Quando eu era criança, na faixa dos 7-8 anos eu me lembro que ganhei de minha mãe um videogame pirata que funcionava com os cartuchos do Nintendo - tanto os cartuchos japoneses como os americanos. "Ganhei" usado bem livremente afinal o presente era meu e do meu irmão ainda que isso seja bastante irrelevante pra história, e o videogame, salvo engano, veio com dois cartuchos, que, na época eu me lembro que todo mundo usava o termo 'fita'.
Uma era uma daquelas compilações com centenas de jogos (que na verdade contém várias repetições, e em alguns casos apenas o fases separadas como um jogo diferente), que eu me lembro bastante de um joguinho chamado Circus Charlie (cuja musiquinha irritante tocava por horas a fio em casa e minha mãe simplesmente adorava, e recentemente quando eu encontrei para um destes consoles retrô trouxe toda uma enorme camada de nostalgia), e, um segundo que trazia o jogo que eu quero falar, e, que até onde sei nunca foi localizado ou lançado fora do Japão.
Na versão pirata do videogame pirata o jogo se chamava 'Firebird' (e eu lembro bastante desse nome e desse jogo que eu passei muito de minha infância completamente encantado e perplexo pelo jogo - e vou descrever mais porque em breve), e passei muito tempo tentando descobrir efetivamente que jogo era e qual seu verdadeiro nome. Tentei encontrar novamente o 'firebird' ou descobrir qual era o verdadeiro nome ou o verdadeiro jogo que eu jogava na minha infância.
Descobri coisa de um ou dois anos atrás que se tratava de Hi No Tori: Houou Ken: Gaou no Bouken, (que seria algo como 'Fênix, a Jornada de Gao' numa adaptação mais livre) de 1987, produzido pela Konami - que é bastante conhecida e famosa, responsável por Castlevania e pelos jogos mais famosos das Tartarugas Ninja - e que basicamente é uma adaptação da série de Osamu Tezuka chamada Fênix.
Fênix é um quadrinho que conta uma história (nunca concluída) que atravessa eras e gerações sobre a ave imortal e seu impacto na vida de diversas pessoas - e eu não vou entrar em mais detalhes porque eu ainda não li o material. O jogo adapta parte da série (eu acho, pois vale destacar que eu nunca li Fênix) e segue o personagem Gao (que é o protagonista narigudo que controlamos) enquanto ele viaja pelo mundo (e aparentemente pelo tempo e espaço) em busca de fragmentos de um pergaminho ou pintura (até hoje não sei) da ave lendária.
Também não sei qual o ponto de conseguir esses fragmentos ou o que Gao tem como objetivo (eu falei que o jogo que eu tinha era pirata, né? Nunca tive um manual para contextualizar o que rolava na tela) Droga, eu passei anos tentando descobrir qual era o jogo e, por mais que eu tenha jogado e completado fases e mais fases eu não sei qual é a trama.
Veja, o jogo é bastante simples por toda e qualquer estrutura, ao ponto de que mesmo que o idioma seja japonês, italiano ou qualquer outro, a iconografia visual torna claro quem é o protagonista, quem são seus adversários durante o nível e quais os riscos que apresentam. Mesmo se não ficar claro o que é o monstro a, b ou c que o protagonista enfrentará ao final de cada nível ou o que efetivamente acontecerá ao completar os fragmentos da fênix, é fácil observar se perder na musiquinha tocando repetidas vezes.
E é incrível o quanto eu passava horas tentando entender esse jogo birutaço em que você completa a fase para descobrir um dezesseis avos do fragmento da fênix para, ao completar todos os dezesseis terminar o jogo - o que é mais fácil dito que feito. Um dos elementos que, enquanto criança me fascinavam muito no jogo estava justamente na ausência de linearidade em progressão, o que permitia terminar uma fase e mudar para outro "mundo" aleatório do contexto da história (afinal o jogo traz fases no Japão feudal, na pré-história com dinossauros e tudo mais e num futuro esquisitão), e a migração por estes mundos se dá passando fases ou adentrando portais espalhados pelas muitas fases.
Isso, inclusive, permitia um loop perpétuo (em que completar um número de fases te coloca de volta na primeira desse 'mundo' até que encontre um portal para migrar para outra era), e a ausência de ordem tradicional só acrescenta ao charme do material, inclusive porque faz sentido no contexto do material que inspira esse jogo - já que a estrutura não linear é o que define o progresso da história entre as mais diversas eras com a fênix como o fio condutor entre os capítulos (e, não, eu não li o material ainda).
Eu, curiosamente, consegui assistir ao animê que dá origem a história de Gao (e, intrigado pesquisei mais sobre o contexto do mangá, descobrindo que existe muito mais na versão gráfica que na animada), e é uma trama fascinante de redenção e carma dentro dos contextos do budismo, que, sinceramente não me parece nem de longe adaptada no jogo sob nenhuma perspectiva, mas que torna a coisa toda mais bizarra e curiosa.
Quer dizer, Gao é um bandido assassino (e vamos deixar por aqui pela brevidade) que se vê guiado pela fúria em uma constante de crime e violência, e se encontra com um artesão - que ele machuca sem nenhum motivo aparente, além de que ele resolveu assim fazê-lo. Por um bom tempo, Gao é apenas um criminoso sem moral, escrúpulos ou qualquer propósito e motivação maior na vida, até que seu orgulho o faz matar a única mulher que o amou em vida e isso o coloca num caminho de sofrimento, introspecção e angústia.
Exatamente o material para um videogame de 8 bits, não?
E exatamente o material para um videogame de 8 bits que um guri brasileiro de 7 anos estaria jogando, não?
Mas é incrível o quanto o material me manteve interessado, confuso e intrigado todos esses anos, mesmo sem entender o imaginário que estava nas telas ou o que diabos estava acontecendo ou qualquer outra coisa, e, o quanto, hoje, sabendo mais sobre o material, eu me vejo ainda bastante interessado, confuso e intrigado para descobrir mais sobre o mangá e o animê que inspiram esse jogo.
Se o jogo vale a pena sob qualquer métrica ou é uma joia rara e desconhecida da livraria do Nes, eu não vou sequer cogitar além de uma mera curiosidade no contexto de tudo que eu já falei até aqui (é um jogo que adapta uma parte de um filme que adapta um trecho de uma obra não acabada de um mangá - e tem todo o contexto da história em si que completamente se perde na adaptação), e curiosamente tem em si um elemento metalinguístico curioso em si.
A série retrata constantemente personagens buscando (e perdendo sua sanidade ou encontrando seus reais propósitos nessa busca) pela fênix lendária e mitológica através dos mais diferentes motivos, e, esse que vos relata numa óbvia autoinserção passou boa parte de sua vida em busca dessa ave de fogo (mesmo que fosse apenas o videogame).
E claro que o final do jogo traduzindo a música do animê para 8 bits é digno de nota por conta própria.

