Escalpo é uma série tão foda que, sinceramente, se tivesse saído pela HBO/AMC, estaríamos discutindo se The Wire, Breaking Bad ou Escalpo seriam a melhor série de todos os tempos, e eu tenho poucas dúvidas se o material de Jason Aaron e R M Guerra não suplantaria as outras duas em várias listas (provavelmente alguma de minha autoria própria).
Vovó Urso Pobre é uma de minhas personagens favoritas de toda a ficção (ponto), mas Dashiel Cavalo Ruim e Lincoln Corvo Vermelho são igualmente fascinantes e não são os únicos, enquanto a narrativa desenvolve e constrói esses personagens em cenários que vão emaranhando cada vez mais em uma teia de intrigas e corrupção, que, de tal maneira envolve os personagens e vai fazendo o mesmo com os leitores.
É difícil falar sem spoilers - afinal ocorre um crime no final do primeiro volume que é extremamente relevante para o restante da série, mas detalhar esse crime pode prejudicar a surpresa e o impacto de sua ação, algo que eu, relendo mais de uma década depois sem me lembrar dos eventos fui pego completamente de surpresa e achei muito melhor justamente por isso.
Então, basicamente, a premissa é de uma reserva indígena onde um cassino será construído. Esse cassino (e suas licenças de funcionamento) foi construído e obtido com dinheiro sujo de várias máfias e crimes, crimes estes que levaram e elevaram Corvo Vermelho ao topo da reserva indígena, e, concomitantemente como alvo de uma longeva investigação do FBI (referente algo ocorrido décadas atrás).
Corvo Vermelho foi um militante em um grupo lutanto pelos direitos nativo-(norte)americanos junto de Gina Cavalo Ruim (a mãe de Dashiel) nos anos 1970, quando tiveram um caso (breve ou não, francamente não importa, o que importa é que não foi bem resolvido), e ascendeu como chefe tribal, e, abusando destes poderes se tornou uma figura influente no crime dentro e fora da reserva. Durante o período de miltância, dois agentes do FBI foram assassinados dentro da reserva indígena, e, o crime nunca foi solucionado, se tornando a obsessão do agente especial Nitz, que, mexe seus pauzinhos para conseguir que Dashiel Cavalo Ruim (que retornara de uma missão com o exército e tentava se alistar junto ao FBI) se tornasse um agente infiltrado para finalmente derrubar Corvo Vermelho.
Da mesma forma que Corvo Vermelho teve uma relação não resolvida com Gina Cavalo Ruim nos anos 1970, Dashiel Cavalo Ruim teve uma releção não resolvida com Carol Corvo Vermelho (a filha de Lincoln), e, de maneiras similares, ambos seguem em caminhos de mentiras, auto-ilusão e auto-destruição dos quais querem (mas não conseguem) sair.
E isso é o escopo de como a série usa paralelos e contrastes para definir os personagens e situações, e, como inclusive ao final encontramos exatamente esses paralelos e contrastes conforme os personagens assumem papéis diferentes que curiosamente refletem aqueles de outros personagens (que morreram em algum momento da série).
Como eu disse, eu não quero usar de muitos spoilers aqui, mas acho que essa é fácil uma das melhores escolhas e leituras do selo Vertigo do século XXI, quiçá de todos os tempos do selo (se consideramos apenas o material de crime, o que chega mais perto é 100 Balas, e, mesmo sendo ótima, ainda fica bem pra trás). Leitura recomendadíssima.
Ressalvas e Problemas
Eu disse que a leitura é recomendadíssima - e é - mas acho que cabe uma ressalva de que é um material sobre crime e que não tem muito pudor em trazer algumas cenas bastante violentas e gráficas, e mesmo dentro das cenas violentas existem os momentos piores e mais nojentos (afinal em dado momento na série é apresentado um psciopata assassino que sente prazer em torturar suas vítimas - e ele realmente tortura as vítimas).
É uma história sobre crime, existe um aviso de que não é particularmente recomendado para um público menor de 18 anos (na capa mesmo tem um 'sugerido para leitores maduros'), e eu entendo que para alguém cujas sensibilidades não se alinhem com uma história com sexo, violência, uso de substâncias (lícitas e ilícitas), bem, a leitura pode ser um problema.
Sim, existem edições avulsas que não partilham de absolutamente nada de sexo, violência ou uso de substâncias (e são edições muito boas como a fantástica edição 35 "Ouvindo a Terra girar", talvez minha favorita em toda a série) e acredito sim que seja possível ler essas edições avulsas sem o restante do material, então, no mínimo, acredito que caiba a ressalva que o material é mais pesado e pode desagradar um público mais sensível ou que se incomode com determinadas cenas que são de fato mais gráficas (e justamente mais gráficas por se tratar de uma mídia visual e usar isso como forma de chamar atenção e atrair público).
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