Em primeiro lugar, sim, eu sei que existe um original britânico (que meio que descobriu o James McAvoy), mas eu nunca consegui encontrar o orignal para assistir mais que a abertura e verificar que existem bem mais semelhanças que mudanças radicais entre as versões.
Nas mudanças radicais, William H Macy que é um dos atores de Hollywood mais subestimados de todos os tempos (e curiosamente um sujeito incrivelmente talentoso e prolixo) dá vida ao patriarca da família Gallagher, mas a série traz vários outros nomes e rostos bem conhecidos, como Joan Cusack, o "Goku" Justin Chatwin, Amy Smart, Luis Guzmán entre outros enquanto apresentando nomes que se tornariam bastante famosos (como Jeremy Allen White, de The Bear ou Cameron Monaghan que fez o Coringa em Gotham e estrela em dois jogos de Star Wars da EA, além de Emmy Rossum - que é a alma da série e merece muito mais reconhecimento do que tem).
A história segue uma família pobre e disfuncional cujo pai é um alcoolatra e drogado com seis filhos (uma sétima aparece mais tarde mas vamos deixar isso pra outro momento) tendo de fazer o possível para administrar a casa e lidar com as despesas. Fiona, a mais velha e aparentemente a mais ajustada do grupo assume as rédeas da família nas constantes ausências do pai e se esforça como pode para manter as coisas funcionando - mas casa velha, muitas crianças e pouco dinheiro sem sombra de dúvidas é igual a dificuldades financeiras.
Com isso vem em grande parte a condição de 'sem vergonha' do título, em que, diante da pobreza abjeta, se faz necessário usar de toda e qualquer ferramenta disponível para sobreviver ou viver mais um dia, e isso tanto significa aceitar empregos deploráveis (como limpar fossas ou trabalhar num mercado em que o gerente exige sexo oral para não sujeitar as funcionárias aos piores serviços e turnos) como efetivamente roubar, enganar e ludibriar a quem for por uns trocados a mais.
O título se refere ao fato que o pobre não pode se dar ao luxo de ter vergonha, e isso é o que vemos nas dez temporadas da série... Bem, pelo menos nas cinco primeiras eu diria porque depois a série meio que quer dar um final feliz para um personagem que deixa a série e esse personagem, apesar de toda a lógica capitalista em contrário, começa a prosperar continuamente como um mago dos negócios...
É claro que o título também se refere ao sexo e a série tem muito sexo. MUITO SEXO (a abertura já traz sexo e esse é, sem sombra de dúvida, um dos chamariz que usaram para vender a série pela Showtime).
Ok, voltando pra história, cada um dos Gallagher tem seus dilemas interiores - ainda que as crianças mais novas estejam em busca de suas identidades, os mais velhos já tem suas condições mais definidas.
Ian é homossexual (e depois descobre que tem alguns problemas de bipolaridade) e sabe que isso pode custar sua admissão numa academia militar que era seu sonho desde pequeno, enquanto Lip que parece ter um dom natural para ciências não enxerga potencial ou futuro no aprendizado (por mais que tenha universidades babando para lhe oferecer bolsa de estudos), enquanto tenta escapar do alcoolismo que, bem, o atormenta bem mais que a seu pai.
Fiona, como eu mencionei antes, a mais ajustada tem o dilema de viver em função de seus irmãos ou o de viver sua vida própria (até porque sabe que, no momento em que seguir em frente, a casa desmoronará), enquanto Debbie tenta redimir e aceitar o pai, e, Carl tem problemas constantes com raiva.
E, eu não sei se William H Macy entra e sai das cenas sem muito para fazer por questões contratuais e conflitos de agenda, ou se o público estadunidense não reagiu tão bem a ideia do pai ausente e alcoolatra e preferiram relegá-lo apenas a alívio cômico ocasional para a história acompanhar a superação e desafios dos filhos... Mas Frank é um personagem que, sinceramente, me irrita bastante no material e poderia ser removido em qualquer das temporadas subsequentes a primeira sem muito (ou talvez algum) prejuízo, por mais que o ator seja extraodinário é faz uma performance genial com (o pouco) que tem disponível.
Pra contextualizar isso - e eu sei que estamos diante de alguns spoilers moderados de uma série que terminou há mais de cinco anos e da primeira temporada que foi ao ar em 2011 - na primeira temporada Frank começa a sair com a personagem de Joan Cusack - pura e simplesmente para ter um lugar para morar depois que os filhos o expulsam da casa. Essa personagem tem uma filha adolescente que está saindo com Lip (o filho mais velho e ainda colegial) e, em dado momento no final da primeira temporada, Frank acaba transando com a menina - o que encerra a primeira temporada com o pai da menina vendo um vídeo da cena que vazou para a internet.
E isso não rende absolutamente nada.
O pai da menina acaba se matando (sem confrontar Frank), tanto o filho como a personagem de Joan Cusack confrontam Frank mas acabam o perdoando ou ignorando a transgressão como se fosse algo normal e inócuo (sabe, como acabar com o papel higiênico e não abastecer outro rolo?) e o evento sequer é mencionado novamente. Sério, todo mundo finge que tudo isso é normal e é somente 'Frank sendo Frank', e é meio que o motivo do que eu falei antes que o personagem não tem muito peso na história ao contrário dos filhos.
O problema efetivo é que, conforme as temporadas avançam, isso acaba se espalhando e repetindo de novo e de novo com basicamente todos os demais personagens e tramas, e o grande problema é que, por volta da quarta temporada a narrativa está próxima de suas conclusões lógicas e eles continuam até o ponto onde a série deveria acabar (na oitava temporada), mas com sucesso de público e crítica parecia que uma temporada a mais seria óbvia e não obstante temos 3 temporadas a mais.
Eu francamente acho que a série tem vários problemas, mas que tem tanto talento e os personagens são tão interessantes que é fácil deixar de lado para focar somente no positivo, ainda que eu recomende com ressalvas - porque a série entra num modo zumbi nas últimas temporadas que é difícil de extrair qualquer coisa que salve.
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