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22 de abril de 2026

{Editoriando os Reaças} Minha experiência com jornada 6 x 1 (e porque o fato de ainda termos algo assim é um abjeto retrocesso)

Na minha vida eu passei por uma quantia considerável de empregos, principalmente entre os 17-21 anos, sendo que minha primeira experiência real de trabalhar na vida veio através de uma bolsa no colégio técnico (na qual eu atuava como monitor e ajudava outros alunos com dúvidas), e é um grande divisor de águas na minha vida porque, querendo ou não, era o norte para comparar com o que veio depois.

Eu trabalhava 10 horas (entre meus horários de aulas) e recebia pouco mais de um salário mínimo enquanto bolsista, e, é verdade que sem benefícios (plano de saúde, 13º ou qualquer outra coisa) mas, vamos lembrar, era uma bolsa, não um emprego real com carteira assinada e tudo mais - e vamos deixar um negócio bem claro: Enquanto eu entendo que em um mundo ideal salário mínimo e emprego de entrada deveria seguir essa lógica (poucas horas para treinar e formar um profissional que recebe pouco para entrar na estrutura de emprego), o que vemos é o exato oposto com longas jornadas de 44 horas (mais horas extras rotineiras e recorrentes) por salário mínimo sem qualquer benefício.

Depois disso eu tive uma série de empregos que variam de péssimo a muito ruins (dois em condição 6 x 1 nos quais eu trabalhei com os chefes mais abjetos, corruptos e canalhas que eu tive o desprazer de lidar, mas que sei que ainda não são o pior que existe por aí) e pelo menos mais duas ou três experiências de subemprego.

Nessa segunda categoria eu acho mais curioso, e vou começar justamente nessa, porque eu trabalhei para uma concessionária de veículos de uma marca bem grande (que eu não vou mencionar pra não receber um processo décadas depois), e, a empresa simplesmente jogou no meu colo a condição de trabalho de "vendedor" sem nenhum treinamento, equipamento ou basicamente apoio da empresa. Eles não me forneciam um telefone (fixo que fosse, tá, não tô falando de um celular corporativo) ou no mínimo uma listagem de clientes (eu juro que me deram uma lista telefônica um dia e falaram 'Tenta aí').

Tudo o que me 'deram' foi uma pasta bem vagabunda com uma tabela de valores e características dos principais veículos da época e um 'boa sorte' (mas eu acho que minha memória me engana sobre o boa sorte). Não sei quanto tempo eu tentei ou fiquei nessa experiência patética (eu acredito que foi pouco mais de um mês, mas eu não dedicava mais que cinco horas por semana nessa empreitada e só ia na empresa para ouvir história do vendedor sênior - esse que recebia salário - e pegar o único benefício que eu tinha ali, um vale transporte que eu convertia em dinheiro, e era a única fonte de renda desse 'emprego').

Curiosamente isso mostra o quão nojenta é a situação toda, não? 

Vai realmente me dizer que essa empresa com veículos zero que ela financiava não tinha estrutura para me oferecer um mínimo de ajuda de custo e recursos? Mesmo que eu arrebentasse nas vendas (sem nenhum apoio da empresa ou carteira assinada), o que o futuro me esperava? Qual o plano de carreira e negócios ou os benefícios que eu agregaria caso fechasse cinco cotas de consórcio por mês...? Droga, trabalhando nessas condições, será que me pagariam de fato a comissão devida ou tentariam ensaboar para fingir que a venda não foi minha - o que não me parece de todo absurdo que fariam já que eu nem sequer fazia parte da folha de pagamento ou tinha qualquer registro...?

Consegue entender do que a gente está falando aqui, amigo(a) leitor(a)?

E esse tipo de coisa não mudou e em muitos casos ainda é pior hoje em dia... Eu vejo com pessoas com que trabalho e amigos que tem filhos treinando futebol, por exemplo, e, para seus filhos participem de campeonatos e passem por peneiras tem de arcar com todos os custos por anos (que vão de pagar uma escola de futebol, as viagens e inscrições para campeonatos - e isso participando de agremiações grandes e famosas com times nas séries principais que não disponibilizam um único centavo para estes profissionais até que eles estejam devidamente formados e aptos para um contrato, e olhe lá)...

Ou seja, gente PAGANDO pra ser explorada, para ter a OPORTUNIDADE de trabalhar. E vai por mim, se a gente buscar, vai encontrar mais e mais exemplos de empresas pilantras que exploram o desespero das pessoas justamente com esse tipo de estruturas.

Inclusive eu ouvi um papo não faz muito tempo de um recrutador (surtando no linkedin) de que as empresas deveriam cobrar pela oportunidade de ler o seu currículo para uma vaga. Tá entendendo o drama?

Continuando, foi ainda no primeiro ano de faculdade que eu consegui o primeiro emprego (bosta) na jornada 6 x 1 com uma chefe extremamente desagradável e escrota, e, uma das coisas que eu percebi que se manteve no outro emprego (bosta) de jornada 6 x 1 era a quantidade incrivelmente alta de gente da família dos donos que não fazia absolutamente nada nas empresas, mas obviamente tiravam cheques polpudos (e bem maior que o meu - e, com toda a certeza, não apenas o meu salário - da época).

As semelhanças não param por aí. Os dois empregos não ofereciam absolutamente nenhum benefício previsto por lei (vale alimentação, refeição, transporte ou qualquer coisa se assemelhe a isso passaram longe), e os salários foram bem próximos senão exatamente o mínimo na época, sendo que um pagava o mínimo exigindo 36 horas semanais enquanto o segundo exigia 44 horas. E claro, zero estrutura para promoção, crescimento corporativo ou cargos e salários enquanto cobrando uma série de serviços não previstos em contrato de trabalho.

O primeiro me apresentou a condição do Banco de Horas, pois não era possível cumprir as 36 horas semanais da forma como a empresa era estruturada (aos sábados eu tinha que trabalhar sábado sim, sábado não), o que significava que eu ficava semanalmente devendo 6 horas para a empresa, horas que eu teria que compensar em serviços externos - como uma ocasião em que eu fiquei das dez as seis da manhã trabalhando numa outra cidade, e isso tudo somente para pagar banco de horas.

Tinha também o nepotismo do filho da dona que tinha uma salinha reservada (pra sabe-se lá o que, afinal ninguém até hoje soube me explicar qual era a função dele lá), e eu me lembro muito bem que o cara era tão estúpido e incompetente que ele trocou um pc uma vez e deixou na hd além de Half-Life instalado (que eu aproveitava para jogar nos horários mais vazios na empresa), ele deixou uma pasta cheia de pornografia (mais pra escatologia mas cada um com seu problema e fetiche). 

A segunda me apresentou a total e inequívoca farsa da meritocracia e o quão enraigado o nepotismo se faz, numa empresa em que absolutamente todos os cargos de chefia eram mantidos por pessoas da família (o dono empregava o filho como o cão de ordens para a área de fábrica, enquanto a esposa fazia a parte contábil, o irmão com necessidades especiais cuidava da logística, o irmão sem muito talento fingia que fazia projetos e o filho mais novo - também com necessidades especiais - andava pra cima e pra baixo fingindo que fazia alguma coisa). Essa empresa era administrada por evangélicos (e aí não é esse o problema) que desviavam dinheiro do faturamento (esse sim é o problema) como doação para a igreja que frequentavam.

Toda semana doavam coisa de 10-15 mil em material (e vai saber se de fato doavam ou era apenas manobra contábil, aí que o deus deles que os julgue por isso), o que você não precisa nem pensar muito mas uma doação era mais que o meu salário e de toda a galera da fábrica junto, e o fato mais curioso desse período veio quando num intervalo de horas o filho com necessidades especiais me abordou para frequentar o culto do qual eles faziam parte e, quando cheguei em casa descobri que minha mãe tinha sido abordada pela esposa do dono com a exata mesma proposta. Provavelmente empregavam gente com a tentativa de convertê-los para a empresa (ainda que me pareça que mesmo alguém extremamente convertido não se manteria num emprego tão abjeto).

Vale destacar que quando me contrataram para o serviço (de 44 horas semanais e que recebia o mínimo da época) eu tinha que fazer um serviço extremamente burocrático e chato, sem qualquer bônus por vendas ou resultados e com uma cobrança adicional de fazer um site para a empresa (que obviamente eu nunca fiz a primeira vírgula de código para eles).

Com muita sorte saí dessa empresa para conseguir outra bolsa (dessa vez na faculdade) recebendo um valor bem acima do salário nos dois empregos e com uma carga horária variável (afinal dependia da entrega de meus relatórios e do desenvolvimento da minha pesquisa), e não muito depois consegui um emprego onde nunca mais sai dos 5 x 2, e, assim, simplesmente não tem como defender essa estrutura do 6 x 1 para o trabalhador sob nenhuma condição e realidade.

É claro que a minha motivação em cada um destes empregos e subempregos era baixa justamente porque eu lembrava de não muito tempo antes quando estava como bolsista trabalhando bem menos para receber um salário digno, e sabia que a dedicação ao ensino poderia me levar a condições melhores - seguir para uma carreira acadêmica em busca de outras bolsas na faculdade e com isso subsequentes mestrado, doutorado e iniciação acadêmicas - mas eu via, em primeira mão enquanto estudante, como era o cenário de emprego e trabalho no 'mundo real' 

Vale destacar inclusive que a minha realidade é bem diferente de muita gente que teve e tem que tolerar esse tipo de emprego abjeto. Eu em nenhum desses empregos e subempregos precisei de ônibus ou transporte coletivo de qualquer natureza. Eu podia inclusive escolher ir a pé (coisa que fiz para todos eles, por mais que em alguns casos fosse mais longe), e por mais que eu gastasse de tempo na caminhada para o trabalho e às vezes chegasse um pouco suado no serviço é bem diferente de alguém que tem que pegar dois ou três ônibus saindo duas horas antes do horário de início de sua jornada.

E droga, eu poderia facilmente falar por muito mais tempo sobre isso - como a galera adora falar que na Universidade a situação é alienada e o povo só usa drogas, enquanto na Universidade eu já usava crachá para registrar entrada e saída em 2002 e nas empresas que eu trabalhei depois ou era a secretária que anotava num caderninho ou um dos irmãos do dono (que estava sob efeito de algum estimulante para acordar cedo, mas sabe, dorgas só na universidade)... 

Quer dizer, por mais que eu olhe para essas experiências como negativas - e, puta merda elas foram - eu tenho que lembrar o quanto eu aprendi com essa patifaria toda. Porque essas empresas todas eram mal geridas, não tinham uma estrutura básica (ou plano e projeto de gestão), sem visão de plano de cargos e salários, sem uma estrutura clara de crescimento e justamente por isso eles jogavam com condições de emprego que raspavam na condição legal e definição de emprego... 

Mais até, vamos ser claro, esses caras eram pilantras naquela época mas tá cheio de gente tão pilantra quanto (e temo dizer que muito mais) porque esses caras sabem que estão protegidos para agir dessa forma fora da lei.

Eu não recebi tiquete alimentação mínimo ou qualquer benefício em nenhum desses serviços, quanto eu teria que gastar com um advogado para receber essa merreca destes empresários pilantras? Mas eles economizaram e embolsaram essa merreca de mim todo o tempo em que estive nessas empresas. Saca como o empresário roubar do funcionário é aceitável socialmente como 'burla contra o governo'?

Só que é burla contra o funcionário mesmo. 

É claro que nada disso é acidente.

A jornada 6 x 1 existe para manter a pessoa tão ocupada e alienada que ela não consiga pensar e refletir. Que ela chegue em casa tão exausta depois de uma jornada longa, de duas baldeações e transportes para que a única coisa que consiga pensar é em pagar o dízimo que o pastor cobrou e ajudar a manter as coisas como são.

Pensa da seguinte forma: Em todos esses empregos que eu citei, da minha história, eu fui lesado de uma forma ou de outra com valores pagos a menos, com benefícios que não foram pagos e etc, certo?

Eu poderia cobrar diretamente destes patrões pilantras - para ouvir diretamente deles que não me pagariam - ou entrar com uma ação na justiça que levaria anos, custaria um valor considerável por parte de advogados e não significaria que eu venceria de qualquer forma (pelo contrário, eu teria uma dificuldade enorme de provar qualquer coisa, mesmo que eu não recebi os benefícios previstos por lei que a empresa vai fazer um malabarismo contábil pra mostrar que pagou).

Por tabela isso forma um ciclo vicioso para o trabalhador, pois é difícil comparecer às audiências quando tem outro emprego e em outro emprego vão vasculhar sua vida pregressa, inclusive suas ações trabalhistas (por mais que seja ilegal fazer isso, mas de novo, olhe a lista de coisas que são ilegais e as empresas fazem simplesmente porque se safam disso).

Até porque a galera que controla o capital geralmente conhece juízes através do Rotary, da Maçonaria e outros clubes privados e rodas sociais, enquanto o trabalhador tem que chegar numa ação com um número limitadíssimo de argumentos e da verdade e os fatos... E, como sabemos bem, a verdade e os fatos só te levam até certo ponto na vida.

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