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22 de abril de 2026

{Editoriando os Reaças} Minha experiência com jornada 6 x 1 (e porque o fato de ainda termos algo assim é um abjeto retrocesso)

Na minha vida eu passei por uma quantia considerável de empregos, principalmente entre os 17-21 anos, sendo que minha primeira experiência real de trabalhar na vida veio através de uma bolsa no colégio técnico (na qual eu atuava como monitor e ajudava outros alunos com dúvidas), e é um grande divisor de águas na minha vida porque, querendo ou não, era o norte para comparar com o que veio depois.

Eu trabalhava 10 horas (entre meus horários de aulas) e recebia pouco mais de um salário mínimo enquanto bolsista, e, é verdade que sem benefícios (plano de saúde, 13º ou qualquer outra coisa) mas, vamos lembrar, era uma bolsa, não um emprego real com carteira assinada e tudo mais - e vamos deixar um negócio bem claro: Enquanto eu entendo que em um mundo ideal salário mínimo e emprego de entrada deveria seguir essa lógica (poucas horas para treinar e formar um profissional que recebe pouco para entrar na estrutura de emprego), o que vemos é o exato oposto com longas jornadas de 44 horas (mais horas extras rotineiras e recorrentes) por salário mínimo sem qualquer benefício.

Depois disso eu tive uma série de empregos que variam de péssimo a muito ruins (dois em condição 6 x 1 nos quais eu trabalhei com os chefes mais abjetos, corruptos e canalhas que eu tive o desprazer de lidar, mas que sei que ainda não são o pior que existe por aí) e pelo menos mais duas ou três experiências de subemprego.

Nessa segunda categoria eu acho mais curioso, e vou começar justamente nessa, porque eu trabalhei para uma concessionária de veículos de uma marca bem grande (que eu não vou mencionar pra não receber um processo décadas depois), e, a empresa simplesmente jogou no meu colo a condição de trabalho de "vendedor" sem nenhum treinamento, equipamento ou basicamente apoio da empresa. Eles não me forneciam um telefone (fixo que fosse, tá, não tô falando de um celular corporativo) ou no mínimo uma listagem de clientes (eu juro que me deram uma lista telefônica um dia e falaram 'Tenta aí').

Tudo o que me 'deram' foi uma pasta bem vagabunda com uma tabela de valores e características dos principais veículos da época e um 'boa sorte' (mas eu acho que minha memória me engana sobre o boa sorte). Não sei quanto tempo eu tentei ou fiquei nessa experiência patética (eu acredito que foi pouco mais de um mês, mas eu não dedicava mais que cinco horas por semana nessa empreitada e só ia na empresa para ouvir história do vendedor sênior - esse que recebia salário - e pegar o único benefício que eu tinha ali, um vale transporte que eu convertia em dinheiro, e era a única fonte de renda desse 'emprego').

Curiosamente isso mostra o quão nojenta é a situação toda, não? 

Vai realmente me dizer que essa empresa com veículos zero que ela financiava não tinha estrutura para me oferecer um mínimo de ajuda de custo e recursos? Mesmo que eu arrebentasse nas vendas (sem nenhum apoio da empresa ou carteira assinada), o que o futuro me esperava? Qual o plano de carreira e negócios ou os benefícios que eu agregaria caso fechasse cinco cotas de consórcio por mês...? Droga, trabalhando nessas condições, será que me pagariam de fato a comissão devida ou tentariam ensaboar para fingir que a venda não foi minha - o que não me parece de todo absurdo que fariam já que eu nem sequer fazia parte da folha de pagamento ou tinha qualquer registro...?

Consegue entender do que a gente está falando aqui, amigo(a) leitor(a)?

E esse tipo de coisa não mudou e em muitos casos ainda é pior hoje em dia... Eu vejo com pessoas com que trabalho e amigos que tem filhos treinando futebol, por exemplo, e, para seus filhos participem de campeonatos e passem por peneiras tem de arcar com todos os custos por anos (que vão de pagar uma escola de futebol, as viagens e inscrições para campeonatos - e isso participando de agremiações grandes e famosas com times nas séries principais que não disponibilizam um único centavo para estes profissionais até que eles estejam devidamente formados e aptos para um contrato, e olhe lá)...

Ou seja, gente PAGANDO pra ser explorada, para ter a OPORTUNIDADE de trabalhar. E vai por mim, se a gente buscar, vai encontrar mais e mais exemplos de empresas pilantras que exploram o desespero das pessoas justamente com esse tipo de estruturas.

Inclusive eu ouvi um papo não faz muito tempo de um recrutador (surtando no linkedin) de que as empresas deveriam cobrar pela oportunidade de ler o seu currículo para uma vaga. Tá entendendo o drama?

Continuando, foi ainda no primeiro ano de faculdade que eu consegui o primeiro emprego (bosta) na jornada 6 x 1 com uma chefe extremamente desagradável e escrota, e, uma das coisas que eu percebi que se manteve no outro emprego (bosta) de jornada 6 x 1 era a quantidade incrivelmente alta de gente da família dos donos que não fazia absolutamente nada nas empresas, mas obviamente tiravam cheques polpudos (e bem maior que o meu - e, com toda a certeza, não apenas o meu salário - da época).

As semelhanças não param por aí. Os dois empregos não ofereciam absolutamente nenhum benefício previsto por lei (vale alimentação, refeição, transporte ou qualquer coisa se assemelhe a isso passaram longe), e os salários foram bem próximos senão exatamente o mínimo na época, sendo que um pagava o mínimo exigindo 36 horas semanais enquanto o segundo exigia 44 horas. E claro, zero estrutura para promoção, crescimento corporativo ou cargos e salários enquanto cobrando uma série de serviços não previstos em contrato de trabalho.

O primeiro me apresentou a condição do Banco de Horas, pois não era possível cumprir as 36 horas semanais da forma como a empresa era estruturada (aos sábados eu tinha que trabalhar sábado sim, sábado não), o que significava que eu ficava semanalmente devendo 6 horas para a empresa, horas que eu teria que compensar em serviços externos - como uma ocasião em que eu fiquei das dez as seis da manhã trabalhando numa outra cidade, e isso tudo somente para pagar banco de horas.

Tinha também o nepotismo do filho da dona que tinha uma salinha reservada (pra sabe-se lá o que, afinal ninguém até hoje soube me explicar qual era a função dele lá), e eu me lembro muito bem que o cara era tão estúpido e incompetente que ele trocou um pc uma vez e deixou na hd além de Half-Life instalado (que eu aproveitava para jogar nos horários mais vazios na empresa), ele deixou uma pasta cheia de pornografia (mais pra escatologia mas cada um com seu problema e fetiche). 

A segunda me apresentou a total e inequívoca farsa da meritocracia e o quão enraigado o nepotismo se faz, numa empresa em que absolutamente todos os cargos de chefia eram mantidos por pessoas da família (o dono empregava o filho como o cão de ordens para a área de fábrica, enquanto a esposa fazia a parte contábil, o irmão com necessidades especiais cuidava da logística, o irmão sem muito talento fingia que fazia projetos e o filho mais novo - também com necessidades especiais - andava pra cima e pra baixo fingindo que fazia alguma coisa). Essa empresa era administrada por evangélicos (e aí não é esse o problema) que desviavam dinheiro do faturamento (esse sim é o problema) como doação para a igreja que frequentavam.

Toda semana doavam coisa de 10-15 mil em material (e vai saber se de fato doavam ou era apenas manobra contábil, aí que o deus deles que os julgue por isso), o que você não precisa nem pensar muito mas uma doação era mais que o meu salário e de toda a galera da fábrica junto, e o fato mais curioso desse período veio quando num intervalo de horas o filho com necessidades especiais me abordou para frequentar o culto do qual eles faziam parte e, quando cheguei em casa descobri que minha mãe tinha sido abordada pela esposa do dono com a exata mesma proposta. Provavelmente empregavam gente com a tentativa de convertê-los para a empresa (ainda que me pareça que mesmo alguém extremamente convertido não se manteria num emprego tão abjeto).

Vale destacar que quando me contrataram para o serviço (de 44 horas semanais e que recebia o mínimo da época) eu tinha que fazer um serviço extremamente burocrático e chato, sem qualquer bônus por vendas ou resultados e com uma cobrança adicional de fazer um site para a empresa (que obviamente eu nunca fiz a primeira vírgula de código para eles).

Com muita sorte saí dessa empresa para conseguir outra bolsa (dessa vez na faculdade) recebendo um valor bem acima do salário nos dois empregos e com uma carga horária variável (afinal dependia da entrega de meus relatórios e do desenvolvimento da minha pesquisa), e não muito depois consegui um emprego onde nunca mais sai dos 5 x 2, e, assim, simplesmente não tem como defender essa estrutura do 6 x 1 para o trabalhador sob nenhuma condição e realidade.

É claro que a minha motivação em cada um destes empregos e subempregos era baixa justamente porque eu lembrava de não muito tempo antes quando estava como bolsista trabalhando bem menos para receber um salário digno, e sabia que a dedicação ao ensino poderia me levar a condições melhores - seguir para uma carreira acadêmica em busca de outras bolsas na faculdade e com isso subsequentes mestrado, doutorado e iniciação acadêmicas - mas eu via, em primeira mão enquanto estudante, como era o cenário de emprego e trabalho no 'mundo real' 

Vale destacar inclusive que a minha realidade é bem diferente de muita gente que teve e tem que tolerar esse tipo de emprego abjeto. Eu em nenhum desses empregos e subempregos precisei de ônibus ou transporte coletivo de qualquer natureza. Eu podia inclusive escolher ir a pé (coisa que fiz para todos eles, por mais que em alguns casos fosse mais longe), e por mais que eu gastasse de tempo na caminhada para o trabalho e às vezes chegasse um pouco suado no serviço é bem diferente de alguém que tem que pegar dois ou três ônibus saindo duas horas antes do horário de início de sua jornada.

E droga, eu poderia facilmente falar por muito mais tempo sobre isso - como a galera adora falar que na Universidade a situação é alienada e o povo só usa drogas, enquanto na Universidade eu já usava crachá para registrar entrada e saída em 2002 e nas empresas que eu trabalhei depois ou era a secretária que anotava num caderninho ou um dos irmãos do dono (que estava sob efeito de algum estimulante para acordar cedo, mas sabe, dorgas só na universidade)... 

Quer dizer, por mais que eu olhe para essas experiências como negativas - e, puta merda elas foram - eu tenho que lembrar o quanto eu aprendi com essa patifaria toda. Porque essas empresas todas eram mal geridas, não tinham uma estrutura básica (ou plano e projeto de gestão), sem visão de plano de cargos e salários, sem uma estrutura clara de crescimento e justamente por isso eles jogavam com condições de emprego que raspavam na condição legal e definição de emprego... 

Mais até, vamos ser claro, esses caras eram pilantras naquela época mas tá cheio de gente tão pilantra quanto (e temo dizer que muito mais) porque esses caras sabem que estão protegidos para agir dessa forma fora da lei.

Eu não recebi tiquete alimentação mínimo ou qualquer benefício em nenhum desses serviços, quanto eu teria que gastar com um advogado para receber essa merreca destes empresários pilantras? Mas eles economizaram e embolsaram essa merreca de mim todo o tempo em que estive nessas empresas. Saca como o empresário roubar do funcionário é aceitável socialmente como 'burla contra o governo'?

Só que é burla contra o funcionário mesmo. 

É claro que nada disso é acidente.

A jornada 6 x 1 existe para manter a pessoa tão ocupada e alienada que ela não consiga pensar e refletir. Que ela chegue em casa tão exausta depois de uma jornada longa, de duas baldeações e transportes para que a única coisa que consiga pensar é em pagar o dízimo que o pastor cobrou e ajudar a manter as coisas como são.

Pensa da seguinte forma: Em todos esses empregos que eu citei, da minha história, eu fui lesado de uma forma ou de outra com valores pagos a menos, com benefícios que não foram pagos e etc, certo?

Eu poderia cobrar diretamente destes patrões pilantras - para ouvir diretamente deles que não me pagariam - ou entrar com uma ação na justiça que levaria anos, custaria um valor considerável por parte de advogados e não significaria que eu venceria de qualquer forma (pelo contrário, eu teria uma dificuldade enorme de provar qualquer coisa, mesmo que eu não recebi os benefícios previstos por lei que a empresa vai fazer um malabarismo contábil pra mostrar que pagou).

Por tabela isso forma um ciclo vicioso para o trabalhador, pois é difícil comparecer às audiências quando tem outro emprego e em outro emprego vão vasculhar sua vida pregressa, inclusive suas ações trabalhistas (por mais que seja ilegal fazer isso, mas de novo, olhe a lista de coisas que são ilegais e as empresas fazem simplesmente porque se safam disso).

Até porque a galera que controla o capital geralmente conhece juízes através do Rotary, da Maçonaria e outros clubes privados e rodas sociais, enquanto o trabalhador tem que chegar numa ação com um número limitadíssimo de argumentos e da verdade e os fatos... E, como sabemos bem, a verdade e os fatos só te levam até certo ponto na vida.

19 de abril de 2026

{Revisitando Clássicos} Escalpo - Jason Aaron e R M Guerra 2007-2012

Escalpo é uma série tão foda que, sinceramente, se tivesse saído pela HBO/AMC, estaríamos discutindo se The Wire, Breaking Bad ou Escalpo seriam a melhor série de todos os tempos, e eu tenho poucas dúvidas se o material de Jason Aaron e R M Guerra não suplantaria as outras duas em várias listas (provavelmente alguma de minha autoria própria).

Vovó Urso Pobre é uma de minhas personagens favoritas de toda a ficção (ponto), mas Dashiel Cavalo Ruim e Lincoln Corvo Vermelho são igualmente fascinantes e não são os únicos, enquanto a narrativa desenvolve e constrói esses personagens em cenários que vão emaranhando cada vez mais em uma teia de intrigas e corrupção, que, de tal maneira envolve os personagens e vai fazendo o mesmo com os leitores.

É difícil falar sem spoilers - afinal ocorre um crime no final do primeiro volume que é extremamente relevante para o restante da série, mas detalhar esse crime pode prejudicar a surpresa e o impacto de sua ação, algo que eu, relendo mais de uma década depois sem me lembrar dos eventos fui pego completamente de surpresa e achei muito melhor justamente por isso.

Então, basicamente, a premissa é de uma reserva indígena onde um cassino será construído. Esse cassino (e suas licenças de funcionamento) foi construído e obtido com dinheiro sujo de várias máfias e crimes, crimes estes que levaram e elevaram Corvo Vermelho ao topo da reserva indígena, e, concomitantemente como alvo de uma longeva investigação do FBI (referente algo ocorrido décadas atrás).

Corvo Vermelho foi um militante em um grupo lutanto pelos direitos nativo-(norte)americanos junto de Gina Cavalo Ruim (a mãe de Dashiel) nos anos 1970, quando tiveram um caso (breve ou não, francamente não importa, o que importa é que não foi bem resolvido), e ascendeu como chefe tribal, e, abusando destes poderes se tornou uma figura influente no crime dentro e fora da reserva. Durante o período de miltância, dois agentes do FBI foram assassinados dentro da reserva indígena, e, o crime nunca foi solucionado, se tornando a obsessão do agente especial Nitz, que, mexe seus pauzinhos para conseguir que Dashiel Cavalo Ruim (que retornara de uma missão com o exército e tentava se alistar junto ao FBI) se tornasse um agente infiltrado para finalmente derrubar Corvo Vermelho.

Da mesma forma que Corvo Vermelho teve uma relação não resolvida com Gina Cavalo Ruim nos anos 1970, Dashiel Cavalo Ruim teve uma releção não resolvida com Carol Corvo Vermelho (a filha de Lincoln), e, de maneiras similares, ambos seguem em caminhos de mentiras, auto-ilusão e auto-destruição dos quais querem (mas não conseguem) sair.

E isso é o escopo de como a série usa paralelos e contrastes para definir os personagens e situações, e, como inclusive ao final encontramos exatamente esses paralelos e contrastes conforme os personagens assumem papéis diferentes que curiosamente refletem aqueles de outros personagens (que morreram em algum momento da série).

Como eu disse, eu não quero usar de muitos spoilers aqui, mas acho que essa é fácil uma das melhores escolhas e leituras do selo Vertigo do século XXI, quiçá de todos os tempos do selo (se consideramos apenas o material de crime, o que chega mais perto é 100 Balas, e, mesmo sendo ótima, ainda fica bem pra trás). Leitura recomendadíssima.


Ressalvas e Problemas

Eu disse que a leitura é recomendadíssima - e é - mas acho que cabe uma ressalva de que é um material sobre crime e que não tem muito pudor em trazer algumas cenas bastante violentas e gráficas, e mesmo dentro das cenas violentas existem os momentos piores e mais nojentos (afinal em dado momento na série é apresentado um psciopata assassino que sente prazer em torturar suas vítimas - e ele realmente tortura as vítimas).

É uma história sobre crime, existe um aviso de que não é particularmente recomendado para um público menor de 18 anos (na capa mesmo tem um 'sugerido para leitores maduros'), e eu entendo que para alguém cujas sensibilidades não se alinhem com uma história com sexo, violência, uso de substâncias (lícitas e ilícitas), bem, a leitura pode ser um problema.

Sim, existem edições avulsas que não partilham de absolutamente nada de sexo, violência ou uso de substâncias (e são edições muito boas como a fantástica edição 35 "Ouvindo a Terra girar", talvez minha favorita em toda a série) e acredito sim que seja possível ler essas edições avulsas sem o restante do material, então, no mínimo, acredito que caiba a ressalva que o material é mais pesado e pode desagradar um público mais sensível ou que se incomode com determinadas cenas que são de fato mais gráficas (e justamente mais gráficas por se tratar de uma mídia visual e usar isso como forma de chamar atenção e atrair público).

16 de abril de 2026

{Resenhas das Colinas} Uma Visão Pálida das Quintas - Kazuo Ishiguro

É um livro bem curto (menos de 200 páginas), porém extremamente denso, numa obra sobre memória e percepção enquanto lida com temas extremamente pesados - parte da história se passa no Japão pós bombardeio de Nagasaki enquanto a outra parte se passa na Inglaterra após o suicidio de uma das filhas da protagonista.

Ishiguro vai desfraldando aos poucos os assuntos pesados do livro com maestria enquanto desenvolve personagens e situações com a delicadeza para esses temas, e, de muitas maneiras é o que eu acho que o diferencia de outros autores - e, bem, das resenhas das semanas anteriores. O autor escolhe conduzir a narrativa de maneira a apresentar os personagens e situações de forma que o leitor se torna tão próximo do narrador que é quase cúmplice de suas decisões e ações - afinal as entende de tal maneira que, dadas as circunstâncias faria exatamente a mesma coisa.

Não cabe particularmente um julgamento de valores ou escolhas ou mesmo umas narrativa mas uma gradativa apresentação das personagens e contextos da história, diluindo quase que a conta gotas os rumos da narrativa - que como eu disse se passa em dois momentos históricos na vida de uma mulher, um no pós-guerra no Japão e outro na Inglaterra após uma de suas filhas gêmeas cometer suicídio - e o livro vai nos apresentando como a memória nos prega peças fazendo-nos lembrar de certos fatos relativamente inócuos (mas que, verdade seja dita, tem muito significado) enquanto esquecemos de coisas realmente importantes, e até ignoramos muitas dessas coisas importantes enquanto estão bem diante de nossos narizes.

E acho que o toque de mestre da obra se dá justamente pelo fato que ele segue mais em busca de pinceladas breves que relatam episódios aparentemente tolos e pouco relevantes (mas que trazem muito significado e contexto) que em distilar verborragia e 'significado'. Os silêncios e as omissões da narradora nos dizem muito mais que todo um capítulo quase documental explicando a escassez de alimentos em 1946 no Japão...

Ishiguro escolhe não explicar além do que a memória da personagem recorda, e, ainda que isso seria algo mais próximo do que Saramago faz em suas obras (mas sempre se mantendo dentro de um didatismo parnasiano que escapa do tema para contextualizá-lo), a função do autor aqui não é a de te explicar o contexto macro e sim o contexto micro - das personagens e suas decisões e não do que ocorria no país em geral e quiçá o mundo.

É um dos primeiros livros do autor, o que talvez seja um ponto positivo em que ele "gasta" suas ideias sem muita piedade, mas ao mesmo tempo falta algum esmero e refinamento que ele desenvolveria nos anos vindouros e em livros como Não me Abadone Jamais ou Os Vestígios do Dia, mas sem sombra de dúvidas é um material fantástico que que vale a pena ser conferido - mesmo com o preço absurdo de capa praticado pela companhia das letras.

Qual é essa 'Uma Visão Pálida das Colinas' no fim das contas? Bem, só lendo para saber.

Nota: 8,010 

12 de abril de 2026

{Editorial} Solo Leveling é a coisa mais idiota que eu já assisti?

Existe algo que eu genuinamente admiro na estrutura de quadrinhos japonesa (e eu sei que Solo Leveling que está no título é uma série sulcoreana, por favor, me dê um pouquinho mais de crédito), ainda que eu saiba de todos os problemas da estrutura de produção, da estafa, e tudo o mais que afeta a estrutura produtiva, e, o que eu admiro genuinamente é a forma como a indústria de quadrinhos japonesa é capaz de se reinventar a cada dez/quinze anos.

Não vou fingir que eu conheço todas as fases, ali dos anos 1950 pra frente, mas pegando mais ou menos ali quando eu nasci e começa uma onda de grande popularidade nos anos 1980-1990 com Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho (mas obviamente não apenas esses), e que tem uma transição até o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 quando começam a surgir One Piece, Naruto e mais uma leva de outros quadrinhos relevantes, incluindo Death Note e Full Metal Alchemist e mais próximo do momento atual dos 2015 pra frente (ainda que One Piece continue sendo publicado assim como Naruto agora através de seu filho Boruto e Dragon Ball foi ressuscitado uma terceira vez), temos mais uma leva surpreendente com Jujutsu Kaizen, Dan Da Dan, Demon Slayer, Dr Stone, My Hero Academia e mais uma lista crescente.

Isso tudo sem ignorar fenômenos de quadrinhos de esportes como Hajime no Ippo (sendo publicado desde 1989) ou Slam Dunk e outras obras sejam com escopo mais limitado (como Akira ou Ghost in the Shell que são mais curtas) ou com finalidades mais cômicas ou mesmo voltadas para nichos mais específicos.

Eu acho muito legal isso, mesmo que bem provavelmente chegue pra gente só uma fração muito pequena de todo o escopo de material - afinal são os produtos que dão certo no Japão e conseguem catapultar para o mercado internacional de uma forma ou outra, geralmente através das animações (que já são o primeiro passo para catapultar uma produção de sucesso no próprio Japão e conseguinte para outros mercados), e muito legal quando comparamos com o que estamos acostumados dos Estados Unidos, Europa e não obstante o próprio Brasil, com material que vai seguindo uma estrutura da cobra comendo o próprio rabo e expandindo ad infinitum sem qualquer pretensão de considerar uma nova voz e ouvir suas histórias - apenas a de vender novas roupagens para personagens antigos.

Não vou fingir que todas as histórias e séries citadas aqui nos parágrafos anteriores são ideias originais e criações inovadoras (eu sei que não foi George Morikawa que inventou o boxe e que Akira Toriyama bebeu bastante de Jornada para o Oeste para o começo de Dragon Ball), ainda que seja hipocrisia fingir que todas as histórias e séries populares no Ocidente o sejam (droga, Superman usa a história de Moisés como base para sua origem enquanto Batman é inspirado em heróis como Zorro - que é inspirado no Pimpinela Escarlate, sim, isso existe), mas tudo isso é parte de uma discussão maior de como artistas 'se inspiram' ou até mesmo roubam o trabalho de outros, e, francamente eu não quero mexer nesse vespeiro até porque eu passei cinco longos parágrafos sem nem entrar no assunto do texto.

Todo esse contexto é para falar de um dos animês/mangás que ganhou notoriedade nos últimos anos, a produção sulcoreana Solo Leveling e que compartilha muito da estrutura narrativa e visual da produção japonesa mas falta alguns aspectos fundamentais para que o material tenha de fato substância, e são problemas estruturais (e não, eu não vou pegar os graficos do Felipe Boni apara justificar as superestruturas do capitalismo), porque o material é 100% estilo.

Faz sentido que o estilo seja impressionante - e várias das cenas de luta são realmente interessantes de se ver, ainda que, passado o terceiro ou quarto confronto do protagonista fica mais claro que ele nunca corre nenhum real perigo - mas são apenas calorias vazias, é só salgadinho de milho e logo você quer mais, só que percebe que não vai conseguir extrair aqui. 

Solo Leveling é uma história Isekai em que portais mágicos se abrem aleatoriamente no mundo e estes portais levam a mundos de RPG onde os monstros de D&D são reais e, obviamente, uma vez que esses portais surgem as pessoas do planeta também tem maior propensão para combater esses monstros - na exata e idêntica estrutura de uma campanha de dungeons and dragons, incluindo classes e encantamentos, mas, de maneira a dialogar com o jovem que conhece RPGs através de videogames, também com caixas de pilhagem e recompensas aleatórias. 

 

 

 

Isso é basicamente um jogo de RPG moderno, não é mesmo?

Tipo Persona, né? Só que sem o carisma dos personagens, a motivação dos vilões, a construção de mundo e, sabe, o elemento mais importante de um jogo, a interatividade...

Ou seja, um jogo sem muita imaginação e criatividade com elemento bem típico de uma estrutura narrativa de Mary Sue em que o protagonista realiza todas as fantasias - e compensa todas as frustrações - do autor, mas, e pior que tudo, um jogo sem a decisão e ação do jogador, e sem qualquer imprevisibilidade pois tudo já foi arquitetado em avanço, e que, devido a parca habilidade narrativa do autor, fica muito claro o desfecho de cada evento antes mesmo de rolarem os créditos de abertura do episódio.

O gênero Isekai se popularizou bastante nos últimos anos - mais ou menos desde a pandemia, mas acredito que um pouco antes, e isso produziu uma série de obras, que honestamente, eu só de ver os títulos já me faz passar longe, e Solo Leveling (de novo, que é coreana e não japonesa) é talvez uma das grandes responsáveis dessa popularização do gênero em conjunto com Sword Art Online... 

E eu não sei se isso é uma limitação do gênero Isekai (que eu acho que comentei em outro texto, mas basicamente é onde alguém que é um nada aqui na Terra se vê em um mundo onde ele é incrível e genial - mais ou menos como Flash Gordon e John Carter, só que em universos inspirados por RPG) ou mesmo quais as características do gênero em si para ver se nele se inserem por exemplo Matrix ou Avatar (que pela minha descrição no parêntesis anterior funciona perfeitamente, certo?) ou se ele de fato começa e toma forma a partir de Sword Art Online no final dos anos 2000 começo dos 2010.

Mas, Solo Leveling especificamente falha em estabelecer tanto o personagem principal da sua narrativa - que singra entre mundos com liberdade e começa como um garotinho mirrado e que apanha sempre e se torna um cantor de K-Pop em algumas semanas (inclusive ficando mais alto) conforme se torna mais forte e confiante... No entanto, falta o desenvoolvimento ao personagem, que conforme ele 'sobe de nível' (como num jogo) e fica mais forte, não existe nenhuma alteração significativa em sua personalidade ou qualquer conflito.

Sung Jin-woo tem um dilema em que ele enfrenta criminosos (que estavam dispostos a matá-lo, é verdade) em determinado episódio e sua reação diante do cenário não é muito diferente de quando ele precisa enfrentar um monstro que lhe oferece pontos de experiência (para subir de nível), e mesmo depois não vemos o personagem lidando com isso com alguma consequência mais dramática ou significativa - mesmo que a história prometa um confronto vindouro com o irmão de um desses bandidos que é um cara muito mais forte e etc, só que é uma consequência muito vazia e rala em si.

Droga, tem toda uma narrativa de dois investigadores acompanhando o caso de Sung Jin-woo e um desses caras é um psicopata - que leva a outro confronto com uma pessoa sem nenhuma consequência, reação ou desenvolvimento do personagem - e no geral isso só vai cansando pelo quão vazio tudo é, se esforçando tanto mais tanto mesmo para ser legal com suas cenas de ação (que são boazinhas, claro, se você considerá-las fora de contexto narrativo) e ignora todo o resto, jogando clichês e estruturas subdesenvolvidas de narrativa e personagens para prencher o vazio dos capítulos.

E enquanto existem coisas que eu não gosto mas consigo entender o público desse material - e que eu não estou nesse público, como os filmes do Mário da Illumination ou Frieren que eu comentei não muito tempo atrás -  e eu sei que isso se aplica aqui também, não muda o fato que quanto mais eu penso sobre o material mais eu vejo as lacunas e falhas em sua execução e desenvolvimento, coisa que eu não consiga nos outros exemplos nesse parágrafo, só entenda que eles são para outro público que não eu.

Tudo bem se você curtiu e curte Solo Leveling, amigo leitor, seja feliz com o que te faz feliz. Eu só proponho que você tente observar um pouco mais de perto porque as rachaduras vão ficar visíveis e com isso talvez você consiga apreciar outras narrativas e histórias melhor desenvolvidas.

Tente ver que os desafios são todos risíveis, que o protagonista não tem nenhum desenvolvimento (e é uma Mary Sue - ou seja, uma auto-inserção do autor para compensar suas frustrações, tal qual a saga Crepúsculo), ao mesmo passo que a narrativa não oferece nenhuma reviravolta relevante ou mudança da estrutura "protagonista enfrenta desafio e vence" e mesmo as cenas de ação que são o grande chamariz para o material, que elas fracassam quando a vitória já está definida e o protagonista vai vencer quase sem nem suar.

Mesmo o ponto de algum maior mistério que é a janela pop-up que o protagonista (e somente ele) tem acesso, não parece gerar qualquer tipo de questionamento ou desenvolvimento narrativo além de alguma observação mínima aqui e ali.

Então é a coisa mais idiota que eu já assisti? Dificilmente, mas que se esforça para entrar na lista com toda a certeza se esforça (e honestamente, eu tenho que destacar que eu assisti aquele seriado do tiozão que quer ser um Kamen Rider, e aquilo é tão estúpido que quase faz Solo Leveling parecer Shakespeare em comparação)

9 de abril de 2026

{Resenhas de Névoas} Mistquinta - Brandon Sanderson

Se isso parecer com um elogio passivo agressivo, me desculpe, porque não é um elogio e nem é a minha intenção.

Eu acho que talvez Brandon Sanderson seja um ótimo escritor, ou, ao menos um escritor minimamente decente - haja visto o quanto já produziu e vendeu, e, o fato que conseguiu angariar tantos fãs em tão pouco tempo - mas com toda a certeza não é através do primeiro livro da 'trilogia original' (seja lá o que isso signifique) de Mistborn que esses predicados serão reconhecidos.

Ao que eu vejo, existe um elemento muito forte de marketing que supera em diversas vezes a qualidade do material, e, de tal maneira inclusive uma galera que tenta divulgar o livro se empolga mais pelo marketing nele imbuído que efetivamente pelo material. 

Não que o livro seja ruim, longe disso, mas não há nada particularmente interessante aqui também.

Os personagens não são originais, a história não é original, a forma de contar a história não é original... É tudo um grande requentado das sobras de ontem que vão formando um gigantesco monstro de Frankenstein literário enquanto Sanderson parece mais alguém buscando agradar todos os públicos como um marqueteiro ou consultor de Hollywood apelando para o público médio.

Com isso a obra opera em partes que funcionam para todos os públicos ao mesmo tempo que apelam para noções universais e tão conhecidas e reconhecidas da cultura popular (como um império maligno com um líder terrível com poderes incríveis - sabe, igual a Plasma Sword! - enquanto longas cenas de baile e intrigas entre a nobreza claramente parecem aludir ao público fã de Bridgerton e não obstante o herói tal qual Errol Flyn pulando por telhados e treinando um aprendiz no combate ao crime e super poderes não se parece com nada que eu conheça)...

Então é todo um resto de ontem requentado e que tenta apelar para todos os públicos (que não é muito diferente do que Hollywood faz de novo e de novo e de novo desde que Hollywood é Hollywood), e por mais que nada seja original, ao menos nada é particularmente ruim.

São arquétipos bastante conhecidos, são estruturas bastante familiares, mas é escrito bem o suficiente para funcionar e, Sanderson consegue criar personagens interessantes - como o líder rebelde Kelsier - e situações interessantes, com a estrutura de super poderes do livro e toda a dinâmica do regime opressor que quer bombardear o Irã, digo, que quer controlar a vida de todas as pessoas do reino.

Só que eu disse que não é minha intenção fazer qualque tipo de comentário elogioso, então mesmo que o livro tenha alguns predicados, ele joga tudo isso fora em seu ato final, e, não quero estabelecer spoilers para alguém que pretenda ler o livro então a versão sem spoiler é a seguinte:

Minha reação foi de embasbacamento com esse final.

Eu genuinamente não consigo imaginar um livro que eu li, não apenas recentemente, que de maneira tão súbita se resolva e conclua, e, pra mim, se conclua de maneira tão estúpida, excluindo é claro um material do Mark Millar ou algum livro muito ruim como, sei lá, a fase Richard Bachman do Stephen King, mas nenhum desses exemplos são de material que uma única pessoa tenha em qualquer momento dito que são bons.

O livro se divide em 5 partes (mais um epílogo), e, basicamente nas primeiras quartas partes desse material os rebeldes preparam seus planos e, tal qual Rocky Balboa apanham taxativamente round após round, após round, após round, e quando não seria possível que o juiz mantivesse a luta continuando (mesmo num filme do Rocky Balboa), você entra na última parte do livro e numa sequência de Deus Ex Machina dos infernos (pelas minhas contas foram uns três consecutivos numas trinta ou quarenta páginas), e tudo termina bem.

 

 

Perdão se é um spoiler leve, mas até essas reviravoltas da última parte, não tinha nada que apontaria que o livro terminaria com os heróis vencendo, na verdade os capítulos finais parecem inclusive manter o tom e a estrutura que vinha até ali - e os heróis tomam mais uma baita surra até que se inicia uma sucessão de sorte e eles ganham.

E para explicar melhor isso, eu não tenho como fazer sem spoilers, então fica a o aviso que daqui pra frente eu falarei de boa parte dos spoilers dos capítulos finais do livro, siga por sua conta e risco.

 

 

OK? Ok.

No final da quarta parte do livro, o Obi-Wan Kenobi/Batman morre assassinado pelo vilãozão e isso funcionaria muito bem como o fim do livro na minha humilde opinião. Um final devastador, os planos fracassaram e não resta muita esperança - ainda que, e aí tem uma sacada interessante, a morte do protagonista inspire uma revolução na população até ali mais passiva, e isso crie uma nova religião (ou seja, cabia um epílogo ao menos pra isso, mas deixando de lado o restante do bando do Kelsier).

Só que não é o que acontece, e a Robin invade a fortaleza do vilão, é capturada, espancada, humilhada e presa (onde ouve a história de sua origem secreta como filha de uma figura relevante no império do mal) e com a Robin presa e derrotada o negócio começa a virar - pois o Alfred aparece e tira ela da cadeia, mas não só isso porque o interesse romântico chega com um exército e inicia uma insurreição e ao mesmo tempo um personagem dado como morto reaparece e derrota todos os vilões extremamente poderosos durante o restante do livro e o vilãozão poderoso é derrotado com relativa facilidade...

E tudo isso num intervalo de dois ou menos capítulos, terminando com um tom de clara vitória para os rebeldes que tomaram um 7 a 1 a cada dez páginas.

Pô, é muito ruim esse final do livro e não tem como justificar uma coisa dessas!

Inclusive porque existia um tal livro com as memórias do vilãozão e ele não apresenta nada de novo ou relevante (ou que poderia ajudar a derrotá-lo) - afinal esse personagem dizimou rebeliões por mil anos e sobrevive a ataques diretos a si (inclusive tem um momento em que ele é atingido por lanças e segue andando como se fosse uma farpinha de nada)... E assim, nem o vilão é desenvolvido direito e nem a forma como ele acaba derrotado, ele tipo escorrega numa casca de banana porque precisavam terminar o livro e já tinha um baile beneficiente agendando em sequência então não dá pra enrolar muito mais.

Eu não consigo recomendar e não consigo entender como se tornou tão popular. 

6 de abril de 2026

{Filosofia de Segunda} Somos os vilões...?

 

Se a galera de direita tivesse alguma consciência ou inteligência, será que eles chegariam a essa mesma conclusão?

5 de abril de 2026

{Revisitando Clássicos} Y: O Último Homem - Brian K Vaughan e Pia Guerra 2002-2008

A série de 2002 de Brian K Vaughan Y: O Último Homem conta a história de Yorick Brown e seu macaco (sim) Ampersand que sobrevivem a um evento cataclísmico que elimina todos os seres com cromossomos masculinos do planeta. Esse cenário que, num primeiro momento poderia funcionar como uma paródio pornô e fantasia adolescente (certo? Ser o último homem do planeta), rapidamente degringola para algo bem mais apocaliptico e problemático.

Vaughan apresenta aos leitores do selo Vertigo do início do século XXI que ele claramente sabia pelas análises de mercado que seriam adolescentes ou jovens adultos em sua maioria homens, e, pelo fato que estavam lendo uma série de quadrinhos, gente mais introspectiva e que no geral era submetida a um tipo de material e conteúdo, bem, em que mulheres eram na melhor das hipóteses coadjuvantes de luxo e ou objetos para permear sonhos molhados (como a Psylocke do Jim Lee constantemente em trajes sumários ou, bem, a Vampira da Terra Selvagem).

Esses jovens adultos - não diferente dos jovens adultos de hoje - dificilmente compreendia a perspectiva e realidade feminina, e, através do substituto do público na forma de Yorick, Vaughan vai apresentando os cenários e problemas das mulheres na América e no mundo, certo? O personagem se depara com um grupo de presidiárias e ali surgem estatísticas sobre como mulheres são condenadas a sentenças maiores que homens pelos mesmos crimes, enquanto em outro momento uma freira católica busca encontrar um homem ainda vivo para permitir alterações na Igreja (Católica, de novo) para que assim mudem as regras na escolha de um papa (ou mais especificamente nesse caso, uma papisa)...

O mesmo vale para política - com primeiras damas querendo rasgar a constituição em nome de sua manutenção no poder - e outros aspectos da vida cotidiana - com super modelos tendo de trabalhar como lixeiras por exemplo. Tudo isso enquanto lidando com o luto (pela morte de seus maridos, filhos, irmãos e todos os homens que conheciam) além de uma gigantesca bomba relógio ambiental (considerando que animais bastante importantes para a subsistência e manutenção do ecossistema desapareceriam, com sorte, em questão de semanas - e o mesmo em se tratando de gado e alimentos).

Mas, e desculpe por dizer ou reforçar isso, a história de um sujeito que sozinho sobrevive sozinho a um evento cataclismíco rodeado por mulheres e que examina o papel das mulheres na sociedade não é uma série sobre o que é ser uma mulher. Essa é uma série sobre o que é ser um homem.

E eu sei que isso é extremamente narcisista e egocentríco, de que mesmo num mundo em que 99,999% da população é feminina, ainda assim o único homem restante continuaria sendo o ser mais importante da face da Terra, mas, a história é contada pela perspectiva de Yorick e seu grupo (a agente 355, a Doutora Alison Mann e o macaquinho Ampersand) e não de outras sobreviventes ou pessoas, cujas histórias são meros relatos ou narrativas tangenciais que cruzam seus caminhos.

Inclusive porque cada um destes personagens tem suas narrativas e objetivos próprios. Yorick quer encontrar sua ex-namorada (a quem ele propôs em casamento momentos antes do evento que exterminou 50% da vida no planeta), enquanto lida com desejos subconscientemente suicidas (da culpa de sobrevivente, mas não apenas ela).

A Doutora Mann se sente culpada e responsável pelo evento e busca reparar seu erro - o que motiva a toda uma busca ao redor do globo por um laboratório melhor assim como mais informações, enquanto a agente 355 lida com seu dilema de proteger e salvaguardar a vida dos outros enquanto abrindo mão de sua própria identidade. E Ampersand é um macaco capuchinho, não é como se você pudesse esperar mais sobre ele...

No entanto, e aí vem a grande sacada de Vaughan, Yorick e seu grupo personagens pequenos no contexto maior das coisas também. Yorick que é o nome de um minúsculo personagem de Shakespeare é alguém que vai migrar de lugar a lugar em busca de respostas enquanto encontrando mais perguntas, e, de maneira geral, mais dos problemas do velho mundo que ficou para trás. 

Conforme a série avança é que vemos o restante do mundo e o impacto mais geral da sinopse (supra), pelos olhos de Yorick e companhia, mas a premissa não muda e continua sobre um mundo que sobreviveu a uma crise sem precedentes e está a beira da extinção (e sim, era algo em voga na época tanto que The Walking Dead em 2003 assim como filmes e jogos sobre o assunto).

A diferença evidente é que, ao invés de zumbis ou a destruição do mundo de maneira mais abrangente, o que temos é uma extinção seletiva que traz toda uma série de complicações e problemas (muitos dos quais não são previstos), o que coloca a série com algo mais próximo de The Leftovers, mas com uma ênfase na ficção científica e os desdobramentos lógicos do cenário, enfocando no que acontece com o mundo - e o que as pessoas que sobraram precisam fazer para continuar em frente.

Tanto que é justamente por isso que logo no primeiro arco a doutora Mann (sim, conveniente que seu nome se pareça com 'Homem' em inglês), especialista em clonagem é a principal esperança para a sobrevivência e manutenção da humanidade, e é algo importante para a história considerando a, ainda recente primeira clonagem de uma ovelha, em 1996, mais até do que descobrir os motivos do incidente - ainda que todo mundo tenha suas teorias, e, conspirações e vão variando de atos divinos, vírus construídos em laboratório (com propósitos militares de derrotar a população chinesa) e mais uma série de outras teorias que vão pululando ao redor das sessenta edições, o que nunca é relevante ou mesmo importante, pois descobrir o causador do evento não vai revertê-lo.

E, honestamente, Brian Vaughan é um autor tão foda para criar personagens interessantes que chega a me irritar. Droga, ele vai cria uma série nova e todos os personagens parecem tridimensionais e pessoas que você encontraria numa rua qualquer - mesmo que sejam super-heróis que se tornam prefeitos de Nova Iorque ao impedir os atentados às Torres Gêmea, gente lutando numa guerra sem fim e tentando extrair o melhor de uma situação ruim ou o último sobrevivente de um apocalipse genético, e, sinceramente isso são só as séries autorais onde ele tem maior liberdade e qualidade para produzir algo no seu próprio tempo e ritmo.

Nisso mesmo que você ignore a história principal, somente as interações entre os personagens, somente os diálogos e ações já funcionam como uma aula na construção de cenas e cenários, e, Vaughan brilha a cada momento na série, criando personagens que, mesmo quando detestáveis e odientos funcionam perfeitamente no cenário e contexto.

 

Ressalvas e Problemas

No cenário atual, com gente cretina da direita tentando lacrar confundindo sexo e gênero, a ideia de um vírus mortal que mata todos os "homens" do mundo, e, é fácil enxergar que isso pode degringolar para mais de uma discussão problemática e que ignora tanto a premissa quanto, bem, o cenário de 2002 que era bem diferente do que vemos hoje. Droga, quanto tempo faz que um apresentador cretino quis falar sobre uma mulher trans na comissão das mulheres (que, lógico, quando só tinha homens presidindo e atuando nessa mesma comissão não havia problemas).

Quer dizer, Friends ainda estava no ar quando os primeiros volumes de Y: O Último Homem estavam começando sua publicação, e a extremamente popular série de televisão tem seus momentos mais constrangedores no retrato de pessoas trans (como o pai de Chandler), e, sinceramente, esse ainda é um retrato muito melhor que praticamente 90% do que vem antes (mesmo lembrando do mundo de Priscilla ou Para Wong Foo..., mas lembrando como Thomas Harris retratava o assassino Fada do Dente - no ganhador de Oscar de 1991 - e, será que eu tenho que falar da Praça é Nossa de novo?).

Mas isso eu acho que é um problema nosso em não ser capaz de separar a obra do contexto histórico atual, e puta merda, vamos ser honestos que é muita infantilidade olhar sob o contexto atual para qualquer coisa feita num outro cenário - e cobrar que esse material tenha os mesmos valores atuais. É uma noção utópica e ridícula que já fracassou quando falamos sobre os cigarros nos desenhos antigos (sim) ou do Monteiro Lobato ou de qualquer outra coisa. Mas sabe o que é pior? Os adversários políticos não só estão cagando para o assunto como mesmo quando isso já é visto como ponto pacífico continuam a tentar criar polêmica - vide um apresentador nojento e corrupto de direita tentando criar caso tão recente quanto 2026, ou o deputado que andava em jatinho de bandido fingindo que não há problema ou preconceito em considerar gente negra como bandida...

Sinceramente eu não vejo motivo para qualquer incômodo ou mal estar, considerando o que é a proposta da série de funcionar como de maneira a introduzir conceitos bem mais complexos para um público que está acostumado a uma mídia onde criaturas super poderosas resolvem todos os problemas do mundo com seus punhos - ou mesmo da cultura popular tradicional quando personagens LGBTQIAPN+ são representados no geral. 

E, insisto, o problema não é ou está na série em si mas no mundo real e a percepção de gente que insiste em confundir sexo e gênero para lacrar na internet...

Quer dizer, não é nem necessário a gente procurar exemplos na do livro que é vendido como grande exemplo de moralidade, sim, a Bíblia em que ocorre a morte generalizada de pessoas ditas ruins ou imorais (no dilúvio ou em Sodoma e Gomorra só pra ficar em exemplos bem conhecidos) mas que não traz exatamente uma contextualização de que as pessoas boas conseguiram se salvar ou foram avisadas para dar uma voltinha uns dias antes, não é mesmo?

"E então o anjo Galadriel surgiu nos céus e clamou para todas as pessoas boas de Gomorra para segui-lo" ou um capítulo de erratas em que Deus se apresenta a todos os inocentes mortos nesses eventos e diz 'Pô, foi mal... Tava doidão'.

A ficção não precisa de muito contexto, apenas da ideia, e, aqui a ideia é debater uma questão mais complexa sobre gênero de maneria acessível e, para um público bem menos familiarizado com essas ideias (em 2002) e ao contrário do que acontece com 100 Balas (da outra resenha), as possibilidade de histórias aqui são muito maiores, e, Vaughan busca isso - explorando como esse mundo se adapta e sobrevive nos mais diversos aspectos - e se tivesse mais dez, vinte ou quarenta capítulos poderia facilmente abordar um número muito maior de questões e propostas.

Vaughan poderia abordar por exemplo tribos no meio da Amazônia que acabam descobertas décadas mais tarde e completamente intocadas pelos efeitos deste apocalipse ou mesmo o aspecto de mulheres trans sobrevivendo, e lidar sua perspectiva e dilema existencial em sobreviver num evento que matou todos os homens.

Recomendadíssimo, mesmo se não continuar 'atual'. 

2 de abril de 2026

{Resenhas de quuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuinta} Uma vida pequena - Hanya Yanagihara

Resumo dinâmico: Verborrágico (e masturbatório).

Eu poderia fazer como o livro e ficar dias te explicando porque isso é intragável, mas vamos para uma comparação simples?

Esse livro tem 784 páginas - pouco mais que o primeiro livro de Mistborn, sobre o qual eu falarei na próxima semana, com 864, enquanto o primeiro livro de O Senhor dos Anéis tem 576, e, quase o dobro de alguns dos meus livros favoritos de José Saramago como O Ano da Morte de Ricardo Reis, Levantando do Chão e Memorial do Convento, quase todos na faixa das 400 páginas.

(Só um parênteses aqui uma vez que épicos de fantasia tendem a um número maior de páginas justamente porque precisam apresentar uma grande quantidade de conceitos, muitas vezes suas histórias se passam em mundos diferentes do nosso e com raças, dinastias nobres e estruturas sociais completemante alienígenas aos nossos conceitos - e desenvolver estes aspectos leva naturalmente tempo e páginas - o que não é o caso do livro em questão). 

Ainda mais quando o livro é basicamente Friends mas para a HBO (sabe, com aquela ousadia de Euphoria com sexo, drogas, violência e pretensão).

Basicamente um grupo de amigos que se conhece na época da faculdade (ou seja, início da idade adulta) e tem de lidar com os perrengues de empregos, namoros, responsabilidades e amadurecimento (clap, clap, clap), só que, sabe, com personagens mais desagradáveis e desinteressantes. Eu não quero fingir que o material não possa funcionar para algumas pessoas, e, sinceramente não vou insultar qualquer uma das pessoas que gostaram ou gostam do material - mas eu vou sugerir a vocês que busquem outros autores como Kazuo Ishiguro com seu Uma Visão Pálida das Colinas ou Min Jin Lee com Pachinko e, droga, tem três livros fantásticos do Saramago no parágrafo anterior, para que vocês vejam o que é um material bem escrito e executado em comparação.

O livro perde muito tempo com os personagens secundários - uma vez que a 'vida pequena' da qual ele quer cobrir é do rapaz chamado Jude que passa por todo tipo de experiência desagradável durante sua infância/adolescência, que leva a um tipo de comportamento auto-destrutivo, e, uma incapacidade de aceitar coisas e pessoas boas ao seu redor - perdendo esses elementos para um personagem de família rica que se sente perdendo o contato com suas origens raciais, um outro personagem que cresceu em uma fazenda e teve pais pouco carinhosos e um terceiro que, bem, é só um babaca, enquanto navega pelos grupos crescentes de amigos, conhecidos, colegas de trabalho e outros tantos que vão cruzando pela vida de cada um destes personagens e aumentando exponenciamente a duração dos eventos, muitas vezes chegando em lugar nenhum, ao mesmo tempo que travando o progresso da trama principal.

Na trama principal, inclusive, tem um certo sadismo em que a autora vai levantando dúvidas sobre o evento que descrever ser o estopim e ponto mais desagradável da vida do protagonista (quando trará algo mais assombroso e terrível em seguida), e eu não quero relativizar ou diminuir o impacto das situações - e cenas - mais chocantes e perturbadoras que o protagonista passa, longe disso.
O que eu quero enfatizar é que acho desnecessário toda a fanfarra e talvez os requintes de crueldade que a autora usa para executar esses traumas ao personagem, algo que, com menos traumas e menos páginas funcionaria igualmente, diria até que muito melhor pois seria mais incisivo.

Talvez não tenha funcionado pra mim, talvez nunca vá funcionar pra mim... Mas eu simplesmente não consegui entrar na proposta do livro e conforme avançada a passos glaciais ficava cada vez mais distraído e pensando em outros livros melhores que eu podia ler no lugar dele (e até por isso tantas comparações no texto).

Só posso dizer que, honestamente, me parece muito pretensioso no quanto o livro gasta de tempo para contar uma história, que, talvez funcionasse melhor num conto curto, ou mesmo num livro beeeeem mais curto com umas 250-300 páginas indo direto ao ponto e focando no que realmente importa da tese central da história (que eu não sei dizer se é sobre trauma unicamente, ainda que pareça ao menos o cerne da questão, até porque me parece que existe bem mais elementos que a autora tenta trabalhar mas, honestamente me escapam).

30 de março de 2026

{Filosofia de Segunda} Vida

Voltando aos poucos, vou voltar com a 'filosofia de segunda' com algumas músicas que ultimamente eu venho ouvindo e que traduzem meu estado de espírito atual.

Um abraço a todos, quinta tem resenha (Uma Vida Pequena) e domingo a terceira parte de revisitando clássicos (Y O Último Homem), com a quarta parte (de Escalpo) já programada para daqui quinze dias.



 

1 de março de 2026

{Editorial} Luto

Minha mãe faleceu na última sexta-feira, e, ainda sem palavras ou cabeça para pensar em qualquer coisa eu só quero avisar que o blog ficará suspenso temporariamente, talvez apenas com alguns posts já programados para os próximos dias ou meses, até que eu consiga me situar melhor e, bem, voltar ao meu normal.

Isso não é fácil para ninguém - e quando a situação é mais rápida, nem dá muito tempo da gente pensar ou se preparar, e, foi justamente o caso - e minha mãe era uma pessoa difícil mas que, quanto mais eu penso nela nesses últimos dias, mais eu vejo e entendo o quanto isso também era muito difícil para ela.

Ela perdeu meu pai quando eu e meu irmão erámos muito pequenos ainda, e, ela teve que ralar muito para garantir o mínimo para nós dois - trabalhando demais e se esforçando mais que qualquer outra pessoa que eu conheça ou conheci. Ela voltou a estudar depois de adulta para completar o fundamental e o médio, ela se esforçou demais e por mais que fosse mais reservada (algo que eu também sou), eu entendo que parte disso para ela era mais geracional.

Pra geração dela a ideia de depressão era frescura e não obstante a ajuda especializada era buscar "médico de louco", formando um estigma social quase intrasponível para o pessoal da geração dela, e ainda que nada disso tenha a ver efetivamente com a morte dela - ela foi diagnosticada com leucemia pouco mais de 20 dias atrás e teve complicações com pneumonia na última semana - a depressão com toda a certeza foi um fator que a impediu de fazer mais, de viver mais, e o estigma social a impediu de buscar mais e melhor ajuda para seu problema.

Ela sempre falou que queria conhecer o Rio de Janeiro e o Cristo Redentor, e, uma das minhas maiores alegrias foi que eu pude levá-la para lá em 2010 (e com isso ajudá-la a realizar seu sonho), e, depois pude fazer parte de outra viagem que ela sempre quis fazer em 2018 para Foz do Iguaçu, e, na medida do possível tentei ajudá-la de uma forma ou de outra, por mais que, sempre nos fique a impressão de que nunca foi o suficiente e que sempre poderia ter feito algo a mais (como eu disse ela era fechada e reservada e eu não sou diferente).

Eu espero e muito que ela não tenha sofrido em seus momentos finais, e, que se falhei em algo com ela, que ela possa me perdoar, mas mais que qualquer coisa, espero que ela esteja em algum lugar melhor, e que possámos nos encontrar algum dia, pois eu devo uma série de abraços a ela.

 

 

 

Para aqueles que me acompanham e acompanharam até hoje, essa não é uma despedida, apenas um até breve para que eu possa organizar minha cabeça e minhas coisas.