A história é sobre um grupo de anarquistas que vivem à margem da sociedade (por isso são "invisíveis"), e se unem em uma batalha que vem acontecendo pelo controle de corações e mentes da humanidade de uma gigantesca revolução. A coisa toda é mais meta que concreta, mas é uma batalha de bem contra o mal com o mal representado por demônios de uma dimensão superior que pretende usar uma confluência (da virada do milênio) para facilitar a transição e o controle da raça humana.
Basicamente acompanhamos Dane McGowan, um trombadinha/pichador/ladrão de carros na Inglaterra do final do século XX que se vê diante de toda a máquina opressora deste mal terrível que assola o mundo, e descobre que o mundo todo é uma ilusão e uma mentira, e, mais do que isso que essa farsa é manipulada para nos manter dóceis e controlados - e, sim, isso parece quase ipsis litteris o começo de Matrix, mas ainda tem mais quando aparece um Morpheus na forma de King Mob apresentado a Dane à resistência e como, uma vez que a realidade é apenas uma ilusão, que ele pode fazer muito mais e controlar a realidade à seu bel prazer.
Essa é a premissa básica (grupo de rebeldes tentando mudar o mundo e enfrentar a ameaça terrível e transcendental que quer controlar o planeta), só que eu tenho que ser honesto ou mais honesto que em outras tentativas de comentar o material e reconhecer que o material se perde logo no começo - com o segundo arco Arcadia - que é meio que a cena do Arquiteto do Matrix tentando explicar goela abaixo toda a contextualização da série, só que com referência bibliográfica e bem mais texto - e isso penaliza bastante a série.
Até porque, e isso é importante, por mais que a série gaste tanto tempo explicando os conceitos e suas definições, não tenta de maneira clara definir quais os reais vilões e o que os protagonistas estão de fato enfrentando. Droga, dois volumes (e quase sessenta edições) mais tarde, a ameaça continua bastante genérica e mesmo seus planos, até porque isso é aquela questão meta de que são 'demônios' mantendo as pessoas dóceis e controladas, quando não é nem necessário muito para entender que, como na obra do Marquês de Sade (que é citado na série, e, inclusive se torna um personagem recorrente), são as estruturas de poder da sociedade (financeiro, religioso, legislativo e institucional) que mantém e controlam as pessoas.
Os "demônios transdimensionais" são mera alegoria para o material produzido em massa para publicação por uma megacorporação (que inclusive hoje passa por nova compra para se tornar uma corporação ainda maior), isso não é um fanzine distribuído pela comunidade anarquista na reunião do sindicato... E é justamente na má reação ao segundo arco que Morrison acaba tendo de ajustar a marcha da história e produzir algo mais chamativo (que é só olhar as capas do segundo volume, que já começam bem mais provocativas com o grupo na cama na primeira edição do volume 2, e só vai melhorando com a capa censurada ou a edição final do volume 2) e orientado à ação (coisa que já no primeiro volume se mostra mais recorrente a partir do segundo ano da série), e, não apenas isso, mas com um artista mais regular e com algo mais palatável ao público geral, e, é onde Phil Jimenez de fato rouba o show em contraste ao primeiro volume - que tem artistas muito bons, é verdade, mas que talvez não sejam tão bem recebidos do público em geral.
Só que o crédito é necessário onde o crédito existe (mesmo que talvez coubesse como uma ressalva ou potencial problema). Morrison em 1994 estava abordando temas extremamente difíceis (não só para 1994) que tem gente em 2026 que não consegue lidar com a mesma capacidade e qualidade. Uma das principais personagens (Lord Fanny), e que tem mais de um arco de histórias na série, é uma mulher transexual (brasileira se isso vale de alguma coisa), e seu conflito é retratado de maneira bastante sutil e singela, ou pelo menos o mais sutil e singela que uma obra de quadrinhos sobre um movimento anarquista enfrentando demônios pelo controle espiritual da população poderia fazer em 1994...
E, eu nem acho que esse seja o único tema espinhoso que a série retrata, afinal existe a questão de problemas mentais, sem falar do Marquês de Sade e os 120 dias de Sodoma (que é retratado na série), e mesmo que nem todo o material seja sutil ou singelo como no caso de Lord Fanny, e talvez nem todo mundo ache hoje em 2026 que esses retratos sejam ainda minimamente singelos ou sutis...
Então... Porque essa série não decolou e se tornou uma grande referência do selo Vertigo além de algo mais cult e reverenciado por gente que leu nos anos 1990 começo dos anos 2000?
Bem, além da arte que oscila e, em dados momentos, tem alguns deslizes terríveis - principalmente na reta final, mas o primeiro volume da série tem alguns momentos bem complicados em termos de arte - e da complexidade excessiva do material no começo que é um obstáculo tremendo, existem as evidentes e claras comparações com o Matrix de 1999, que se tornou gigantesco e uma enorme referência da cultura popular global.
Além disso, ao contrário do Matrix, mas muito similar a Preacher, a história está muito relacionada a um período específico de tempo, tanto que o terceiro volume e as histórias finais tem relação direta com a virada do milênio e o ano de 2012 (que já se foi há uma festa de debutantes atrás). O material fica com uma datação de carbono muito clara na sua narrativa que, em muitos momentos, parece aquela piada interna de que você precisava estar lá para entender...
E é um mal de escritores britânicos (muito bons, diga-se de passagem) desse período e que acontece em vários dos quadrinhos dos anos 1980-2000. Hellblazer do Jamie Delano tem isso com uma série de eventos que são tão específicos e referenciados a situações cotidianas britânicas do período - como o Hooligan de quatro cabeças para ficar apenas em um caso - que são hoje um tanto difícil de entender sem algum contexto, e, com Invisíveis isso vai se acumulando com as tentativas de uma filosofia e sociologia que vão muito além do que se espera e busca numa obra de quadrinhos e/ou ação.
Quando a série quebra um pouco disso - focando nos personagens e na estrutura narrativa - ela consegue criar algo realmente interessante, inteligente e fascinante, e em alguns pontos construindo histórias realmente únicas e que continuam reverberando quase três décadas mais tarde (a edição que foca exclusivamente na rotina de um personagem menor, ainda é uma das melhores que eu já li em todos os quadrinhos). Quando se perde, seja nas viagens de ego do Morrison, seja na narrativa truncada parando a cada quadro para uma explicação complexa de filosofia ou algum outro problema eventual (como a arte, principalmente do Sean Phillips e John Ridgway (que são ótimos artistas em outras séries) são dois exemplos mais nítidos, ao ponto em que algumas páginas foram refeitas (no terceiro volume, do artista Ashley Wood) para encadernados mais novos... Mas bem, quando a série se perde, ela se perde completamente e o fio da meada desaparece.
Enquanto ela continua com um lugar cativo no meu coraçãozinho pela relevância formativa que teve pra mim - ao apresentar uma série de assuntos espinhosos e tabus que outros continuam cheios de dedos sequer para cogitar, e oferecendo uma estrutura narrativa que é desafiadora e complexa, o que para o adolescente que queria quebrar as estruturas tradicionais de quadrinhos da Turma da Mônica e de super heróis convencionais já era altamente transcendental, e, eu ainda acho que pra muita gente que experimentar esse material agora em 2026 ou nos próximos anos pela primeira vez, o material ainda será relevante (e até mesmo necessário).
Vale a pena reler ou ler pela primeira vez, mesmo que o material não soe tão impactante quanto algumas décadas atrás, ele ainda carrega um baita peso.
