Eu já vi bastante gente criticando o filme, e, honestamente, motivos não faltam para dizer que é ruim.
Droga, eu poderia fazer todo um post apenas falando do que o filme faz de errado (e, caralho, é muita coisa), mas não acho nem que valha minimamente a pena considerar tanto tempo para falar mal do material...
A impressão que eu tive, num primeiro momento, foi a de que existe um amor genuíno pela franquia por quem quer que produziu o filme. Existem easter eggs e surpresas o suficiente para agradar os fãs de Street Fighter com elementos que são bem irrelevantes para o público em geral.
Ao contrário dos filmes do Mario que não utilizavam as músicas dos jogos, aqui ela é usada frequentemente para os personagens, e, o visual de cada um não é apenas inspirado, é genuinamente o design dos personagens dos jogos (e não apenas do Street Fighter 2 cuja história inspira o filme).
Por exemplo temos Dan, um personagem que existe para servir como uma crítica a outra franquia de jogos da SNK (Art of Fighting), e o filme busca ainda mais enfatizar isso, ainda que fique difícil perceber para quem não conhece os jogos de luta da SNK.
Mesmo o uso de animação para estabelecer flashbacks eu achei uma boa sacada - até como forma de utilizar um estilo narrativo mais comum para a franquia com os finais e transições nos jogos, através de animações de enorme qualidade como a série Victory ou o filme animado (que, até hoje nem de perto qualquer material com atores chegou nem no mesmo patamar)...
O problema é que quando você percebe essas referências e se lembra de um material muitas vezes superior e mais interessante, você começa a se perguntar... Mas porque diabos eu paguei quase sessenta contos num ingresso, mais estacionamento, mais pipoca e refrigerante para ver isso quando eu poderia assistir o filme animado de 1994?
Quer dizer, nem vou falar do 50 Cent como Balrog - que nem de longe é o problema, ou lutadorzinhos de WWE fazendo Guile e Akuma, que são problemas bem maiores - porque ainda que isso distraia ou mesmo não ajude, não é o verdadeiro problema do filme.
Na verdade é uma parte importante do maior problema do filme, porque apesar desses parágrafos elogiosos, existe algo mais sombrio ali, saca? Tipo com os X-men do Brian Singer que tinham vergonha de suas origens de quadrinhos e queriam parecer mais cool e descolados? Parece bem isso e para apelar para a galera mais cool e descolada eles tentam apelar para o fã de luta livre...?
Sei lá, vinte anos atrás, o 50 Cent seria até uma atração por si só, mas, eu acho que a molecada que tem quinze anos hoje não faz nem ideia de quem é o cara. E eu duvido genuinamente que por qualquer motivo minimamente coerente luta livre ficou legal (ou o foi em qualquer momento da história da humanidade - e, o que eu acho mais relevante, que o fã desse gênero de entretenimento, que é alguém que assiste lutas encenadas com gente sem carisma ou talento tentando oferecer discursos sem graça e inspiração, que o fã disso é menos babão e mais descolado que o fã de qualquer outra coisa, droga eu até desafio alguém a me provar errado).
E isso tira o brilho inclusive do que eu elogiei até agora, porque fica aquela impressão de que é uma menção envergonhada e protocolar e não uma homenagem legítima para o público e os fãs, e aí não ajuda que o roteiro é ruim.
O que acontece é que, bem, essa é uma história simples e roteiro precisaria escolher qual história contar (ou até mesmo trilhar paralelos entre as muitas histórias dos muitos participantes - sabe, coisa que Dragon Ball fazia nos torneios de artes marciais? Ou, e isso é importante reforçar mais uma vez, a animação de 1994 que oferece espaço para os muitos personagens enquanto conduzindo uma narrativa única e focada - no combate ao grande vilão M Bison) e o filme não escolhe nem um caminho e nem outro.
É a história do Ryu buscando controlar sua fúria interior - e nada disso tem a ver com o torneio ou com o vilão M Bison - e também é a história de Ken tentando provar que é tão bom quanto Ryu - aqui no caso usando o torneio como pretexto - ao mesmo tempo que Chun-li quer vingar a morte do pai, e não participa do torneio mas quer se aproximar de M Bison...
Mesmo Bison que é o organizador do torneio, e antagonista e vilão do filme, não é explicado direito quais suas motivações ou mesmo porque diabos ele é ameaçador sob qualquer forma. Mais uma vez, na animação de 1994, a primeira aparição do personagem segue silenciosa por um bom tempo, explicitando através das imagens o quanto ele é ameaçador, e, antes dessa aparição temos dois outros personagens (Chun-li, apresentada como uma agente da Interpol e Guile, apresentado como um soldado), discutindo a colaboração das duas agências para capturar o vilão.
No filme de 2026? Bem, Guile é uma piada enquanto Chun-li é... Eu não sei exatamente... Ela é meio que a carta coringa que é utilizada para conduzir a narrativa, mesmo sem explicar sua história de maneira clara... Ela quer recrutar pessoas para o torneio de Bison (sendo que ela é uma agente da Interpol com a finalidade de prender Bison, qual o ponto de fazer esse trabalho de recrutamento, se não fosse também para conseguir aliados contra o vilão...?) ora ela é determinada e obcecada a concluir sua missão de destruir Bison a todas as consequências (mesmo que não faça lá muito nesse aspecto).
Enquanto isso outros tantos personagens dos jogos aparecem - mesmo que suas motivações não sejam trabalhadas e eles sejam mais referências que efetivamente relevantes - e nada parece se desenvolver e trabalhar... Dhalsim, Zangief e E Honda aparecem pura e simplesmente pelo fato que estão no jogo, e, Blanka, bem, aparece por ser popular e pelo fato que o ator que o interpretou é possivelmente o nome mais famoso de todo o elenco.
Aí fica aquela estrutura vazia e confusa em que a coisa toda se monta num castelo de cartas... Porque Bison organiza um torneio (quando ele tem um alvo claro em mente que é o lutador Ryu)? Na verdade, qual é efetivamente a vilania do personagem...? No filme, pelo menos, ele é mal desenvolvido a ponto de não ficar claro qual o ponto de sua organização ou mesmo que é uma organização criminosa e com propósitos malignos (droga, não fica nem claro que ele é o manda-chuva da coisa toda).
Na verdade, verdade mesmo, não fica nem claro e explícito o detalhe mais importante do filme: De explicar seu próprio título. Em nenhum momento é comentado ou explicado que estes são lutadores de rua que participam de torneios clandestinos (ou algo do tipo) em busca de validação de seus estilos de artes marciais... O filme todo é estruturado ao redor de torneios (organizados e com largas audiências), com participantes conhecidos e renomados ao redor do mundo, e, a menos que eu não tenha ouvido ou prestado atenção (e talvez o motivo que tenha me distraído esteja a seguir) não é dito de maneira categórica porque diabos eles são lutadores de rua.
(E vou soar como um disco quebrado, mas é coisa que a animação de 1994 estabelece de maneira fantástica já no seu prólogo em que Ryu e Sagat se enfrentam - e é algo relevante para o restante da história, estabelecendo que a reputação de ambos é imensa, mas que não ocorreu em uma luta organizada em um torneio com espectadores).
Agora, puta merda, o filme tem um problema gigantesco de fetichismo que é assustador.
Eu diria até misógino na forma como trata as personagens femininas (que existem e servem apenas para serem sexy e sensuais em suas participações), mas, existe um fetichismo bizarro de colocar as atrizes em cenas para especificamente machucar e humilhar atores (incluindo o Eric Andre) de maneira sado-maso e fetichista, e na primeira vez eu achei esquisito, mas quando se repetiu (e mais de uma vez), me tirou completamente do filme.
Quer dizer, eu não sei se acharam que isso seria engraçado, eu não sei se isso é de fato uma questão de fantasia (mais generalizada) do público que curte os jogos ou se tem algum apito de cachorro mais específico... Pra mim o fato que continuou ocorrendo foi me tirando do filme cada vez mais e ficando mais difícil voltar.
Aí o filme não termina (sei lá se dizer que o fim é aberto é spoiler, mas sinceramente eu não vejo outra forma de terminar o argumento sobre como o roteiro é ruim).
É, isso mesmo, o filme não tem fim (porque devem estar confiantes pra caramba no sucesso ou já tem contratos com os atores para continuações, não sei), e o negócio fica ali no ar com um gancho, minto, com uma piadinha boba (com direito a musiquinha para subir os créditos onde rola uma outra cena extra) para seguir para uma continuação...
Sinceramente eu já disse mas repito: Mesmo se você seja fã incontestável da franquia, já foram produzidos materiais muito melhores que inclusive você pode conferir sem sair da sua casa (e a animação de 1994 está disponível na íntegra no youtube sem custo - ainda que somente com áudio em inglês), então porque perder seu tempo nos cinemas com isso...?
