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23 de junho de 2026

{Editorial} Sendo o advogado do diabo da Rede Globo

Ah, maldito 2026!!!!

Eu sei que tem uma galera que gosta da Cazé Tv e gosta do Casemiro e tudo mais. Não vou criticar a pessoa específica do Casemiro e nem mesmo o amadorismo da estrutura das transmissões (que muita galera defende como o charme da coisa toda), porque isso está muito além ou até mesmo aquém do ponto.

É aquela visão redutivista de que Davi x Golias, do azarão vencendo o grande campeão numa escala global... Só que quem olha por essa perspectiva não está enxergando nem o palmo diante de seus olhos.

Não é Davi x Golias, é Godzilla versus Mecha Godzilla e nós vamos pagar por todo o caos e destruição causados.

Porque a questão não é a Cazé TV versus a Globo. É a Fifa versus a Globo, a Cazé TV é só o proxy utilizado pela Fifa, e a "vitória" da Cazé TV não é boa pra ninguém.

(Até porque pra Fifa colocar um outro grupo pra fazer a mesma coisa é bem mais fácil e rápido que trocar um presidente da CBF por algum escândalo)

E é (só mais um)a desculpa pra justificar aumentos astronômicos de ingressos com a necessidade de equipamentos caríssimos (e desnecessários) para que um jogo seja sancionado pela organização mais corrupta do planeta, para que algum sheik árabe possa comprar outro jogador caro para aparecer na festinha do filho ou da concubina dele...

Porque SE num evento patrocinado por empresas gigantes, com intervalos patrocinados e essa estrutura horrorosa da própria Fifa para a transmissão que permite ainda mais propaganda constante e recorrente, o ingresso já subiu astronomicamente (com a própria Fifa fazendo cambismo de ingresso cobrando taxas enormes para isso), chegando a dois mil dólares para um jogo merda e a final já passou dos dez mil dólares (sem qualquer definição da qualidade das seleções que lá estarão) imagine sem qualquer patrocínio para um jogo minúsculo de algum campeonato esquecido (tipo o campeonato catarinense ou do Espírito Santo), como vai ficar?

Nem vou falar de camisa de time que é um absurdo (afinal uma camiseta - horrorosa diga-se de passagem dessa nova versão da seleção - custar o mesmo que uma parcela do Bolsa Família e ainda com a pachorra de colocar o Michael Jordan NA BOSTA DA CAMISETA DA SELEÇÃO DE FUTEBOL), eu nem vou falar que existem mais e mais custos para o torcedor que só quer ir no estádio e ver o seu time jogar ou que acredita e se esforça pelo seu time com seu dinheiro suado... Isso eu nem vou cobrir pra não fugir demais do tema.

Para adequar seus estádios para tecnologia de VAR e impedimentos semiautomáticos (com equipamentos que por óbvio só podem ser fornecidos [superfaturados] pelas empresas oficiais da Fifa e por óbvio tem algum dedinho e participação do sheik árabe que compra jogador caríssimo - mas, há, Cazé tá vencendo a Globo!) clubes pequenos ou mesmo amadores vão se ver incapazes de se manter, e categoria de base (que já é uma lástima) vai se canibalizar até o osso. Aí ou eles vão ser comprados por (pseudo)celebridades norteamericanas que querem expandir seus portfólios, por trust fundos (lavando dinheiro para sheiks sauditas ou oligarcas russos) ou simplesmente cortar o intermediário e ser financiado diretamente pelo crime organizado brasileiro.

Se alguma coisa sobressair do meu primeiro texto ou desse, eu espero que seja o argumento que eu vou repetir agora: O futebol é um esporte democrático e do povo, e não tem coisa que gente rica odeie mais que povo.

Saca? Em esporte de gente rica o 'atleta' sequer sua.

O """"atleta""" no hipismo fica confortável e sentadinho em cima do cavalo (que é quem está trabalhando efetivamente, e quase parece uma metáfora perfeita para o sistema econômico em que o rico ganha a glória enquanto o cavalo - vide povo - trabalha de fato e não recebe nada). No automobilismo os engenheiros e mecânicos ralam que nem uns filhos da puta para produzir o carro, e quem ganha é o """"atleta"""" no cockpit e a esquadria que financia isso tudo.

Agora no futebol que qualquer moleque com dois chinelos faz uma trave e com uma meia furada e jornal velho faz uma bola, a pessoa sua o tempo todo correndo de um lado pro outro do campo e tem contato, tromba, se machuca e contunde... e fica mais feliz que por qualquer coisa na vida quando consegue passar essa meia furada com jornal velho pelos dois chinelos celebrando um gol como se fosse final de campeonato...

Mas rico tem nojinho de suor... Tem nojinho de contato com outra pessoa de classe inferior que ela e principalmente tem asco de pobre se divertindo. 

Então esse movimento de ingresso (mais) caro, de jogo menos acessível para o grande público, não é acidental, pelo contrário é muito incentivada, e faz parte do que a Fifa faz com a concessão dos jogos para a Cazé TV. Inclusive para que mesmo a transmissão de jogos seja mais difícil e mais insuportável.

E aí o rico quer tirar a diversão do pobre com o futebol com apostas... Quer dizer, bets.

 

As bets são uma consequência de uma piora constante e recorrente no já patético jornalismo esportivo brasileiro, se é que dá pra chamar de jornalismo. 

Jornalista não é torcedor. Papel de jornalismo é relatar os fatos e eventos, e, quando emitir opinião, se embasar em fatos - não em expectativas, não em desejo de patrocinadores, ou nas odds do site da empresa de fachada que banca o site de apostas - e que é necessária para bancar a estrutura mínima que essa galera precisa para ter o mínimo de um estúdio e bancar os salários da galera que vai trabalhar nessa empreitada.

Jornalista sério que olha pra essa seleção e vê CHANCES de hexa ou está falando na hexa eliminação seguida (2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e agora 2026) ou, bem, é pilantra mesmo e mais preocupado com o like, o jabá e não se esqueça de comprar hoje a nova camiseta da Zeca TV e apostar na partida Uganda e Peru com odds de 3,9 de gol nos primeiros quinze minutos (mas se você jogar nos próximos quinze minutos ganha trezentos giros de graça no jogo do zebrinho com o cupom ZecaTVevocê!).

E a galera do jornalismo esportivo brasileiro foi descambando ano após anos para cada vez uma galera de sicofantas e idiotas que fazem até o Tiago Leifert parecer que ele gosta de futebol (e não, ele não queria ser apresentador do BBB, não, ele tá super feliz no SBT, é um sonho realizado).

A Cazé vai lá e vende camiseta, interrompe a propaganda de bet para passar alguns minutos de jogo antes de falar as odds e o cupom para outro patrocinador de aposta e corta o lance para colocar um segmento de repórter idiota imitando aquele cara sem graça da Globo (Canuto?)... Nada disso forma algo mais interessante ou melhor de se assistir, pelo contrário só força os demais a copiarem esse estilo de transmissão que busca mais engajamento do que de fato propiciar uma transmissão de maior qualidade para o público.

Porque para o público que de fato gosta de futebol, o torcedor raiz de fato, a transmissão esportiva na tv sempre foi uma bosta e, não obstante muita gente que de fato gosta de futebol, sempre preferiu o rádio para acompanhar uma partida (e não é raro verificar em partidas que a galera está ali com o radinho acompanhando o jogo enquanto assiste no estádio).

O rádio permite menos espaço para bate-papo desnecessário e idiota, para propaganda de bet ou de autopromoção. Não dá para cortar para o repórter idiota vestido de batata frita (até porque no rádio você não vê isso de toda maneira) e nem dá para usar os cantos da tela numa constante barragem de propaganda contínua e perpétua. O narrador tem que constantemente descrever os lances para que o público ouvindo consiga acompanhar o que está ocorrendo em campo, e interromper - mesmo num momento mais calmo da partida - pode quebrar o fluxo do que está acontecendo.

E aí é onde a Globo (que, sim, tem emissora de rádio - e as transmissões de futebol no rádio da Globo sempre foram muito boas), com seus múltiplos pacotes de assinatura e canais, com câmeras exclusivas nos estádios e coberturas para múltiplos jogos, não apenas retransmitindo o que a federação de esporte produz... Nem é só pela estrutura toda que isso é importante, mas pela chance de ascensão profissional (do reporter pequeno na rádio que pode chegar a narrador, subindo para o pay-per-view ou SportTV e depois pegar um jogo grande na emissora aberta), ou mesmo pelos clubes pequenos que ganham visibilidade e chance com essa estrutura...

E é maior que isso, porque os campeonatos grandes (a Copa do Mundo ou o Mundial de Clubes) são só a culminação de anos de esforços que dependem de anos de trabalho e talento - coisa que a Fifa nem entende ou tem, respectivamente.

Quer dizer, o clube de base que compete numa categoria menor (e esse jogo não passa na tv aberta na cidade onde ele acontece para incentivar o pessoal a ir ao estádio) é algo incrivelmente importante, assim como os jogos da Copa da Favela ou do campeonato feminino ou de qualquer cobertura mais compreensiva do esporte - e, por conseguinte, de outros esportes.

A Cazé TV não tem estrutura ou capacidade pra fazer tudo isso. É um cara fazendo react na internet que recebeu (de mão beijada) a maior oportunidade que, puta merda, qualquer pessoa poderia querer... Não da pra esperar dele essa estrutura ou capacidade, até porque, de novo, pra Fifa puxar o tapete dele e passar a concessão para outro alguém que babe mais o ovo do Infantino e que aceite as regras (de fazer propaganda de bet, bajular e defender com unhas e dentes os anunciantes e se sobrar tempo, transmitir a partida) é só uma questão de tempo (eu nem ficaria surpreso com a Virgínia ou outra influencer de maquiagem que espreme cravos no onlyfans cuidando da copa 2030 ou 2034).

19 de junho de 2026

{Editorial} Sendo o advogado do diabo (dos jogadores) da Seleção Brasileira

Droga, 2026, olha o que você está me obrigando a fazer...

Vamos deixar bem claro e cristalino que eu acho que a seleção brasileira é composta por uma galera incrivelmente mimada que é extremamente bem remunerada (pelo resultado que apresenta), e além disso, vários desses jogadores são seres humanos nojentos, escrotos e da pior estirpe e condição possível e imaginável. MAAAAAS isso é só um sintoma de um problema muito maior que vem da estrutura toda por trás do futebol profissional brasileiro e internacional.

Esses jogadores podem ser (e com certeza são) pessoas horríveis e terríveis por seus próprios motivos - e eu não vou defender que o Casemiro seja algo além de um bosta sob nenhuma perspectiva, e nem vou falar do pior deles que você sabe muito bem quem é, que fique bem claro - mas isso é só parte de um problema estrutural muito maior e complexo.

Afinal, mesmo que você não conheça cada um dos nomes (mesmo completando o álbum de figurinhas da Copa), você sabe quem são os jogadores da seleção e os critica e persegue online por inúmeros motivos, mas, e eu pergunto isso não apenas para o tiozão jogando dominó na praça que acha que entende mais que o técnico da seleção e sim para o jornalista esportivo da Jovem Klan (de preferência aquele mesmo que comentando futebol disse que não dava pra levar a sério o Brasil por não ter um prêmio Nobel - ao contrário, obviamente, do Peru, essa potência incrível do futebol, da economia e em todos os aspectos humanos e místicos) ou aquele outro jornalista esportivo que apresentava o BBB (e que tem o carisma de uma lixa) ou mesmo a galera da CazéTV - todos esses que adoram fazer propaganda de apostas (mas com segurança), curiosamente.

E enquanto eu acho e acredito que a galera do último parágrafo não gosta de futebol - e, em alguns dos exemplos como do jornalista que apresentava o BBB (e que tem o carisma de uma lixa), ativamente desprezam o esporte, até porque existe todo um sistema e estrutura para que ascendam nessas profissões e cheguem a posições de destaque não os melhores profissionais e que gostam e entendem mais de esportes, mas gente disposta a fazer propaganda de bet ou que tem conexões - por favor tente manter as coisas em perspectiva, lembrando que isso também é só sintoma, e o mesmo sintoma do problema com os jogadores.

Minha pergunta: Quem são os nomes que de fato tomam as decisões na confederação (brasileira) de futebol? Não nas reuniões públicas que elegem as figuras que são substituídas quase anualmente após um novo ou maior escândalo que surja sobre o último sujeito (do cara preso em Nova Iorque ao cara ligado com um helicóptero cheio de pasta base de cocaína). A pergunta de fato não é sobre a figura pública como a "Tia Leila" (cobrando juros extorsivo de aposentado) ou o bicheiro Eurico Miranda, e sim sobre as figuras que DE FATO tomam as decisões e agem nas sombras através de influência e dinheiro para a definição efetiva da forma como as coisas se dão.

Porque, veja bem, o futebol europeu, ainda que mais endinheirado, já foi bem mais decadente nos anos 1970-1980, com constantes brigas de torcida e estádios em frangalhos, mas esses mesmos sujeitos que tomam de fato as decisões se uniram e fizeram algo para estruturar e guinar o esporte para estádios modernos, campeonatos bem estruturados e extremamente competitivos e, bem, tudo o mais que vemos e admiramos no futebol europeu (ainda que de mesma forma existam os sujeitos que são donos de clubes há vinte gerações envolvidos em escândalos - que as relações públicas são mais rápidas e competentes para impedir que cheguem a nós - e, claro, os atores de Hollywood comprando clubes para promover séries ruins na tv estadunidense). 

Só que o futebol africano e árabe tiveram uma guinada bem mais recente (tudo isso posterior aos vários títulos brasileiros, diga-se de passagem, afinal a confederação desse país adora viver das glórias do passado sem investir recursos para fundamentar novas conquistas, isso atrapalharia suas empresas de bet ou seus impérios de cocaína). Ou você acha que foi coincidência uma Copa do Mundo no Catar enquanto países petroleiros do Oriente Médio investem pesado para limpar sua imagem (e de seus regimes tirânicos com festivais de humor, comprando companhias de videogames como a SNK e, não obstante, contratando alguns dos mais famosos jogadores de futebol para fortalecer e dar maior visibilidade para suas ligas locais)...? E agora no(regime tirânico do)s EUA com mudanças de regras para agradar o público estadunidense como um 'mini' intervalo durante os tempos da partida ao passo que gigantescos shows (mais típicos de eventos estadunidenses) e preços exorbitantes por ingressos?

Isso é importante porque temos que refletir de maneira bem clara em que momento o dinheiro é mais importante que o esporte, e, de forma geral, a paixão pelo esporte. 

Porque, veja bem, o futebol sempre foi o esporte mais democrático que existe (e gente rica tem um ódio e nojo gigantesco do que é democrático e acessível).

Qualquer moleque que mal tem um chinelo usado consegue improvisar um gol e uma bola com jornal velho ou uma meia, e, mesmo com muito pouco é possível comprar uma bola - que é o único material realmente necessário para praticar o esporte. Muito diferente dos muitos "esportes" de gente rica em que o 'atleta' sequer tem uma gota de suor (como no hipismo em que quem de fato trabalha é o cavalo, ou pior ainda, no automobilismo, em que dezenas de engenheiros e mecânicos trabalham mas é o um único riquinho cujo papai bancou os centenas de milhares necessários para competições por décadas a fio que leva as glórias).

O futebol não precisa de um campo padrão, não precisa de um estilo padrão, não precisa de uma composição padrão. Não precisa de equipamento padrão, não precisa de quadra com especificações corretas ou sequer boas (droga, eu jogava de vez em quando com uns amigos num campo cheio de buracos que só por milagre ninguém caiu e se machucou feio nele)... Pode ter uma galera que joga mais a sério, pode ter uma galera que mal sabe o que está fazendo (eu estava nesse segundo grupo), pode ter uma galera que vai mais para se reunir com os amigos e depois tomar uma cerveja...

Claro que sempre tem a galera que leva mais a sério ou tem mais talento, e, como em toda área isso leva a uma estrutura formal e profissional, que é onde vemos competições, agremiações e estruturas diversas. A paixão pode levar ao profissionalismo mas o capitalismo leva ao dinheiro.

Numa estrutura dos parágrafos atrás do moleque que mal tem um chinelo usado, o futebol profissional é uma, senão a única estrutura para fugir da pobreza extrema, através de contratos, justamente, com as figuras esquisitas que agem pelas sombras e tomam as decisões de agremiações, confederações e organizações esportivas.

O guri que joga futebol acaba abrindo mão de parte de sua infância para treinos e campeonatos (acordando cedo fazendo sol ou chuva - enquanto perde aulas), enquanto gera lucros para clubes e agremiações e, conforme ascende na atenção de empresários e olheiros, perde mais de sua infância e escolhas. Os amigos e qualquer semblante de uma infância normal ficam para trás para uma chance de contrato num outro estado ou, vai saber, num outro país que fala um outro idioma completamente diferente, numa perspectiva de uma vida melhor num futuro... Futuro esse que pode ser interrompido a qualquer momento com uma lesão ou pura e simplesmente por falta de interesse destes mesmos empresários e olheiros por qualquer motivo imaginável (inclusive, indiferente da habilidade em campo do jogador, como o fato que ele não vá funcionar bem como garoto propaganda).

Até porque esse guri com um pouquinho a mais de talento no futebol, talvez em um momento lá com seus oito ou dez anos tenha pensado que queria ser astronauta ou seguir um outro caminho, mas, ao contrário do jornalista esportivo que apresentava o BBB e cujo pai era diretor bambambam da Rede Globo, o guri com um pouquinho a mais de talento no futebol não tem exatamente a mesma gama de escolhas, né?

Se ele não prosperar no futebol, bem, não é como se ele vá ter grandes chances para buscar seu sonho como astronauta (e além de ser um caminho bem mais difícil e sem loas ou glória, ainda é mais caro e inacessível para o guri pobre que mal tinha um chinelo). Talvez ele vá aceitar algum emprego bosta em escala 6 x 1, talvez tenha que aceitar algum emprego bosta só para arcar com as despesas mais básicas para correr atrás de uma vida no futebol - talvez o pai e o restante da família tenham que fazer isso com rifas e múltiplos empregos para manter o guri nos treinos e campeonatos, e, talvez, não tenha plano B.

E aí esse guri se encontra numa crise existencial de conquistar tudo o que quis financeiramente mas não se ver realizado profissionalmente porque, e isso é importante, ele (e sua família) precisou de tantos sacrifícios que não foi possível aproveitar o caminho e as conquistas.

Não vou fazer conjecturas se a pessoa se vê diante de um cenário de odiar o esporte e o que ele representa - ainda que pareça bastante provável e lógico quando vemos o quão miseráveis são os endinheirados jogadores da seleção brasileira em comparação com outros dos jogadores que vemos na Copa, desde um dos melhores do mundo Messi que está sempre sorrindo mas passando por jogadores e até seleções inteiras do Caribe ou da África - e nem vou entrar em conjecturas se esses caras tiveram experiências traumáticas (o que é igualmente bem provável) nesses anos formativos.

É só uma observação clara da mesma estrutura de trabalho alienado que não é em nada diferente do sujeito numa rede de fast food ou outra grande franquia para trabalhar mais de 40 horas semanais por seis dias da semana por pouco mais de dois mil reais por mês... O salário é maior, mas a alienação é a mesma.

O senso de ausência de escolha ou liberdade são os mesmos...

Porque é muito fácil olhar pro atleta multimilionário frustrado na ponta que é uma vergonha e fingir que ele é o problema, principalmente quando temos uma estrutura para fingir que todos os problemas na máquina de moer gente até chegar a essa ponta seja só ruído de fundo.

Os jogadores jovens morrendo num ct que pegou fogo (e que era mantido em condições pra lá de precárias) e subsistindo em condições análogas a escravidão com contratos atrozes e leoninos até dizer chega, levando milhares de jovens talentosos a desistirem do processo - e repetidas vezes nós vemos que as peneiras não formam novos talentos e sim aqueles que conseguiram ou tiveram mais estrutura para passar pelas próximas etapas.

Veja, talvez você vá fingir que aquele merda do MBL chamando o Vini Júnior de macaco ou o Luciano Huck dizendo alguma atrocidade mas justificando que foi num 'fórum privado' seja algo menor, e, até mesmo não relacionado com esse problema, e eu até entendo esse ponto de vista (motivo pelo qual vou focar nesses assuntos na parte 2), só que isso faz parte do mesmo processo que ignora aspectos relevantes e cruciais para focar na distração.

As peneiras cruéis e brutais que jovens que mal tem quinze anos já são submetidas em ambientes de futebol são parte de um sistema corrupto em que empresários - não diferentes daquele banqueiro que comprou presidente da câmara, do senado, deputados, senadores, jornalistas e "financiou" filme sobre político corrupto - oferecem contratos terríveis para pessoas com parcas opções ou oportunidades, cheio de letrinhas miúdas e compromissos não declarados para crianças que não tem condições de avaliar os riscos de maneira apropriada e pais que nem de longe estão preparados para isso.

Eu já falei da minha experiência com jornada 6 x 1 em empresas altamente canalhas quando eu tinha pouco mais de idade que a maioria desses jovens entram para o futebol profissional, e eles tem um problema ainda maior de baixa escolaridade (e famílias de baixa escolaridade) diante de ofertas mefistofilicas.

"Te ofereço um milhão (pelos próximos 10 anos e que você terá que me pagar de volta incluindo juros em caso de rescisão contratual não estabelecida - mas isso não é importante, pode pular essa parte) pelo contrato com o jovem talento". É mais dinheiro que muita gente vê ou passa pelos seus olhos durante suas vidas inteiras e cheio de cláusulas obscuras que mesmo peritos em direito talvez não sejam capaz de entender e explicar...

Não faz muito tempo que eu vi sobre isso no mercado da música - em que as gravadoras ofereciam contratos com adiantamentos gigantescos para os artistas, sem especificar que os valores eram adiantamentos e teriam que ser devolvidos (com juros e dividendos) com os lucros das vendas de álbum e turnês - o que levou muito artista a falência e a longas batalhas judiciais pelos direitos de sua própria obra. Isso tudo coisas em que o criador tem muito maior controle e ... E no futebol?

O guri pobre vai se juntar com outros garotos pobres em peneiras e competir profissionalmente? Vai financiar o uniforme e o estádio?

Mais que isso, até, esse guri pobre que não tinha oportunidades, vê um mundo hoje bem diferente do que ele tinha quando era um guri pobre sem oportunidades. Ele teve que abrir mão de coisas para conseguir chegar jogar no futebol profissional (e nem vou falar de empresários pilantras, de treinadores pedófilos e muitos, muitos outros problemas só por questão de brevidade), e agora vê todo um cenário diferente no mercado em que jovens tem perspectiva de se tornarem celebridades na internet sem precisar sair de seus quartos... Olhe o Mr Beast que com certeza ganha muito mais que, bem, todos os jogadores de todas as seleções africanas (e caribenhas) combinadas, certo?

Pois é... 

22 de abril de 2026

{Editoriando os Reaças} Minha experiência com jornada 6 x 1 (e porque o fato de ainda termos algo assim é um abjeto retrocesso)

Na minha vida eu passei por uma quantia considerável de empregos, principalmente entre os 17-21 anos, sendo que minha primeira experiência real de trabalhar na vida veio através de uma bolsa no colégio técnico (na qual eu atuava como monitor e ajudava outros alunos com dúvidas), e é um grande divisor de águas na minha vida porque, querendo ou não, era o norte para comparar com o que veio depois.

Eu trabalhava 10 horas (entre meus horários de aulas) e recebia pouco mais de um salário mínimo enquanto bolsista, e, é verdade que sem benefícios (plano de saúde, 13º ou qualquer outra coisa) mas, vamos lembrar, era uma bolsa, não um emprego real com carteira assinada e tudo mais - e vamos deixar um negócio bem claro: Enquanto eu entendo que em um mundo ideal salário mínimo e emprego de entrada deveria seguir essa lógica (poucas horas para treinar e formar um profissional que recebe pouco para entrar na estrutura de emprego), o que vemos é o exato oposto com longas jornadas de 44 horas (mais horas extras rotineiras e recorrentes) por salário mínimo sem qualquer benefício.

Depois disso eu tive uma série de empregos que variam de péssimo a muito ruins (dois em condição 6 x 1 nos quais eu trabalhei com os chefes mais abjetos, corruptos e canalhas que eu tive o desprazer de lidar, mas que sei que ainda não são o pior que existe por aí) e pelo menos mais duas ou três experiências de subemprego.

Nessa segunda categoria eu acho mais curioso, e vou começar justamente nessa, porque eu trabalhei para uma concessionária de veículos de uma marca bem grande (que eu não vou mencionar pra não receber um processo décadas depois), e, a empresa simplesmente jogou no meu colo a condição de trabalho de "vendedor" sem nenhum treinamento, equipamento ou basicamente apoio da empresa. Eles não me forneciam um telefone (fixo que fosse, tá, não tô falando de um celular corporativo) ou no mínimo uma listagem de clientes (eu juro que me deram uma lista telefônica um dia e falaram 'Tenta aí').

Tudo o que me 'deram' foi uma pasta bem vagabunda com uma tabela de valores e características dos principais veículos da época e um 'boa sorte' (mas eu acho que minha memória me engana sobre o boa sorte). Não sei quanto tempo eu tentei ou fiquei nessa experiência patética (eu acredito que foi pouco mais de um mês, mas eu não dedicava mais que cinco horas por semana nessa empreitada e só ia na empresa para ouvir história do vendedor sênior - esse que recebia salário - e pegar o único benefício que eu tinha ali, um vale transporte que eu convertia em dinheiro, e era a única fonte de renda desse 'emprego').

Curiosamente isso mostra o quão nojenta é a situação toda, não? 

Vai realmente me dizer que essa empresa com veículos zero que ela financiava não tinha estrutura para me oferecer um mínimo de ajuda de custo e recursos? Mesmo que eu arrebentasse nas vendas (sem nenhum apoio da empresa ou carteira assinada), o que o futuro me esperava? Qual o plano de carreira e negócios ou os benefícios que eu agregaria caso fechasse cinco cotas de consórcio por mês...? Droga, trabalhando nessas condições, será que me pagariam de fato a comissão devida ou tentariam ensaboar para fingir que a venda não foi minha - o que não me parece de todo absurdo que fariam já que eu nem sequer fazia parte da folha de pagamento ou tinha qualquer registro...?

Consegue entender do que a gente está falando aqui, amigo(a) leitor(a)?

E esse tipo de coisa não mudou e em muitos casos ainda é pior hoje em dia... Eu vejo com pessoas com que trabalho e amigos que tem filhos treinando futebol, por exemplo, e, para seus filhos participem de campeonatos e passem por peneiras tem de arcar com todos os custos por anos (que vão de pagar uma escola de futebol, as viagens e inscrições para campeonatos - e isso participando de agremiações grandes e famosas com times nas séries principais que não disponibilizam um único centavo para estes profissionais até que eles estejam devidamente formados e aptos para um contrato, e olhe lá)...

Ou seja, gente PAGANDO pra ser explorada, para ter a OPORTUNIDADE de trabalhar. E vai por mim, se a gente buscar, vai encontrar mais e mais exemplos de empresas pilantras que exploram o desespero das pessoas justamente com esse tipo de estruturas.

Inclusive eu ouvi um papo não faz muito tempo de um recrutador (surtando no linkedin) de que as empresas deveriam cobrar pela oportunidade de ler o seu currículo para uma vaga. Tá entendendo o drama?

Continuando, foi ainda no primeiro ano de faculdade que eu consegui o primeiro emprego (bosta) na jornada 6 x 1 com uma chefe extremamente desagradável e escrota, e, uma das coisas que eu percebi que se manteve no outro emprego (bosta) de jornada 6 x 1 era a quantidade incrivelmente alta de gente da família dos donos que não fazia absolutamente nada nas empresas, mas obviamente tiravam cheques polpudos (e bem maior que o meu - e, com toda a certeza, não apenas o meu salário - da época).

As semelhanças não param por aí. Os dois empregos não ofereciam absolutamente nenhum benefício previsto por lei (vale alimentação, refeição, transporte ou qualquer coisa se assemelhe a isso passaram longe), e os salários foram bem próximos senão exatamente o mínimo na época, sendo que um pagava o mínimo exigindo 36 horas semanais enquanto o segundo exigia 44 horas. E claro, zero estrutura para promoção, crescimento corporativo ou cargos e salários enquanto cobrando uma série de serviços não previstos em contrato de trabalho.

O primeiro me apresentou a condição do Banco de Horas, pois não era possível cumprir as 36 horas semanais da forma como a empresa era estruturada (aos sábados eu tinha que trabalhar sábado sim, sábado não), o que significava que eu ficava semanalmente devendo 6 horas para a empresa, horas que eu teria que compensar em serviços externos - como uma ocasião em que eu fiquei das dez as seis da manhã trabalhando numa outra cidade, e isso tudo somente para pagar banco de horas.

Tinha também o nepotismo do filho da dona que tinha uma salinha reservada (pra sabe-se lá o que, afinal ninguém até hoje soube me explicar qual era a função dele lá), e eu me lembro muito bem que o cara era tão estúpido e incompetente que ele trocou um pc uma vez e deixou na hd além de Half-Life instalado (que eu aproveitava para jogar nos horários mais vazios na empresa), ele deixou uma pasta cheia de pornografia (mais pra escatologia mas cada um com seu problema e fetiche). 

A segunda me apresentou a total e inequívoca farsa da meritocracia e o quão arraigado o nepotismo se faz, numa empresa em que absolutamente todos os cargos de chefia eram mantidos por pessoas da família (o dono empregava o filho como o cão de ordens para a área de fábrica, enquanto a esposa fazia a parte contábil, o irmão com necessidades especiais cuidava da logística, o irmão sem muito talento fingia que fazia projetos e o filho mais novo - também com necessidades especiais - andava pra cima e pra baixo fingindo que fazia alguma coisa). Essa empresa era administrada por evangélicos (e aí não é esse o problema) que desviavam dinheiro do faturamento (esse sim é o problema) como doação para a igreja que frequentavam.

Toda semana doavam coisa de 10-15 mil em material (e vai saber se de fato doavam ou era apenas manobra contábil, aí que o deus deles que os julgue por isso), o que você não precisa nem pensar muito mas uma doação era mais que o meu salário e de toda a galera da fábrica junto, e o fato mais curioso desse período veio quando num intervalo de horas o filho com necessidades especiais me abordou para frequentar o culto do qual eles faziam parte e, quando cheguei em casa descobri que minha mãe tinha sido abordada pela esposa do dono com a exata mesma proposta. Provavelmente empregavam gente com a tentativa de convertê-los para a empresa (ainda que me pareça que mesmo alguém extremamente convertido não se manteria num emprego tão abjeto).

Vale destacar que quando me contrataram para o serviço (de 44 horas semanais e que recebia o mínimo da época) eu tinha que fazer um serviço extremamente burocrático e chato, sem qualquer bônus por vendas ou resultados e com uma cobrança adicional de fazer um site para a empresa (que obviamente eu nunca fiz a primeira vírgula de código para eles).

Com muita sorte saí dessa empresa para conseguir outra bolsa (dessa vez na faculdade) recebendo um valor bem acima do salário nos dois empregos e com uma carga horária variável (afinal dependia da entrega de meus relatórios e do desenvolvimento da minha pesquisa), e não muito depois consegui um emprego onde nunca mais sai dos 5 x 2, e, assim, simplesmente não tem como defender essa estrutura do 6 x 1 para o trabalhador sob nenhuma condição e realidade.

É claro que a minha motivação em cada um destes empregos e subempregos era baixa justamente porque eu lembrava de não muito tempo antes quando estava como bolsista trabalhando bem menos para receber um salário digno, e sabia que a dedicação ao ensino poderia me levar a condições melhores - seguir para uma carreira acadêmica em busca de outras bolsas na faculdade e com isso subsequentes mestrado, doutorado e iniciação acadêmicas - mas eu via, em primeira mão enquanto estudante, como era o cenário de emprego e trabalho no 'mundo real' 

Vale destacar inclusive que a minha realidade é bem diferente de muita gente que teve e tem que tolerar esse tipo de emprego abjeto. Eu em nenhum desses empregos e subempregos precisei de ônibus ou transporte coletivo de qualquer natureza. Eu podia inclusive escolher ir a pé (coisa que fiz para todos eles, por mais que em alguns casos fosse mais longe), e por mais que eu gastasse de tempo na caminhada para o trabalho e às vezes chegasse um pouco suado no serviço é bem diferente de alguém que tem que pegar dois ou três ônibus saindo duas horas antes do horário de início de sua jornada.

E droga, eu poderia facilmente falar por muito mais tempo sobre isso - como a galera adora falar que na Universidade a situação é alienada e o povo só usa drogas, enquanto na Universidade eu já usava crachá para registrar entrada e saída em 2002 e nas empresas que eu trabalhei depois ou era a secretária que anotava num caderninho ou um dos irmãos do dono (que estava sob efeito de algum estimulante para acordar cedo, mas sabe, dorgas só na universidade)... 

Quer dizer, por mais que eu olhe para essas experiências como negativas - e, puta merda elas foram - eu tenho que lembrar o quanto eu aprendi com essa patifaria toda. Porque essas empresas todas eram mal geridas, não tinham uma estrutura básica (ou plano e projeto de gestão), sem visão de plano de cargos e salários, sem uma estrutura clara de crescimento e justamente por isso eles jogavam com condições de emprego que raspavam na condição legal e definição de emprego... 

Mais até, vamos ser claro, esses caras eram pilantras naquela época mas tá cheio de gente tão pilantra quanto (e temo dizer que muito mais) porque esses caras sabem que estão protegidos para agir dessa forma fora da lei.

Eu não recebi tíquete alimentação mínimo ou qualquer benefício em nenhum desses serviços, quanto eu teria que gastar com um advogado para receber essa merreca destes empresários pilantras? Mas eles economizaram e embolsaram essa merreca de mim todo o tempo em que estive nessas empresas. Saca como o empresário roubar do funcionário é aceitável socialmente como 'burla contra o governo'?

Só que é burla contra o funcionário mesmo. 

É claro que nada disso é acidente.

A jornada 6 x 1 existe para manter a pessoa tão ocupada e alienada que ela não consiga pensar e refletir. Que ela chegue em casa tão exausta depois de uma jornada longa, de duas baldeações e transportes para que a única coisa que consiga pensar é em pagar o dízimo que o pastor cobrou e ajudar a manter as coisas como são.

Pensa da seguinte forma: Em todos esses empregos que eu citei, da minha história, eu fui lesado de uma forma ou de outra com valores pagos a menos, com benefícios que não foram pagos e etc, certo?

Eu poderia cobrar diretamente destes patrões pilantras - para ouvir diretamente deles que não me pagariam - ou entrar com uma ação na justiça que levaria anos, custaria um valor considerável por parte de advogados e não significaria que eu venceria de qualquer forma (pelo contrário, eu teria uma dificuldade enorme de provar qualquer coisa, mesmo que eu não recebi os benefícios previstos por lei que a empresa vai fazer um malabarismo contábil pra mostrar que pagou).

Por tabela isso forma um ciclo vicioso para o trabalhador, pois é difícil comparecer às audiências quando tem outro emprego e em outro emprego vão vasculhar sua vida pregressa, inclusive suas ações trabalhistas (por mais que seja ilegal fazer isso, mas de novo, olhe a lista de coisas que são ilegais e as empresas fazem simplesmente porque se safam disso).

Até porque a galera que controla o capital geralmente conhece juízes através do Rotary, da Maçonaria e outros clubes privados e rodas sociais, enquanto o trabalhador tem que chegar numa ação com um número limitadíssimo de argumentos e da verdade e os fatos... E, como sabemos bem, a verdade e os fatos só te levam até certo ponto na vida.

12 de abril de 2026

{Editorial} Solo Leveling é a coisa mais idiota que eu já assisti?

Existe algo que eu genuinamente admiro na estrutura de quadrinhos japonesa (e eu sei que Solo Leveling que está no título é uma série sulcoreana, por favor, me dê um pouquinho mais de crédito), ainda que eu saiba de todos os problemas da estrutura de produção, da estafa, e tudo o mais que afeta a estrutura produtiva, e, o que eu admiro genuinamente é a forma como a indústria de quadrinhos japonesa é capaz de se reinventar a cada dez/quinze anos.

Não vou fingir que eu conheço todas as fases, ali dos anos 1950 pra frente, mas pegando mais ou menos ali quando eu nasci e começa uma onda de grande popularidade nos anos 1980-1990 com Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho (mas obviamente não apenas esses), e que tem uma transição até o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 quando começam a surgir One Piece, Naruto e mais uma leva de outros quadrinhos relevantes, incluindo Death Note e Full Metal Alchemist e mais próximo do momento atual dos 2015 pra frente (ainda que One Piece continue sendo publicado assim como Naruto agora através de seu filho Boruto e Dragon Ball foi ressuscitado uma terceira vez), temos mais uma leva surpreendente com Jujutsu Kaizen, Dan Da Dan, Demon Slayer, Dr Stone, My Hero Academia e mais uma lista crescente.

Isso tudo sem ignorar fenômenos de quadrinhos de esportes como Hajime no Ippo (sendo publicado desde 1989) ou Slam Dunk e outras obras sejam com escopo mais limitado (como Akira ou Ghost in the Shell que são mais curtas) ou com finalidades mais cômicas ou mesmo voltadas para nichos mais específicos.

Eu acho muito legal isso, mesmo que bem provavelmente chegue pra gente só uma fração muito pequena de todo o escopo de material - afinal são os produtos que dão certo no Japão e conseguem catapultar para o mercado internacional de uma forma ou outra, geralmente através das animações (que já são o primeiro passo para catapultar uma produção de sucesso no próprio Japão e conseguinte para outros mercados), e muito legal quando comparamos com o que estamos acostumados dos Estados Unidos, Europa e não obstante o próprio Brasil, com material que vai seguindo uma estrutura da cobra comendo o próprio rabo e expandindo ad infinitum sem qualquer pretensão de considerar uma nova voz e ouvir suas histórias - apenas a de vender novas roupagens para personagens antigos.

Não vou fingir que todas as histórias e séries citadas aqui nos parágrafos anteriores são ideias originais e criações inovadoras (eu sei que não foi George Morikawa que inventou o boxe e que Akira Toriyama bebeu bastante de Jornada para o Oeste para o começo de Dragon Ball), ainda que seja hipocrisia fingir que todas as histórias e séries populares no Ocidente o sejam (droga, Superman usa a história de Moisés como base para sua origem enquanto Batman é inspirado em heróis como Zorro - que é inspirado no Pimpinela Escarlate, sim, isso existe), mas tudo isso é parte de uma discussão maior de como artistas 'se inspiram' ou até mesmo roubam o trabalho de outros, e, francamente eu não quero mexer nesse vespeiro até porque eu passei cinco longos parágrafos sem nem entrar no assunto do texto.

Todo esse contexto é para falar de um dos animês/mangás que ganhou notoriedade nos últimos anos, a produção sulcoreana Solo Leveling e que compartilha muito da estrutura narrativa e visual da produção japonesa mas falta alguns aspectos fundamentais para que o material tenha de fato substância, e são problemas estruturais (e não, eu não vou pegar os graficos do Felipe Boni apara justificar as superestruturas do capitalismo), porque o material é 100% estilo.

Faz sentido que o estilo seja impressionante - e várias das cenas de luta são realmente interessantes de se ver, ainda que, passado o terceiro ou quarto confronto do protagonista fica mais claro que ele nunca corre nenhum real perigo - mas são apenas calorias vazias, é só salgadinho de milho e logo você quer mais, só que percebe que não vai conseguir extrair aqui. 

Solo Leveling é uma história Isekai em que portais mágicos se abrem aleatoriamente no mundo e estes portais levam a mundos de RPG onde os monstros de D&D são reais e, obviamente, uma vez que esses portais surgem as pessoas do planeta também tem maior propensão para combater esses monstros - na exata e idêntica estrutura de uma campanha de dungeons and dragons, incluindo classes e encantamentos, mas, de maneira a dialogar com o jovem que conhece RPGs através de videogames, também com caixas de pilhagem e recompensas aleatórias. 

 

 

 

Isso é basicamente um jogo de RPG moderno, não é mesmo?

Tipo Persona, né? Só que sem o carisma dos personagens, a motivação dos vilões, a construção de mundo e, sabe, o elemento mais importante de um jogo, a interatividade...

Ou seja, um jogo sem muita imaginação e criatividade com elemento bem típico de uma estrutura narrativa de Mary Sue em que o protagonista realiza todas as fantasias - e compensa todas as frustrações - do autor, mas, e pior que tudo, um jogo sem a decisão e ação do jogador, e sem qualquer imprevisibilidade pois tudo já foi arquitetado em avanço, e que, devido a parca habilidade narrativa do autor, fica muito claro o desfecho de cada evento antes mesmo de rolarem os créditos de abertura do episódio.

O gênero Isekai se popularizou bastante nos últimos anos - mais ou menos desde a pandemia, mas acredito que um pouco antes, e isso produziu uma série de obras, que honestamente, eu só de ver os títulos já me faz passar longe, e Solo Leveling (de novo, que é coreana e não japonesa) é talvez uma das grandes responsáveis dessa popularização do gênero em conjunto com Sword Art Online... 

E eu não sei se isso é uma limitação do gênero Isekai (que eu acho que comentei em outro texto, mas basicamente é onde alguém que é um nada aqui na Terra se vê em um mundo onde ele é incrível e genial - mais ou menos como Flash Gordon e John Carter, só que em universos inspirados por RPG) ou mesmo quais as características do gênero em si para ver se nele se inserem por exemplo Matrix ou Avatar (que pela minha descrição no parêntesis anterior funciona perfeitamente, certo?) ou se ele de fato começa e toma forma a partir de Sword Art Online no final dos anos 2000 começo dos 2010.

Mas, Solo Leveling especificamente falha em estabelecer tanto o personagem principal da sua narrativa - que singra entre mundos com liberdade e começa como um garotinho mirrado e que apanha sempre e se torna um cantor de K-Pop em algumas semanas (inclusive ficando mais alto) conforme se torna mais forte e confiante... No entanto, falta o desenvoolvimento ao personagem, que conforme ele 'sobe de nível' (como num jogo) e fica mais forte, não existe nenhuma alteração significativa em sua personalidade ou qualquer conflito.

Sung Jin-woo tem um dilema em que ele enfrenta criminosos (que estavam dispostos a matá-lo, é verdade) em determinado episódio e sua reação diante do cenário não é muito diferente de quando ele precisa enfrentar um monstro que lhe oferece pontos de experiência (para subir de nível), e mesmo depois não vemos o personagem lidando com isso com alguma consequência mais dramática ou significativa - mesmo que a história prometa um confronto vindouro com o irmão de um desses bandidos que é um cara muito mais forte e etc, só que é uma consequência muito vazia e rala em si.

Droga, tem toda uma narrativa de dois investigadores acompanhando o caso de Sung Jin-woo e um desses caras é um psicopata - que leva a outro confronto com uma pessoa sem nenhuma consequência, reação ou desenvolvimento do personagem - e no geral isso só vai cansando pelo quão vazio tudo é, se esforçando tanto mais tanto mesmo para ser legal com suas cenas de ação (que são boazinhas, claro, se você considerá-las fora de contexto narrativo) e ignora todo o resto, jogando clichês e estruturas subdesenvolvidas de narrativa e personagens para prencher o vazio dos capítulos.

E enquanto existem coisas que eu não gosto mas consigo entender o público desse material - e que eu não estou nesse público, como os filmes do Mário da Illumination ou Frieren que eu comentei não muito tempo atrás -  e eu sei que isso se aplica aqui também, não muda o fato que quanto mais eu penso sobre o material mais eu vejo as lacunas e falhas em sua execução e desenvolvimento, coisa que eu não consiga nos outros exemplos nesse parágrafo, só entenda que eles são para outro público que não eu.

Tudo bem se você curtiu e curte Solo Leveling, amigo leitor, seja feliz com o que te faz feliz. Eu só proponho que você tente observar um pouco mais de perto porque as rachaduras vão ficar visíveis e com isso talvez você consiga apreciar outras narrativas e histórias melhor desenvolvidas.

Tente ver que os desafios são todos risíveis, que o protagonista não tem nenhum desenvolvimento (e é uma Mary Sue - ou seja, uma auto-inserção do autor para compensar suas frustrações, tal qual a saga Crepúsculo), ao mesmo passo que a narrativa não oferece nenhuma reviravolta relevante ou mudança da estrutura "protagonista enfrenta desafio e vence" e mesmo as cenas de ação que são o grande chamariz para o material, que elas fracassam quando a vitória já está definida e o protagonista vai vencer quase sem nem suar.

Mesmo o ponto de algum maior mistério que é a janela pop-up que o protagonista (e somente ele) tem acesso, não parece gerar qualquer tipo de questionamento ou desenvolvimento narrativo além de alguma observação mínima aqui e ali.

Então é a coisa mais idiota que eu já assisti? Dificilmente, mas que se esforça para entrar na lista com toda a certeza se esforça (e honestamente, eu tenho que destacar que eu assisti aquele seriado do tiozão que quer ser um Kamen Rider, e aquilo é tão estúpido que quase faz Solo Leveling parecer Shakespeare em comparação)

1 de novembro de 2025

{Editorial} Mais de cento e trinta mortos no Rio de Janeiro, e agora com a previsão do tempo...

Existe uma dessensibilização muito comum em nossa sociedade que é assustadora e que, é bem provável, só nos atinja com uma epifânia quando conseguimos quebrar o abusrdo disso tudo. Talvez você já tenha percebido isso com os dois anos da 'guerra' em Gaza (em que só um lado ataca com um número gigantesco de destruição e óbitos civis, inclusive depois do acordo de cessar fogo) mas pra muita gente que eu conheço parece difícil perceber qualquer coisa além de nosso mundinho, além do que nos está próximo.

Talvez seja a correria do cotidiano que nos deixa perdidos e apáticos (e sim, isso é proposital), mas eu acho que existe algo mais feio nisso que está ligado numa parte ao nosso egocentrismo, e se algo não me afeta diretamente, porque eu deveria me importar?

Isso acontece de novo e de novo, e, em grande parte porque existe uma parte de nossa sociedade que quer vilanizar a empatia, e, nem mais tenta esconder que isso é parte de sua agenda, o que, curiosa e ironicamente geralmente tem em suas lideranças pessoas que se declaram cristãs (porque afinal de contas o Cristo bíblico é o maior sociopata que não se importava com os outros, certo?).

No entanto, não é difícil que percebamos nas repostas e reações das pessoas como às vezes os circuitos estão cruzados. Nessa semana mesmo, não foi difícil ouvir gente defendendo a ação do governador do Rio de Janeiro justificando que o nosso problema são efetivamente os traficantes e, por conseguinte, a solução seja exterminá-los tal qual baratas.

Certo que essa não foi a reação quando, um mês atrás, descobriu-se a vasta conexão entre a Faria Lima e o PCC, e, não acredito que alguém enxergaria como justificável que a polícia militar subisse os prédios luxuosos dessa avenida distribuindo pipoco e cada engravatado, e, inclusive como tudo isso está conectado com o uso do metanol nas bebidas que levaram a diversos óbitos no estado de São Paulo. Tampouco imagino que seria a reação para cumprir um mandato contra Pablo Marçal desviando milhões em uma "ONG" ou pela sua responsabilidade em uma morte ou qualquer outro dos dezenas de crimes cometidos pelo canalha.

Não que seria justificável matar esses engravatados canalhas mais que os traficantes (ainda que, honestamente não acho que seria menos sob nenhum motivo), mas, será que não estamos olhando sob a situação de uma perspectiva errada de novo e de novo?

E ainda que seja claro que a resposta para os últimos parágrafos seja 'racismo' (sim, sobe-se o morro ou desce-se a serra atirando e acumulando corpos no caminho porque são cadáveres negros e pardos, mas não se faz alegadamente isso na alegada Faria Lima ou contra o alegado Pablo alegado Marçal que alegadamente tem capital - pois como destaca meu advogado, no caso deles é tudo alegadamente) e você já viu isso de novo e de novo. O criminoso rico inclusive tira fotos com os agentes da polícia depois de disparar repetidas vezes (e até jogar granadas - mesmo que, sob nenhuma circunstância poderia ou deveria manter tamanho arsenal em seu domicílio, inclusive sob prisão domiciliar como estava) e alvejar alguns dos agentes.

Quando é um jovem negro assassinado (mesmo que por acidente) ele é culpado e faz-se dancinha de CPF cancelado. Quando um bandido branco e rico é assassinado, alegadamente ele talvez fosse culpado de alguma coisa. Na verdade, se é indiciado toda uma classe se manifestará em apoio e solidariedade ao bandido rico pelas acusações terríveis e difamatórias (do crime que ele cometeu, sabe, como com o Leonardo e a "ALEGAÇÃO" de trabalho escravo).

Então tem que matar o traficante pobre e negro na favela do Rio (mesmo se ele nem for traficante e só estiver passando na rua e cuidando da vida no momento da ação policial), mas defender a morte do Leonardo (cuja esposa "DEVOLVEU" uma criança para adoção) ou do Pablo Marçal... Que tipo de monstro é você? E para deixar bem claro antes que alguém tire completamente o contexto disso, eu não estou defendendo a morte (nem alegadamente e nem não alegadamente) dessas pessoas, mas, de nenhuma dessas pessoas.

É para isso que existe o processo legal, e, parte do processo legal envolve o julgamento e o aprisionamento - não o óbito, que, diga-se de passagem não é cogitado como punição no sistema legal brasileiro (e, eu gostaria de deixar bem claro, esse tipo de visão de que a solução é o sujeito armado que atira primeiro e faz perguntas depois, e, justamente por isso é a reposta e solução está muito cimentado na cultura popular desde John Wayne nos anos sessenta passando pelo John McClane e Justiceiro dos anos 1970 e 1980 - e, continua algo intrínseco e comum no inconsciente coletivo e ser um clichê).

Sem dúvidas a operação foi um desastre (sem cumprir seu objetivo - que era de capturar uma pessoa específica - com uma apreensão ridícula de bens e armamento e com um derramamento abissal de sangue de vítimas, que, diga-se de passagem já começou a pulular que haviam muitos civis e inocentes no meio) e mais de uma pessoa já apontou sobre o quanto ela foi um desastre em comparação com operações muito melhor planejadas pela PF (como aquela da Faria Lima que além de todo o montante bloqueado do PCC, ainda conseguiu o trunfo de expor muita da falcatrua de lavagem de dinheiro das 'empresas' que o mercado tanto defende nessa tão mencionada avenida de SP).

Uma ação populista (como tantas que a direita adora defender) para fingir que se é "duro" com o crime quando na verdade os verdadeiros culpados estão livres, incluindo o alvo da operação, enquanto jovens negros inocentes que tiveram o azar de estar no lugar errado na hora errada, agora sequer lhes é permitida a condição de sua memória ser preservada conforme são difamados e caluniados por gente escroque e bandida como o mais de uma vez condutor bêbado (assassino e claro que cidadão de bem, né?) Gustavo Gayer ou o primo traficante (que curiosamente mandou muito dinheiro para ele - alegadamente) Nikolas Ferreira.

Inclusive nossa indignação é seletiva e logo se apaga (parte do motivo do título desse editorial). A 'história' termina abruptamente e cortamos para outro segmento fingindo que isso explica e conclui tudo ou, se eu tenho que ser realmente franco, conclui qualquer coisa.

Talvez, no fim do dia, só conclua nossa apatia e cansaço cada vez maior, cada vez mais próximo do burn-out a nos destituir de nossa humanidade. 

22 de outubro de 2025

{Editorial} Mexendo no vespeiro

Honestamente, o que mais me chocou no que se seguiu da morte de Charlie Kirk, não apenas pelo quanto um idiota covarde, canalha e irrelevante de repente se tornou um mártir, mas, mais importante, no quanto isso serviu justamente para o tipo de gente idiota, covarde, canalha e irrelevante crescer e expandir sua visão de mundo idiota, covarde, canalha e irrelevante.

Isso, pra mim, sempre é assustador.

Kirk era um bosta sob toda definição ética, moral ou profissional. Um sujeito que 'debatia' estudantes universitários com temas controversos (e constantemente era massacrado por esses mesmos estudantes) e lançava versões altamente editadas desses debates online justamente para apelar através de apito de cachorro para uma bolha de gente tão patética quanto ele para vender uma visão no geral de que esses universitários são todos bêbados e incompetentes que não conseguem debater com a verdade (ignorando a gigantesca edição ou o mais simples fato que Kirk fugia de perguntas ou mudava de assunto constantemente).

Não é difícil encontrar exemplos das burrice de Kirk em seus 'debates', mas o exemplo mais claro disso obviamente se dá quando ele vai para a Oxford ou Cambridge para ser currado em debates de grandes universidades enquanto cita os fundadores dos Estados Unidos como base argumentativa... Na Grã-Bretanha, e isso só pra mostrar a base mais simples e abrangente da canalhice e estupidez do cidadão.

A hipocrisia vem justamente de alguém que defendia o irrestrito de armas - e, inclusive que algumas pessoas morrendo todos os anos por violência de armas não fosse algo particularmente ruim - gerar toda uma reção acalorada de seus pares.

Ué, quando um massacre numa escola primária nos Estados Unidos - matando 20 crianças e 6 adultos - levou a uma reação dos estudantes sobreviventes a se posicionar por restrições de armas de fogo, sabe qual a reação dessa mesma galera como Alex Jones e a Fox News (onde Kirk frequentava constantemente)? Dizer que os estudantes que sobreviveram a um evento traumático que não deveria ocorrer em lugar nenhum do mundo sob nenhuma circunstância eram atores contratados por democratas para vender uma agenda liberal de controle de armas.

Porém quando um idiota canalha, covarde e irrelevante é assassinado por defender que gente deve morrer todos os anos para garantir o direito a armas, figuras públicas e influenciadores que criticam Kirk devem sofrer sanções como ocorreu com Eduardo Bueno ou o Tiago Santinelli?

Francamente, não acho que devamos vangloriar a morte mesmo de alguém canalha como Kirk - isso não ajuda ninguém, até porque cortar uma cabeça da Hydra e surgem tantas outras... Rogan, Shapiro, Walsh e tantos outros brasileiros canalhas ainda estão aí e nada mudou, alguns até ficaram mais canalhas como aquele Super 15 da Joven Klan - tampouco deixar que a direita mantenha o controle da narrativa inclusive dobrando na aposta da canalhice (com Trump usando isso como instrumento político para mover ainda mais sua agenda facista em defesa de perseguir 'inimigos').

Temos que ser mais imparciais e retratar o que aconteceu: Um bosta irrelevante que fez fama 'debatendo' (ou seja, colocando cortes na internet com suas lacrações enquanto ignorava perguntas ou fugia do assunto quando alguém de fato - e constantemente - o humilhava com a lógica) com universitários foi assassinado e o mundo continua a ser um lugar horrível.

21 de setembro de 2025

{Editorial} A canalhice da direita brasileira

Talvez você nem se lembre mais diante de tanto escândalo e tanto problem que 2025 já nos trouxe até agora, mas não muito tempo atrás, no longíquo mês de maio, deputados protocolaram projetos para proibir bebês reborn.

Porque isso virou um assunto e mesmo uma polêmica, bem, eu não consigo sequer imaginar mas tenho minhas teorias e elas envolvem os merdicos bolsonaristas que trabalham no SUS. Os mesmos que prescreviam tratamento precoce ou kit-Covid durante a pandemia, que vaiaram os médicos cubanos ou criticando duramente 'flexibilizações' ao Revalida (quer dizer, criticando quando o diploma vem de algum país da América Latina porque quando o filho do médico que comprou o diploma numa Johns Hopkins sem saber a diferença de uma veia e artéria, aí pode ser diretor de hospital aqui no país sem problema nenhum).

Nada disso do parágrafo anterior explica a polêmica dos bebês reborn ou sequer a contextualiza, mas ao menos contextualiza um pouco a cabeça de quem estaria ofendido por ver uma pessoa pobre no SUS com uma boneca que custa mais de um salário mínimo, e, que não me espantaria, tivesse filmado uma mãe desesperada carregando a boneca e cobrando atendimento - enquanto a filha ou filho estavam de fato passando mal e aguardando um atendimento por mais de doze horas sem um plantonista ou com o plantonista tirando uma soneca (ou muito ocupado abusando alguma paciente inconciente).

Ou pura e simplesmente porque a direita achou que as bebês reborn seriam a grande pauta moral sobre a decadência da sociedade (da mulher que recebe bolsa-família mas compra uma boneca cara ou da jovem bem sucedida que não quer um relacionamento mas tem esse hobby - ao invés de criar uma família), de novo, eu não sei qual é o motivo que levou esse assunto à baila, só sei que ganhou tração e chegou ao congresso e por mais bizarro que pareça, houve uma perda de tempo considerável nesse assunto enquanto pautas que interessam à vida de todos nós ficam jogadas às traças.

Fim da jornada 6 por 1? Não, não... Temos que criminalizar atendimento à bebê reborn MESMO se não tiver uma única estatística de que isso aconteceu uma única vez sequer em todo o mundo (mais ou menos como aquela lenda urbana de que crianças tentam imitar o Superman e se machucam gravemente). Ah, mas tem vídeo na internet, alguém pode dizer... Da mesma forma que tem vídeo na internet "provando" a fraude na eleição do sujeito (cometendo crime ao filmar o voto) mostrando que digitou 17 e não apareceu o candidato dele cujo número era 22?

O que fica mais interessante nessa história - e no sequestro de um debate sério e de interesse da sociedade, ainda que tenhamos exemplos mais recentes aqui com a PEC da bandidagem - é que esse assunto desapareceu completamente e todos esses deputados extremamente preocupados com o assunto de repente se viram fingindo que o peido que eles soltaram foi só um caminhão de lixo que passou na rua.

Quer dizer, não foi de repente... Foi com o vídeo do Felca que atingiu milhões de visualizações expondo um problema extremamente sério da pedofilia, mas, mais importante, expondo cabalmente a canalhice e incompetência do congresso, e, por conseguinte da direita brasileira.

Enqunato a direita queria criminalizar bebê reborn e a incrivelmente canalha Damares Alves foi ministra da Cidadania e ficou perseguindo moinhos de vento de redes de pedofilia em lugares remotos e de difícil acesso (enquanto obviamente ganhando e desviando muito dinheiro para isso, mas shhhhh), quando as redes de pedofilia estavam correndo soltas NAS REDES SOCIAIS, e, como já era pauta da esquerda desde o Marco Civil da Internet, a Lei Geral de Proteção de Dados e o projeto mais recente de Regulamentação das Big Techs (sabe, aquelas que estão lucrando com os pedófilos monetizando vídeo de criança rebolando na internet?).

Pior até, quando o vídeo do Felca ganhou uma proporção tão grande que mesmo a mídia hegemônica não tinha como ignorar mais, o covarde Hugo Motta se esforçou para ganhar algum capital social e pautar o assunto com a 'Lei Felca', algo que curiosamente especialistas, incluindo o ministro Flavio Dino destacaram, não precisa de lei específica, só abandonar o F e o L e seguir o que sobra, sabe, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)... E mesmo assim a galera da extrema direita tentou barrar o projeto, vale destacar...

Enquanto isso gastam verba pública com deputado pedindo sanções ao Brasil, gastam verba pública com uma CPMI para averiguar gastos ilegais no INSS (que a polícia federal já investiga e vem conduzindo - inclusive com toneladas de evidências que já haviam indícios claros em 2020 e não foi feito nada para coibir naquela época).

20 de julho de 2025

{Editorial} O problema da canalhice corporativ(ist)a

Com o "tarifaço" anunciado pelo TACO na semana passada, parece que esse é o único assunto que a mídia corporativa brasileira resolveu focar, além de, é claro, defender que o Caveira Laranja está certo, inequívoco e irrestritamente.

Cabe a William Wagner, KKKNN, Jovem Klan, Alexandre Von Garcia e tantos mais tentarem todo tipo de malabarismo para justificar que tudo isso é extremamente coerente e normal e que o Brasil foi escolhido pelo comportamento amoral promovido por nossa suprema corte na perseguição política a um valoroso... Droga eu nem consigo concluir isso sem vomitar.

Claro que eles ignoram que em 21 de maio o homem mais laranja do mundo tentou emboscar o presidente da África do Sul na Casa Branca (dizendo que existe um Appartheid reverso em curso na nação africana) pouco depois de fazer manobra similar contra a Ucrânia (em que o Garbage Pail Vance insistia que o Danilo Gentile dos balcãs não agradeceu suficiente a 'Múrica)... Isso sem contar ameaçar anexar a Groenlândia (território pertencente a uma nação da OTAN) ou mesmo agir de maneira desrespeitosa e chamar de Governador o primeiro ministro Canadense (indicando a incorporação do país)... Ou mesmo que o Japão (que já tinha negociado um acordo tarifário) foi sobretaxado também.

Pra canalhas oportunistas como o vice-líder do PL (ao lado de uma ex-ministra, diga-se de passagem) ou de Governadorzinho pé-de-chinelo que gosta de vermelho (quando é produzido na China e) com frases em inglês é oportunidade de tentar vender mais absurdos.

Curiosamente falta a lucidez de apontar que, bem, nada disso é normal e coerente.

Os Estados Unidos que criticam Moraes por não dar 'liberdade de expressão' ao vetar uma companhia que não quer seguir legislação brasileira para operar no território (brasileiro) ou ao Pix por servir de 'concorrência desleal', curiosamente querem nos fazer esquecer que pouco tempo atrás o novo amigão do velho amigão de Jeffrey Epstein estava passando por audiências no congresso por formação de monopólio, enquanto o agregado de estados quer impor que para o TikTok opere lá ele seja obrigado a vender seu controle e seja administrado por uma empresa ou conglomerado da 'Múrica... Sabe, concorrência leal.

Sabe, como aconteceu no começo dos anos 2000 (a notícia do link é de 2007, pra se ter uma ideia) quando o etanol brasileiro vinha ganhando tração e se tornando uma alternativa verde fantástica (e que poderia facilmente reverter a maré), mas que os EUA passaram décadas tentando boicotar de toda forma e limitar a expansão do etanol e biodiesel ou produzir uma alternativa própria (sem muito menos funcional ou eficiente que o nosso de cana-de-açúcar) até que uma empresa estadunidense lançou carros elétricos e aí o etanol é ruim e prejudicial e tudo o que mais. Sacou a 'concorrência leal', né? E isso é só um dos muitos casos ao longo de décadas e décadas.

Nada disso é normal e não adianta fingir ou tentar insistir que exista qualquer lógica ou coerência nisso tudo por questões de balança comercial ou argumentação para compensação por concorrência desleal.

Goste ou não, o Brasil está fazendo o certo ao levar a sério as múltiplas ameaças dos EUA (mesmo que correspondem a menos de 2% do volume de nosso PIB) enquanto foca em acordos bilaterais muito mais benéficos e vantajosos com China, União Europeia, com o próprio Mercosul e demais países do bloco dos BRICS, e enxergar com enorme ceticismo e desconfiança qualquer proposta ou negociação que a terra do tio Sam ofereça é mais do que prudente. Outros países já passaram por algo similar e foram pegos de calças curtas com revisões de acordos firmados, então não dá pra acreditar mesmo depois de documento assinado como ocorreu com o Irã que fez de tudo para um acordo de colaboração que foi rompido (e depois o país foi atacado sem a menor provocação - sabe, enquanto Israel promove um genocídio em Gaza).

O amigão de Jeffrey Epstein está tentando se ver livre da cadeia mais do que fazer algo pertinente ou coerente, por isso faz o que ele faz de melhor como o mafioso que é, e chacoalha o vespeiro para chamar atenção enquanto bate a carteira do pessoal com medo das vespas (em alguns casos literalmente como o amigo de peruca portenha dele também fez - sabe, enquanto eles não conseguem nem comprar pão na terra do Messi)... Sabe, 'drenar o pântano'?

Nada disso é normal e não dá para tratar como se fosse.

Trump é um criminoso condenado (além dos muitos crimes pelos quais não foi julgado) que foi eleito à base de diversas práticas criminosas e desleais (Musk estava literalmente comprando votos durante a campanha e na eleição anterior como nessa a interferência tanto das mídias sociais com o direcionamento de publicidade como da mídia tradicional para matar matérias prejudicias ao laranjão enquanto se esforçando categoricamente para minar toda e qualquer chance de reeleição para Biden ou mesmo de pintar Harris ou Hillary como uma candidata legítima), e não adianta fingir ou ignorar isso para legitimar suas alegações ridículas ou suas ações.

Por mais que tenhamos que temer que o velho maluco que não consegue limpar a própria bunda sozinha tenha acesso a códigos nucleares, não devemos tratar muito diferente do velho maluco que encontramos na praça ou na rua...

Só mude de direção e siga com a sua vida... E nesse caso nem perca tempo tentando expor alguma empatia porque se trata de um monstro que qualquer punição cármica é pouca (ainda que o fato que o filho que leva seu nome se pareça mais com o Epstein que com ele - e a filha que ele tanto elogia também não se pareça em nada com ele - sejam bons indicativos que o carma age de maneiras misteriosas).

Mas que é problemático que tenhamos que lidar com tanto papel e bits gastos para dar voz para gente tacanha como William Wagner dizendo que tá tudo certo isso aí e tem mais é que taxar essa pourra e dar anistia para o Bolsonaro, nos dá bem mais a dimensão de que o problema real é bem maior e mais complexo.

Quer dizer, é claro que o problema é o Superman Woke (que Ben Shapiro diz que Lex Luthor está certo enquanto algum jogador de voleibol falido vai tentar seguir a mesma linha) que a esquerda quer nos vender a todo custo... Você sabia disso quando eu comecei a escrever o texto, eu tenho total certeza!

Afinal, liberdade de expressão é defender que o nazismo foi bacana (como o Monark fez e tá tentando ressurgir do inferno como se nada tivesse acontecido) mas falar mal de empresário (FICCIONAL DE UM UNIVERSO DE QUADRINHOS DE SUPERHERÓIS EM QUE O CARA TENTA DOMINAR O MUNDO DESDE A DÉCADA DE 1940!)...? Porra, coisa de comunista!

Saca? Não tem como falar de outra forma porque é muita canalhice.

É olhar um negócio que claramente está errado mas defender enquanto algo que é inócuo ou está dentro da coerência e seu contexto tem que ser mais perseguido que o monstro nos filmes preto e branco de Frankenstein...

Esse é o mundo em que estamos vivendo, mas enquanto uma galera tenta normalizar e contextualizar o absurdo, nós que somos racionais temos que tomar cuidado para não acabarmos engolfados nisso tudo.

15 de junho de 2025

{Editorial} Sobre o caso Leo Lins (e não, ele não tem nada de defesa de liberdade de expressão - é só hipocrisia mesmo)

Enquanto, honestamente, eu tenho que admitir que não sei quem é Leo Lins além de que é uma versão piorada de Danilo Gentile, e isso já me é suficiente para não querer saber um atmo a mais, o caso de sua condenação ganhou bastante repercussão e discussão ultimamente, e, bem, se é discussão porque não opinar também?

No entanto o caso tem uma série de problemas e hipocrisias e eu tentarei na medida do possível cobrir o assunto da maneira mais abrangente possível. Não assisti ao conteúdo (e nem me interesso) e não vejo o menor motivo para discutir sobre o teor do que ele tenha ou não dito (a juíza do caso já fez isso), então vamos aos pontos:

A condenação é justa?

Bem, sim, afinal segue o que está previsto pela lei. Foi analisada por uma juíza, Lins teve pleno tempo de preparar uma defesa e argumentar (o Pirula fez um video sobre o assunto há um ano e meio sobre o caso, o que aponta que não tem nada de novo sob o sol).

{Editado 17/06} Não é função do judiciário analisar se a piada é boa ou não (e se você quiser alguém analisando se a piada é boa ou não, o Tiago Santineli - com divido além das iniciais, também uma série de opiniões - já fez a análise do "material"), mas sim se existe alguma violação dos termos da lei em qualquer sentido, até porque se fosse analisar por piada ruim, o Leandro Hassum já tava com prisão perpétua.

Foram analisados os crimes de discurso de ódio perpretados pelo cidadão, e, o judiciário analisou e julgou que, sim, foram cometidos crimes nesse sentido.

Agora começa o mimimi dessa corja mesmo. {/fim da edição

O que acontece é que, como Carla Zambelli e boa parte dessa canalhada de direita, sabe essa galera adora criticar que a justiça é muito branda e ineficaz (e solta rojão quando um jovem negro é espancado, torturado e mesmo assassinado pela polícia), mas quando sai a primeira busca e apreensão corre para a UTI para dizer que sua saúde é pior que da Tia May (ou no caso da Zambelli é tão burro a ponto de fugir do país e fazer uma coletiva de imprensa para dizer que está fugindo do país).

E enquanto eu não sou formado em direito ou tenha vasto conhecimento na área, bem, não é exatamente como se um advogado precisasse de muito para conseguir um acordo de leniência. Droga, 300 horas de serviço comunitário, tornozeleira eletrônica por um ano e meio e suspensão das redes sociais... Você acha mesmo que qualquer juiz rejeitaria um acordo desse em qualquer destes dois casos...?

A Mônica Iozzi foi condenada em um caso com o Gilmar Mendes, e podia brigar ad infinitum na justiça e optou por pagar multa e seguir com a vida... 

Mas aí os idiotas (Zambelli ou Lins - mas vale pra muito mais gente) resolvem demonstrar suas bravatas nas redes sociais e desafiar publicamente juízes e suas decisões porque são vítimas injustiçadas, apesar de amplo direito de defesa e tempo para preparação, ainda que seus argumentos sejam pífios e patéticos, porque, afinal de contas, são burros para caralho.

E a liberdade de expressão, onde fica?

No mesmo lugar que estava antes desse caso. Curiosamente, gente como Hassum, a galera do MBL ou mesmo Nikolas Ferreira que sairam todos criticando essa terrível decisão da justiça figindo que o """humorista""" é praticamente o Lenny Bruce do século XXI, não se manifestaram no caso da PhD Ana Bonassa que foi condenada por dizer que um picareta tava vendendo produtos que claramente não funcionam como medicamento...

Porque não é uma luta por 'liberdade de expressão' propriamente dita (não mais que algumas semanas atrás essa mesma galera queria linchamento público de um cantor carioca - que curiosamente não tem olhos azuis ou tom de pele mais clarinho na escala pantene, mas isso com certeza é mera coincidência), né? É mais para garantir o direito de expressar preconceitos e discurso de ódio (ou vender produtos que comprovadamente não funcionam - e podem levar a óbito), né?

Mas, voltando ao Lenny Bruce que eu citei agora a pouco, para quem não conhece, o humorista norte-americano que é considerado o pai do stand-up moderno justamente por mudar a forma de como contava suas piadas ao inserir histórias pessoais em sua rotina (deixando de lado números bobos e piadas de sogra - sabe, o que o Faustão faz ainda hoje) costumeiramente era preso, muitas vezes antes de subir no palco (e só recentemente perdoado, o que é um escândalo em si próprio). Bruce foi preso várias vezes por violar a lei de obcenidade, ao dizer palavras terríveis, que, bem, eu já devo ter usado uma ou dez nesse texto mesmo que feririam as sensibilidades carolas destas leis.

No entanto, o ponto e argumento que Lenny Bruce criticava com seu material era justamente seu direito de poder dizer as 'obcenidades', e, justamente por isso ele continuava desafiante e fazendo seu material. Ele poderia clara e facilmente mudar seu texto e aplacar a ira conservadora que achava ofensivo dizer 'puta' ou 'foda' ou fazer algum movimento imitando o ato masturbatório num clube de comédia no sábado à noite mas acharia perfeitamente normal sair da missa no domingo para colocar uma cruz invertida pegando fogo no quintal de uma "pessoa de cor" (e depois assistir a um show do Leo Lins).

Lenny Bruce lutava pelo direito de desafiar convenções estúpidas e carolas, e por isso continuou anos e anos sendo preso e desafiante. Leo Lins quer se dizer um bastião da liberdade de expressão mas vem com alguma conversinha de que no palco é "um personagem" (o que viola toda a lógica do stand-up, mas mais sobre isso a seguir), fazendo algo muito parecido com o outro rapaz citado alguns parágrafos atrás que também foi condenado, por colocar uma peruca em tribuna e fazer discurso transfóbico, porque a questão é diametralmente oposta.

Bruce queria mudar as coisas e oferecer um prisma para que a sociedade pudesse aceitar o que é visto como diferente, e, refletisse no processo enquanto Lins quer manter o direito de regurgitar o status quo e se aplaudido como um bravo e corajoso papagaio do Danilo Gentile nessa centopeia desumana em que o próximo elo digere e passa adiante a mesma merda que consumiu como se fosse um grande poço de inspiração.

Mas uma pessoa pode ser condenada pelo que o personagem diz... Não é tudo ficção?

Depois do 'foi mal, tava doidão' agora temos 'é só um personagem'.

Curiosamente, o foi mal, tava doidão pelo menos tem alguma base jurídica, afinal uma pessoa sob efeito medicamentoso pode ter seu julgamento afetado, mas, "não fui em quem disse foi um personagem" realmente merece um prêmio pela canalhice e burrice do argumento. 

Vamos lá, tentando resumir para demonstrar o quão estúpido esse argumento de fato é.

Um personagem existe como parte de uma obra de ficção, e, por conseguinte, não é real.

É, eu acho que é isso.



Tá, tá, a situação é um pouco mais complexa que isso (afinal, nos ataques de Nikolas Ferreira e do próprio Lins, curiosamente usando os mesmos termos, persegue-se dessa forma o autor do texto caso o personagem diga algo ofensivo - o que, curiosamente a turma deles faz ao querer banir livros a torto e direito), mas em linhas gerais, um personagem pode simular eventos do mundo real, e inclusive representar inúmeras similaridades com o próprio autor, sem tentar enveredar por um caminho meta demais, e talvez não exista um exemplo mais fácil que de Larry David com seu Segura a Onda.

No seriado, David, co-criador de Seinfeld e figurão em Hollywood com vários amigos atores vive Larry David, co-criador de Seinfeld e figurão em Hollywood com vários amigos atores (como Ted Danson, Richard Lewis e mais uma dezena de outros tantos). No entanto, David do seriado é um personagem, uma representação exagerada e potencializada de David na vida real.

David do seriado se mete em confusões e absurdos, que, se acontecessem com o David da vida real ele dificilmente seria um figurão em Hollywood (como com uma briga boba com Ben Stiler por uma festa de aniversário semanas depois do fato ou uma rivalidade com Michael J Fox que escalona em níveis estratosféricos). Sabemos que os eventos do seriado são ficcionais e representação das pessoas reais em cenários absurdos.

No entanto, num programa de entrevistas ou num palco fazendo um stand-up, é a pessoa física Larry David, e não mais o personagem de Segura a Onda. Seus comentários pessoais são suas opiniões e não mais o que o personagem numa obra de ficção pensa ou diz.

Se as opiniões do personagem ou da pessoa coincidem, são irrelevantes quando ditos pelo personagem - pois são uma obra de ficção, por mais que se assemelhem ou existam no mesmo contexto do mundo real - mas preocupantes quando ditos pela pessoa - pois EXISTEM no mundo real e por isso tem consequências e ramificações.

Nada disso é importante para o stand-up, principalmente na estrutura após Lenny Bruce (do ponto anterior), considerando que esse número de comédia reside no fato do humorista subir ao palco de cara-limpa (ou seja, sem personagens) para expor seus comentários, falar suas opiniões, sentimentos e pontos de vista. Ele nem precisa fazer uma piada tradicional como Bill Hicks falando por quarenta minutos sobre o assassinato de JFK...

Claro que existem outros comediantes que usam personagens em seus trabalhos (como Tom Cavalcante e antes dele Chico Anísio), mas evidentemente esse trabalho segue num rumo diferente em que os personagens vivenciam situações e cenários previamente planejados e estabelecidos (sabe, como numa peça), enquanto, o stand-up falando de cara limpa, existe maior liberdade para improvisação e, de novo, para opiniões que não compõem necessariamente uma piada no sentido tradicional (Bill Hicks de novo).

Agora, e talvez essa seja a questão mais importante, se você enquanto comediante e autor do texto que será executado, não concorda com ele, porque o diria?

Provavelmente porque foi pego e processado (e condenado) por isso e precisa de alguma desculpa (mesmo que estúpida) para ver se cola, né? "Esse batom na cueca é culpa do multiverso!"

 

{Edição bônus em 17/06} Bônus: Mas ele não confundiu só 'personagem com persona'?

Se fosse o caso, claro que seria muita burrice.

Personagem é uma representação ficcional, persona é um bocado mais complicado que isso, mas em linhas gerais é uma parcela de sua personalidade que se adequa em cenários situacionais - como quando você está em um churrasco com seus amigos ou quando está num churrasco da empresa no que você se comporta de maneira diferente. Mas nas duas situações, continua sendo você.

Persona pode mudar de acordo com contexto social, mas continua sendo a própria pessoa... Qual o argumento de defesa de que sob um aspecto social você fez um comentário racista ou homofóbico... (que é um crime)? 

{/fim da edição}

23 de outubro de 2024

{Editorial} Qual o propósito da Justiça Eleitoral?

Eu posso estar errado (e, deixemos claro desde o título que isso é um editorial), mas 2024 foi possivelmente o ano das eleições mais sujas literal e figurativamente (literal porque a quantidade de panfletos e santinhos entulhando as ruas e calçadas foi gigantesco), e, enquanto isso por si só já é motivo de consternação, o que efetivamente me assusta e eu acho que deveria assustar a bem mais gente é o quanto os crimes eleitorais são relativizados.

Quer dizer, se um candidato de esquerda der uma garrafa de água para um eleitor é crime eleitoral grave e acarretará na cassação da chapa (ou só do candidato caso o vice seja de algum partido do centrão)... Mas distribuir milhões para pessoas votarem no candidato "x" pode ser realmente considerado compra de voto? Acusar uma concorrente de matar o próprio pai ou forjar um laudo médico (assinado por uma pessoa falecida anos atrás) e divulgá-lo às vésperas de uma eleição, pode ser considerado crime eleitoral?

PORRA!

Não é nem como se fosse algo difícil de avaliar!

Elon Musk literalmente comprou votos para Trump, não tem área cinzenta ou confusão na interpretação. Ele deu dinheiro para pessoas votarem em alguém, se isso não é compra de votos por favor me explique o que é.

(Ainda que sejamos honestos o criminoso Trump não deveria ser candidato por motivo algum com as condenações e ficha corrida, mas aí tem algum ex-presidente dos EUA que não tenha?)

Marçal por outro lado já deveria ser impugnado por ser ficha suja e ser impedido de concorrer a qualquer cargo público - e depois novamente por cometer sucessivos crimes eleitorais e por isso perder os direitos políticos QUE ELE JÁ DEVERIA NÃO TER - mas no entanto não parece haver impedimento para torná-lo secretário em Barueri, não é mesmo?

E é assustador esse senso de impunidade seletiva.

"Ah, o candidato de esquerda ganhou na Venezuela, obviamente as eleições foram fraudadas!" (mesmo que lançaram um candidato tampão da direita para representar uma pessoa com candidatura impugnada)

"Ah, o candidato de esquerda ganhou na Colômbia e obviamente teve desvio de dinheiro nas contas eleitorais" (mesmo que quem levantou o argumento de desvio nas contas eleitorais seja investigador por crimes bem mais graves cometidos na Colômbia - e recebeu foro privilegiado justamente para escapar dessas investigações).

E não é uma impunidade somente eleitoral ou eleitoreira.

Apoiadores da direita como Leonardo ou Gustavo Lima recebem todo tipo de relativismo para a defesa de seuas crimes. Leonardo foi multado por trabalho escravo em suas propriedades mutlimilionárias e nenhum jornal trouxe a matéria por um ano (pelo contrário, caiu numa coluna de fofoca - porque trabalho escravo é FOFOCA!) enquanto Gustavao Lima cometeu crimes com empresas de apostas - recebeu em evento particular um ministro do supremo indicado por Bolsonaro... Mas nada disso é visto como sério ou problema. No máximo nota de rodapé para a revista Claudia ou Capricho, certo?

Rico de direita não comete crime - uma porque é 'alegadamente' e outra porque tem que ver que esse crime foi cometido para gerar empregos e obviamente é ótimo e positivo para a economia!

28 de setembro de 2024

{Editorial} Liberdade de expressão é sério demais para ser mero terraplanismo (nada)intelectual

Quando vemos gente hipócrita como Sérgio Moro defendendo o sapo mal digevoluído sulafricano Elon Musk como um bastião da liberdade de expressão, é importante pararmos por um minuto (ou mais, porque existe uma possibilidade não pequena de náusea).

Não só pelo fato que Moro - e uma bela quantidade de seus aliados da época - se valeram de leis da época da ditadura militar para perseguir todo e qualquer crítico do governo quando eles estavam lá. Jornalistas, festivais de rock e o que for. Quer dizer, quantos desses estimados "defensores" de liberdade de expressão não andam de mãos dadas com gente pedindo proibição de livros?  Quer dizer, vamos perseguir ficções mas permitamos palco para todo tipo de conspirador criminoso ou coach que aparecer por aí para defender alguma plataforma canalha, certo? Você entende que liberdade de expressão não vale só quando você concorda com o conteúdo xenofóbico e racista, certo, senhor Moro? Que a liberdade de expressão não é apenas um instrumento para perseguir minorias?

Na verdade, e isso é bem mais importante, o ponto focal da discussão é que a liberdade de expressão exige uma contraparte igualmente importante que é a responsabilidade e cobrança séria sobre a qualidade de seu conteúdo - para corrigir inequidades de percepção sobre conteúdo mentiroso (mas aí, de novo, pode censurar cientista enquanto inventam mamadeiras de piroca e perseguem grupos negros como os haitianos em Ohio, né?).

Mais que isso, a função da liberdade de expressão existe mais que qualquer coisa para garantir ao cidadão e veículos de impressa o direito de criticar abertamente o governo sem medo de sanções ou censura. Qualquer coisa diferente disso cabe discussão legal por calúnia, difamação ou qualquer outra afirmação cabível, possível ou imaginável, e é importante que isso funcione dessa forma para preservar indíviduos da disparidade de popularidade de redes sociais - que em mais de um caso levaram pessoas a cometer suicídio por ver seus perfis expostos (e passarem por todo tipo de perseguição) após fofocas na internet. E mesmo o direito de criticar abertamente o governo tem de ser cerceado contra incitação de violência ou crimes (ou seja, mesmo o direito de criticar o governo não é irrestrito e inquestionável).

Liberdade de expressão é assunto espinhoso justamente porque como toda liberdade ela tem limites.

Sim, você tem a liberdade de sair de casa sem roupa, mas isso também significa que se alguém te ver existem grandes chances de ser denunciado por atentado ao pudor ou importunação sexual. Liberdade nenhuma para pessoa nenhuma é irrestrita e ilimitada, e os limites de todas as liberdades são as condições legais (no exemplo anterior, a importunação sexual definida pelo artigo 215a do Código Penal), ao passo que as liberdades não são iguais, sequer proporcionais.

O caso Escola Base é notável exatamente nisso. Enquanto o SBT passou meses reportando uma MENTIRA sobre professores de uma escola (que passaram a sofrer todo tipo de assédio, perseguição e o que mais você pode imaginar que uma pessoa acusada de pedofilia enfrentaria), uma vez que o outro lado (ou seja, as pessoas acusadas injustamente de um crime que não cometeram por uma rede canalha) não tem paridade de alcance para refutar as informações ou apresentar sua defesa. Mas com toda a certeza vão bem além quando temos calhordas como Sikeira Jr comemorando e dançando quando um jovem negro é executado pela PM - sem checar a versão da polícia se a pessoa tinha sequer cometido qualquer crime além de ser um jovem negro, e, é bem provável até que ele somente dance e comemore porque morreu um jovem negro...

Na verdade a única opção e chance de defesa de alguém injustiçado pela liberdade de imprensa ou de expressão é justamente recorrer juridicamente (ou seja, processar) - e esse ponto é crucial para toda a argumentação legal apontada pelo Supremo brasileiro, afinal para recorrer juridicamente a qualquer coisa é necessário que exista um representante legal que responda pela empresa e aja em seu nome para reparações, restituições, acatar ordem e todo o mais.

Advinha o que a empresa calhorda do Pepe fez? Exatamente retirou todo e qualquer representante legal para não precisar seguir a lei no Brasil (ao contrário do que fez em todo o resto do mundo, incluindo e não se limitando à ditaduras e a versão bem mais detalhada do canal do Ian Neves que cobre todos os detalhes do assunto),

Inclusive sendo a base de alegação de políticas de relacionamento e serviços das diversas redes sociais e serviços online - que como diversas pessoas podem apontar sobre o youtube podem questionar a validade de conteúdo e removê-lo em benefício de marcas e empresas multibilionárias, mas, no caso do X pode pura e simplesmente censurar um usuário pequeno em favor de um anunciante, amigo de Musk ou racista qualquer com mais seguidores. Nas redes sociais, você é censurado com posts apagados ou que não chegam aos seus amigos, seguidores ou a quem quer que seja enquanto o que interessa dos donos das redes sociais se propaga como fogo, como um estudo do MIT aponta que o 'algoritmo' do youtube (e não imagine que só dele) "curiosamente" (para a surpresa de ninguém) direciona para conteúdo da extrema direita.

E vindo de um sujeito como Musk cujo pai era grande racista e apoiador do regime do apartheid (e se beneficiou diretamente do mesmo para seus negócios de mineração na África do Sul - que formam base do dinheiro da família e claro do atual bilionário dono do X) é realmene rico imaginar que existe qualquer mínima preocupação com bem estar social ou mesmo com a defesa da liberdade do cidadão comum para protestar contra um regime opressor (quando a bosta do X é efetiva e especificamente um regime opressor que permite grupos formarem literais hordas de linchamento virtuais).

Resumindo 'liberdade de expressão' meus ovos, tá. O Pepe The Musk quer é controlar o cenário da rede social para forjar narrativas que lhe sejam favoráveis para controlar a percepção da mídia e sair como o bom bilionário altruísta que defende os oprimidos - enquanto facilitando sua opressão, concedendo internet via satélite para grileiros, madereiros ilegais e traficantes (o que fomenta o caos - enquanto concede acesso a contratos governamentais altamente lucrativos) por exemplo.