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4 de junho de 2026

{Resenha Aranha} Quinta Noir

Dizer que é o segundo melhor projeto da Sony com o Homem Aranha é um elogio sob qualquer forma? Obviamente que não (sério, você consegue pensar em quão longe do Aranhaverso estão os filmes do Homem Aranha produzidos pela Sony em qualquer escala?), e, por mais que eu realmente tenha achado a direção de arte (a direção geral nem tanto mas já falo sobre isso) muito boa, eu simplesmente não vi sob nenhuma perspectiva como isso não seria um zilhão de vezes melhor como uma animação.

Com 62 anos, Nicholas Cage não tem nem o físico nem o fôlego pra cenas de ação (não que o seriado dê muito espaço pra elas - mas, de novo, funcionaria melhor como animação) ao mesmo tempo que vários dos efeitos especiais se destacam do contraste do mundo ficcional (e, funcionariam melhor como animação) e simplesmente além do fato que a série traz rostos bastante conhecidos e famosos como o de Cage e Brendan Gleeson, eu simplesmente não vejo nada que justifique de maneira mais concreta que isso seja uma série com atores reais que, de novo, uma animação.

Ao meu ver a série tem um principal problema que é o tom.

Veja, eu não vou criticar os poderes ou qualquer elemento da história do Homem Aranha Noir (eu nunca li então não sei quais as diferenças dessa versão para o Homem Aranha tradicional e justamente por isso prefiro acreditar que a série é fiel ao material - ou se não, que pelo menos é fiel o suficiente), mas são as escolhas estranhas que me chamam a atenção, sabe?

Quer dizer, já no primeiro episódio, Cage se contunde após um choque com um carro (de novo, não sei se ele deveria ter agilidade igual o Homem Aranha, se ele deveria ser capaz de escapar disso ou qualquer coisa do tipo), mas o estranho na escolha da cena é como ela se desenrola. Cage leva uma porta de carro antigo no rosto, cai no chão (numa rua pela qual não passa nenhum outro carro ao mesmo tempo que vários outros pedestres estão próximos). Ninguém se move ou se aproxima para tentar acudi-lo ou tentar socorrer ou bem, tem qualquer tipo de reação (e eu sei que são apenas extras mas da forma que a cena segue isso fica pouco natural) e em breve nós vemos Cage despertando e aqui vemos uma reação e é uma reação completamente absurda e surreal (parece que ele acorda eletrocutado de um pesadelo terrível).

Isso me faz lembra daquela cena de Community em que Abed tem uma overdose de Cage, e, bem, a série parece bem disposta a usar isso, e dá-lhe Cage fazendo sotaques e imitações ou simplesmente agindo de maneira bizarra e nada característica à cena ou ao personagem (ele vive um sujeito cheio de trauma e remorso pela morte da esposa mas que de repente invade um apartamento pra levar um docegrama pro Mongo), e, francamente, pra mim várias vezes em que o ator simplesmente tem uma de suas reações exageradas ou ações fora do contexto do personagem foram suspendendo minha descrença porque foi ficando mais parecido com um cartum, ou, até mais no contexto do personagem, com o Porco-Aranha.

E, eu acho que a série aposta nesses exageros de Cage tanto para conseguir gerar memes e publicidade para o material quanto, e, aqui é onde eu acho que é mais importante, para disfarçar um roteiro clichê e sem graça.

Quer dizer, eu vou reforçar, ele tem mais de sessenta anos e isso nunca parece algo relevante ou coerente para a série ou mesmo um ponto ou argumento digno de menção (principalmente quando o restante do elenco de apoio do ator é composto por atores bem mais novos), inclusive do ponto de vista narrativo em que os poderes estejam falhando (que sim poderia ser pela idade dele, porque não?).

Veja a premissa: O Homem-Aranha Noir se aposentou depois que a esposa morreu, mas, continua trabalhando como detetive particular, mas, um caso envolvendo uma cantora de cabaré na mira de um mafioso o faz sair da aposentadoria...

E enquanto você não precisa ser alguém que leu todos os livros de Phillip Marlowe pra entender os clichês, e, até mesmo pode ser alguém que tente justificar os clichês como forma de puxar o espectador e o manter engajado num mundo multitelas (em que talvez você esteja assistindo a série ao mesmo tempo que prepara o jantar ou faz academia), eu insisto que com um orçamento mais baixo e produção de qualquer estúdio de animação sobraria mais tempo e recursos pra algumas revisões no roteiro pra tornar as coisas mais interessantes.

Consegue entender porque o fato de ser a segunda melhor produção - e, talvez até a melhor produção live action do Homem Aranha da Sony - não é particularmente um elogio?

E de novo, o aspecto visual com a perspectiva de usar o branco e preto e o colorido para sua vantagem (incluindo o fato que várias cenas valem a pena assistir duas vezes para conferir o contraste da produção), e, nem só isso porque a versão áudio descrição consegue ser ainda melhor que a versão original (afinal a narração na áudio descrição faz parecer ainda mais com um daqueles livros pulp de 5 centavos do período da depressão estadunidense).

Confesso que não sei como ficou em português e se tem áudio descrição em português, mas se você tiver a oportunidade assista em branco e preto com descrição de áudio, ciente de que Nicholas Cage fará alguma coisa bizarra em algum momento - e que talvez o roteiro vá abraçar alguma piada fora de hora que igualmente vá te tirar da cena - que pelo menos pelo valor artístico vale a pena conferir.

Recomendado (com ressalvas). 

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