Olha, começando do começo, vamos deixar uma coisa bem clara: eu tenho zero nostalgia por Toy Story enquanto franquia.
Eu não acho que eu fosse "velho demais" quando o primeiro filme chegou aos cinemas, talvez estivesse na idade exata pra ele, eu só estava em outra (pois foi a época em que os animes começaram a ganhar popularidade no Brasil, e em 1995 eu tava completamente obcecado com Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball ou Yu Yu Hakusho...
Quando as continuações saíram, bem, menos e menos que eu me importei, e, como nunca foram filmes que meus sobrinhos se importaram também eu francamente nunca dediquei qualquer mínima atenção à franquia. Sei que tem marmanjo que chorou com algum ou mesmo todos os filmes da série, mas, nenhum deles teve qualquer significado pessoal ou relevância pra mim.
Isso significa que pra quem teve alguma relevância essa pessoa está errada? Longe disso, mas eu tenho mais distanciamento, senão imparcialidade.
O primeiro filme é mais impressionante pelo aspecto técnico de animação que, simplesmente não existia nada parecido na época - e levou um bom tempinho até pra chegar perto. Narrativamente, bem, é meh.
Sim, é bonitinho e bobinho pra se assistir com uma criança mais nova, mas a ideia de brinquedos falantes e sentientes, bem, já foi feita a exaustão a essa altura do campeonato (e não, não começou com Toy Story ainda que eu lembre mais de exemplos de horror com essa premissa). Mas o que mais me incomodou sempre no filme, de uma maneira geral, reside numa questão mais cínica sobre como ele é, acima de tudo, uma propaganda de brinquedos e uma obra para os pais carolas e caxias do mundo.
Quer dizer, o Andy (o dono dos brinquedos do título do filme) é o menino de ouro enquanto o Syd (o vizinho que destrói seus brinquedos) é retratado como uma espécie de vilão justamente por "maltratar" brinquedos, por não brincar direito (como se tivesse jeito de brincar), afinal precisa manter intacta a marca registrada e o direito autoral do pedaço de plástico produzido em massa na China para as crianças obesas da 'murica...
O que é muito coisa de pai carola... De que a criança que "brinca direito" está dando valor ao esforço dos pais ou algo igualmente idiota (quando colocar no micro-ondas pra verificar se vai ou não explodir traz muito mais de uma mente crítica e científica em busca de confirmação de suas teses). Inclusive porque a ideia de dar valor aos brinquedos aqui tem muito menos a ver com uma infância sadia brincando com amigos e ao ar livre e mais com uma gigantesca paranoia social de que é melhor a criança em casa sozinha com todos os brinquedos que o dinheiro pode comprar que no mundo real correndo o risco de ser sequestrada para um ritual satânico em uma pizzaria democrata...
Então fique em casa, brinque com os produtos oficiais (TM) e consuma. Não tente justificar ou entender que a tese central é incrivelmente assustadora, afinal a ideia de objetos inanimados produzidos em massa com consciência pelo simples fato de terem olhos de plástico igualmente produzidos em massa deveria dar calafrios em qualquer pessoa.
(E, sim, o filme não é sobre os brinquedos e sim usando os brinquedos como substitutos dos pais - e inclusive tem a ideia do divórcio com o pai tradicional sendo substituído pelo pai mais novo e modernoso).
Mas eu sei que é um produto infantil feito para contextualizar um conceito comum da visão de mundo das crianças de perceber que o mundo continua funcionando quando elas não estão por perto para observar, com uma lição sobre amizade e aceitação de mudanças (a menos que sejam muito diferentes, né? Afinal violando os direitos autorais e marca registrada você não pode mais ser considerado um "brinquedo").
Curiosamente, numa volta completa, o quinto filme da franquia traz a exata mesma ideia de um (de amizade e aceitação de mudanças), mas que parece mais bobo e fútil que da primeira vez.
Você sabe que já existiam videogames em 1995 quando o primeiro filme foi lançado, né?
Mesmo se eles dependesse de cartuchos e não estivessem sempre conectados na Internet, os videogames já eram uma parte da vida de muita criança e adolescente, desde o NES da década de 1980, passando pelos gameboy e tamagochis dos anos 1990 até os switch e celulares de hoje em dia levando mesmo os mais jovens a abandonarem os brinquedos em troca do entretenimento virtual (sabe, o que é a premissa desse quinto filme da franquia).
Caros leitores, meu sobrinho de seis anos se alfabetizou com o celular, e eu duvido que ele faça ideia do que é um cowboy (como o Woody) além do conceito mais geral da coisa...
Então não sei ou entendo quando o filme quer glorificar os brinquedos e vilanizar a tecnologia ao mesmo passo que tenta criar uma narrativa confusa sobre a solidão e ansiedade das crianças de hoje em dia (que tem dificuldade de interagir com o mundo real fora de uma tela, enquanto brincar com bonecos é perfeitamente normal e aceitável - afinal é o que pensam os pais carolas e caxias).
Eu não sei... sinceramente o cinismo fala alto demais, e por mais que seja um gigantesco sucesso de bilheteria (ainda que produzido para reduzir churn e manter assinaturas de servico de streaming), ao ponto que acho dificil olhar para esse filme com bons olhos ou mesmo com olhos menos cínicos e capazes de dar uma chance real (sabe, como os brinquedos acabam fazendo com a tecnologia no final das contas pois é muito importante agradar nossos lordes corporativos).
Talvez pra quem tenha enorme nostalgia pelo primeiro filme ou alguma de suas continuações e agora tem a oportunidade de ver o quinto filme com um filho ou sobrinho, talvez isso seja uma experiência completamente diferente e muito mais interessante e mágica.
Pra quem não se importou tanto com qualquer um deles, bem, eu acho dificil esperar algo diferente do cinismo...
E para o cinismo a melhor alternativa seja esperar sair no streaming (seja o pago ou aquele que diz yeaaarh) ou pela obvia e obrigatória próxima peça da franquia para aí assistir os anteriores para se atualizar.


