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12 de abril de 2026

{Editorial} Solo Leveling é a coisa mais idiota que eu já assisti?

Existe algo que eu genuinamente admiro na estrutura de quadrinhos japonesa (e eu sei que Solo Leveling que está no título é uma série sulcoreana, por favor, me dê um pouquinho mais de crédito), ainda que eu saiba de todos os problemas da estrutura de produção, da estafa, e tudo o mais que afeta a estrutura produtiva, e, o que eu admiro genuinamente é a forma como a indústria de quadrinhos japonesa é capaz de se reinventar a cada dez/quinze anos.

Não vou fingir que eu conheço todas as fases, ali dos anos 1950 pra frente, mas pegando mais ou menos ali quando eu nasci e começa uma onda de grande popularidade nos anos 1980-1990 com Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho (mas obviamente não apenas esses), e que tem uma transição até o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 quando começam a surgir One Piece, Naruto e mais uma leva de outros quadrinhos relevantes, incluindo Death Note e Full Metal Alchemist e mais próximo do momento atual dos 2015 pra frente (ainda que One Piece continue sendo publicado assim como Naruto agora através de seu filho Boruto e Dragon Ball foi ressuscitado uma terceira vez), temos mais uma leva surpreendente com Jujutsu Kaizen, Dan Da Dan, Demon Slayer, Dr Stone, My Hero Academia e mais uma lista crescente.

Isso tudo sem ignorar fenômenos de quadrinhos de esportes como Hajime no Ippo (sendo publicado desde 1989) ou Slam Dunk e outras obras sejam com escopo mais limitado (como Akira ou Ghost in the Shell que são mais curtas) ou com finalidades mais cômicas ou mesmo voltadas para nichos mais específicos.

Eu acho muito legal isso, mesmo que bem provavelmente chegue pra gente só uma fração muito pequena de todo o escopo de material - afinal são os produtos que dão certo no Japão e conseguem catapultar para o mercado internacional de uma forma ou outra, geralmente através das animações (que já são o primeiro passo para catapultar uma produção de sucesso no próprio Japão e conseguinte para outros mercados), e muito legal quando comparamos com o que estamos acostumados dos Estados Unidos, Europa e não obstante o próprio Brasil, com material que vai seguindo uma estrutura da cobra comendo o próprio rabo e expandindo ad infinitum sem qualquer pretensão de considerar uma nova voz e ouvir suas histórias - apenas a de vender novas roupagens para personagens antigos.

Não vou fingir que todas as histórias e séries citadas aqui nos parágrafos anteriores são ideias originais e criações inovadoras (eu sei que não foi George Morikawa que inventou o boxe e que Akira Toriyama bebeu bastante de Jornada para o Oeste para o começo de Dragon Ball), ainda que seja hipocrisia fingir que todas as histórias e séries populares no Ocidente o sejam (droga, Superman usa a história de Moisés como base para sua origem enquanto Batman é inspirado em heróis como Zorro - que é inspirado no Pimpinela Escarlate, sim, isso existe), mas tudo isso é parte de uma discussão maior de como artistas 'se inspiram' ou até mesmo roubam o trabalho de outros, e, francamente eu não quero mexer nesse vespeiro até porque eu passei cinco longos parágrafos sem nem entrar no assunto do texto.

Todo esse contexto é para falar de um dos animês/mangás que ganhou notoriedade nos últimos anos, a produção sulcoreana Solo Leveling e que compartilha muito da estrutura narrativa e visual da produção japonesa mas falta alguns aspectos fundamentais para que o material tenha de fato substância, e são problemas estruturais (e não, eu não vou pegar os graficos do Felipe Boni apara justificar as superestruturas do capitalismo), porque o material é 100% estilo.

Faz sentido que o estilo seja impressionante - e várias das cenas de luta são realmente interessantes de se ver, ainda que, passado o terceiro ou quarto confronto do protagonista fica mais claro que ele nunca corre nenhum real perigo - mas são apenas calorias vazias, é só salgadinho de milho e logo você quer mais, só que percebe que não vai conseguir extrair aqui. 

Solo Leveling é uma história Isekai em que portais mágicos se abrem aleatoriamente no mundo e estes portais levam a mundos de RPG onde os monstros de D&D são reais e, obviamente, uma vez que esses portais surgem as pessoas do planeta também tem maior propensão para combater esses monstros - na exata e idêntica estrutura de uma campanha de dungeons and dragons, incluindo classes e encantamentos, mas, de maneira a dialogar com o jovem que conhece RPGs através de videogames, também com caixas de pilhagem e recompensas aleatórias. 

 

 

 

Isso é basicamente um jogo de RPG moderno, não é mesmo?

Tipo Persona, né? Só que sem o carisma dos personagens, a motivação dos vilões, a construção de mundo e, sabe, o elemento mais importante de um jogo, a interatividade...

Ou seja, um jogo sem muita imaginação e criatividade com elemento bem típico de uma estrutura narrativa de Mary Sue em que o protagonista realiza todas as fantasias - e compensa todas as frustrações - do autor, mas, e pior que tudo, um jogo sem a decisão e ação do jogador, e sem qualquer imprevisibilidade pois tudo já foi arquitetado em avanço, e que, devido a parca habilidade narrativa do autor, fica muito claro o desfecho de cada evento antes mesmo de rolarem os créditos de abertura do episódio.

O gênero Isekai se popularizou bastante nos últimos anos - mais ou menos desde a pandemia, mas acredito que um pouco antes, e isso produziu uma série de obras, que honestamente, eu só de ver os títulos já me faz passar longe, e Solo Leveling (de novo, que é coreana e não japonesa) é talvez uma das grandes responsáveis dessa popularização do gênero em conjunto com Sword Art Online... 

E eu não sei se isso é uma limitação do gênero Isekai (que eu acho que comentei em outro texto, mas basicamente é onde alguém que é um nada aqui na Terra se vê em um mundo onde ele é incrível e genial - mais ou menos como Flash Gordon e John Carter, só que em universos inspirados por RPG) ou mesmo quais as características do gênero em si para ver se nele se inserem por exemplo Matrix ou Avatar (que pela minha descrição no parêntesis anterior funciona perfeitamente, certo?) ou se ele de fato começa e toma forma a partir de Sword Art Online no final dos anos 2000 começo dos 2010.

Mas, Solo Leveling especificamente falha em estabelecer tanto o personagem principal da sua narrativa - que singra entre mundos com liberdade e começa como um garotinho mirrado e que apanha sempre e se torna um cantor de K-Pop em algumas semanas (inclusive ficando mais alto) conforme se torna mais forte e confiante... No entanto, falta o desenvoolvimento ao personagem, que conforme ele 'sobe de nível' (como num jogo) e fica mais forte, não existe nenhuma alteração significativa em sua personalidade ou qualquer conflito.

Sung Jin-woo tem um dilema em que ele enfrenta criminosos (que estavam dispostos a matá-lo, é verdade) em determinado episódio e sua reação diante do cenário não é muito diferente de quando ele precisa enfrentar um monstro que lhe oferece pontos de experiência (para subir de nível), e mesmo depois não vemos o personagem lidando com isso com alguma consequência mais dramática ou significativa - mesmo que a história prometa um confronto vindouro com o irmão de um desses bandidos que é um cara muito mais forte e etc, só que é uma consequência muito vazia e rala em si.

Droga, tem toda uma narrativa de dois investigadores acompanhando o caso de Sung Jin-woo e um desses caras é um psicopata - que leva a outro confronto com uma pessoa sem nenhuma consequência, reação ou desenvolvimento do personagem - e no geral isso só vai cansando pelo quão vazio tudo é, se esforçando tanto mais tanto mesmo para ser legal com suas cenas de ação (que são boazinhas, claro, se você considerá-las fora de contexto narrativo) e ignora todo o resto, jogando clichês e estruturas subdesenvolvidas de narrativa e personagens para prencher o vazio dos capítulos.

E enquanto existem coisas que eu não gosto mas consigo entender o público desse material - e que eu não estou nesse público, como os filmes do Mário da Illumination ou Frieren que eu comentei não muito tempo atrás -  e eu sei que isso se aplica aqui também, não muda o fato que quanto mais eu penso sobre o material mais eu vejo as lacunas e falhas em sua execução e desenvolvimento, coisa que eu não consiga nos outros exemplos nesse parágrafo, só entenda que eles são para outro público que não eu.

Tudo bem se você curtiu e curte Solo Leveling, amigo leitor, seja feliz com o que te faz feliz. Eu só proponho que você tente observar um pouco mais de perto porque as rachaduras vão ficar visíveis e com isso talvez você consiga apreciar outras narrativas e histórias melhor desenvolvidas.

Tente ver que os desafios são todos risíveis, que o protagonista não tem nenhum desenvolvimento (e é uma Mary Sue - ou seja, uma auto-inserção do autor para compensar suas frustrações, tal qual a saga Crepúsculo), ao mesmo passo que a narrativa não oferece nenhuma reviravolta relevante ou mudança da estrutura "protagonista enfrenta desafio e vence" e mesmo as cenas de ação que são o grande chamariz para o material, que elas fracassam quando a vitória já está definida e o protagonista vai vencer quase sem nem suar.

Mesmo o ponto de algum maior mistério que é a janela pop-up que o protagonista (e somente ele) tem acesso, não parece gerar qualquer tipo de questionamento ou desenvolvimento narrativo além de alguma observação mínima aqui e ali.

Então é a coisa mais idiota que eu já assisti? Dificilmente, mas que se esforça para entrar na lista com toda a certeza se esforça (e honestamente, eu tenho que destacar que eu assisti aquele seriado do tiozão que quer ser um Kamen Rider, e aquilo é tão estúpido que quase faz Solo Leveling parecer Shakespeare em comparação)

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