Olá, olá, o tema do post de hoje é sobre a longa análise do final de The Boys feita pelo Filipe Boni que erra em alguns elementos chave e eu vou tentar reforçar e dissecar os principais elementos errados ou ignorados pela análise do cara, até porque eu admiro muito o trabalho dele e acho que ele ao contrário de muito youtuber não erra de propósito pra gerar likes ou fomentar polêmica.
Primeiro de tudo, o vídeo falha em definir claramente o problema da estrutura da indústria do entretenimento (talvez porque Boni já tenha falado em outros vídeos e não quisesse se repetir, mas na minha opinião prejudica a conclusão), e, nesse caso mais específico da indústria televisiva do entretenimento.
Ao contrário do que acontece com a música (que ele cita com o problema do spotify), com livros ou quadrinhos (em que, por mais difícil que seja, ainda é possível se autoproduzir e promover - e, inclusive deixo aqui pros parênteses a condição do próprio cinema nessa mesma caixinha, onde podemos citar o bem recente Megalópolis, que sim é um fracasso, mas não faltam exemplos indies muito bons como Primer ou, bem, inúmeros filmes de terror de baixíssimo orçamento), nas televisão isso não é uma opção.
Produzir uma série depende de uma opção para veiculá-la, não tem meio termo. Não adianta ter uma paixão pelo projeto, se esforçar enormemente para produzir um piloto e não ter uma emissora para divulgá-lo para o mundo, e, antes da Netflix isso era tradicionalmente as emissoras de televisão (ainda que, bem, continue assim hoje em dia inclusive com as empresas de streaming fazendo parcerias com emissoras para divulgar e propagar seu material para um público maior).
Uma série de tv essencialmente sempre dependeu de um processo bastante cristalizado da criação de um conceito, que se aprovado gera um piloto, que se passar pelos testes de público (sejam testes a portas fechadas ou testes com a veiculação do episódio em algum bloco de estreias tradicional) passará pela serialização.
A fase do conceito pode ou não ter a interferência dos executivos - que buscam uma ideia específica ou propõe uma ideia para que a partir dela os criativos produzam a série - mas todas as fases seguintes terão diretamente interferência. Os executivos vão definir o orçamento para o piloto e posteriormente por episódio, vão definir ou vetar o elenco, vão definir o horário de transmissão (e a quantidade de propaganda que o material receberá para divulgação desse horário) e por aí vai. Exemplos não faltam de séries que falharam simplesmente pela mudança de horário sem efetiva divulgação das redes de televisão.
Só que esse processo, que inclusive nasce do rádio e se aproveita de
estruturas tradicionais do circo e do teatro (ou seja vai agregando
ideias e estruturas de entretenimento de massa popular já consolidado)
depende das caixinhas disponíveis dos horários para a veiculação de
programas (ou seja a grade de programação) e do segundo grupo de
caixinhas que são o público, e, por conseguinte no que interessa para a grade dos anunciantes para
esse público (o que depende e molda a estrutura e conteúdo do material).
E essa questão do espaço para os anunciantes e para o anúncio desde os primórdios da tv - e como eu comentei pouco acima, como uma herança do rádio - já estava incrivelmente enraizado de forma que era perfeitamente aceitável e natural que um personagem de desenho animado (para o público infantil) vendesse cigarros como se fosse nada.
Essas caixinhas acabam definindo gêneros pouco escapáveis e altamente replicáveis (como o seriado policial, o drama de tribunal, o seriado hospitalar, a animação, a comédia e por último mas não menos importante o drama adolescente), às vezes mesclando e se misturando entre si mas dificilmente saindo dessa(s) estrutura(s), no máximo agregando alguns elementos e ideias.
Isso tudo já meio que responde um questionamento do Boni em parte de sua análise se ficamos mais cínicos ou a tv sempre foi cínica, e, a tv sempre foi cínica (talvez a gente só não prestasse tanta atenção), e olha que a tv nem escondia esse cinismo da gente... Se a gente tentar só lembrar o que era a televisão brasileira nos anos 1980 e 1990 (ou assistir a esse vídeo sobre o filme Bingo - O Rei das Manhãs que lembra dos momentos mais bizarros da programação infantil brasileira, incluindo, obviamente Silvio Santos traumatizando a Maisa e falando que a Xuxa não tinha alma). Mulheres seminuas se digladiando numa banheira por sabonetes e não é roteiro de material de canal adulto, passava de boa na tv aberta nos domingos?
(E pra galera vira-lata de plantão, não é exclusividade do Brasil nem é coisa de agora... Pra cada 1 seriado bom, existem centenas de Depois de M.A.S.H.)
O streaming mudou um pouco o jogo por permitir um acesso mais rápido de conteúdo (o crunchyroll libera episódios de animês - já com legendas - no mesmo dia da exibição no Japão, por exemplo), e com a perspectiva de oferecer acesso a um leque maior de conteúdo que, bem, dificilmente estariam próximos do público como produções indianas, sulcoreanas, árabes e por aí vai. Enquanto tradicionalmente na tv pública por décadas só se via projetos feito pelas emissoras norte-americanas e olhe lá da BBC, agora com o streaming de repente um projeto da Espanha e depois da Coréia que se torna o maior fenômeno global...
Essa é uma mudança de pa... (droga, eu estou tremendo só para completar com ódio dessa frase de coach), mudança de paradigma da estrutura do streaming, e isso mudou com certeza a forma para produção de conteúdo.
A Netflix ou a Amazon ou a Paramount podem gastar milhões para produzir um piloto de uma série que o criador dedicou anos planejando e pensando ou pode comprar por uma fração disso uma série já pronta que foi produzida no Azerbaijão ao mesmo tempo que pode negociar diretamente com o criador, ou, de forma mais específica, pode usar big data e verificar as tendências do público - como a Netflix fez com o caso de House of Cards, em que ao contrário da estrutura mencionada acima (de produzir um piloto, analisar resposta do público e etc), eles buscaram todas as caixinhas que interessavam para a partir daí montar o piloto.
O público procura (e continua assistindo) bastante filmes do David Fincher? E papéis do Kevin Spacey? Ah e também gosta de thrillers políticos? Pô, taí a demanda para um remake do seriado britânico de mesmo nome! Com mais e mais tempo de análise (muitas vezes inclusive sem consentimento do público através de cookies não autorizados) os algoritmos vão se alimentando cada vez mais com nossas buscas e termos de forma que os serviços de streaming saibam cada vez mais sobre os hábitos de consumo dos espectadores e consigam produzir cada vez mais um produto que atenda nichos para manter mais e mais retenção de assinantes (e sim, o vídeo comenta sobre isso com o churn rate que as empresas de streaming tem de levar muito em consideração - e o Boni faz uma análise muito melhor que a Infomoney).
Do final da série em si tem mais comentário sobre como as coisas são convenientes e o material serve mais para desenvolver spin-offs que efetivamente trabalhar sua narrativa e resolver sua trama... Mas eu não sei se essa é de fato uma particularidade da série da Amazon (não é como se o Grande Gazoo servisse a algum papel além de conveniência narrativa ou ).
Como eu comentei até aqui, não é particularmente algo novo ou mesmo um fenômeno pior hoje em dia que em outros momentos históricos (Os Simpsons nasceram como um spin-off do show da Tracey Ulman - que hoje é só uma nota de rodapé na história de Os Simpsons), está mais na tendência de que tudo é um remix (que já tem mais de 10 anos já), e, como o Patrick Willems destaca sobre o fim dos videoclipes, ocorreu uma mudança nos gastos e estrutura de produção.
O que fazia sentido de gastar milhões para um videoclipe (ou até um comercial), que formaria um profissional para trabalhar nos filmes ou mesmo na tv, simplesmente não faz mais sentido hoje, e o mesmo ocorre com a produção de conteúdo para tv.
Produzir um piloto, analisar reações dentro de perfis e públicos demográficos, buscar... A análise do algoritmo já permite construir a caixinha do jeito que o estúdio quer e precisa e depois só partir para a produção. Isso gerou o seriado dos irmãos Russo, Citadel, ou o filme com Ana de Armas e Chris Evans Ghosted...
Mas análises ruins de executivos não são uma novidade de hoje, só as ferramentas preguiçosas mesmo.
E nem são exclusividade de executivos de cinema ou televisão, é só lembrar o 'isso é um Xbox' que nem faz tanto tempo assim.
Só que a gente tem que ver que o público reage e reflete muito justamente nessas respostas de algoritmos e no que os executivos vão autorizar e contratar. O público reagiu e responde muito a essa ou aquela série então mais conteúdo e material é produzido - falei disso sobre Round 6 que não tinha muito motivo para uma segunda temporada, Ted Lasso definitivamente não tem motivo para uma quarta temporada, mas mesmo Lost um pouco mais de tempo atrás e puxando pela memória não vão faltar exemplos de materiais que precisam ser bem mais concisos e curtos.
Nada disso, no entanto, é novidade.
O público tem dificuldade para reagir a materiais que ousam sair das caixinhas.
Star
Trek pode ser um fenômeno hoje em dia, mas no período original da
série, ela foi cancelada devido a audiência baixa - ainda que o público
fervoroso motivou a série animada, os filmes e os eventuais spin-offs,
no entanto nem toda série tem essa sorte.
Boas séries acabam se perdendo e escapando do (grande) público, inclusive pela baixa resposta e comentário sobre elas (que oferece o viés de confirmação que, uma vez que elas não geram conversa online, não vale a pena continuar investindo nelas). Barry, Tokyo Vice, O Ensaio, Detroiters (ou qualquer coisa do Tim Robinson) - e olha que estou mencionando só material de 2020 pra cá praticamente... - quase não geram burburinho online e acabam canceladas prematuramente.
O público discute e reage a séries ruins, o que engaja (e engana) o algoritmo a continuar produzindo mais desse conteúdo conforme ele gera mais engajamento, reação e comentários - que são as métricas dos algoritmos.
E o público sempre reage mais ao negativo na internet - inclusive um dos pontos em que a série The Boys engaja com o público ao destilar ódio e vitriol pra todo lado desde a primeira temporada. Tem alguma dúvida sobre o quanto destilar ódio move a internet? Dá uma olhadinha em todo o discurso sobre o jogo Mixtape das últimas semanas.
Quem assistiu The Big Bang Theory por doze temporadas (muito provavelmente a galera da 'Murica rural que se via validada pelo pessoal inteligente sendo ridicularizado semana após semana? Imagine, né?)? Não sei, mas isso levou a um spin off (que não sei também quem assistiu) e a uma carreira para a atriz que fez a Penny (também não sei exatamente porque), enquanto seriados vastamente superiores como The IT Crowd ou Silicon Valley...? Bem, quem lembra deles (ou até consegue achar esses dois em algum lugar?)
Isso é a economia da atenção, e o streaming usa isso até dizer chega. Numa das entrevistas de bastidores de Game of Thrones, a atriz Sophie Turner fala especificamente sobre isso como ela viu uma atriz que fez o teste antes dela (e que ela conhecia e sabia que era muito melhor que ela - e, palavras da própria Sophie, não minhas), e que perdeu o papel porque tinha bem menos seguidores no instagram.
Veja só, eu nem vi o final de The Boys (e justamente por isso não comentei uma vírgula sobre o que acontece nele), cansei da série já faz um tempo e até bem honestamente já não achei os quadrinhos lá grande coisa (e já falei isso lá em 2020), mas eu acabo de novo e de novo respondendo ao conteúdo porque isso gera engajamento, enquanto eu tento falar de uma série legal mas tenho medo de jogar spoilers, tenho medo de estragar o conteúdo e acabo vendo o material desaparecendo na obscuridade.