Droga, 2026, olha o que você está me obrigando a fazer...
Vamos deixar bem claro e cristalino que eu acho que a seleção brasileira é composta por uma galera incrivelmente mimada que é extremamente bem remunerada (pelo resultado que apresenta), e além disso, vários desses jogadores são seres humanos nojentos, escrotos e da pior estirpe e condição possível e imaginável. MAAAAAS isso é só um sintoma de um problema muito maior que vem da estrutura toda por trás do futebol profissional brasileiro e internacional.
Esses jogadores podem ser (e com certeza são) pessoas horríveis e terríveis por seus próprios motivos - e eu não vou defender que o Casemiro seja algo além de um bosta sob nenhuma perspectiva, e nem vou falar do pior deles que você sabe muito bem quem é, que fique bem claro - mas isso é só parte de um problema estrutural muito maior e complexo.
Afinal, mesmo que você não conheça cada um dos nomes (mesmo completando o álbum de figurinhas da Copa), você sabe quem são os jogadores da seleção e os critica e persegue online por inúmeros motivos, mas, e eu pergunto isso não apenas para o tiozão jogando dominó na praça que acha que entende mais que o técnico da seleção e sim para o jornalista esportivo da Jovem Klan (de preferência aquele mesmo que comentando futebol disse que não dava pra levar a sério o Brasil por não ter um prêmio Nobel - ao contrário, obviamente, do Peru, essa potência incrível do futebol, da economia e em todos os aspectos humanos e místicos) ou aquele outro jornalista esportivo que apresentava o BBB (e que tem o carisma de uma lixa) ou mesmo a galera da CazéTV - todos esses que adoram fazer propaganda de apostas (mas com segurança), curiosamente.
E enquanto eu acho e acredito que a galera do último parágrafo não gosta de futebol - e, em alguns dos exemplos como do jornalista que apresentava o BBB (e que tem o carisma de uma lixa), ativamente desprezam o esporte, até porque existe todo um sistema e estrutura para que ascendam nessas profissões e cheguem a posições de destaque não os melhores profissionais e que gostam e entendem mais de esportes, mas gente disposta a fazer propaganda de bet ou que tem conexões - por favor tente manter as coisas em perspectiva, lembrando que isso também é só sintoma, e o mesmo sintoma do problema com os jogadores.
Minha pergunta: Quem são os nomes que de fato tomam as decisões na confederação (brasileira) de futebol? Não nas reuniões públicas que elegem as figuras que são substituídas quase anualmente após um novo ou maior escândalo que surja sobre o último sujeito (do cara preso em Nova Iorque ao cara ligado com um helicóptero cheio de pasta base de cocaína). A pergunta de fato não é sobre a figura pública como a "Tia Leila" (cobrando juros extorsivo de aposentado) ou o bicheiro Eurico Miranda, e sim sobre as figuras que DE FATO tomam as decisões e agem nas sombras através de influência e dinheiro para a definição efetiva da forma como as coisas se dão.
Porque, veja bem, o futebol europeu, ainda que mais endinheirado, já foi bem mais decadente nos anos 1970-1980, com constantes brigas de torcida e estádios em frangalhos, mas esses mesmos sujeitos que tomam de fato as decisões se uniram e fizeram algo para estruturar e guinar o esporte para estádios modernos, campeonatos bem estruturados e extremamente competitivos e, bem, tudo o mais que vemos e admiramos no futebol europeu (ainda que de mesma forma existam os sujeitos que são donos de clubes há vinte gerações envolvidos em escândalos - que as relações públicas são mais rápidas e competentes para impedir que cheguem a nós - e, claro, os atores de Hollywood comprando clubes para promover séries ruins na tv estadunidense).
Só que o futebol africano e árabe tiveram uma guinada bem mais recente (tudo isso posterior aos vários títulos brasileiros, diga-se de passagem, afinal a confederação desse país adora viver das glórias do passado sem investir recursos para fundamentar novas conquistas, isso atrapalharia suas empresas de bet ou seus impérios de cocaína). Ou você acha que foi coincidência uma Copa do Mundo no Catar enquanto países petroleiros do Oriente Médio investem pesado para limpar sua imagem (e de seus regimes tirânicos com festivais de humor, comprando companhias de videogames como a SNK e, não obstante, contratando alguns dos mais famosos jogadores de futebol para fortalecer e dar maior visibilidade para suas ligas locais)...? E agora no(regime tirânico do)s EUA com mudanças de regras para agradar o público estadunidense como um 'mini' intervalo durante os tempos da partida ao passo que gigantescos shows (mais típicos de eventos estadunidenses) e preços exorbitantes por ingressos?
Isso é importante porque temos que refletir de maneira bem clara em que momento o dinheiro é mais importante que o esporte, e, de forma geral, a paixão pelo esporte.
Porque, veja bem, o futebol sempre foi o esporte mais democrático que existe (e gente rica tem um ódio e nojo gigantesco do que é democrático e acessível).
Qualquer moleque que mal tem um chinelo usado consegue improvisar um gol e uma bola com jornal velho ou uma meia, e, mesmo com muito pouco é possível comprar uma bola - que é o único material realmente necessário para praticar o esporte. Muito diferente dos muitos "esportes" de gente rica em que o 'atleta' sequer tem uma gota de suor (como no hipismo em que quem de fato trabalha é o cavalo, ou pior ainda, no automobilismo, em que dezenas de engenheiros e mecânicos trabalham mas é o um único riquinho cujo papai bancou os centenas de milhares necessários para competições por décadas a fio que leva as glórias).
O futebol não precisa de um campo padrão, não precisa de um estilo padrão, não precisa de uma composição padrão. Não precisa de equipamento padrão, não precisa de quadra com especificações corretas ou sequer boas (droga, eu jogava de vez em quando com uns amigos num campo cheio de buracos que só por milagre ninguém caiu e se machucou feio nele)... Pode ter uma galera que joga mais a sério, pode ter uma galera que mal sabe o que está fazendo (eu estava nesse segundo grupo), pode ter uma galera que vai mais para se reunir com os amigos e depois tomar uma cerveja...
Claro que sempre tem a galera que leva mais a sério ou tem mais talento, e, como em toda área isso leva a uma estrutura formal e profissional, que é onde vemos competições, agremiações e estruturas diversas. A paixão pode levar ao profissionalismo mas o capitalismo leva ao dinheiro.
Numa estrutura dos parágrafos atrás do moleque que mal tem um chinelo usado, o futebol profissional é uma, senão a única estrutura para fugir da pobreza extrema, através de contratos, justamente, com as figuras esquisitas que agem pelas sombras e tomam as decisões de agremiações, confederações e organizações esportivas.
O guri que joga futebol acaba abrindo mão de parte de sua infância para treinos e campeonatos (acordando cedo fazendo sol ou chuva - enquanto perde aulas), enquanto gera lucros para clubes e agremiações e, conforme ascende na atenção de empresários e olheiros, perde mais de sua infância e escolhas. Os amigos e qualquer semblante de uma infância normal ficam para trás para uma chance de contrato num outro estado ou, vai saber, num outro país que fala um outro idioma completamente diferente, numa perspectiva de uma vida melhor num futuro... Futuro esse que pode ser interrompido a qualquer momento com uma lesão ou pura e simplesmente por falta de interesse destes mesmos empresários e olheiros por qualquer motivo imaginável (inclusive, indiferente da habilidade em campo do jogador, como o fato que ele não vá funcionar bem como garoto propaganda).
Até porque esse guri com um pouquinho a mais de talento no futebol, talvez em um momento lá com seus oito ou dez anos tenha pensado que queria ser astronauta ou seguir um outro caminho, mas, ao contrário do jornalista esportivo que apresentava o BBB e cujo pai era diretor bambambam da Rede Globo, o guri com um pouquinho a mais de talento no futebol não tem exatamente a mesma gama de escolhas, né?
Se ele não prosperar no futebol, bem, não é como se ele vá ter grandes chances para buscar seu sonho como astronauta (e além de ser um caminho bem mais difícil e sem loas ou glória, ainda é mais caro e inacessível para o guri pobre que mal tinha um chinelo). Talvez ele vá aceitar algum emprego bosta em escala 6 x 1, talvez tenha que aceitar algum emprego bosta só para arcar com as despesas mais básicas para correr atrás de uma vida no futebol - talvez o pai e o restante da família tenham que fazer isso com rifas e múltiplos empregos para manter o guri nos treinos e campeonatos, e, talvez, não tenha plano B.
E aí esse guri se encontra numa crise existencial de conquistar tudo o que quis financeiramente mas não se ver realizado profissionalmente porque, e isso é importante, ele (e sua família) precisou de tantos sacrifícios que não foi possível aproveitar o caminho e as conquistas.
Não vou fazer conjecturas se a pessoa se vê diante de um cenário de odiar o esporte e o que ele representa - ainda que pareça bastante provável e lógico quando vemos o quão miseráveis são os endinheirados jogadores da seleção brasileira em comparação com outros dos jogadores que vemos na Copa, desde um dos melhores do mundo Messi que está sempre sorrindo mas passando por jogadores e até seleções inteiras do Caribe ou da África - e nem vou entrar em conjecturas se esses caras tiveram experiências traumáticas (o que é igualmente bem provável) nesses anos formativos.
É só uma observação clara da mesma estrutura de trabalho alienado que não é em nada diferente do sujeito numa rede de fast food ou outra grande franquia para trabalhar mais de 40 horas semanais por seis dias da semana por pouco mais de dois mil reais por mês... O salário é maior, mas a alienação é a mesma.
O senso de ausência de escolha ou liberdade são os mesmos...
Porque é muito fácil olhar pro atleta multimilionário frustrado na ponta que é uma vergonha e fingir que ele é o problema, principalmente quando temos uma estrutura para fingir que todos os problemas na máquina de moer gente até chegar a essa ponta seja só ruído de fundo.
Os jogadores jovens morrendo num ct que pegou fogo (e que era mantido em condições pra lá de precárias) e subsistindo em condições análogas a escravidão com contratos atrozes e leoninos até dizer chega, levando milhares de jovens talentosos a desistirem do processo - e repetidas vezes nós vemos que as peneiras não formam novos talentos e sim aqueles que conseguiram ou tiveram mais estrutura para passar pelas próximas etapas.
Veja, talvez você vá fingir que aquele merda do MBL chamando o Vini Júnior de macaco ou o Luciano Huck dizendo alguma atrocidade mas justificando que foi num 'fórum privado' seja algo menor, e, até mesmo não relacionado com esse problema, e eu até entendo esse ponto de vista (motivo pelo qual vou focar nesses assuntos na parte 2), só que isso faz parte do mesmo processo que ignora aspectos relevantes e cruciais para focar na distração.
As peneiras cruéis e brutais que jovens que mal tem quinze anos já são submetidas em ambientes de futebol são parte de um sistema corrupto em que empresários - não diferentes daquele banqueiro que comprou presidente da câmara, do senado, deputados, senadores, jornalistas e "financiou" filme sobre político corrupto - oferecem contratos terríveis para pessoas com parcas opções ou oportunidades, cheio de letrinhas miúdas e compromissos não declarados para crianças que não tem condições de avaliar os riscos de maneira apropriada e pais que nem de longe estão preparados para isso.
Eu já falei da minha experiência com jornada 6 x 1 em empresas altamente canalhas quando eu tinha pouco mais de idade que a maioria desses jovens entram para o futebol profissional, e eles tem um problema ainda maior de baixa escolaridade (e famílias de baixa escolaridade) diante de ofertas mefistofilicas.
"Te ofereço um milhão (pelos próximos 10 anos e que você terá que me pagar de volta incluindo juros em caso de rescisão contratual não estabelecida - mas isso não é importante, pode pular essa parte) pelo contrato com o jovem talento". É mais dinheiro que muita gente vê ou passa pelos seus olhos durante suas vidas inteiras e cheio de cláusulas obscuras que mesmo peritos em direito talvez não sejam capaz de entender e explicar...
Não faz muito tempo que eu vi sobre isso no mercado da música - em que as gravadoras ofereciam contratos com adiantamentos gigantescos para os artistas, sem especificar que os valores eram adiantamentos e teriam que ser devolvidos (com juros e dividendos) com os lucros das vendas de álbum e turnês - o que levou muito artista a falência e a longas batalhas judiciais pelos direitos de sua própria obra. Isso tudo coisas em que o criador tem muito maior controle e ... E no futebol?
O guri pobre vai se juntar com outros garotos pobres em peneiras e competir profissionalmente? Vai financiar o uniforme e o estádio?
Mais que isso, até, esse guri pobre que não tinha oportunidades, vê um mundo hoje bem diferente do que ele tinha quando era um guri pobre sem oportunidades. Ele teve que abrir mão de coisas para conseguir chegar jogar no futebol profissional (e nem vou falar de empresários pilantras, de treinadores pedófilos e muitos, muitos outros problemas só por questão de brevidade), e agora vê todo um cenário diferente no mercado em que jovens tem perspectiva de se tornarem celebridades na internet sem precisar sair de seus quartos... Olhe o Mr Beast que com certeza ganha muito mais que, bem, todos os jogadores de todas as seleções africanas (e caribenhas) combinadas, certo?
Pois é...
