HIV mutante), levando a uma gigantesca guerra civil e disputas de poder. 

Isso é relevante para eventos futuros dos X-men, inclusive na mini-série Magneto Rex que vem pouco depois, e, claro, a fase de Grant Morrison a frente do título alguns anos mais tarde - mas nada é particularmente desenvolvido ou trabalhado.

Tão logo a história se encerra um epílogo rápido é cortado com a aparição de um alienígena que sequestra os mutantes para combater o Fanático em outro plano de existência, sem espaço para que as ações, e, bem, a vitória de Magneto resultem em um argumento mais complexo. Perde-se tempo com mundos alternativos e histórias bem ilustradas que de nada servem para avaliar as perspectivas dos mutantes sobre o evento transcorrido, e, bem, até mesmo do mundo maior da Marvel (qual a visão dos Vingadores ou do Quarteto Fantástico agora que Magneto venceu e conseguiu um território para si próprio, concedido pela ONU?).

O argumento narrativo, a história - que prometia transformar o universo Marvel e mostrar mudanças significativas - se perde numa bobagem de narrativas que em nada tentam desenvolver os eventos anteriores ou avançar o argumento da história. Droga, na própria história não se tenta desenvolver ou avançar o argumento da história.

A história é ruim justamente porque para forçar essa narrativa que Magneto é o Hitler mutante e está espumando de raiva sem qualquer justificativa depende que todo o contexto do próprio universo Marvel seja ignorado e deixado de lado. Que o Quarteto Fantástico que move montanhas para salvar Galactus da morte não parece interessado em buscar uma cura para o vírus legado que dizima mutantes aos milhares, ou que os Vingadores que salvam povos alienígenas de seus regimes opressores não enxergam nada de errado num país escravizando mutantes na Terra, ou bem, que mutantes sejam perseguidos abertamente em ruas dos Estados Unidos por agentes da ICE, digo, Sentinelas julgando as pessoas pela qualidade de seus 'jeans' (pisca, pisca).

Magneto não argumenta, os X-men não argumentam, droga mesmo a maquiavélica doutora Alda Huxley ou o vilão da vez Zealot (que seria algo como Fanático religioso numa tradução mais literal) ou as nações unidas combinadas argumentam pelo fato ou fatores. Jogam elementos mas não uma história, e tudo é para mostrar o vilão como um tirano em busca de poder e nada mais que poder - mesmo quando ele recebe uma terra arrasada precisando de um salvador capaz de lutar pelo seu povo, e não um paraíso idílico de onde pode lançar uma campanha de conquista (como tanto se tenta vender no argumento da história).

Cara, na sequência da história do Magneto você tem um arco com o Caveira Vermelha (fugindo da custódia de um porta aviões da S.H.I.E.L.D. que é a polícia global dos EUA do universo Marvel) com um plano de manipular um mutante para controle mental de toda uma divisão de soldados da organização (clandestina e que não tem nenhum poder real enquanto varre o mundo com equipamento de destruição em massa), e, além de ser uma história incrivelmente ruim, ela mostra muito dessa dissonância e incapacidade de pontuar e argumentar as diferenças e nuances entre os personagens e suas motivações.

O Caveira Vermelha consegue fazer toda uma série de coisas porque a história pede que ele faça (droga ele estava na cadeia, como ele consegue manipular um mutante cujo DNA foi combinado com um alienígena?) e o resultado todo é apenas alguma bobagem para lançar três títulos novos da Marvel (que obviamente são celebrados até hoje e todo mundo se lembra muito bem de suas histórias revolucionárias), e mesmo que exista mais espaço e páginas para justificar a narrativa de Magneto, bem, não se gasta linhas de diálogo para racionalização, porque nós precisamos de um longo conflito entre os X-men e os acólitos ou de um clone com sua criadora e depois com o originador de seu DNA... 

No entanto, existem elementos importantes que vão catapultar a partir dessa história nos anos seguintes, e, o que ao meu ver é mais interessante efetivamente é o quanto nas décadas seguintes dessa história nós vemos uma série de questões relevantes no mundo real e principalmente do quanto a Marvel em si tentou em diversos momentos ser isentona (ou quis se manifestar de alguma forma) e o quanto isso envelheceu mal.

Eu genuinamente acho que o potencial é muito maior que o resultado, e, talvez com outra equipe, mas principalmente com um editorial melhor, esse material poderia brilhar muito mais e continuar muito mais interessante que uma breve nota de rodapé para algo muito maior...