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6 de agosto de 2026

{Resenhas de Quinta} Homem Aranha - Ivan Lins

Eu vou tentar manter os spoilers ao mínimo e inclusive tentar não falar nenhuma das participações especiais que se dão no filme (mesmo que estejam no trailer ou no poster ou em qualquer material promocional do filme). Com exceção do Justiceiro, porque aqui eu acho que tem uma razão bem específica e importante para eu mencionar, e, ainda que eu vá falar da Capitã Dewolff, ela é mais no nível easter egg e referência que efetivamente algum spoiler.

Nada sobre quem é o personagem misterioso e vilão do filme, nada sobre a cena pós-créditos (que é uma perda de tempo gigantesca mas enfim), nada sobre quais são as muitas participações especiais sejam lá quais são.

Falando estritamente do filme, ele é bem produzido esteticamente, tem uma série de cenas de ação interessantes e o Homem Aranha funciona muito bem talvez eu ouse dizer que o melhor desde qualquer filme do Sam Raimi, e, o Tom Holland realmente rouba a cena na maioria de suas cenas, mas, principalmente nas suas interações com personagens mais relevantes do MCU.

Droga, esse é o melhor Justiceiro da Marvel, ponto. Não só do MCU, não só nos cinemas ou adaptações, mas de toda a história da Marvel, ponto.

Não sei dizer se são as melhores cenas de ação do Homem Aranha num filme, ainda que, considerando todos os filmes com o personagem, a única coisa que realmente supera esse filme é o Aranhaverso (que, é uma animação), e, sendo bem franco, mesmo do MCU como um todo, poucos filmes, e, sem muita dúvida, nenhum deles desde Ultimato chega perto do que esse filme produz.

Isso é o suficiente para Homem Aranha Um novo Dia (apesar dos castigos) ser um filme bom? Não, porque narrativamente o filme é uma desgraça.

O primeiro problema ao meu ver, reside no fato de que esse filme é uma continuação direta do filme de 2021: Sem Volta para casa, e, naquele filme, todo mundo que sabia que Peter Parker era o Homem Aranha acabou pro esquecer dessa informação, e, aqui nesse filme, esse é um dos motes narrativos. Inclusive o filme reforça várias vezes que se passaram ao menos quatro anos desde os eventos daquele filme.

Isso é um problema sério narrativamente porque não existe nenhum elemento efetivo que categorize essa mudança de tempo. Os personagens se mantiveram em desenvolvimento suspenso por esses quatro anos.

Peter não mudou, mas seus amigos também não.

O mundo não seguiu em frente e nada significativo aconteceu. Peter não resolve deixar de ser o Homem Aranha ou se reaproximar dos amigos para ser descartado ou descobrir que eles não gostam mais dele sem saber de sua identidade secreta, ou ele próprio segue com sua vida e estabelece uma nova rotina, grupo de amigos e o que for... Não existe uma mudança substancial para justificar essa passagem de tempo além de um fato que se passaram tantos anos.

Não existe nada na estrutura e na narrativa que justifique esse distanciamento e menos ainda que justifique uma aproximação que acontece durante o filme além do fato que esse é o mote do filme anterior que este filme precisa resolver.

Isso, claro, seria resolvido com facilidade se no intervalo dos dois filmes, a Marvel lançasse alguma série animada ou um filme resolvendo esse aspecto? Talvez. Talvez eles pudessem rachar um pouco mais a cuca para desenvolver a estrutura narrativa para justificar que não se passaram tantos anos entre os filmes, ou, e essa é importante, resolver essa situação logo de começo e seguir com a história (não é como se faltassem elementos narrativos que esse filme tenta desenvolver).

Sério, parece que querem encaixar uns cinco filmes diferentes na duração deste único filme (tem a trama dos poderes do Homem Aranha descontrolados, tem a trama - que continua diretamente os eventos dos filmes anteriores - de que seus amigos não se lembram mais dele, tem a trama do vilão controlando pessoas, além de toda uma série de vilões que são reduzidas a pouco mais de quinze minutos do início do filme, e tem a trama central do filme que envolve, bem, eu vou falar disso em breve).

Sinceramente, eu acho que se esse filme fosse dividido em pelo menos dois filmes, funcionaria melhor para desenvolver o ângulo do distanciamento do Homem Aranha de seus amigos - que é o ponto do final do filme anterior - enquanto desenvolvendo os elementos apresentados aqui - e, sinceramente, eu não duvido que fosse o plano da Sony.

Sabe? Um filme menor depois de Sem Volta para Casa de 2021, 100% Sonyverso sem MCU. Talvez usando o Venom (né?), Morbius e outros dos vilões que eles foram desenvolvendo (tem uma cena pós créditos do Michael Keaton encontrando o Escorpião e outra dele encontrando o Morbius, né?

Droga, isso parece extremamente provável, só que faltou combinar com a Disney que é dona do Homem Aranha e da Marvel, e, bem, no lugar vieram filmes cada vez mais esquecíveis e idiotas. Eu acredito sim que era o plano de ter algo como o Homem Aranha versus o Sexteto Sinistro - enquanto desenvolvendo o drama da vida pessoal do Peter Parker - e que essa era a ideia que os demais filmes da Sony foram apresentando. Provavelmente algo menor em escala e escopo mas relevante e complexo para o personagem e depois, talvez, ele voltasse pro MCU todo feliz e pimpão.

Aí é justamente o ponto em que o filme traz tantos personagens da Marvel para integrar a narrativa (mesmo que ela não faça muito sentido, mas eu prometi que era a versão sem spoilers), e dá-lhe participação especial semi-obrigatória um, dois e vinte e cinco para que o filme seja tão firmemente atrelado ao MCU que não seja possível sequer cogitar o conectar os eventos das cenas dos parágrafos anteriores como algo minimamente relevantes.

Cara, o Escorpião aparece aqui e é uma piada meio que pra deixar claro que toda a trama sobre ele era irrelevante e que importante mesmo é o Justiceiro e o MCU(tm), e dá-lhe outra participação especial!

Eu nem quero entrar nos longos e tenebrosos meandros de como o filme se encaixa ou não no MCU que essa é uma discussão que já passou do ponto de chata nesse ponto, e, eu cansei de tentar refletir ou encanar com isso (ainda que pareça que mesmo os produtores e executivos não se importam também). 

O grande problema, ao meu ver aqui, ao meu ver, é que esse é o terceiro ou quarto filme - só dessa fase do MCU - em que um personagem (que aparece por menos de cinco minutos no começo do filme) é revelado de surpresa que tem algum plano maligrino e é o vilão secreto do filme enquanto o antagonista declarado, bem, talvez seja apenas alguém cheio de traumas e incompreendido (que precisa de um abraço e um arco de redenção).

Essa é a trama dos Thunderbolts, do quarto Capitão América, de Deadpool e Wolverine, e do filme dos Eternos que eu me lembre pelo menos, e isso sem considerar variações um pouco maiores do tema.

Pra quem está contando, nenhum desses filmes é particularmente bom, e, nenhuma vez que isso foi feito funcionou - porque é uma narrativa cansada e sem impacto real. A reviravolta de que alguém é de fato um vilão funciona quando é bem construída ou oferece pistas suficientes para que a reviravolta tenha impacto - e, principalmente quando ela não é feita em todo maldito filme na sequência.

Isso é convoluto e estrutura pobre narrativa.

Inclusive, um bom vilão é muito mais aquele que é apresentado e desenvolvido do que um vilão que tem uma reviravolta com sua revelação - e com toda a certeza não é um vilão que estava apenas seguindo ordens ou almejando uma promoção (puta que pariu).

Droga, não precisa nem buscar muito longe que Chainsaw man traz no seu filme uma reviravolta na aparição de seu vilão. A diferença é que existe construção e desenvolvimento e quando a reviravolta acontece é um elemento narrativo - que força ao espectador prestar atenção e inclusive repensar o filme que ele viu até ali (além de muitas vezes rever para fazer justamente isso).

Aqui você se vê no exato oposto pois justamente a reviravolta te faz pensar "Mas como diabos o protagonista não percebeu antes?" - e, nesse caso específico, em que o filme destaca que se passaram 4 anos em que o protagonista vem trabalhando com esse vilão da reviravolta, fica ainda pior né?

O pior elemento do filme, ao meu ver, é impossível de falar sem spoilers (ainda que parte do elemento seja o nome que o Homer Simpson optou para mudar seu nome em dado momento), e eu até aceito que talvez EU não tenha entendido - eu vou dar o benefício da dúvida para o filme - mas mesmo que eu não tenha entendido ainda é incrivelmente estúpido.

Mesmo que eu não tenha entendido como havia a tal pista, mesmo que a pista faça algum sentido, isso é muito bobo e fraco - e não funciona com os elementos apresentados tanto da pista que o Homem Aranha recebeu como do principal antagonista até aquele momento. E fica ainda mais estúpido quando você considera quem forneceu tal pista pro Homem Aranha e o quanto ignorou a relevância da informação...

 

Sinceramente, se você quer desligar o cérebro e ver boas cenas de ação por duas horas e pouco, veja esse filme. Vale mais a pena ver A Odisseia ou esperar pra ver na promoção ou no Disney Plus daqui uns meses? Com toda a certeza, mas se você quer desligar o cérebro por duas horas e ver boas cenas de ação, ei, nesse mundo que vivemos, quem pode te culpar?

30 de julho de 2026

{Resenhando o fim de quinta} Toy Story 5

Olha, começando do começo, vamos deixar uma coisa bem clara: eu tenho zero nostalgia por Toy Story enquanto franquia.

Eu não acho que eu fosse "velho demais" quando o primeiro filme chegou aos cinemas, talvez estivesse na idade exata pra ele, eu só estava em outra (pois foi a época em que os animes começaram a ganhar popularidade no Brasil, e em 1995 eu tava completamente obcecado com Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball ou Yu Yu Hakusho...

Quando as continuações saíram, bem, menos e menos que eu me importei, e, como nunca foram filmes que meus sobrinhos se importaram também  eu francamente nunca dediquei qualquer mínima atenção à franquia. Sei que tem marmanjo que chorou com algum ou mesmo todos os filmes da série, mas, nenhum deles teve qualquer significado pessoal ou relevância pra mim.

Isso significa que pra quem teve alguma relevância essa pessoa está errada? Longe disso, mas eu tenho mais distanciamento, senão imparcialidade.

O primeiro filme é mais impressionante pelo aspecto técnico de animação que, simplesmente não existia nada parecido na época - e levou um bom tempinho até pra chegar perto. Narrativamente, bem, é meh. 

Sim, é bonitinho e bobinho pra se assistir com uma criança mais nova, mas a ideia de brinquedos falantes e sencientes, bem, já foi feita a exaustão a essa altura do campeonato (e não, não começou com Toy Story ainda que eu lembre mais de exemplos de horror com essa premissa). Mas o que mais me incomodou sempre no filme, de uma maneira geral, reside numa questão mais cínica sobre como ele é, acima de tudo, uma propaganda de brinquedos e uma obra para os pais carolas e caxias do mundo.

Quer dizer, o Andy (o dono dos brinquedos do título do filme) é o menino de ouro enquanto o Syd (o vizinho que destrói seus brinquedos) é retratado como uma espécie de vilão justamente por "maltratar" brinquedos, por não brincar direito (como se tivesse jeito de brincar), afinal precisa manter intacta a marca registrada e o direito autoral do pedaço de plástico produzido em massa na China para as crianças obesas da 'murica...

O que é muito coisa de pai carola... De que a criança que "brinca direito" está dando valor ao esforço dos pais ou algo igualmente idiota (quando colocar no micro-ondas pra verificar se vai ou não explodir traz muito mais de uma mente crítica e científica em busca de confirmação de suas teses). Inclusive porque a ideia de dar valor aos brinquedos aqui tem muito menos a ver com uma infância sadia brincando com amigos e ao ar livre e mais com uma gigantesca paranoia social de que é melhor a criança em casa sozinha com todos os brinquedos que o dinheiro pode comprar que no mundo real correndo o risco de ser sequestrada para um ritual satânico em uma pizzaria democrata...

Então fique em casa, brinque com os produtos oficiais (TM) e consuma. Não tente justificar ou entender que a tese central é incrivelmente assustadora, afinal a ideia de objetos inanimados produzidos em massa com consciência pelo simples fato de terem olhos de plástico igualmente produzidos em massa deveria dar calafrios em qualquer pessoa.

(E, sim, o filme não é sobre os brinquedos e sim usando os brinquedos como substitutos dos pais - e inclusive tem a ideia do divórcio com o pai tradicional sendo substituído pelo pai mais novo e modernoso).

Mas eu sei que é um produto infantil feito para contextualizar um conceito comum da visão de mundo das crianças de perceber que o mundo continua funcionando quando elas não estão por perto para observar, com uma lição sobre amizade e aceitação de mudanças (a menos que sejam muito diferentes, né? Afinal violando os direitos autorais e marca registrada você não pode mais ser considerado um "brinquedo").

Curiosamente, numa volta completa, o quinto filme da franquia traz a exata mesma ideia de um (de amizade e aceitação de mudanças), mas que parece mais bobo e fútil que da primeira vez.

Você sabe que já existiam videogames em 1995 quando o primeiro filme foi lançado, né?

Mesmo se eles dependesse de cartuchos e não estivessem sempre conectados na Internet, os videogames já eram uma parte da vida de muita criança e adolescente, desde o NES da década de 1980, passando pelos gameboy e tamagochis dos anos 1990 até os switch e celulares de hoje em dia levando mesmo os mais jovens a abandonarem os brinquedos em troca do entretenimento virtual (sabe, o que é a premissa desse quinto filme da franquia).

Caros leitores, meu sobrinho de seis anos se alfabetizou com o celular, e eu duvido que ele faça ideia do que é um cowboy (como o Woody) além do conceito mais geral da coisa...

Então não sei ou entendo quando o filme quer glorificar os brinquedos e vilanizar a tecnologia ao mesmo passo que tenta criar uma narrativa confusa sobre a solidão e ansiedade das crianças de hoje em dia (que tem dificuldade de interagir com o mundo real fora de uma tela, enquanto brincar com bonecos é perfeitamente normal e aceitável - afinal é o que pensam os pais carolas e caxias).

Eu não sei... sinceramente o cinismo fala alto demais, e por mais que seja um gigantesco sucesso de bilheteria (ainda que produzido para reduzir churn e manter assinaturas de serviço de streaming), ao ponto que acho dificil olhar para esse filme com bons olhos ou mesmo com olhos menos cínicos e capazes de dar uma chance real (sabe, como os brinquedos acabam fazendo com a tecnologia no final das contas pois é muito importante agradar nossos lordes corporativos).

Talvez pra quem tenha enorme nostalgia pelo primeiro filme ou alguma de suas continuações e agora tem a oportunidade de ver o quinto filme com um filho ou sobrinho, talvez isso seja uma experiência completamente diferente e muito mais interessante e mágica.

Pra quem não se importou tanto com qualquer um deles, bem, eu acho difícil esperar algo diferente do cinismo...

E para o cinismo a melhor alternativa seja esperar sair no streaming (seja o pago ou aquele que diz yeaaarh) ou pela obvia e obrigatória próxima peça da franquia para aí assistir os anteriores para se atualizar.

23 de julho de 2026

{Resenhas Flandéricas} A Odisseia de Nolan

Eu sei, eu sei tem um monte de gente (idiota) criticando o filme por 'não ser fiel' a fonte, ao que, sinceramente? Ainda precisa explicar que uma adaptação, ainda mais quando se trata de um autor com maior autonomia como é o caso do Christopher Nolan aqui, tende a se manter mais fiel aos temas da fonte original que à pura e inequívoca fidelidade linha por linha, verso por verso do original.

Kubrick quebrou o tema de Stephen King em O Iluminado e fez algo muito melhor que o livro - e a adaptação meia boca que o próprio King tentou anos mais tarde, o filme de Senhor do Anéis removeu Tom Bombadill e se tornou muito melhor por isso, e, sinceramente, eu preciso citar Adaptação de 2002?

Droga, se fosse uma adaptação literal o material precisaria se narrado em verso com odes e trovas, e, sinceramente? Você acha que isso funciona para o cinema (e para o público estadunidense idiota que continua pagando dinheiro para o Adam Sandler)...? Ainda mais em 2026 em que cada vez menos gente se dispõe e propõe a pagar qualquer quantia que seja para assistir alguma coisa nos cinemas?

E, só mais uma coisa nessa babaquice de adaptação literal (em 2026): Com tantas versões e adaptações do material, pra que diabos você quer ou precisa de uma adaptação ipsis literis? Sério? Pô, se você quer a Odisseia de Homero, aprenda grego antigo e leia o material - eu tenho quase certeza que tem disponível na internet no original.

Essa é uma história quase tão velha quanto a Bíblia (mais velha que o Novo Testamento e provável e possivelmente com histórias tão velha quanto passagens do Velho), e, se não tão conhecida ou difundida, com toda a certeza é bastante conhecida e renomada, e, invariavelmente você já deve ter ouvido uma ou outra das muitas passagens da longa Odisseia de Ulisses.

Nolan pega essa história, adapta para formar um longa metragem (de quase 3 horas) em que usa as múltiplas passagens para abusar de estruturas narrativas menos convencionais e ideias que fogem do que se espera de um filme do diretor.

Temos cenas que parecem saídas de um pesadelo de Junji Ito ou de um filme de terror dos anos 1970. Temos cenas de guerra que são viscerais e terríveis ao mesmo tempo que temos cenas de guerra estilosas dirigidas por Scott Snyder.

É, sem sombra de dúvidas, a melhor experiência cinematográfica para se ver esse ano, e, eu acho que nem Duna vai chegar perto disso (e os dois primeiros filmes de Duna foram as melhores experiências cinematográficas dos últimos anos), e, não acredito que funcione tão bem numa telinha em casa como funciona no cinema.

Nolan chegou num ponto da carreira em que ele pode fazer um projeto como ele quer e bancar do jeito que ele quer - depois dos infinitos Oscar de Oppenheimer e do sucesso multibilionário da franquia Batman, ele ganhou algum prestígio para escolher o que quer fazer e como... E ele vem escolhendo bem, ao menos na minha opinião. Permitiu que o diretor não caísse numa repetição e zona confortável (como, sabe, o Spielberg voltando pra ets ou pra alguma aventura infanto-juvenil), e, A Odisseia permite através de seus múltiplos segmentos que o diretor use ferramentas diferentes para criar essas cenas e contar essas histórias.

Se outras versões de A Odisseia funcionam melhor narrativamente ou como filme, bem, talvez, de novo é um livro antigo e que já foi adaptado muitas vezes ao longo das décadas, mas Nolan consegue pegar esse material antigo e dar uma boa lufada de ar de forma que funciona perfeitamente para os tempos modernos.

Funciona para oferecer uma visão mais complexa sobre o nosso mundo através das lentes narrativas de Homero, e estabelece paralelos e pontos - que talvez não estejam ou sejam relevantes para a obra - e oferecem nuance ao material original. Ulisses pode ser apenas um joguete na mão dos deuses, e, ei, se você prefere a versão literal, ótimo pra você.

Mas Ulisses pode muito bem ser um homem lidando com estresse pós traumático e incapaz de voltar para casa pois sabe que não é mais o mesmo homem que partiu. Os deuses são mais metafóricos e ideias e isso permite uma complexidade maior à obra, assim como mais interpretações.

Pode não funcionar para uns e outros, e, sinceramente, existe muito para não se gostar no material (começando pelo Matt Damon - que eu não acho que está ruim, só, bem, um pedaço de cartolina faria o mesmo papel que ele - e terminando pelo looooongo ato final do filme), mas tem muito mais para se elogiar e defender.

E, puta merda, desde a pandemia com filmes e mais filmes esquecíveis e mais e mais motivos para não ir ao cinema, esse, sem sombra de dúvidas é o filme para justificar o ingresso caro, a pipoca sabor isopor e os adolescentes idiotas que aplaudem o final do filme. 

16 de julho de 2026

{Resenhas duplas de Quinta} Guia da Copa da Turma da Mônica

Enquanto o "Todas as Copas" (edição 2026) da Turma da Mônica me surpreendeu tanto positiva quanto negativamente, e é fácil de entender porque (e eu já vou entrar nos detalhes em breve), O Guia da Copa do Mundo do Falha de Cobertura me surpreendeu muito mais negativamente e, mais importante, junto com o material da Mônica me mostra de forma bastante clara um problema muito maior no panorama editorial brasileiro, que eu já falei em outros momentos e que eu já repeti em outros tantos momentos, mas que, inexoravelmente eu continuo a dizer e continua a ser verdade: Os livros são muito caros no Brasil.

E com os livros sendo caros no Brasil simplesmente não dá pra gente ter um material meia boca para ruim como é o caso destes dois exemplos. Se é pra pagar mais de cinquenta reais numa edição de menos de 200 páginas (o guia do Falha de Cobertura tem uma tabela da Copa e uma cédula para o troféu Lucas Mugni, além de várias páginas com rabiscos, o nome dos grupos e os estádios, que basicamente são páginas vazias, enquanto a Turma da Mônica cobre todas as copas desde 1930 em 130 páginas), o material tem que ser no mínimo muito bom. NO MÍNIMO.

Sendo bem franco, o guia da Copa é muito divertido, ainda que boa parte das piadas seja reutilizada nos videos da TV Quase, e, talvez o maior problema do livro, ele já chegue às livrarias desatualizado, com o espaço da repescagem ainda em aberto e muito mais espaço para países que sequer chegaram efetivamente à Copa enquanto não cobre alguns assuntos mais interessantes e que poderiam render mais piadas - enquanto, é claro, perde oportunidades de piadas que só veríamos no desenrolar da Copa como a Alemanha eliminada ou toda a torcida de Curaçao, enquanto Cabo Verde surpreendeu a todo mundo com seu futebol.

Não vou dizer que é ruim - é uma leitura leve e bem divertida, e, sinceramente você lê em um fim de semana ou fazendo alguma outra atividade sem se importar muito - mas não é um livro que valha mais que vinte reais, sendo bem generoso.

Por outro lado, no caso da Turma da Mônica, bem, cara, é de uma sacanagem incrível o simples fato que esse gibi traz na capa um 'edição 2026' deixando claro que é uma republicação com um mínimo de recauchutagem para incluir a última Copa e alguma revisão (se muito), o que fica muito claro no material das últimas Copas que não cobre absolutamente nada sobre o evento em si e somente sobre a tecnologia do VAR e em geral. Nada sobre os jogos ou qualquer curiosidade digna de nota do evento em si (que, o material traz com maestria em outros pontos, inclusive sabendo usar bem os personagens da Turma - como o Rolo e a Tina na 'versão' anos 1970 para a Copa do mesmo ano).

Tem muita coisa interessante que o material não traz - o que é uma pena, ainda mais porque cabia bem mais páginas facilmente nesse material nem que fosse para comentar sobre o roubo da Jules Rimet resultando na substituição da taça ou uma breve e minúscula explicação sobre como era a estrutura do campeonato em outros anos (como a bizarra segunda fase de grupos na copa de 1978, que resultou na Argentina na final após ganhar do Peru por 6 a 0) - ao mesmo tempo que tem coisas completamente dispensáveis... E os estilos que variam de Copa para Copa, principalmente com algumas opções muito menos interessantes (com a Copa de 2014 sendo de longe a mais estúpida com um método que me lembra Uma Família da Pesada martelando a mesma piada de novo e de novo com inúmeras referências, sendo que, e isso é importante, a piada já não foi interessante ou engraçada na primeira vez).

Como eu disse, tem muita coisa que me surpreendeu positivamente, como nos casos das primeiras Copas em que são citados fatos bem interessantes mesclando os personagens da Turma da Mônica com fatos e curiosidades destes eventos (o roubo da taça em 1966, o jogador brasileiro inventor da bicicleta que jogou descalço, a já citada Copa de 1970) e mesmo alguns outros menos marcantes trazem uma ou outra história relevante.

Parece bem que quando a seleção brasileira não tem uma história interessante (que é o que acontece a partir de 2010), os segmentos falham em empolgar...

Esse material é até mais caro que o da Falha de Cobertura - ainda que não tenha como você ver de graça na internet num canal do youtube - e, eu honestamente acho que o único argumento em favor dele é que é muito mais barato que a gigantesca coleção de cada uma das Copas também lançada pela Panini (não li, não sei da qualidade do material e não vou julgar), e que esse material ainda consegue gerar algum interesse numa criança que se interesse minimamente por futebol.

No fim, os dois valem a pena numa ótima promoção, ainda que, talvez numa segunda edição o Guia da Copa do Falha de Cobertura possa corrigir parte de seus erros, eu, no fim do dia acho que compensa mais assistir aos vídeos do canal que comprar essa ou qualquer segunda edição do livro.
E o material da Mônica vale muito mais para fãs da Mônica que fãs da Copa do Mundo... 

9 de julho de 2026

{Resenhas de Spoilers} Obsessão

Taí um filme que é difícil de falar sem spoilers, mas, eu digo que, sem dúvidas é o melhor do ano até agora - e acho que como em 2025 com Pecadores (ou a Substância no ano anterior), vai acabar sendo o melhor efetivamente. Curiosamente, existe um aspecto também que faz a comparação com Pecadores ser mais contundente, mas mais sobre isso depois.

E eu acredito que o terror se tornou, nesse cenário decadente da indústria de Hollywood, como a única forma sincera de produzir crítica e comentário social pertinente e não apenas entretenimento barato e esquecível - que como nos casos de He-man ou o novo Minions, você esquece inclusive enquanto está assistindo ao material (e enquanto eu não quero nem falar dos Minions ou de Toy Story, pelo menos Toy Story me parece que merece uma resenha lixo).

Obsessão é um filme pesado, não obstante tem censura 18 anos, e é um terror bem mais psicológico (eu acho que, sem querer dar muito spoiler mas tem pouco mais de morte que em todo o Iluminado) mas não é na violência que reside o grande terror da história.

A história tem seus elementos de clichê, da mesma forma que Pecadores é basicamente Um Drink no Inferno mas na depressão americana e com protagonistas negros, Obsessão é a pata do macaco ou, se você preferir uma referência mais recente, Os Padrinhos Mágicos, mas, sabe, com mais enfoque no desenvolvimento dos personagens e sem soluções fáceis (ou efetivamente qualquer condição de magia efetiva e pertinente).

Sim, o protagonista consegue o seu desejo mais profundo de maneira além de qualquer compreensão e isso dá incrivelmente errado, mas isso é só a premissa da coisa e é na forma como isso é trabalhado e desenvolvido que você vê o real brilhantismo da obra trabalhar com os personagens de forma gradual e não oferecer nada além de vazio existencial e caos para cada um dos envolvidos.

Até porque é fácil perceber as camadas que existem narrativamente que permitem reexaminar o material e inclusive recontextualizá-lo numa segunda, terceira ou quantas mais vezes você for rever o material (o que, pra mim sempre foi a marca de uma obra superior, da habilidade de deixar uma impressão que permite reexaminá-la ou enxergá-la sob outra perspectiva numa nova leitura).

Nisso eu acho que se parece mais com a Substância que com Pecadores - o filme vai até as últimas consequências e vai dando as pistas ao pouco sobre o que de fato está acontecendo (e mais que isso, o que pode de fato acontecer) - e ele produz de fato um bom drama na abordagem pesada sobre o tema. O difícil é falar sobre tudo isso sem spoilers, ainda que, honestamente é um caso que quanto menos você sabe melhor o filme funciona e, por mais que pareça remota a possibilidade eu genuinamente adoraria ver uma continuação deste filme partindo do exato momento em que este terminou (meio que como fizeram com Halloween - mas não tente imaginar que existe qualquer semelhança entre as duas obras).

Vale muito a pena, mas saiba que é bem pesado e algumas cenas mais desagradáveis provavelmente vão te acompanhar por algum tempo, assim como alguma reflexão e discussão.

Talvez eu faça alguma outra resenha com spoilers daqui um tempo - para dar mais tempo pro pessoal ver e debater sobre o filme - mas eu com certeza recomendo e insisto que é um dos melhores filmes do ano, e, na safra de terror, é um dos melhores, ponto. 

18 de junho de 2026

{Resenhas Six} O Jogo das lulas mentirosas

Liar Game é basicamente Round Six/Squid Game, só que, e isso é importante, antes e com uma estrutura coerente narrativa que serve a um propósito lógico. O quadrinho japonês de 2005 (até 2015 - terminando quase seis anos antes da série da Netflix) através de uma competição onde os participantes tentam conseguir prêmios cada vez maiores, com o revés de ruína financeira no caso de derrota, a série conta e fundamenta teoria dos jogos para o grande público.

Cada jogo serve para explicar alguma das teorias, fundamentando justamente nestes jogos as formas complexas da teoria e, de maneira subsequente contextualizar mesmo para alguém alheio à teoria e fundamentos matemáticos de maneira simples e clara (ainda que, em alguns jogos seja necessária cada vez mais contextualização e texto para fundamentar o básico).

A história inclusive funciona melhor que no contexto de Round Six (e eu farei mais comparações com a série da Netflix porque ela é mais conhecida e é um paralelo mais fácil para o grande público), na ideia da organização secreta terrível que promove os jogos, e como essa organização se vê rivalizada pela protagonista aqui.

Nao Kanzaki é alguém tão honesta que chega a dar dó e ela é colocada num jogo onde é necessário mentir e enganar para prosperar - as limitações da protagonista diante do obstáculo enfrentado oferecem efetivo crescimento e desenvolvimento narrativo, ao passo que permitem maior acessibilidade para o público leitor de se ver diante dos princípios de teoria dos jogos. Mesmo que você não concorde com a protagonista, consegue entender sua jornada e condição.

No lado da série da Netflix, ainda que o protagonista seja mais empático e relacionável (ao menos na primeira temporada), fica mais difícil de aceitar as ramificações do jogo e das brincadeiras infantis como mote para a sangrenta disputa, e fica ainda mais difícil nas temporadas seguintes quando ele volta aos jogos... Nao poderia abandonar as disputas do Liar Game em praticamente qualquer uma das rodadas, mas é justamente sua honestidade que chega a dar dó que a compele em seguir em frente para entender mais sobre si mesma, e, ajudar a mais pessoas a se livrarem das consequências negativas do jogo.

Dito tudo isso que é basicamente elogioso, eu acho que existem alguns problemas contextuais que tornam o material menos palatável ao grande público e mesmo do público mais seleto e específico.

Ainda que você talvez já tenha percebido pela minha descrição da série, ela não é exatamente recheada de ação - e nem estou falando de forma comparativa com um filme do Michael Bay cheio de explosões, cenas frenéticas e o escambau - eu digo de ação dum ponto de vista geral mesmo.

Isso se resume a intermináveis rodadas de pôquer em que um ou o outro lado tenta blefar ou descobrir o blefe do outro lado e as ações e consequências disso. Sim é bastante intenso em alguns momentos pelos riscos envolvidos pelos personagens e pela ênfase que a série oferece a dadas cenas, mas dificilmente vai trazer alguém em uma sala sentado/conversando e discutindo seu plano com outra pessoa.

Como bônus ainda existe toda a questão de teoria dos jogos (e bota teoria nisso) que com exceção de quem gosta de matemática, teoria dos jogos ou basicamente é um nerd invetarado vá achar graça.

(E, vamos destacar que outras séries tentam disfarçar temas mais complexos e com menos ação com ideias mais espalhafatosas como mechs gigantescos combatendo monstros como Evangelion ou como Gantz pura e simplesmente nudez e violência gratuita).

Ok, mas nada disso ao meu ver é o problema da série (ainda que eu saiba que torne difícil de convencer alguém a sequer dar uma chance). O problema, pelo menos do que eu vi da série até agora, está mais numa forma de naturalizar comportamento aberrante.

Quer dizer, o primeiro adversário de Nao é um antigo professor, e, num jogo bastante simples para garantir quem ficaria com um montante de dinheiro (e quem contrairia uma gigantesca dívida), esse professor diz se a menor empatia de forma literal e explicita para a garota (que, de novo, foi sua aluna) que ela pode entrar numa vida de prostituição para pagar sua dívida.

Isso é bem no começo da série e mais pra frente esse mesmo tipo de sugestão é feito novamente - sendo que em momento algum até o presente capítulo em que eu cheguei da série seja apresentada qualquer justificativa ou lógica de que a dívida contraída pelo participante tenha qualquer peso além de argumento narrativo (para fundamentar a série).

Francamente eu ainda acho que vale a pena dar uma conferida pensando numa animação mais calma e introspectiva (se você quer algo mais bobo, expansivo e cheio de explosões, Chainsaw man já existe). 

11 de junho de 2026

{Super Resenhas Aranha de Quinta} Homem de capa e mascarado aracnídio e Harry Nippotter e a sinergia corporativa

Ano passado eu critiquei Batman vs Deadpool e Deadpool vs Batman (que é bem ruim, esquecível e com o desespero gigantesco de duas empresas decaindo ano após ano em vendas, público e crítica).

Com Superman/Homem-Aranha, Mark Waid faz algo muito melhor que as duas edições de 2025, claro, mas é algo igualmente esquecível e que expõe o desespero gigantesco de duas empresas decaindo ano após ano em vendas, público e crítica.

E ainda que o roteiro e a arte são vastamente superiores, nós temos que lembrar que é algo bastante genérico e esquecível com algo que parece um roteiro desprezado de alguma edição de Batman/Superman: Melhores do Mundo ou Liga da Justiça Sem Limites (ambas do próprio Waid), e, que o roteiro de Alan Moore ou da trama da animação da Liga da Justiça de Brainiac se unindo a algum vilão para dominar o mundo.

Ainda que eu não esperasse mais - afinal não buscaram gente mais talentosa e ousada como Jonathan Hickman ou Jason Aaron, inclusive de fazer algum evento maior com mais páginas e com uma história coesa (ei, porque não usar o Absolute Superman e o Ultimate Homem-Aranha?) e produzir as duas edições integradas numa minissérie?

O resultado que temos apela demais para nostalgia e joga seguro demais com os clichês que devemos esperar desse tipo de história, e, quando consideramos que é um marco de 50 anos do primeiro encontro entre os dois heróis, bem, não seria demais esperar um pouco mais de impacto, porque e eu direi isso sem a menor sombra de dúvidas: Duvido piamente que alguém vá se lembrar dessa edição até o final do ano.

 

Por outro, em termos de sinergia corporativa (e para lançarmos duas resenhas para cobrir mais assuntos em menos tempo), temos um caso que, contraria boa parte do que eu falei de animês ou mangás nos últimos anos. Eu geralmente disse em alguns casos de que se eu tivesse 15 anos eu provavelmente gostaria desse ou daquele título (ainda que eu nunca ache que isso é um elogio), mas esse é um caso em que eu genuinamente sei e com toda a certeza, que eu não passaria nem perto desse título mesmo que ele tivesse um cheque em branco com meu nome nele.

Witch Hat Alelier é um quadrinho que eu teria muita vergonha de ler na minha adolescência, ainda que isso diga mais sobre o tipo de adolescente que eu era - que tinha vergonha de comprar quadrinhos do Demolidor ou outro herói chorando no telhado todo sombrio e gótico - e, francamente eu só posso dizer que é um quadrinho voltado para o público infantil e mais até, o público feminino...

Mas é uma graça de material e mesmo que tenha um monte de coisas esquisitas (tipo um grupo de meninas morando num 'ateliê' com um sujeito esquisitão, para ficar só naquela que chama mais a atenção do adulto lendo esse material - mas vale lembrar que quando eu era criança não via nada de errado com as crianças órfãs sequestradas e torturadas em 'treinamentos' para conseguir armaduras mágicas nos Cavaleiros do Zodíaco), tudo consegue passar uma aura bastante inocente, pueril e, perdão do trocadalho mas é verdade, uma vibração mágica.

As personagens são encantadoras, o cenário consegue vender bem o cenário ao mesmo tempo fantástico e fantasioso que lúdico, e enquanto o roteiro é basicamente Harry Potter em mangá (na verdade, mais para a fonte inspiradora de Ursula K L Guin - O Feiticeiro de Terramar), e esse é um material em que, curiosamente, a animação não faz jus ao original, onde a arte é muito superior e consegue criar o encanto de maneira mais orgânica e funcional.

Recomendado. 

4 de junho de 2026

{Resenha Aranha} Quinta Noir

Dizer que é o segundo melhor projeto da Sony com o Homem Aranha é um elogio sob qualquer forma? Obviamente que não (sério, você consegue pensar em quão longe do Aranhaverso estão os filmes do Homem Aranha produzidos pela Sony em qualquer escala?), e, por mais que eu realmente tenha achado a direção de arte (a direção geral nem tanto mas já falo sobre isso) muito boa, eu simplesmente não vi sob nenhuma perspectiva como isso não seria um zilhão de vezes melhor como uma animação.

Com 62 anos, Nicholas Cage não tem nem o físico nem o fôlego pra cenas de ação (não que o seriado dê muito espaço pra elas - mas, de novo, funcionaria melhor como animação) ao mesmo tempo que vários dos efeitos especiais se destacam do contraste do mundo ficcional (e, funcionariam melhor como animação) e simplesmente além do fato que a série traz rostos bastante conhecidos e famosos como o de Cage e Brendan Gleeson, eu simplesmente não vejo nada que justifique de maneira mais concreta que isso seja uma série com atores reais que, de novo, uma animação.

Ao meu ver a série tem um principal problema que é o tom.

Veja, eu não vou criticar os poderes ou qualquer elemento da história do Homem Aranha Noir (eu nunca li então não sei quais as diferenças dessa versão para o Homem Aranha tradicional e justamente por isso prefiro acreditar que a série é fiel ao material - ou se não, que pelo menos é fiel o suficiente), mas são as escolhas estranhas que me chamam a atenção, sabe?

Quer dizer, já no primeiro episódio, Cage se contunde após um choque com um carro (de novo, não sei se ele deveria ter agilidade igual o Homem Aranha, se ele deveria ser capaz de escapar disso ou qualquer coisa do tipo), mas o estranho na escolha da cena é como ela se desenrola. Cage leva uma porta de carro antigo no rosto, cai no chão (numa rua pela qual não passa nenhum outro carro ao mesmo tempo que vários outros pedestres estão próximos). Ninguém se move ou se aproxima para tentar acudi-lo ou tentar socorrer ou bem, tem qualquer tipo de reação (e eu sei que são apenas extras mas da forma que a cena segue isso fica pouco natural) e em breve nós vemos Cage despertando e aqui vemos uma reação e é uma reação completamente absurda e surreal (parece que ele acorda eletrocutado de um pesadelo terrível).

Isso me faz lembra daquela cena de Community em que Abed tem uma overdose de Cage, e, bem, a série parece bem disposta a usar isso, e dá-lhe Cage fazendo sotaques e imitações ou simplesmente agindo de maneira bizarra e nada característica à cena ou ao personagem (ele vive um sujeito cheio de trauma e remorso pela morte da esposa mas que de repente invade um apartamento pra levar um docegrama pro Mongo), e, francamente, pra mim várias vezes em que o ator simplesmente tem uma de suas reações exageradas ou ações fora do contexto do personagem foram suspendendo minha descrença porque foi ficando mais parecido com um cartum, ou, até mais no contexto do personagem, com o Porco-Aranha.

E, eu acho que a série aposta nesses exageros de Cage tanto para conseguir gerar memes e publicidade para o material quanto, e, aqui é onde eu acho que é mais importante, para disfarçar um roteiro clichê e sem graça.

Quer dizer, eu vou reforçar, ele tem mais de sessenta anos e isso nunca parece algo relevante ou coerente para a série ou mesmo um ponto ou argumento digno de menção (principalmente quando o restante do elenco de apoio do ator é composto por atores bem mais novos), inclusive do ponto de vista narrativo em que os poderes estejam falhando (que sim poderia ser pela idade dele, porque não?).

Veja a premissa: O Homem-Aranha Noir se aposentou depois que a esposa morreu, mas, continua trabalhando como detetive particular, mas, um caso envolvendo uma cantora de cabaré na mira de um mafioso o faz sair da aposentadoria...

E enquanto você não precisa ser alguém que leu todos os livros de Phillip Marlowe pra entender os clichês, e, até mesmo pode ser alguém que tente justificar os clichês como forma de puxar o espectador e o manter engajado num mundo multitelas (em que talvez você esteja assistindo a série ao mesmo tempo que prepara o jantar ou faz academia), eu insisto que com um orçamento mais baixo e produção de qualquer estúdio de animação sobraria mais tempo e recursos pra algumas revisões no roteiro pra tornar as coisas mais interessantes.

Consegue entender porque o fato de ser a segunda melhor produção - e, talvez até a melhor produção live action do Homem Aranha da Sony - não é particularmente um elogio?

E de novo, o aspecto visual com a perspectiva de usar o branco e preto e o colorido para sua vantagem (incluindo o fato que várias cenas valem a pena assistir duas vezes para conferir o contraste da produção), e, nem só isso porque a versão áudio descrição consegue ser ainda melhor que a versão original (afinal a narração na áudio descrição faz parecer ainda mais com um daqueles livros pulp de 5 centavos do período da depressão estadunidense).

Confesso que não sei como ficou em português e se tem áudio descrição em português, mas se você tiver a oportunidade assista em branco e preto com descrição de áudio, ciente de que Nicholas Cage fará alguma coisa bizarra em algum momento - e que talvez o roteiro vá abraçar alguma piada fora de hora que igualmente vá te tirar da cena - que pelo menos pelo valor artístico vale a pena conferir.

Recomendado (com ressalvas). 

28 de maio de 2026

{Resenhas lixo(?) de Quinta} Kortal Mombat II

Olha, nem é um negócio que tem muito o que falar pra ser honesto.

Mortal Kombat II é um filme horrível por uma série de fatores. O roteiro é inexistente e fracassa em qualquer tentativa de costurar uma cena de luta com a próxima de forma que, se você assistir ao material sem a mínima ideia do que diabos é a história de Mortal Kombat, boa sorte tentando entender o que está acontecendo em cada dado momento...

O elenco eu acho que é o maior positivo do filme, mas francamente sofre do fato que existe muita gente em cada momento determinado e muitas tramas simultâneas que não parecem interligadas sob nenhuma estrutura. Até porque graças a condição narrativa o pessoal se teleporta a torto e a direito e qualquer senso de direção, distância ou, droga, coerência sobre esses grupos específicos vai pro espaço em uma questão de segundos, formando somente uma colcha de retalhos enquanto elencos distintos agem em cenas distintas.

Tem o grupo da Terra, o grupo de Shao Khan, o grupo de coadjuvantes sem afiliação e o grupo de vilões (que não lutam mas tem alguma ação específica para a trama). Alguns personagens inclusive nem parecem ter uma narrativa direta que justifica sua presença na história (e sim, estou falando de basicamente todo o time da Terra, mas o Johnny Cage ganha o troféu de personagem mais inútil de um filme - ao mesmo tempo que é o personagem mais interessante).

E olha que a história do jogo Mortal Kombat já não é nem um pouco linear e é uma bagunça (com lutas entre clãs de ninjas que duram gerações - mesmo como fantasmas e monstros das sombras), o que também não ajuda, na verdade só faz o filme parecer mais com o modo história de um dos jogos mais recentes, o que, por nenhuma métrica é um elogio. Isso é um filme não um extra de um jogo de videogame.

Não ajuda que é uma continuação do filme de 2021 e não parece se importar com os personagens daquele filme, não ajuda que continua ignorando em grande parte os personagens mais populares da franquia (Sub Zero e Milena não aparecem enquanto Scorpion tem uma breve aparição pra lá da metade do filme - e acho que aparece menos que o Liu Kang) e de fato não ajuda que o filme tenta demais complicar as coisas com elementos que agregam muito pouco ou nada (qual a função do necromante Quan Chi no filme ou de qualquer personagem que ele trouxe dos mortos?) além de servir como easter egg ou referência direta a eventos dos jogos...

Só que isso não é um filme, né? Isso é pornografia.

Isso é pornografia de nostalgia pra você olhar pras cenas, pros personagens e lembrar dos jogos que inspiraram o material, pra lembrar de quando tinha dez/doze anos e estava obcecado com esses jogos no arcade ou no videogame antigo disputando com seus amigos e familiares... É pra isso que serve esse "filme".

E crédito onde o crédito é devido as cenas de luta são sim bem interessantes e construídas de forma que quase compensa a falta de roteiro para quem é fã da franquia, recriando os cenários dos ambientes das lutas (principalmente do Mortal Kombat II), mas acaba meio que faltando substância pra dar aquele gás na nostalgia. Sei lá, colocar Sub-Zero e Scorpion lutando por vinte minutos mesmo que não faça sentido narrativo (sim, os dois estão mortos na continuidade do filme, mas isso não impediu Kano ou Kung Lao de aparecerem - e Scorpion aparece no filme, vale destacar).

Pô, abraça a insanidade da pornografia de nostalgia e corre com isso se não é pra fazer um filme em qualquer sentido lógico da palavra, e é nisso que acaba também faltando, sem servir ao menos nesse propósito de agradar os fãs  e acaba sendo muito pouco, se tornando  muito pouca carne em um osso já carcomido.

21 de maio de 2026

{Resenhas de ST Louis} DTF Quinta

O final é bem ruim (e eu acho que é bom você saber isso antes de tentar conferir o material), mas eu não vou entrar nas explicações do final e do que faz dele ruim especificamente uma vez que o problema dele está atrelado a um problema narrativo que surge já desde o primeiro episódio.

DTF St Louis é sobre a investigação criminal da morte de um sujeito, e, verdade seja dito, desde o primeiro episódio parece extremamente (e eu digo extremamente) precipitado que a polícia conclua 'assassinato' e conduza uma longa investigação de assassinato.

As peças não estão ali e conforme a narrativa avança com as suspeitas, bem, as peças continuam não estando ali, e, quanto mais eu pensava e analisava a série, mais eu lembrava de Desperate Housewives, sabe?

Alguém morre no começo e mistérios começam a aparecer, alguém inclusive diz e repete que de perto ninguém é normal e por aí vai, só que, e eu repito, o aspecto da investigação criminal que é o que a série QUER conduzir e criar, simplesmente não funciona, não é o gancho que eles acham que é (ou deveria ser).

O gancho é a extraordinária sinergia de David Harbour e Jason Bateman, o gancho é a performance fora de série de Linda Cardelini... E são eles efetivamente porque o roteiro precisava de umas duas ou três revisões para ser algo diferente e mais interessante, talvez até uns cortar uma série de cenas (droga, tem um momento em que Harbour e Bateman cantam rap numa bicicleta esquisita e é completamente dispensável e não é o único - fácil tem um episódio inteiro de cenas igualmente dispensáveis, e isso que é uma mini-série com apenas 7 episódios).

E como o roteiro falha, a série tenta atrair a atenção vendendo sexo, desde o título (DTF é uma sigla que significa 'disposto a transar', e na série é um app de encontros casuais), mas repetidas vezes são mostradas imagens geradas por IA com conteúdo sexual assim como todo o contexto é de que um dos personagens está tendo um caso com a esposa do outro e isso forma todo um cenário... E nisso eles tem toda uma estrutura de fetiches que vão se desfraldando...

Mas se tem um aspecto que é terrivelmente construído é o aspecto da investigação criminal. Puta merda eu acho que esse é uma das piores narrativas detetivescas que eu já vi na vida de longe.

Começa com o clichê do detetive velho (carrancudo e preconceituoso) que pula para uma conclusão estúpida por algum motivo estúpido enquanto a detetive mais jovem (espirituosa e determinada) faz a exata mesma coisa numa outra direção, mas, sabe, ela ainda tem muito a ensinar ao velho detetive carrancudo.

Sinceramente até acho que, se invertessem a dinâmica (com o detetive mais velho mais espirituoso e determinado enquanto a detetive novata fosse uma cristã fundamentalista que pula para conclusões precipitadas) seria ao menos um passo na direção correta, ainda que a estrutura narrativa da investigação continue o grande problema. Eles pulam muito rápido para a conclusão de homicídio, quando tudo aponta, na melhor das hipóteses, para um suicídio esquisito, e, se a série quisesse usar mesmo esse elemento investigativo, a partir dessa tese de suicídio (esquisito) ao descobrir novos fatos que corroborem a versão de homicídio eles deveriam partir para uma investigação mais robusta.

Só que nunca aparece nada para corroborar para uma investigação mais robusta. Droga, um dos pulos gigantescos na investigação vem porque um personagem mentiu sobre o suco favorito (e eu não estou nem exagerando porque o seriado faz isso ainda pior com os atendentes do estabelecimento lembrando claramente quem é a cliente pelo sua bebida favorita, porque óbvio que o fariam!)...

Aí tem o final que é terrível na conclusão da investigação...

Podia funcionar, e, até acho que teria como funcionar, mas não houve esforço suficiente para isso.

Uma pena. 

7 de maio de 2026

{Ne Zhas de Quinta} Resenha 2 - O Renascer da Alma

As animações asiáticas tiveram um ano de 2025 realmente incrível.

Chainsaw Man (o filme, o arco de Reze), Demon Slayer Castelo Infinito e Ne Zha 2 (O Renascer da Alma) são alguns dos filmes mais vistos do mundo no ano passado, e, sinceramente são alguns dos filmes mais interessantes de 2025 também... É curioso até pelo contraste com animações mais recentes ocidentais, quer dizer, quando foi a última animação da Disney (Zootopia de 2016?) ou da Dreamworks (Gato de Botas 2 de 2022?) digna de nota mesmo...? Mesmo a Ilumination que saiu dos Minions pra entrar nas franquias da Nintendo (e não fazer nada de realmente interessante com isso, né?).

Eu quero inclusive fazer um novo comentário sobre Chainsaw Man em um futuro próximo mas eu não tenho como deixar de falar em quanto o material consegue ser completamente insano e ainda fazer sentido dentro de seu próprio contexto, produzindo um material inovador e interessante para o público. Droga, tem uma longa cena de batalha em que um sujeito com braços e rosto de motosserra cavalga em um tubarão com pernas de caranguejo enquanto enfrenta um ciclone com um rosto de criança (lógico) que auxilia uma mulher com uma cabeça de granada.

Não, eu não estou tendo um infarto e digitando palavras aleatórias, isso talvez seja a forma como o roteiro montou essa cena, e por mais que pareça uma salada de palavras funciona dentro do filme que você assiste e tem alta octanagem.

Mas esse é um tópico para outro dia porque eu quero falar de Ne Zha 2, e, enquanto eu sei que o '2' do título possa espantar algumas pessoas, e de fato exista um primeiro filme do qual esse se expanda, sinceramente não é particularmente algo que precise de grande contextualização além do que a história apresenta, afinal a história é uma grande fábula (tradicional chinesa, inclusive), e sinceramente não é o elemento ou estrutura mais importante do filme.

É uma fábula como você já deve ter visto tantas outras só que agora num contexto chinês e com elementos orientais que subvertem levemente algumas das estruturas comuns da Disney formando algo mais próximo de um filme de super heróis que de princesas. Mas continua uma fábula com todas as mesmas condições e estruturas que você pode esperar desse gênero de história.

Acontece que existe o elemento visual do filme e é algo que realmente te transporta nessa história clichê e consegue em certos pontos transcender com um terceiro ato que é de tirar o fôlego e extremamente empolgante, sendo que durante todo o filme já existe uma animação bastante competente e fluída.

O material facilmente pode ser usado em uma loja de eletrodomésticos para fazer teste de televisão (porque é deslumbrante visualmente - mesmo que a história não chegue no mesmo nível).

Recomendadíssimo!

30 de abril de 2026

{Resenhas Líquidas} A Dança da Quinta - Ta-Nehisi Coates

Sim, eu conheço o autor pelo trabalho em Pantera Negra - e ainda acho que é tanto o melhor arco do personagem (pelo menos até aquela bobagem de Império Intergalático de Wakanda) como o melhor trabalho do autor Ta-Nehisi Coates - e sei que primeiro o autor publicou os livros e com esse sucesso acabou trabalhando para a Marvel, mas eu genuinamente tenho uma certa dificuldade de achar os trabalhos dele tão particularmente interessantes.

Li Entre o Mundo e Eu e quase não consegui terminar de tão pouco que a obra me interessou no geral (e confesso que lembrou muito pouco do conteúdo) e enquanto A Dança da Água é um material muito superior ele ainda padece de alguns problemas que foram me tirando da história aqui e ali.

Essa é uma história sobre escravidão e o protagonista é um jovem que mal se lembra de sua mãe e cresceu na propriedade de seu pai (sim, seu pai também é seu dono), e, por uma série de eventos extraordinários acaba fugindo e se juntando a um grupo de libertadores de escravos, auxiliando assim outras pessoas a fugirem de sua labuta. E a premissa em si é incrivelmente poderosa e interessante.

O problema é a execução.

Em dados momentos a história parece querer fazer como Forrest Gump ou Assassin's Creed e trazer alguma figura histórica real, não sei se como forma de legitimar a ação do protagonista ou consolidar a história em algo baseado em fatos reais... Algo categoricamente desnecessário e que não acrescenta nada além de que é um nome de uma pessoa histórica relevante.

Cada vez que acontece, pelo menos pra mim, isso foi quebrando a ilusão narrativa e a suspensão de descrença, e eu acho que mesmo pra quem isso não incomode tanto, acaba como algo mais estranho por quebrar o ritmo da narrativa para essa inserção de uma participação especial na história.

Mas como eu disse, a premissa é poderosa e e quando funciona, bem, ela funciona muito bem, e, a história central em si é muito interessante, com alguns pontos da história de Hiram - principalmente mais para o final quando ele se lembra do que aconteceu com a mãe quando ele era pequeno - que realmente dão peso ao livro.

Agora, sinceramente não vá com grandes expectativas (o melhor trabalho do autor continua sendo Pantera Negra, mesmo se este seja um bom próximo segundo lugar).

25 de abril de 2026

{Resenhas sem vergonhas - que não sairam na quinta} Shameless

Em primeiro lugar, sim, eu sei que existe um original britânico (que meio que descobriu o James McAvoy), mas eu nunca consegui encontrar o orignal para assistir mais que a abertura e verificar que existem bem mais semelhanças que mudanças radicais entre as versões.

Nas mudanças radicais, William H Macy que é um dos atores de Hollywood mais subestimados de todos os tempos (e curiosamente um sujeito incrivelmente talentoso e prolixo) dá vida ao patriarca da família Gallagher, mas a série traz vários outros nomes e rostos bem conhecidos, como Joan Cusack, o "Goku" Justin Chatwin, Amy Smart, Luis Guzmán entre outros enquanto apresentando nomes que se tornariam bastante famosos (como Jeremy Allen White, de The Bear ou Cameron Monaghan que fez o Coringa em Gotham e estrela em dois jogos de Star Wars da EA, além de Emmy Rossum - que é a alma da série e merece muito mais reconhecimento do que tem).

A história segue uma família pobre e disfuncional cujo pai é um alcoolatra e drogado com seis filhos (uma sétima aparece mais tarde mas vamos deixar isso pra outro momento) tendo de fazer o possível para administrar a casa e lidar com as despesas. Fiona, a mais velha e aparentemente a mais ajustada do grupo assume as rédeas da família nas constantes ausências do pai e se esforça como pode para manter as coisas funcionando - mas casa velha, muitas crianças e pouco dinheiro sem sombra de dúvidas é igual a dificuldades financeiras.

Com isso vem em grande parte a condição de 'sem vergonha' do título, em que, diante da pobreza abjeta, se faz necessário usar de toda e qualquer ferramenta disponível para sobreviver ou viver mais um dia, e isso tanto significa aceitar empregos deploráveis (como limpar fossas ou trabalhar num mercado em que o gerente exige sexo oral para não sujeitar as funcionárias aos piores serviços e turnos) como efetivamente roubar, enganar e ludibriar a quem for por uns trocados a mais.

O título se refere ao fato que o pobre não pode se dar ao luxo de ter vergonha, e isso é o que vemos nas dez temporadas da série... Bem, pelo menos nas cinco primeiras eu diria porque depois a série meio que quer dar um final feliz para um personagem que deixa a série e esse personagem, apesar de toda a lógica capitalista em contrário, começa a prosperar continuamente como um mago dos negócios...

É claro que o título também se refere ao sexo e a série tem muito sexo. MUITO SEXO (a abertura já traz sexo e esse é, sem sombra de dúvida, um dos chamariz que usaram para vender a série pela Showtime).

Ok, voltando pra história, cada um dos Gallagher tem seus dilemas interiores - ainda que as crianças mais novas estejam em busca de suas identidades, os mais velhos já tem suas condições mais definidas.

Ian é homossexual (e depois descobre que tem alguns problemas de bipolaridade) e sabe que isso pode custar sua admissão numa academia militar que era seu sonho desde pequeno, enquanto Lip que parece ter um dom natural para ciências não enxerga potencial ou futuro no aprendizado (por mais que tenha universidades babando para lhe oferecer bolsa de estudos), enquanto tenta escapar do alcoolismo que, bem, o atormenta bem mais que a seu pai.

Fiona, como eu mencionei antes, a mais ajustada tem o dilema de viver em função de seus irmãos ou o de viver sua vida própria (até porque sabe que, no momento em que seguir em frente, a casa desmoronará), enquanto Debbie tenta redimir e aceitar o pai, e, Carl tem problemas constantes com raiva.

E, eu não sei se William H Macy entra e sai das cenas sem muito para fazer por questões contratuais e conflitos de agenda, ou se o público estadunidense não reagiu tão bem a ideia do pai ausente e alcoolatra e preferiram relegá-lo apenas a alívio cômico ocasional para a história acompanhar a superação e desafios dos filhos... Mas Frank é um personagem que, sinceramente, me irrita bastante no material e poderia ser removido em qualquer das temporadas subsequentes a primeira sem muito (ou talvez algum) prejuízo, por mais que o ator seja extraodinário é faz uma performance genial com (o pouco) que tem disponível.

Pra contextualizar isso - e eu sei que estamos diante de alguns spoilers moderados de uma série que terminou há mais de cinco anos e da primeira temporada que foi ao ar em 2011 - na primeira temporada Frank começa a sair com a personagem de Joan Cusack - pura e simplesmente para ter um lugar para morar depois que os filhos o expulsam da casa. Essa personagem tem uma filha adolescente que está saindo com Lip (o filho mais velho e ainda colegial) e, em dado momento no final da primeira temporada, Frank acaba transando com a menina - o que encerra a primeira temporada com o pai da menina vendo um vídeo da cena que vazou para a internet.

E isso não rende absolutamente nada.

O pai da menina acaba se matando (sem confrontar Frank), tanto o filho como a personagem de Joan Cusack confrontam Frank mas acabam o perdoando ou ignorando a transgressão como se fosse algo normal e inócuo (sabe, como acabar com o papel higiênico e não abastecer outro rolo?) e o evento sequer é mencionado novamente. Sério, todo mundo finge que tudo isso é normal e é somente 'Frank sendo Frank', e é meio que o motivo do que eu falei antes que o personagem não tem muito peso na história ao contrário dos filhos.

O problema efetivo é que, conforme as temporadas avançam, isso acaba se espalhando e repetindo de novo e de novo com basicamente todos os demais personagens e tramas, e o grande problema é que, por volta da quarta temporada a narrativa está próxima de suas conclusões lógicas e eles continuam até o ponto onde a série deveria acabar (na oitava temporada), mas com sucesso de público e crítica parecia que uma temporada a mais seria óbvia e não obstante temos 3 temporadas a mais.

Eu francamente acho que a série tem vários problemas, mas que tem tanto talento e os personagens são tão interessantes que é fácil deixar de lado para focar somente no positivo, ainda que eu recomende com ressalvas - porque a série entra num modo zumbi nas últimas temporadas que é difícil de extrair qualquer coisa que salve. 

9 de abril de 2026

{Resenhas de Névoas} Mistquinta - Brandon Sanderson

Se isso parecer com um elogio passivo agressivo, me desculpe, porque não é um elogio e nem é a minha intenção.

Eu acho que talvez Brandon Sanderson seja um ótimo escritor, ou, ao menos um escritor minimamente decente - haja visto o quanto já produziu e vendeu, e, o fato que conseguiu angariar tantos fãs em tão pouco tempo - mas com toda a certeza não é através do primeiro livro da 'trilogia original' (seja lá o que isso signifique) de Mistborn que esses predicados serão reconhecidos.

Ao que eu vejo, existe um elemento muito forte de marketing que supera em diversas vezes a qualidade do material, e, de tal maneira inclusive uma galera que tenta divulgar o livro se empolga mais pelo marketing nele imbuído que efetivamente pelo material. 

Não que o livro seja ruim, longe disso, mas não há nada particularmente interessante aqui também.

Os personagens não são originais, a história não é original, a forma de contar a história não é original... É tudo um grande requentado das sobras de ontem que vão formando um gigantesco monstro de Frankenstein literário enquanto Sanderson parece mais alguém buscando agradar todos os públicos como um marqueteiro ou consultor de Hollywood apelando para o público médio.

Com isso a obra opera em partes que funcionam para todos os públicos ao mesmo tempo que apelam para noções universais e tão conhecidas e reconhecidas da cultura popular (como um império maligno com um líder terrível com poderes incríveis - sabe, igual a Plasma Sword! - enquanto longas cenas de baile e intrigas entre a nobreza claramente parecem aludir ao público fã de Bridgerton e não obstante o herói tal qual Errol Flyn pulando por telhados e treinando um aprendiz no combate ao crime e super poderes não se parece com nada que eu conheça)...

Então é todo um resto de ontem requentado e que tenta apelar para todos os públicos (que não é muito diferente do que Hollywood faz de novo e de novo e de novo desde que Hollywood é Hollywood), e por mais que nada seja original, ao menos nada é particularmente ruim.

São arquétipos bastante conhecidos, são estruturas bastante familiares, mas é escrito bem o suficiente para funcionar e, Sanderson consegue criar personagens interessantes - como o líder rebelde Kelsier - e situações interessantes, com a estrutura de super poderes do livro e toda a dinâmica do regime opressor que quer bombardear o Irã, digo, que quer controlar a vida de todas as pessoas do reino.

Só que eu disse que não é minha intenção fazer qualque tipo de comentário elogioso, então mesmo que o livro tenha alguns predicados, ele joga tudo isso fora em seu ato final, e, não quero estabelecer spoilers para alguém que pretenda ler o livro então a versão sem spoiler é a seguinte:

Minha reação foi de embasbacamento com esse final.

Eu genuinamente não consigo imaginar um livro que eu li, não apenas recentemente, que de maneira tão súbita se resolva e conclua, e, pra mim, se conclua de maneira tão estúpida, excluindo é claro um material do Mark Millar ou algum livro muito ruim como, sei lá, a fase Richard Bachman do Stephen King, mas nenhum desses exemplos são de material que uma única pessoa tenha em qualquer momento dito que são bons.

O livro se divide em 5 partes (mais um epílogo), e, basicamente nas primeiras quartas partes desse material os rebeldes preparam seus planos e, tal qual Rocky Balboa apanham taxativamente round após round, após round, após round, e quando não seria possível que o juiz mantivesse a luta continuando (mesmo num filme do Rocky Balboa), você entra na última parte do livro e numa sequência de Deus Ex Machina dos infernos (pelas minhas contas foram uns três consecutivos numas trinta ou quarenta páginas), e tudo termina bem.

 

 

Perdão se é um spoiler leve, mas até essas reviravoltas da última parte, não tinha nada que apontaria que o livro terminaria com os heróis vencendo, na verdade os capítulos finais parecem inclusive manter o tom e a estrutura que vinha até ali - e os heróis tomam mais uma baita surra até que se inicia uma sucessão de sorte e eles ganham.

E para explicar melhor isso, eu não tenho como fazer sem spoilers, então fica a o aviso que daqui pra frente eu falarei de boa parte dos spoilers dos capítulos finais do livro, siga por sua conta e risco.

 

 

OK? Ok.

No final da quarta parte do livro, o Obi-Wan Kenobi/Batman morre assassinado pelo vilãozão e isso funcionaria muito bem como o fim do livro na minha humilde opinião. Um final devastador, os planos fracassaram e não resta muita esperança - ainda que, e aí tem uma sacada interessante, a morte do protagonista inspire uma revolução na população até ali mais passiva, e isso crie uma nova religião (ou seja, cabia um epílogo ao menos pra isso, mas deixando de lado o restante do bando do Kelsier).

Só que não é o que acontece, e a Robin invade a fortaleza do vilão, é capturada, espancada, humilhada e presa (onde ouve a história de sua origem secreta como filha de uma figura relevante no império do mal) e com a Robin presa e derrotada o negócio começa a virar - pois o Alfred aparece e tira ela da cadeia, mas não só isso porque o interesse romântico chega com um exército e inicia uma insurreição e ao mesmo tempo um personagem dado como morto reaparece e derrota todos os vilões extremamente poderosos durante o restante do livro e o vilãozão poderoso é derrotado com relativa facilidade...

E tudo isso num intervalo de dois ou menos capítulos, terminando com um tom de clara vitória para os rebeldes que tomaram um 7 a 1 a cada dez páginas.

Pô, é muito ruim esse final do livro e não tem como justificar uma coisa dessas!

Inclusive porque existia um tal livro com as memórias do vilãozão e ele não apresenta nada de novo ou relevante (ou que poderia ajudar a derrotá-lo) - afinal esse personagem dizimou rebeliões por mil anos e sobrevive a ataques diretos a si (inclusive tem um momento em que ele é atingido por lanças e segue andando como se fosse uma farpinha de nada)... E assim, nem o vilão é desenvolvido direito e nem a forma como ele acaba derrotado, ele tipo escorrega numa casca de banana porque precisavam terminar o livro e já tinha um baile beneficiente agendando em sequência então não dá pra enrolar muito mais.

Eu não consigo recomendar e não consigo entender como se tornou tão popular. 

2 de abril de 2026

{Resenhas de quuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuinta} Uma vida pequena - Hanya Yanagihara

Resumo dinâmico: Verborrágico (e masturbatório).

Eu poderia fazer como o livro e ficar dias te explicando porque isso é intragável, mas vamos para uma comparação simples?

Esse livro tem 784 páginas - pouco mais que o primeiro livro de Mistborn, sobre o qual eu falarei na próxima semana, com 864, enquanto o primeiro livro de O Senhor dos Anéis tem 576, e, quase o dobro de alguns dos meus livros favoritos de José Saramago como O Ano da Morte de Ricardo Reis, Levantando do Chão e Memorial do Convento, quase todos na faixa das 400 páginas.

(Só um parênteses aqui uma vez que épicos de fantasia tendem a um número maior de páginas justamente porque precisam apresentar uma grande quantidade de conceitos, muitas vezes suas histórias se passam em mundos diferentes do nosso e com raças, dinastias nobres e estruturas sociais completemante alienígenas aos nossos conceitos - e desenvolver estes aspectos leva naturalmente tempo e páginas - o que não é o caso do livro em questão). 

Ainda mais quando o livro é basicamente Friends mas para a HBO (sabe, com aquela ousadia de Euphoria com sexo, drogas, violência e pretensão).

Basicamente um grupo de amigos que se conhece na época da faculdade (ou seja, início da idade adulta) e tem de lidar com os perrengues de empregos, namoros, responsabilidades e amadurecimento (clap, clap, clap), só que, sabe, com personagens mais desagradáveis e desinteressantes. Eu não quero fingir que o material não possa funcionar para algumas pessoas, e, sinceramente não vou insultar qualquer uma das pessoas que gostaram ou gostam do material - mas eu vou sugerir a vocês que busquem outros autores como Kazuo Ishiguro com seu Uma Visão Pálida das Colinas ou Min Jin Lee com Pachinko e, droga, tem três livros fantásticos do Saramago no parágrafo anterior, para que vocês vejam o que é um material bem escrito e executado em comparação.

O livro perde muito tempo com os personagens secundários - uma vez que a 'vida pequena' da qual ele quer cobrir é do rapaz chamado Jude que passa por todo tipo de experiência desagradável durante sua infância/adolescência, que leva a um tipo de comportamento auto-destrutivo, e, uma incapacidade de aceitar coisas e pessoas boas ao seu redor - perdendo esses elementos para um personagem de família rica que se sente perdendo o contato com suas origens raciais, um outro personagem que cresceu em uma fazenda e teve pais pouco carinhosos e um terceiro que, bem, é só um babaca, enquanto navega pelos grupos crescentes de amigos, conhecidos, colegas de trabalho e outros tantos que vão cruzando pela vida de cada um destes personagens e aumentando exponenciamente a duração dos eventos, muitas vezes chegando em lugar nenhum, ao mesmo tempo que travando o progresso da trama principal.

Na trama principal, inclusive, tem um certo sadismo em que a autora vai levantando dúvidas sobre o evento que descrever ser o estopim e ponto mais desagradável da vida do protagonista (quando trará algo mais assombroso e terrível em seguida), e eu não quero relativizar ou diminuir o impacto das situações - e cenas - mais chocantes e perturbadoras que o protagonista passa, longe disso.
O que eu quero enfatizar é que acho desnecessário toda a fanfarra e talvez os requintes de crueldade que a autora usa para executar esses traumas ao personagem, algo que, com menos traumas e menos páginas funcionaria igualmente, diria até que muito melhor pois seria mais incisivo.

Talvez não tenha funcionado pra mim, talvez nunca vá funcionar pra mim... Mas eu simplesmente não consegui entrar na proposta do livro e conforme avançada a passos glaciais ficava cada vez mais distraído e pensando em outros livros melhores que eu podia ler no lugar dele (e até por isso tantas comparações no texto).

Só posso dizer que, honestamente, me parece muito pretensioso no quanto o livro gasta de tempo para contar uma história, que, talvez funcionasse melhor num conto curto, ou mesmo num livro beeeeem mais curto com umas 250-300 páginas indo direto ao ponto e focando no que realmente importa da tese central da história (que eu não sei dizer se é sobre trauma unicamente, ainda que pareça ao menos o cerne da questão, até porque me parece que existe bem mais elementos que a autora tenta trabalhar mas, honestamente me escapam).

16 de fevereiro de 2026

{Resenhas de Drogas} Como Vender Quintas Online (rápido)

Tentando reduzir a lista de séries que eu comecei e não terminei, Como Vender Drogas Online (rápido) é baseada numa história real - ainda que isso signifique absolutamente porcaria nada hoje em dia, afinal, 'baseado' pode significar que pura e simplesmente que um fatóide na história tem alguma verossimilhança com algo que pode ter acontecido realmente - e, enquanto é um Breaking Bad adolescente e alemão, bem, a verdade é que não é só isso pois também é uma comédia.

Eu posso argumentar mais que isso? Talvez, mas, vale a pena?

Quer dizer, se você não assistiu Breaking Bad ou Better Call Saul, não há necessidade de ver primeiro a versão adolescente (e alemã e de comédia), e, se você já viu qualquer um desses dois, o que existe aqui de particularmente diferente (porque melhor, sinceramente, não tem nada)?

Até é uma comédia razoável e que provoca algum riso espontâneo, ainda que dificilmente uma gargalhada, mas longe de algo que vale a pena recomendar... Ou mesmo argumentar sobre.

5 de fevereiro de 2026

{Resenhas Magnéticas} X-men As Guerras de Quinta

Anteriormente, em X-men:

Para um breve contexto, X-men é uma série que surge nos anos 1960 com Stan Lee inflando as publicações da Marvel com toda ideia idiota que ele conseguisse colocar no papel, e, continuando o que lhe garantiu emprego na editora nas décadas anteriores, abraçou bastante a noção de romance - quando a verdade é mais 'novela ruim nível Gloria Perez'.

A série passa por uma gigantesca transformação com a Segunda Gênese, quando os personagens originais são substituídos por uma nova equipe completamente diferente que vai se desenvolvendo (e crescendo) na próxima década e além, conforme a série também cresce em popularidade. Com o crescimento de popularidade a editora começa a buscar crescer a franquia e isso nos leva a novos títulos e novos títulos e novos títulos para acomodar uma cada vez maior e mais crescente quantia de personagens. Isso leva a eventos crossovers a cada trimestre entre os múltiplos títulos (visando uma gigantesca sinergia corporativa e vendas) enquanto a qualidade das histórias declina consideravelmente no final dos anos 1980 e começo dos 1990, como o arco sobre a nação estado de Genosha (que escravizava mutantes para conseguir prosperidade - e que se concluí com a derrota de um vilão aranho-robótico), e isso se tornaria mais importante depois.

Com a virada dos anos 1990, o declínio vai avançando cada vez mais (enquanto paradoxalmente as vendas crescem ou seguem bem firmes e fortes) e as histórias vão para todo lado com clones, viajantes do tempo, linhas do tempo alternativas, mas não esqueçamos o comentário social através do vírus legado (que seria o equivalente do HIV, mas, sabe, afetando unicamente mutantes) e, no ápice (ou seria o nadir?) da coisa toda, temos o Massacre, onde não apenas as franquias X se reúnem mas todo o universo Marvel para combater a fuuuuuuuusão do professor Xavier e Magneto (que formam o vilão Massacre).

Após os eventos de Massacre, em 1998 a ideia é de limpar a casa e recomeçar (mais ou menos como na Segunda Gênese, inclusive trazendo de volta os personagens desse período e não por mera coincidência), com a ideia de reestabelecer a fraquia e consolidar os personagens, claro que pensando na sinergia corporativa do vindouro filme pela Fox. Ou seja, reapresentar os personagens (mais interessantes) num ponto de partida fácil para os leitores que sairem empolgados dos cinemas pelo filme da franquia.

 

Um pequeno parêneteses, porque pra mim foi exatamente isso quando eu comprei Fabulosos X-men 50 (que eu tenho ainda hoje, por mais que tenha me desfeito de uma quantidade enorme de quadrinhos da coleção ao longo dos anos) e que eu comprei bem empolgado justamente com a ideia do filme que estava em vias de estrear e eu queria saber mais sobre a franquia. Eu só não me lembro se comprei essa hq antes ou depois do lançamento do filme - mas os problemas disso eu já falarei em um instante.

E, eu confesso que não sei qual o problema aqui se foi editorial, se foi de quase uma década de autores num modo específico de escrita envolvendo múltiplos títulos (que os manteve fixos num modo específico) ou se foi pura e simplesmente o fato que eles não tinham os melhores nomes disponíveis ou se importavam com o resultado, mas o que vemos aqui é uma colagem de tudo de errado que poderiam fazer nesse sentido. 

Sim, é fácil olhar em retrospecto mais de vinte e cinco anos depois e ciente de tudo o que aconteceu (nos quadrinhos e fora deles) com a franquia para dizer que essa foi uma bola fora e que tinha tudo para dar errado, ainda que tivesse o gigantesco talento de Alan Davis, Chris Bachalo, Carlos Pacheco, Adam Kubert e Steven Seagle (escritor de vários sucessos e material conceituado na DC nos anos 1990)  por exemplo, tivesse o regresso de vários dos personagens mais populares da franquia no time principal (e isso fosse uma mensagem para os fãs de longa data clamando por seu retorno ou uma nova chance para a franquia) e, bem, todo o potencial que de fato existia aqui.

Esses não são os problemas aqui, pelo contrário, esses são os pontos fortes que me fizeram ler na época e rever agora vários anos mais tarde. O problema está no restante, que tenta manter uma estratégia fracassada da Marvel nesse período (que, lembremos, levou a editora a decretar falência em 1996), e que ainda parecia vigente na mente de vários dos editores da empresa.

No lugar de histórias simples e claras, temos material convoluto que tenta ligar eventos com uma longa (e estúpida) cronologia convoluta, e explicações que pouco fazem sentido ou funcionam. São raras histórias ou edições nesse período sem uma nota de editor apontando para outra edição ou arco ou história.

Como a ideia de que o professor X ressurge (após o Massacre, diga-se de passagem), porém substituído pelo super computador Cérebro (sim) que tomou corpo após o ataque de Bastion em outro mega-evento e resolveu montar seu super grupo para destruir os X-men e dominar o mundo, e, daí temos os alicerces da série por vir sempre com um pézinho para trás numa convoluta e absurda narrativa que nunca tenta avançar, se explicar ou desenvolver além do que os anos 1990 fizeram.

Gambit volta (após seu julgamento) e enquanto tenta reatar com Vampira, ela tem de discutir seus sentimentos com Magneto e/ou seu clone Joseph - que foi criado pela vilã Astra que sempre totalmente esteve ali e não é só uma recente (e desinteressante) criação, soma-se a isso toda uma lista de personagens desinteressantes que vão aparecer aqui, acolá e inflar o número de pessoas por página ao passo que desaparecer completamente na edição seguinte (ou mesmo no quadro seguinte em alguns casos), enquanto as coisas nunca parecem capazes de criar uma narrativa pungente e interessante.

O argumento da Guerra Magnética - de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - é interessante como conceito, mas que se perde conforme esse cerne da história dá lugar para o conflito entre o clone de Magneto (que é seu lado bom e nobre) com sua criadora Astra e posteriormente com o próprio Magneto em meio a uma série de explanações e mais explanações para tentar corrigir toda a estrutura narrativa desses dois personagens na última década.

Por outro lado a 'guerra' em si se resolve conforme uma personagem propõe à ONU um plano de conceder Genosha ao vilão e, bem, nós não temos muito mais detalhamento ou desenvolvimento nessa personagem chamada Alda Huxley (que, como você deve imaginar, não tem grande consequência ou relevância depois disso - e nem vamos fingir que é difícil ver de onde vem o nome da moça) e tudo parece se resolver fácil e simples demais sem um fluxo natural de história ou mesmo qualquer propósito para os personagens (os X-men enfrentam asseclas de Magneto durante boa parte da história enquanto o vilão em si está isolado enfrentando seu próprio clone, e, a história em si - sabe, de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - ocorre com um emissário robô do vilão lidando com personagens sem nome ou qualquer ação e decisão nos eventos).

A solução de oferecer Genosha à Magneto parece arbitrária e confusa num primeiro momento (inclusive quando consideramos histórias anteriores em que Magneto teve um asteróide ou um terreninho na Terra Selvagem e foram expropriar ele de lá), mas são ainda mais confusas quando nos trazem o Capitão América comparando diretamente as ações de Magneto às ações de Hitler (o que eu adoraria ouvir os pensamentos desse Capitão América de 1998 sobre um certo presidente que quer anexar o Groenlândia), quando curiosamente, a comparação mais clara é que a formação do estado de Israel, mas nesse caso aos mutantes (e claro, talvez o líder mutante seja alguém apto por se apropriar de terras vizinhas e dominar seus vizinhos, ao contrário do gentil e respeitoso povo de Israel, certo?).

Curiosamente, existe um problema aqui da própria Marvel que vem desde o evento Atos de Vingança (entre 1989 e 1990) que coloca Magneto trabalhando diretamente com o Caveira Vermelha (que era uma figura proeminente do regime nazista e que é em parte responsável pela morte da família do Magneto na Alemanha), e tudo isso tenta colocar o personagem num mesmo balaio que todo outro vilão da editora, além de desligitimizar suas motivações e, mais importante, o longo arco de redenção trabalhado por Chris Claremont nos anos anteriores (culminando no julgamento do personagem em 1985).

E de novo, é curioso que em 1984 a mesma Marvel faz num julgamento interplanetário de Reed Richards uma justificativa dialética (absurda) para justificar a existência de Galactus que é essa forma devastadora pelo universo - incluindo o genocídio do Império Skrull, algo do qual Richards é parcialmente responsável - mas quando a situação é bem mais próxima da nossa realidade, a perspectiva se inverte.

Porra, mesmo quando Magneto resolve deixar o planeta e levar os mutantes embora com ele - afinal se os humanos não os querem, que pelo menos os deixem em paz - é lançada uma bosta de uma ogiva nuclear para destruir o astróide e acabar com o Magneto e todos os mutantes nele!

Quando Magneto questiona a forma como os mutantes são tratados, sofrendo todo tipo de indignidade, agressão e forçados a trabalho escravo na Genosha no século XX, enquanto abertamente perseguidos nas ruas por máquinas inteligentes criadas ou pelo governo ou com a ajuda do governo dos Estados Unidos, ele é só um vilão tão estúpido quanto o Metalóide espumando de raiva, e, mais até que isso ele é visto, comparado e retratado como Hitler de novo e de novo (quando a própria Marvel tem o Caveira Vermelha que é basicamente Hitler sob efeito de esteróides e o Doutor Destino que mantém um país refém sob sua estrutura de poder e tentou em diversas ocasiões controlar o mundo).

O que é inclusive interessante quando, na mini-série Magneto Rex vemos com mais detalhes o que de fato o vilão recebe com Genosha - que é bem próximo de terra arrasada, haja visto que boa parte da população mutante foi exterminada pelo vírus legado (basicamente o HIV mutante), levando a uma gigantesca guerra civil e disputas de poder. 

Isso é relevante para eventos futuros dos X-men, inclusive na mini-série Magneto Rex que vem pouco depois, e, claro, a fase de Grant Morrison a frente do título alguns anos mais tarde - mas nada é particularmente desenvolvido ou trabalhado.

Tão logo a história se encerra um epílogo rápido é cortado com a aparição de um alienígena que sequestra os mutantes para combater o Fanático em outro plano de existência, sem espaço para que as ações, e, bem, a vitória de Magneto resultem em um argumento mais complexo. Perde-se tempo com mundos alternativos e histórias bem ilustradas que de nada servem para avaliar as perspectivas dos mutantes sobre o evento transcorrido, e, bem, até mesmo do mundo maior da Marvel (qual a visão dos Vingadores ou do Quarteto Fantástico agora que Magneto venceu e conseguiu um território para si próprio, concedido pela ONU?).

O argumento narrativo, a história - que prometia transformar o universo Marvel e mostrar mudanças significativas - se perde numa bobagem de narrativas que em nada tentam desenvolver os eventos anteriores ou avançar o argumento da história. Droga, na própria história não se tenta desenvolver ou avançar o argumento da história.

A história é ruim justamente porque para forçar essa narrativa que Magneto é o Hitler mutante e está espumando de raiva sem qualquer justificativa depende que todo o contexto do próprio universo Marvel seja ignorado e deixado de lado. Que o Quarteto Fantástico que move montanhas para salvar Galactus da morte não parece interessado em buscar uma cura para o vírus legado que dizima mutantes aos milhares, ou que os Vingadores que salvam povos alienígenas de seus regimes opressores não enxergam nada de errado num país escravizando mutantes na Terra, ou bem, que mutantes sejam perseguidos abertamente em ruas dos Estados Unidos por agentes da ICE, digo, Sentinelas julgando as pessoas pela qualidade de seus 'jeans' (pisca, pisca).

Magneto não argumenta, os X-men não argumentam, droga mesmo a maquiavélica doutora Alda Huxley ou o vilão da vez Zealot (que seria algo como Fanático religioso numa tradução mais literal) ou as nações unidas combinadas argumentam pelo fato ou fatores. Jogam elementos mas não uma história, e tudo é para mostrar o vilão como um tirano em busca de poder e nada mais que poder - mesmo quando ele recebe uma terra arrasada precisando de um salvador capaz de lutar pelo seu povo, e não um paraíso idílico de onde pode lançar uma campanha de conquista (como tanto se tenta vender no argumento da história).

Cara, na sequência da história do Magneto você tem um arco com o Caveira Vermelha (fugindo da custódia de um porta aviões da S.H.I.E.L.D. que é a polícia global dos EUA do universo Marvel) com um plano de manipular um mutante para controle mental de toda uma divisão de soldados da organização (clandestina e que não tem nenhum poder real enquanto varre o mundo com equipamento de destruição em massa), e, além de ser uma história incrivelmente ruim, ela mostra muito dessa dissonância e incapacidade de pontuar e argumentar as diferenças e nuances entre os personagens e suas motivações.

O Caveira Vermelha consegue fazer toda uma série de coisas porque a história pede que ele faça (droga ele estava na cadeia, como ele consegue manipular um mutante cujo DNA foi combinado com um alienígena?) e o resultado todo é apenas alguma bobagem para lançar três títulos novos da Marvel (que obviamente são celebrados até hoje e todo mundo se lembra muito bem de suas histórias revolucionárias), e mesmo que exista mais espaço e páginas para justificar a narrativa de Magneto, bem, não se gasta linhas de diálogo para racionalização, porque nós precisamos de um longo conflito entre os X-men e os acólitos ou de um clone com sua criadora e depois com o originador de seu DNA... 

No entanto, existem elementos importantes que vão catapultar a partir dessa história nos anos seguintes, e, o que ao meu ver é mais interessante efetivamente é o quanto nas décadas seguintes dessa história nós vemos uma série de questões relevantes no mundo real e principalmente do quanto a Marvel em si tentou em diversos momentos ser isentona (ou quis se manifestar de alguma forma) e o quanto isso envelheceu mal.

Eu genuinamente acho que o potencial é muito maior que o resultado, e, talvez com outra equipe, mas principalmente com um editorial melhor, esse material poderia brilhar muito mais e continuar muito mais interessante que uma breve nota de rodapé para algo muito maior...