É um livro bem curto (menos de 200 páginas), porém extremamente denso, numa obra sobre memória e percepção enquanto lida com temas extremamente pesados - parte da história se passa no Japão pós bombardeio de Nagasaki enquanto a outra parte se passa na Inglaterra após o suicidio de uma das filhas da protagonista.
Ishiguro vai desfraldando aos poucos os assuntos pesados do livro com maestria enquanto desenvolve personagens e situações com a delicadeza para esses temas, e, de muitas maneiras é o que eu acho que o diferencia de outros autores - e, bem, das resenhas das semanas anteriores. O autor escolhe conduzir a narrativa de maneira a apresentar os personagens e situações de forma que o leitor se torna tão próximo do narrador que é quase cúmplice de suas decisões e ações - afinal as entende de tal maneira que, dadas as circunstâncias faria exatamente a mesma coisa.
Não cabe particularmente um julgamento de valores ou escolhas ou mesmo umas narrativa mas uma gradativa apresentação das personagens e contextos da história, diluindo quase que a conta gotas os rumos da narrativa - que como eu disse se passa em dois momentos históricos na vida de uma mulher, um no pós-guerra no Japão e outro na Inglaterra após uma de suas filhas gêmeas cometer suicídio - e o livro vai nos apresentando como a memória nos prega peças fazendo-nos lembrar de certos fatos relativamente inócuos (mas que, verdade seja dita, tem muito significado) enquanto esquecemos de coisas realmente importantes, e até ignoramos muitas dessas coisas importantes enquanto estão bem diante de nossos narizes.
E acho que o toque de mestre da obra se dá justamente pelo fato que ele segue mais em busca de pinceladas breves que relatam episódios aparentemente tolos e pouco relevantes (mas que trazem muito significado e contexto) que em distilar verborragia e 'significado'. Os silêncios e as omissões da narradora nos dizem muito mais que todo um capítulo quase documental explicando a escassez de alimentos em 1946 no Japão...
Ishiguro escolhe não explicar além do que a memória da personagem recorda, e, ainda que isso seria algo mais próximo do que Saramago faz em suas obras (mas sempre se mantendo dentro de um didatismo parnasiano que escapa do tema para contextualizá-lo), a função do autor aqui não é a de te explicar o contexto macro e sim o contexto micro - das personagens e suas decisões e não do que ocorria no país em geral e quiçá o mundo.
É um dos primeiros livros do autor, o que talvez seja um ponto positivo em que ele "gasta" suas ideias sem muita piedade, mas ao mesmo tempo falta algum esmero e refinamento que ele desenvolveria nos anos vindouros e em livros como Não me Abadone Jamais ou Os Vestígios do Dia, mas sem sombra de dúvidas é um material fantástico que que vale a pena ser conferido - mesmo com o preço absurdo de capa praticado pela companhia das letras.
Qual é essa 'Uma Visão Pálida das Colinas' no fim das contas? Bem, só lendo para saber.
Nota: 8,010
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