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5 de fevereiro de 2026

{Resenhas Magnéticas} X-men As Guerras de Quinta

Anteriormente, em X-men:

Para um breve contexto, X-men é uma série que surge nos anos 1960 com Stan Lee inflando as publicações da Marvel com toda ideia idiota que ele conseguisse colocar no papel, e, continuando o que lhe garantiu emprego na editora nas décadas anteriores, abraçou bastante a noção de romance - quando a verdade é mais 'novela ruim nível Gloria Perez'.

A série passa por uma gigantesca transformação com a Segunda Gênese, quando os personagens originais são substituídos por uma nova equipe completamente diferente que vai se desenvolvendo (e crescendo) na próxima década e além, conforme a série também cresce em popularidade. Com o crescimento de popularidade a editora começa a buscar crescer a franquia e isso nos leva a novos títulos e novos títulos e novos títulos para acomodar uma cada vez maior e mais crescente quantia de personagens. Isso leva a eventos crossovers a cada trimestre entre os múltiplos títulos (visando uma gigantesca sinergia corporativa e vendas) enquanto a qualidade das histórias declina consideravelmente no final dos anos 1980 e começo dos 1990, como o arco sobre a nação estado de Genosha (que escravizava mutantes para conseguir prosperidade - e que se concluí com a derrota de um vilão aranho-robótico), e isso se tornaria mais importante depois.

Com a virada dos anos 1990, o declínio vai avançando cada vez mais (enquanto paradoxalmente as vendas crescem ou seguem bem firmes e fortes) e as histórias vão para todo lado com clones, viajantes do tempo, linhas do tempo alternativas, mas não esqueçamos o comentário social através do vírus legado (que seria o equivalente do HIV, mas, sabe, afetando unicamente mutantes) e, no ápice (ou seria o nadir?) da coisa toda, temos o Massacre, onde não apenas as franquias X se reúnem mas todo o universo Marvel para combater a fuuuuuuuusão do professor Xavier e Magneto (que formam o vilão Massacre).

Após os eventos de Massacre, em 1998 a ideia é de limpar a casa e recomeçar (mais ou menos como na Segunda Gênese, inclusive trazendo de volta os personagens desse período e não por mera coincidência), com a ideia de reestabelecer a fraquia e consolidar os personagens, claro que pensando na sinergia corporativa do vindouro filme pela Fox. Ou seja, reapresentar os personagens (mais interessantes) num ponto de partida fácil para os leitores que sairem empolgados dos cinemas pelo filme da franquia.

 

Um pequeno parêneteses, porque pra mim foi exatamente isso quando eu comprei Fabulosos X-men 50 (que eu tenho ainda hoje, por mais que tenha me desfeito de uma quantidade enorme de quadrinhos da coleção ao longo dos anos) e que eu comprei bem empolgado justamente com a ideia do filme que estava em vias de estrear e eu queria saber mais sobre a franquia. Eu só não me lembro se comprei essa hq antes ou depois do lançamento do filme - mas os problemas disso eu já falarei em um instante.

E, eu confesso que não sei qual o problema aqui se foi editorial, se foi de quase uma década de autores num modo específico de escrita envolvendo múltiplos títulos (que os manteve fixos num modo específico) ou se foi pura e simplesmente o fato que eles não tinham os melhores nomes disponíveis ou se importavam com o resultado, mas o que vemos aqui é uma colagem de tudo de errado que poderiam fazer nesse sentido. 

Sim, é fácil olhar em retrospecto mais de vinte e cinco anos depois e ciente de tudo o que aconteceu (nos quadrinhos e fora deles) com a franquia para dizer que essa foi uma bola fora e que tinha tudo para dar errado, ainda que tivesse o gigantesco talento de Alan Davis, Chris Bachalo, Carlos Pacheco, Adam Kubert e Steven Seagle (escritor de vários sucessos e material conceituado na DC nos anos 1990)  por exemplo, tivesse o regresso de vários dos personagens mais populares da franquia no time principal (e isso fosse uma mensagem para os fãs de longa data clamando por seu retorno ou uma nova chance para a franquia) e, bem, todo o potencial que de fato existia aqui.

Esses não são os problemas aqui, pelo contrário, esses são os pontos fortes que me fizeram ler na época e rever agora vários anos mais tarde. O problema está no restante, que tenta manter uma estratégia fracassada da Marvel nesse período (que, lembremos, levou a editora a decretar falência em 1996), e que ainda parecia vigente na mente de vários dos editores da empresa.

No lugar de histórias simples e claras, temos material convoluto que tenta ligar eventos com uma longa (e estúpida) cronologia convoluta, e explicações que pouco fazem sentido ou funcionam. São raras histórias ou edições nesse período sem uma nota de editor apontando para outra edição ou arco ou história.

Como a ideia de que o professor X ressurge (após o Massacre, diga-se de passagem), porém substituído pelo super computador Cérebro (sim) que tomou corpo após o ataque de Bastion em outro mega-evento e resolveu montar seu super grupo para destruir os X-men e dominar o mundo, e, daí temos os alicerces da série por vir sempre com um pézinho para trás numa convoluta e absurda narrativa que nunca tenta avançar, se explicar ou desenvolver além do que os anos 1990 fizeram.

Gambit volta (após seu julgamento) e enquanto tenta reatar com Vampira, ela tem de discutir seus sentimentos com Magneto e/ou seu clone Joseph - que foi criado pela vilã Astra que sempre totalmente esteve ali e não é só uma recente (e desinteressante) criação, soma-se a isso toda uma lista de personagens desinteressantes que vão aparecer aqui, acolá e inflar o número de pessoas por página ao passo que desaparecer completamente na edição seguinte (ou mesmo no quadro seguinte em alguns casos), enquanto as coisas nunca parecem capazes de criar uma narrativa pungente e interessante.

O argumento da Guerra Magnética - de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - é interessante como conceito, mas que se perde conforme esse cerne da história dá lugar para o conflito entre o clone de Magneto (que é seu lado bom e nobre) com sua criadora Astra e posteriormente com o próprio Magneto em meio a uma série de explanações e mais explanações para tentar corrigir toda a estrutura narrativa desses dois personagens na última década.

Por outro lado a 'guerra' em si se resolve conforme uma personagem propõe à ONU um plano de conceder Genosha ao vilão e, bem, nós não temos muito mais detalhamento ou desenvolvimento nessa personagem chamada Alda Huxley (que, como você deve imaginar, não tem grande consequência ou relevância depois disso - e nem vamos fingir que é difícil ver de onde vem o nome da moça) e tudo parece se resolver fácil e simples demais sem um fluxo natural de história ou mesmo qualquer propósito para os personagens (os X-men enfrentam asseclas de Magneto durante boa parte da história enquanto o vilão em si está isolado enfrentando seu próprio clone, e, a história em si - sabe, de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - ocorre com um emissário robô do vilão lidando com personagens sem nome ou qualquer ação e decisão nos eventos).

A solução de oferecer Genosha à Magneto parece arbitrária e confusa num primeiro momento (inclusive quando consideramos histórias anteriores em que Magneto teve um asteróide ou um terreninho na Terra Selvagem e foram expropriar ele de lá), mas são ainda mais confusas quando nos trazem o Capitão América comparando diretamente as ações de Magneto às ações de Hitler (o que eu adoraria ouvir os pensamentos desse Capitão América de 1998 sobre um certo presidente que quer anexar o Groenlândia), quando curiosamente, a comparação mais clara é que a formação do estado de Israel, mas nesse caso aos mutantes (e claro, talvez o líder mutante seja alguém apto por se apropriar de terras vizinhas e dominar seus vizinhos, ao contrário do gentil e respeitoso povo de Israel, certo?).

Curiosamente, existe um problema aqui da própria Marvel que vem desde o evento Atos de Vingança (entre 1989 e 1990) que coloca Magneto trabalhando diretamente com o Caveira Vermelha (que era uma figura proeminente do regime nazista e que é em parte responsável pela morte da família do Magneto na Alemanha), e tudo isso tenta colocar o personagem num mesmo balaio que todo outro vilão da editora, além de desligitimizar suas motivações e, mais importante, o longo arco de redenção trabalhado por Chris Claremont nos anos anteriores (culminando no julgamento do personagem em 1985).

E de novo, é curioso que em 1984 a mesma Marvel faz num julgamento interplanetário de Reed Richards uma justificativa dialética (absurda) para justificar a existência de Galactus que é essa forma devastadora pelo universo - incluindo o genocídio do Império Skrull, algo do qual Richards é parcialmente responsável - mas quando a situação é bem mais próxima da nossa realidade, a perspectiva se inverte.

Porra, mesmo quando Magneto resolve deixar o planeta e levar os mutantes embora com ele - afinal se os humanos não os querem, que pelo menos os deixem em paz - é lançada uma bosta de uma ogiva nuclear para destruir o astróide e acabar com o Magneto e todos os mutantes nele!

Quando Magneto questiona a forma como os mutantes são tratados, sofrendo todo tipo de indignidade, agressão e forçados a trabalho escravo na Genosha no século XX, enquanto abertamente perseguidos nas ruas por máquinas inteligentes criadas ou pelo governo ou com a ajuda do governo dos Estados Unidos, ele é só um vilão tão estúpido quanto o Metalóide espumando de raiva, e, mais até que isso ele é visto, comparado e retratado como Hitler de novo e de novo (quando a própria Marvel tem o Caveira Vermelha que é basicamente Hitler sob efeito de esteróides e o Doutor Destino que mantém um país refém sob sua estrutura de poder e tentou em diversas ocasiões controlar o mundo).

O que é inclusive interessante quando, na mini-série Magneto Rex vemos com mais detalhes o que de fato o vilão recebe com Genosha - que é bem próximo de terra arrasada, haja visto que boa parte da população mutante foi exterminada pelo vírus legado (basicamente o HIV mutante), levando a uma gigantesca guerra civil e disputas de poder. 

Isso é relevante para eventos futuros dos X-men, inclusive na mini-série Magneto Rex que vem pouco depois, e, claro, a fase de Grant Morrison a frente do título alguns anos mais tarde - mas nada é particularmente desenvolvido ou trabalhado.

Tão logo a história se encerra um epílogo rápido é cortado com a aparição de um alienígena que sequestra os mutantes para combater o Fanático em outro plano de existência, sem espaço para que as ações, e, bem, a vitória de Magneto resultem em um argumento mais complexo. Perde-se tempo com mundos alternativos e histórias bem ilustradas que de nada servem para avaliar as perspectivas dos mutantes sobre o evento transcorrido, e, bem, até mesmo do mundo maior da Marvel (qual a visão dos Vingadores ou do Quarteto Fantástico agora que Magneto venceu e conseguiu um território para si próprio, concedido pela ONU?).

O argumento narrativo, a história - que prometia transformar o universo Marvel e mostrar mudanças significativas - se perde numa bobagem de narrativas que em nada tentam desenvolver os eventos anteriores ou avançar o argumento da história. Droga, na própria história não se tenta desenvolver ou avançar o argumento da história.

A história é ruim justamente porque para forçar essa narrativa que Magneto é o Hitler mutante e está espumando de raiva sem qualquer justificativa depende que todo o contexto do próprio universo Marvel seja ignorado e deixado de lado. Que o Quarteto Fantástico que move montanhas para salvar Galactus da morte não parece interessado em buscar uma cura para o vírus legado que dizima mutantes aos milhares, ou que os Vingadores que salvam povos alienígenas de seus regimes opressores não enxergam nada de errado num país escravizando mutantes na Terra, ou bem, que mutantes sejam perseguidos abertamente em ruas dos Estados Unidos por agentes da ICE, digo, Sentinelas julgando as pessoas pela qualidade de seus 'jeans' (pisca, pisca).

Magneto não argumenta, os X-men não argumentam, droga mesmo a maquiavélica doutora Alda Huxley ou o vilão da vez Zealot (que seria algo como Fanático religioso numa tradução mais literal) ou as nações unidas combinadas argumentam pelo fato ou fatores. Jogam elementos mas não uma história, e tudo é para mostrar o vilão como um tirano em busca de poder e nada mais que poder - mesmo quando ele recebe uma terra arrasada precisando de um salvador capaz de lutar pelo seu povo, e não um paraíso idílico de onde pode lançar uma campanha de conquista (como tanto se tenta vender no argumento da história).

Cara, na sequência da história do Magneto você tem um arco com o Caveira Vermelha (fugindo da custódia de um porta aviões da S.H.I.E.L.D. que é a polícia global dos EUA do universo Marvel) com um plano de manipular um mutante para controle mental de toda uma divisão de soldados da organização (clandestina e que não tem nenhum poder real enquanto varre o mundo com equipamento de destruição em massa), e, além de ser uma história incrivelmente ruim, ela mostra muito dessa dissonância e incapacidade de pontuar e argumentar as diferenças e nuances entre os personagens e suas motivações.

O Caveira Vermelha consegue fazer toda uma série de coisas porque a história pede que ele faça (droga ele estava na cadeia, como ele consegue manipular um mutante cujo DNA foi combinado com um alienígena?) e o resultado todo é apenas alguma bobagem para lançar três títulos novos da Marvel (que obviamente são celebrados até hoje e todo mundo se lembra muito bem de suas histórias revolucionárias), e mesmo que exista mais espaço e páginas para justificar a narrativa de Magneto, bem, não se gasta linhas de diálogo para racionalização, porque nós precisamos de um longo conflito entre os X-men e os acólitos ou de um clone com sua criadora e depois com o originador de seu DNA... 

No entanto, existem elementos importantes que vão catapultar a partir dessa história nos anos seguintes, e, o que ao meu ver é mais interessante efetivamente é o quanto nas décadas seguintes dessa história nós vemos uma série de questões relevantes no mundo real e principalmente do quanto a Marvel em si tentou em diversos momentos ser isentona (ou quis se manifestar de alguma forma) e o quanto isso envelheceu mal.

Eu genuinamente acho que o potencial é muito maior que o resultado, e, talvez com outra equipe, mas principalmente com um editorial melhor, esse material poderia brilhar muito mais e continuar muito mais interessante que uma breve nota de rodapé para algo muito maior...

18 de setembro de 2025

{Resenhas de Wyndhorn} Helena de Quinta

Quando eu li Supergirl Mulher do Amanhã, eu confesso que a arte da brasileira Bilquis Evely me surpreendeu demais, mas, não foi o suficiente para me vender na ideia e no projeto. Eu já estava desgostoso de Tom King depois de um longo e anticlimático final para sua fase com o Batman - mas não apenas isso.

O roteiro não que seja ruim (mas bom também não é) e é algo como Bravura Indômita no espaço com a Supergirl no papel de John Wayne, digo, o xerife bêbado e acabado, e, eu não sei dizer se isso funciona para mim ou mesmo para a história porque existe uma dissonância entre personagens e história (a história não pertence à persongem e vice-versa ao mesmo tempo que a arte igualmente não pertence à história).

Então, para dizer que eu não me vi minimamente empolgado com a reunião dos criadores para um novo projeto por mais que vencesse o Eisner e o que mais... Então foi pegando poeira na minha pilha de para ler até que eu finalmente dei uma chance, e, bem a arte me surpreendeu ainda mais que em Supergirl - isso eu te digo de graça já do começo.

Helen de Wyndehorn é um quadrinho sobre uma garota (Helen) que perdeu seu pai durante a grande depressão e vai morar com o avô e uma tutora para lhe ensinar, enquanto descobre todo um mundo estranho e bizarro que se parece muito com as histórias que o pai escrevia.

O roteiro não é exatamente algo que mereça tanto destaque mesmo com boas sacadas aqui e acolá e algumas reviravoltas interessantes, a verdade é que o Tom King parece bem mais no modo automático do que capaz de criar algo genuinamente interessante e novo. Parece uma colagem de ideias que Tom King já usou (ou não usou e foram descartadas nos outros projetos) como um narrador não confiável narrando os eventos utilizados para escrever um livro (de Estranhas Aventuras) ou a protagonista que singra entre dois mundos (Senhor Milagre - que é um general na guerra em Apokolips e um sujeito pegando congestionamento em Los Angeles mas é a ideia para a Ametista da DC) e, ainda que eu não possa apontar uma única obra como Bravura Indômita no caso de Supergirl, eu genuinamente vejo uma série de fatos e detalhes que vão se mesclando e me lembram outros trabalhos de diferentes autores principalmente de novelas pulp de espada e feitiçaria (ainda que pareça que Conan e Robert E Howard - que como a contraparte na história, também se suicidou com pouco mais de trinta anos - sejam a maior fonte inspiradora)...

Só que aqui, pelo menos, me parece mais coerente até porque a ideia da história é de buscar uma personagem razoavelmente genérica que singra entre mundos (com o elemento do fantástico e da fantasia de capa e espada com o cenário do mundo real) em contraste com a estrutura narrativa e paralelos deste tipo de história e o período em que foram produzidas, permitindo a arte extraordinária de Bilquis para brilhar criando mundos e personagens fantásticos.

De novo, o roteiro é bem 'meh' ainda que supere boa parte dos últimos trabalhos de Tom King nos últimos anos e mesmo que tenha seus momentos aqui e acolá, é algo entre razoável a medíocre, enquanto a arte é o que justifica a obra, mas não sei se vale a pena recomendar.

É uma leitura agradável, mas, sinceramente, não vai mudar a sua vida e pelo preço cobrado, bem, talvez numa promoção ou numa feira literária.

Nota: 7,0/10.

3 de julho de 2025

{Resenhas de Quinta} 20th Century Pet Shop Boys.

20th Century Boys foi publicado originalmente entre 1997 e 2006 e reverenciada bastante na época de sua publicação original como o 'Watchmen japonês', a série de Naoki Urasawa foi publicada em boa parte do mundo e é bastante renomada... E eu não tive vontade de ler até agora.

Quer dizer, verdade seja dita, a série foi publicada originalmente no Brasil pela Panini em 2012 (uma época que eu estava lendo muito pouco quadrinhos - e, fugia de mangás como o diabo foge da cruz), e depois disso nada. Nenhuma republicação, nenhum animê ou filme...

Eu lembro que via notícias no Omelete na época sobre a série (então você já deve ter entendido o motivo das comparações com Watchmen), e, nesses quase vinte anos da conclusão original do mangá, o material parece que foi sumindo e se perdendo.

Semana passada ou retrasada eu encontrei o volume 1 da nova republicação da Panini (agora em 2025 mesmo) na versão "Edição definitiva" e tudo o que eu falei nos parágrafos anteriores passou a fazer bem mais sentido.

Quer dizer, as comparações com Watchmen parecem bastante óbvias nesses primeiros capítulos (uma gigantesca conspiração global enquanto eventos se desfraldam em diferentes linhas do tempo, enquanto o assassinato de uma pessoa reune o restante de seus antigos conhecidos), enquanto algumas outras coisas menos óbvias vão dando sinal também  (quer dizer, spoiler talvez, mas a identidade do pai da bebê Kanna não é uma surpresa pra ninguém, né?).

Mas nada disso é o que faz Watchmen uma obra interessante e relevante quarenta anos depois. Está no estilo narrativo (com os trechos no final dos capítulos que mudam para anexos, como trechos de livros, de revistas ou demais materiais) enquanto a narrativa abstrai para entre personagens terciários e uma história de ficção dentro da obra de ficção com os contos do Cargueiro Negro ainda mesclando elementos não lineares para a história. Isso com personagens complexos e bem desenvolvidos e uma história que tenta explorar a metalinguagem do universo de quadrinhos estadunidesnses de super-heróis em contraste com o mundo real.

20th Century Boys não faz nenhuma dessas coisas, só as batidas narrativas rasas mesmo.

Um dos pontos relevantes da história é a conspiração de uma seita macabra que parece surgir do nada e cativar cada vez mais fiéis, algo que é um ponto análogo com algo, infelizmente, bastante comum no Japão, e que permitiria a construção de metáforas e analogias mais complexas sobre este mundo e personagens.

Infelizmente não é o que vemos, com uma visão bastante rasa e até mesmo simplista sobre essas seitas e seu apelo (e, até mais que isso, sobre sua capacidade de influência).

Mais até que isso, a conspiração toda que se desfralda na história de Naoki parece boba em comparação (e, eu sei que li apenas o primeiro volume de 12, mas, sejamos honestos, uma seita de um líder espiritual chamado 'Amigo' que era um moleque esquisito e paranormal além de colega de classe de um pessoalzinho quase 30 anos atrás?).

Olha, os personagens são muito bem escritos e desenvolvidos e suas histórias pessoais e suas interações interpessoais são absolutamente fantásticas. Os trechos do passado enquanto as crianças tem planos são um deleite constantemente, e boa parte das cenas em que os amigos estão só curtindo ou fazendo alguma coisa comum (sabe, como cantar num karaokê ou, absurdo, trabalhar) são incriveis em sua simplicidade e talento e, com toda a certeza isso é mais do que motivo para ler ou recomendar.

Só que a história não engrena ou empolga como deveria. O mistério do 'Amigo' e sua seita (que se inspira numa brincadeira de crianças de 30 anos atrás...? Droga, o volume 1 da série termina com um assassinato e nem isso me deixou com vontade de ler a segunda edição (pra ser honesto eu tive que reler parte do material para concluir essa resenha).

Talvez o material encontre seu tom depois de um tempo, afinal são quase 250 capítulos (além de um epílogo com mais 16 intitulado 21st Century Boys), e eu mal li dez porcento disso, mas se eu disser que do que li me empolguei pelo resto, estaria mentindo.

Então isso me coloca na terrível condição de não desrecomendar... Quer dizer, tem seus momentos e coisas que são realmente boas, mas a história principal não anda o suficiente para formar algo interessante para empolgar (talvez um dos motivos pelos quais a série não foi republicada em quase dez anos pela Panini e pelo qual não tem nenhum animê ou filmes), indicando a falta de interesse em geral.

Se você achar numa promoção, tente pelo menos para ver se funciona para você. 

3 de abril de 2025

{Resenhax de Quintax} Asterix, o Gaulêx, Omnibux

Publicado entre 1959 e 1960 na revista Pilote com roteiros de René Goscinny e arte de Alberto Uderzo e depois compiladas em um encadernado em 1961 com o nome de Asterix, o Gaulês, e, se tornou um sucesso na França e no mundo nas décadas seguintes, e, no Brasil a Record publica o material desde 1983, com essa reedição em compilando três volumes com capa dura.

A comédia de Asterix não é nada para se escangalhar de rir, mas, no geral é bastante bem escrita e competente, sabendo criar situações humorísticas (inclusive no cenário) ao mesmo tempo que consegue brincar com o gênero histórico lidando com retratos bem menos heróicos e engrandecedores de figuras proeminentes do Império Romano.

Primeiro de tudo eu tenho que deixar transparente que eu tenho zero nostalgia pelo material e fui ler já adulto. Talvez funcione melhor para crianças (e eu tenho 90% de certeza que é o caso - como a Turma da Mônica) ou adolescentes, principalmente pela narrativa mais simples e, muitas vezes até pueril. Tudo se resolve em 50 páginas, nenhum ressentimento, nenhuma grande desilusão, tudo certo para a próxima aventura sem qualquer desenvolvimento mais robusto tanto na história como para os volumes seguintes (diferente tanto de Blueberry que eu comentei semana passada como Tintin que vai apresentando novos personagens e relacionamentos conforme as histórias avançam).

Não sei dizer se no volume 10 da série há alguma grande guinada até porque com o tempo e o sucesso talvez os criadores passassem a produzir estes volumes de maneira diferente mas vou avaliar o que eu li e pelo que eu li.

E, enquanto eu confesse que é bastante competente e eu genuinamente tenha gostado das primeiras edições, eu tenho que dizer que não entendo o apelo. Quer dizer, ao menos não entendo o apelo pelo preço praticado, porque claramente não é algo sofisticado e refinado que valha 200 pratas por pouco mais de 150 páginas...

O material é muito bem desenhado, o roteiro é inteligente (ainda que, com três edições consecutivas a gente já entende que em todos os demais volumes o material dificilmente vá apresentar surpresas ou fugir do que consta nessas edições). Então porque diabos ele é tão caro...? Eu não entendo.

E tudo aponta para a forma de produção europeia que foge da estrutura corporativa estadunidense ou japonesa (de produção mensal em massa para compilação em volumes), uma vez que a publicação em revistas como Pilote para eventuais republicações são produzidas com tiragens menores, mais próximo da produção literária.

Mas nada me explica porque custe tanto (até porque os volumes individuais em capa cartão que a Record publicava antes não eram tão mais baratos custando na média 40-60 reais por volume).

Vale a leitura, sim, mas eu recomendo ou aguardar alguma promoção ou buscar qualquer meio mais Iarr-Rarr de chapéu de palha ou algo parecido...

20 de março de 2025

{Resenhas de Quinta} Blueberry (Pipoca & Nanquim)

Para quem não conhece, Blueberry é um personagem de histórias de Western publicadas em quadrinhos franco-belgas entre 1963 e 1973 além de republicações, compilações e continuações até os anos 2000, escrita por Jean Michael Charlier e Jean Giraud (também conhecido como Moebius).

E enquanto a série tenha uma arte belíssima que vale a pena se perder por horas nos cenários detalhadamente criados e ilustrados por Moebius, o roteiro, bem, deixa um pouco a desejar. Primeiro pela verborragia que torna a leitura tediosa e cansativa.

Toda página tem um volume enlouquecedor de texto que pouco ou nada agrega para a história, e, ao contrário, só trava o desenvolvimento narrativo. Por outro lado, o desenvolvimento narrativo é, por boa parte, repleto de clichês de westerns com histórias que colocam o tenente Mike Blueberry seguindo qualquer narrativa que John Wayne se encaixaria - ora como tenente do exército enfrentando os povos originários, ora como xerife de alguma cidade sem lei ou ora como um trapaceiro sem sorte em busca de qualquer esquema...

No geral as histórias são boas, com personagens complexos e interessantes, e desde a primeira vez que eu li quando a Abril publicou em 1990 (e o material não vingou, ao que saiu mais um ou dois volumes somente), eu realmente simpatizei bastante com o que li.

Recomendo, com ressalvas.

16 de janeiro de 2025

{Resenhas de Quinta} Moonshadow

Eu decidi que em 2025 eu não farei posts sobre quadrinhos de super-heróis (ou filmes, ou seriados - com a única exceção de Superman e da segunda temporada de Pacificador, e olhe lá), então voltei minha atenção para outros materiais que geralmente escapam minha atenção, e eu geralmente pouco (ou nada) falo sobre.

Em breve quero falar sobre Asterix e outros quadrinhos europeus, quero falar mais sobre mangás e voltar a falar sobre filmes e séries que saiam um pouco do horizonte desse mundo que eu não construi.

Dito isso, Moonshadow é uma hq de J M Dematteis com arte de Jon J Muth publicada entre 1985 e 1987 e eu passei muito tempo tentando ler esse quadrinho, sem muito sucesso. Ou o preço era proibitivo da versão da Globo ou o preço era proibitivo nos sebos, sites de quadrinhos e onde quer fosse ou na republicação da Pipoca e Nanquim ou eu simplesmente não achava alguma versão em inglês com uma oferta que justificasse a compra e, por uns bons quinze ou vinte anos eu tentei ler um quadrinho que eu não conseguia encontrar ou comprar.

Eu não sei direito como, mas lembro que na época da faculdade eu consegui ler o capítulo final (entitulado "Adeus, Moonshadow", e que é um epílogo da série e, na verdade, nem é parte da série como eu descobri agora terminado o material), e fiquei embasbacado com a qualidade, e passei os anos seguintes tentando ler mais e efetivamente ler o material todo.

Foi minha Moby Dick, por assim dizer, e eu meio que fui esquecendo da existência do material até que encontrei numa boa oferta para o kindle e, bem, a espera não fez nenhum favor ao material.

Talvez se eu tivesse lido nos meus vinte anos recém saído da faculdade e após chorar copiosamente com o final de Sandman, esse material teria funcionado de outra forma pra mim, e eu realmente acredito que bateria diferente em outro momento da minha vida.

Mas lendo hoje, bem, o material é verborrágico, alguns elementos se perdem pela falta de estrutura clara e mesmo erros na escolha dessa estrutura (por exemplo a morte de uma personagem importante já no segundo capítulo sem que ela tenha tempo para se desenvolver - e essa morte tenha algum impacto real para o leitor). Mesmo a arte de Jon J Muth que é excelente no geral tem seus pontos inconstantes e flutuantes em que parece mirar para qualquer lado e ver o que acaba colando (até porque parte da estrutura narrativa é de que os personagens pululam entre mundos alienígenas - que bem claramente são alucinações da mente de Moonshadow recordando sua juventude).

E eu acredito que em grande parte é na escrita onde reside o problema da série, e não apenas na verborragia, ainda que este seja um grande problema. Fica bem claro que é um quadrinho que quer mostrar que é um 'quadrinho para adultos' e em que Dematteis tenta ser ousado (seja na violência, palavreado ou sexo) mas que soa extremamente vazio e desprovido de qualquer significado, e, que eu facilmente posso citar em exemplos de quadrinhos (ou outras mídias) produzindo um material adulto que não recorreu ou recorre desse tipo de conteúdo para se destacar. O material não precisa de palavrões, violência ou sexo para ser adulto, e, ao contrário da forma como é feito fica bastante pueril.

Na verdade só preciso citar a obra de Bill Willingham (que traz de fato um conto de fadas para adultos - e lida com sexo, violência e palavrões) mas consegue conduzir o material de maneira mais inteligente e estruturada, em partes por eliminar a verborragia, mas principalmente por saber dosar quando e como usar estes elementos. Lendo o primeiro arco de Fábulas, por exemplo, existe muito pouca violência (quase nenhuma), e além de algumas insinuações de sexo, o material é bastante inofensivo.

No entanto, com um único diálogo entre Pinóquio comentando que quer reclamar com a Fada Azul por ser uma criança por vastos anos e que ele quer envelhecer para finalmente poder fazer sexo, Fábulas consegue fazer muito mais que Moonshadow com todos os peitinhos, insinuações e tentativas de parecer adulto.

Ainda no que tange a narrativa, honestamente eu seria remisso se ignorasse o que pra mim é o pior personagem não apenas deste material mas um forte candidato para pior personagem de toda a ficção (sim, pior que Jar Jar Binks, Scrappy Doo, o Grande Gazoo e Joffrey Baratheon), na forma do melhor amigo, figura paterna e cruzamento do primo Coisa dos Addams e Chewbacca de Star Wars, ninguém menos que o Chewbabaca Ira.

O personagem já apresentado de maneira extremamente escrota como um sujeito obcecado com pornografia (que se torna amigo de um adolescente quando ele oferece pornografia nova para ele), e durante toda a série não demonstra qualquer característica redimível. Ele é covarde, trapaceiro e em mais de uma ocasião trai a confiança do protagonista, Moonshadow. Não bastasse isso, quando você finalmente se vê contente porque esse personagem detestável desaparece da série e o protagonista Moonshadow tem mais tempo para introspecção e desenvolvimento (inclusive finalmente encontrando porto seguro com um grupo que o recebe como parte da família em um paraíso idílico), o personagem abandona tudo para partir em busca de Ira para o personagem voltar com seus maneirismos e personalidade escrotos.

Sinceramente a história se beneficiaria imensamente com a subtração deste personagem que não agrega nada, e eu confesso que não entendo qual o apelo ou a ideia por trás do mesmo. Ele não funciona como alívio cômico, ele não funciona para desenvolver a história e ele não é interessante.

Tudo bem que no geral os personagens não são muito interessantes - e em grande parte o protagonista é um personagem passivo que tromba de uma história à outra sem agir ou tomar qualquer decisão que mude os rumos da narrativa (no máximo com algo que o leva a trombar de um episódio para o próximo), mas Ira consegue somar uma personalidade escrota e detestável que clama constantemente por atenção quando ele está na página - o que é diferente dos outros personagens que ou não são interessantes ou simplesente blasé.

Vamos deixar isso bem claro: A arte é espetacular e mesmo com os problemas da narrativa, o material é bem mais agradável que muita coisa que eu li (ou assisti) nos últimos 10 a 20 anos. Não é muito acima da média, mas um sólido 6,5 que chega a um 7,5 pela arte espetacular (e o final/epílogo que são muito melhores que todo o restante da série - o epílogo em si é um sólido 11/10).

Francamente é uma recomendação apenas se estiver em (boa) promoção e ciente de todas as ressalvas.

1 de novembro de 2024

{Hallowsenhas} Batman-Vampiro: Morto, mas passa bem.

Batman Red Rain (ou Chuva Rubra como foi lançado por aqui) é uma história lançada em 1991 pela DC escrita por Doug Moench e arte de Kelley Jones como parte dos "Elseworlds" da editora que consistem em histórias fora da linha regular de lançamentos mensais, em mundos alternativos e que trazem regras diferentes (como "E se o Superman fosse adotado pelos Wayne? Ou e se a Liga da Justiça existisse no Velho Oeste?"), e, bem, é um material bem interessante.

Não é uma mera bobagem para colocar o morcegão de Gotham brigando com Drácula até arrancar seus caninos... Existe todo um elemento investigativo que coloca o personagem se questionando sobre os rumos de suas conclusões e diante de todo um mundo de sobrenatural bem mais complexo do que ele podia imaginar (o que o coloca em rota de colisão com Drácula até arrancar seus caninos), e, o material foi popular o suficiente para gerar duas continuações que abraçam mais o universo do Batman (e passam longe da marca). E eu acho que o primeiro volume (capítulo ou série) funciona como uma história noir em que Batman se vê cada vez mais envolvido em uma trama inescapável e que vai muito além de sua capacidade de agir ou reagir adequadamente.

Drácula tem um exército a sua disposição e está tomando aos poucos o controle da cidade - sendo que para a polícia, as autoridades e mesmo Batman, o risco é de um assassino em série terrível, portanto ele é, como em nosso mundo real, apenas um mito. O morcegão legitimamente está fora de seu elemento, e mesmo que acabe recebendo ajuda de um grupo de vampiros que tenta destruir Drácula há séculos sem sucesso, e imaginam que com um aliado que pode agir durante o dia, eles finalmente conseguiriam equilibrar as balanças...

Eu genuinamente gosto dessa história. Ela progride num bom ritmo, Moench trabalha os elementros e produz algo cheio de ação assim como tragédia pessoal (como um bom noir), e a arte de Kelley Jones se não em seu auge, está fácil num pódio de melhores do artista.

A primeira continuação de 1994, Bloodstorm (ou Tempestade de Sangue) traz o Coringa liderando os vampiros que sobreviveram da primeira mini-série (afinal, claro que eles seguiriam um lunático com maquiagem de palhaço) enquanto move uma grande operação para controlar o submundo do crime de Gotham. A série também apresenta uma versão da Mulher-Gato (mais para lobimulher ou gatimulher, não sei ao certo), e eu sinceramente sinto que o material é bem mais nas coxas feito como uma continuação obrigatória para um grande sucesso de vendas do que por uma boa sacada para continuar a história.

A arte continua muito boa e é provavelmente o maior atrativo desse segundo volume, enquanto a história acaba se perdendo em elementos já explorados (e bem melhor) no primeiro volume.

E a segunda continuação de 1998, Crimson Mist (ou Bruma Escarlate) fecha o material com uma visão mais sanguinuszóio (meio literalmente, afinal ele se tornou um vampiro - spoiler para uma história de mais de 20 anos) tacando o terror no submundo de Gotham, e o que vemos é basicamente um Batman matando toda a sua galeria de vilões - enquanto Gordon acaba recrutando a dupla Duas Caras e Crocodilo para tentar contê-lo. A arte é decepcionante neste volume, com proporções exageradas e caricatas demais trabalhando bem mais para produzir alguma cena grotesca de assassinato aqui e acolá.

No fim do dia é uma premissa boba e até funciona melhor que a segunda mini-série.

Sobre o material, depende muito de expectativas, mas eu acho que é melhor partir com expectativas beeeeem baixas (e talvez quando estiver no último degrau você desce mais um pavilhão), porque na melhor das hipóteses é um material decente e razoavelmente bobo, na melhor uma história noir interessante envolvendo Batman e o sobrenatural para uma leitura de Halloween (mas que merecebe bem mais as capas originais que essa atrocidade das reedições).

Notas: 8,0 pra Chuva Ruba, 5,5 para Tempestade de Sangue e 6,5 para Bruma Escarlate (média um belíssimo 6,66 - bwa, ha, ha!).

5 de setembro de 2024

{Resenhas de Batman} Bruce Wayne: Assassino ou Fugitivo?

Bruce Wayne Assassino foi a primeira grande saga do Batman publicada no século XXI após a longa saga Terra de Ninguém (que eu comentei antes) e com a equipe criativa de Ed Brubaker e Greg Rucka, que conduziam os principais títulos do personagem em 2002.

A saga começa em uma edição promocional que foi vendida por 10 centavos de dólar resumindo a história do Batman assim como os eventos recentes (que o personagem estava lidando com uma guarda-costas de nome Sasha Bordeaux, que descobrira sua identidade secreta e estava pulando telhados e caçando criminosos como a nova parceira-mirm do morcegão, além da tentativa de assassinato de Gordon que o tirou do posto de comissário), enquanto apresenta a premissa e o caso: A ex-namorada Vesper Fairchild aparece morta na mansão Wayne, enquanto o bilionário estava pulando telhados e caçando criminosos fantasiado como um morcego.

Basicamente a premissa inverte uma série de ideias de mistérios policiais, ao nos deixar claro que o principal suspeito (Bruce Wayne) não é o criminoso, mas que para provar sua inocência ele precisaria abrir mão de sua identidade secreta (algo que o verdadeiro criminoso gostaria que ele fizesse), e isso serve como um contraste considerável ao que vinha acontecendo na Marvel por volta da mesma época, com as identidades secretas sendo reveladas (voluntariamente como o Homem de Ferro e de maneira forçada como com o Demolidor).

No entanto, bem, o planejamento não é exatamente o melhor ponto da narrativa após o primeiro mês.

Começa extremamente sólido com Bruce Wayne acusado, preso e seus aliados investigando e em conflito sobre a possibilidade dele ter ou não cometido o crime. Tudo extremamente sólido e talvez uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos.

Aí ele foge da cadeia e o negócio degringola.

Batman foge da cadeia, ignora completamente a existência de Sasha (que continua presa como cúmplice do crime), ignora a identidade de Bruce Wayne e deixa a investigação de quem tentou incriminá-lo completamente de lado, enfrentando novos vilões idiotas como o Funerário (sim, um agente funerário que cria zumbis - não pergunte) e Nicodemo (eu acho que eu preferia falar do Funerário) enquanto a agência de espionagem Checkmate opera em Gotham investigando o tráfico de cocaína. Tem mais uma série de coisas que eu deixei de lado (por exemplo, coincidentemente enquanto Bruce Wayne está foragido um policial moribundo chama o Batman para ajudá-lo a concluir a investigação da morte de Thomas e Martha Wayne), mas são histórias que talvez nem sejam tão ruins se fizessem parte de outro momento narrativo, preferencialmente fora de um ponto crucial em que o protagonista precisa provar a sua inocência de um crime que não cometeu e encontrar o resposnável.

Enquanto isso, Alfred, Asa Noturna, Robin, Oráculo e a nova Batgirl (Cassandra Cain) continuam a investigação e essas histórias são bem melhores que essa bobagem de vilões novos e ameaças não relacionadas. E aqui a história acaba dando voltas ao redor do próprio rabo conforme os cinco constante e repetidamente se perguntam se é possível que Bruce tenha cometido o crime afinal de contas.

Isso até funciona no começo - enquanto ele está na cadeia e as evidências são esparsas e cada um dos personagens começa a montar as peças do quebra-cabeças - mas depois de meses com tudo apontando ao contrário desde o começo, vai só cansando... Ainda mais quando são 610 páginas da primeira metade da história (Assassino?) e mais 418 páginas da segunda parte (Fugitivo) e essencialmente 5 meses de histórias em vários títulos com poucos e mínimos avanços nesse intervalo todo.

Por um lado é interessante que os avanços sejam poucos e graduais para demonstrar a qualidade e capacidade do autor do crime - e para montar as peças do quebra-cabeças, inclusive permitir que o leitor consiga resolver por conta própria quem é de fato o assassino.

Por outro, conforme a própria narrativa se perde em desvios e mais desvios (cada vez menos ligando para o autor do crime e suas motivações), fica difícil manter o interesse, e, mesmo que a conclusão seja coerente e, eu diria bastante sólida, a falta de foco faz com que das 1000 páginas das duas edições tenham pouco mais de 1/3 de material efetivamente pertinente para a história.

Eu não quero dar spoilers da história ou identidade do real criminoso (então vai um conselho pra quem se interesse em ler, não confira as capas das edições que fazem parte do material antes de ler), mas tenho que dizer que para quem pegar para ler a partir desse ponto, ainda que a história faça um papel considerável para situar os leitores dos eventos da editora na época como a já mencionada aposentadoria de Gordon, além da eleição de Luthor como presidente dos Estados Unidos - só que tem alguns pontinhos aqui e ali que acabam menos destacados, como Amanda Waller no gabinete de Luthor (o que resulta no retorno do Checkmate nas histórias da DC) e o assassino David Cain (que é o pai da Batgirl e foi se destacando nos anos entre a Terra de Ninguém e a saga atual).

Ainda assim, acredito que exista um grande problema na tentativa de contar a narrativa de maneira que o tempo entre as edições corresponde o tempo real que se passa no universo da série (mas esse é um problema que Greg Rucka e Ed Brubaker já faziam uso nas histórias anteriores nos títulos que vinham trabalhando). Em dado momento nos é dito que se passaram seis meses desde o crime (todo esse tempo em que Sasha está presa e é condenada a prisão perpétua - enquanto Batman enfrenta o Funerário e Nicodemo em revelia de solucionar o crime e tirar a moça da prisão), e, de novo, por mais que as explicações do crime justifiquem o cuidado e silêncio do morcego além de uma série de fatores (que não fazem tanto sentido até sabermos a real identidade do criminoso), não parece fazer o mesmo sentido que o cruzado encapuzado levaria tanto tempo para conectar as peças e traçar um plano de ação para limpar seu nome.

18 de julho de 2024

{Pulpsenhas de Quinta} Mulher Gato de Ed Brubaker (e Darwyn Cooke)

Com o lançamento da nova série animada do Batman nas próximas semanas pela Amazon com roteiros de Ed Brubaker, eu resolvi reler a série do autor para a Mulher Gato (que, francamente é bem melhor que o material que ele produziu com o morcegão na mesma época), e começando pelas histórias do Darwyn Cooke na mini-série Selina's Big Score (O Grande Golpe da Selina) fica bastante claro que o material quer partir numa direção bem diferente do que é a personagem tradicionalmente.

Tanto Cooke quanto Brubaker nos anos seguintes ficariam conhecidos por produzirem material sobre criminosos noir/pulp como a série de graphic novels de Parker (adaptando os contos/livros de Richard Stark) e a série Criminal, Reckless ou Pulp respectivamente de ambos mostra que eles tem bastante interesse e gosto pelo gênero detetivesco com (anti)heróis lidando sempre com situações claramente indo de mal a pior, e Mulher Gato é claramente a gênese desses projetos. Heróis pulp são geralmente perdedores fodidos que cansaram de ser humilhados constantemente pela vida e tentam assumir as rédeas da situação ao uma vez na vida (e, talvez sair por cima), e não obstante são criminosos (geralmente ladrões) ou detetives corruptos e a Mulher Gato se encaixa como uma luva nessa estrutura que Cooke e Brubaker desenvolve, e a série flui magnificamente como poucas vezes foi possível.

Enquanto as histórias são uma continuação direta da série mensal anterior da Mulher Gato (que termina com ela simulando sua própria morte, e eu não vou entrar nos detalhes até porque se eu li isso eu não me lembro), mas não exige mais do que a nota de rodapé para entender que esse é o pontapé da história (a Mulher Gato simulou a própria morte e portanto todo mundo acha que Selina Kyle está morta), e não exatamente um capítulo necessário para a compreensão dos fatos. Cooke deixa claro que isso aconteceu fora de painel e das páginas e ponto (Selina Kyle está morta aos olhos de todo mundo e a principal suspeita pelo assassinato é a Mulher Gato, ponto, agora vamos ver Selina buscando velhos conhecidos para cometer um novo crime).

Inclusive porque Cooke (e depois Brubaker) seguem num tom bem diferente em várias vertentes do que veio aqui, seja narrativamente, seja estruturalmente ou seja, e talvez aqui seja o maior baque, na condição de arte.

Enquanto a Mulher Gato da série mensal anterior era (bem) mais voluptuosa com a arte de Jim Balent (e dois balões que fazem inveja para personagens de animê, inclusive aumentando consideravelmente com os anos) e bem mais típica heroína de quadrinhos de super heróis (sobrevivendo explosões, enfrentando terríveias monstros e criaturas e no geral fazendo o impossível 8 dias por semana, 29 horas por dia), com algo muito mais estúpido e fácil de desligar o cérebro e curtir a jornada, a nova fase muda bastante a partir de O Grande Golpe da Selina, e as coisas são bem plausíveis ainda que não 'pé no chão' ou realista, o contexto é sempre muito importante - as histórias tomam mais tempo e tem menos ação - e coadjuvantes são sempre relevantes na construção de fatos (ao que suas mortes são significativas ao mesmo passo que trágicas).

Na minha opinião, Brubaker aqui está plenamente em seu elemento, ao contrário de outros quadrinhos que ele produziu na mesma época (tanto para a DC quanto para a Marvel, ainda que tenha bem mais sucesso na Marvel com o Capitão América). Selina é o tipo exato de protagonista que vemos nas outras séries independentes/autorais dele, e ainda que talvez não se encaixe perfeitamente com o restante dos quadrinhos da DC (ou do Batman onde ela faz parte).

Selina vai roubar um trem carregando dinheiro para comprar drogas e precisa de uma equipe de confiança para o serviço (e, obviamente, as coisas dão errado). Depois Selina precisa ajudar gente de seu passado (e, seu passado não é a versão sanitizada das histórias da fase de Jim Balent, fica bem claro com todas as letras que ela era uma prostituta - e que ela está ajudando pessoas de seu passado enquanto prostituta).

E enquanto a saída de Darwyn Cooke (ainda que Cameron Stewart consiga manter um estilo próximo) e tramas que acabam trazendo de volta vilões coloridos e histórias com mais ação (e bobagens como ninjas para tentar aumentar as vendas), ainda temos excelentes histórias como o arco Disfarces (que traz toda uma complexa trama envolvendo policiais corruptos e a amiga/ajudante de Selina que luta para manter sua sobriedade) a série se mantém como uma ótima fase até o grande crossover Guerra das Gangues (que é o ponto de saída de Brubaker e reestruturação editorial da DC, que não demoraria para trazer Adam Hughes para produzir capas com a personagem sensualizando ou com imensos decotes).

Eu acho que foi uma aposta extremamente ousada que eu não acredito que tenha recompensado financeiramente (em termos de vendas, pelo menos porque a crítica constantemente elogiava a série a cada oportunidade), o que, até curiosamente acaba resultando nas ideias e apostas do que vemos no selo Black Label da DC de hoje em dia (onde, sinceramente, muitos ainda estão bem aquém dos pontos mais baixos da série de Brubaker).

Recomendadíssimo!

7 de março de 2024

{Resenhas do Vale do Vento} Nausicaa

Nausicaa do Vale do Vento é um trabalho de Hayao Miyazaki com forte temática ambiental (sobre a vida em equilíbrio com a natureza e como a destruição do ambiente levou justamente a um mundo deturpado - que pode trazer os últimos dias da humanidade), e ainda que a versão cinematográfica com suas duas horas seja manífica, fluída e na minha humilde opinião um dos melhores filmes do estúdio Ghibli até esse dia, é nos quadrinhos em que o material de fato brilha e se permite expandir conceitos e trabalhar com um mundo que é ao mesmo tempo assustador e fascinante.

Justamente nessa capacidade de trabalhar com nuances que Miyazaki consegue criar um universo rico e detalhado, com personagens interessantes e que salta aos olhos a cada página. A protagonista, Nausicaa, inclusive, é uma personagem brilhante cheia de determinação e otimismo, mas plenamente ciente da dificuldade de sua causa diante de um mundo caminhando a passos largos para a guerra.

E, droga, é difícil não se envolver com os personagens no geral e do charmoso mundo criado por Miyazaki.

Mas, não, não é perfeito.

Pra quem conferir o filme é bem provável que tenha a impressão ou que cochilou durante o filme ou que pularam alguns capítulos de repente para chegar ao final dentro do tempo estipulado para o filme. Honestamente me parece algo do estilo da época (coisa que acontece também em Akira de 1988, quatro anos depois de Nausicaa) e mesmo com os diversos fillers de Dragon Ball, que tem a ver com forma de garantir financiamento para a continuidade de próximos volumes do projeto.

Acho que dá para entender bem a história do jeito que está, mas ainda assim fica a impressão que elementos importantes não foram devidamente desenvolvidos...

Na versão de quadrinhos, uma vez que só foram publicados 3 dos 7 volumes, é difícil julgar se o material será muito melhor desenvolvidos... E pelo material que eu li dos três volumes, eu honestamente tenho certa dúvida em acreditar que esse desenvolvimento esteja guardado para os volumes faltantes.

Olha, parece que eu estou criticando muito o material (e talvez eu esteja), é que eu genuinamente gosto demais dessa premissa e do mundo criado com esses personagens e gostaria de ver esse material mais e melhor explorado

De toda forma é recomendadíssimo. Não consigo imaginar alguém que não gostaria de Nausicaa (ou talvez porque eu provavelmente não gostaria muito de pessoas que não gostam de Nausicaa, não sei dizer).

1 de fevereiro de 2024

{Resenhas de Copra} Quinta de Michel Fiffe

Se o mundo fosse um lugar justo, Elliot Smith ainda estaria vivo - e o Latino não, ou pelo menos nunca teria feito qualquer sucesso, o que já seria uma vitória enorme... De mesma forma, num mundo ideal Copra seria a versão do Esquadrão Suicida lançada pela DC (ou relançada em alguma das diversas vezes que o título foi lançado e relançado - inclusive porque a série inicia em 2012, pouco depois do grande relançamento da DC dos Novos 52).

Mas não vivemos num mundo ideal então você já pode imaginar.

Copra é um material incrível. Talvez não seja tão criativo ou bem escrito (principalmente no começo), até porque a história não é nada memorável nos primeiros volumes, mas existe uma questão de caracterização de personagens que é tão bem feita e construída que é simplesmente difícil entender como outras séries não conseguem fazer isso.

O primeiro volume, eu acredito, que dificilmente vá cativar qualquer leitor de imediato e justificar os elogios, porém. Parece bastante com qualquer Esquadrão Suicida que a DC já produziu (os personagens inclusive são bastante análogos, assim como os cenários no geral), ainda que eu seria remisso se não dissessse o quanto narrativamente se parece com a fase mais famosa do grupo nos anos 1980 com John Ostrander (tanto em termos do grupo/formação quanto em termos inclusive de parte das narrativas) então a inspiração é clara e notória. Somado a isso é preciso dizer que a arte de Fiffe é, como eu poderia dizer... Não convencional. Não é uma arte estranha, feia ou algo mal feito - longe disso - mas é algo que leva um tempo para se acostumar inclusive para entender a dinâmica e composição narrativa que essa mesma arte agrega à história.

É a partir do final do segundo round (edição 12, que apresenta um gancho interessantíssimo para iniciar o próximo volume que são histórias focadas em personagens individuais e para conduzir a trama e o grande evento da Saga de Ochizon e, bem, a série está em um hiato desde junho de 2023 (ou encerrou, não vou especular demais porque eu confesso que senti tanto a possibilidade de continuar como um final com a edição 45) - ainda que honestamente a falta de conclusão não prejudique a série de maneira alguma na minha opinião. Mas, verdade seja dita, a quilometragem pode variar de leitor para leitor.

Vale a pena ao menos conferir uma prévia ou o primeiro volume para ver se funciona para você (mesmo que melhore bastante nos volumes seguintes).

14 de dezembro de 2023

{Resenhas de Quinta} Howard, o Pato

Howard, o Pato é o melhor quadrinho (de humor) que eu li na vida. Droga, eu ouso dizer que Steve Gerber é um gênio louco pouco apreciado e que supera alguns dos mais famosos e de maior sucesso como Neil Gaiman ou Grant Morrison (talvez um pouco de exagero para o primeiro, mas Gerber fez mais de uma década antes - e com toda a certeza com bem menos apoio - o que Morrison tentou).

Gerber tem um estilo estranho e sem dúvidas é um material diferente do cardápio da Marvel da época, mesmo com as histórias espaciais de Jim Starlin com Adam Warlock e o Capitão Marvel, porque afinal de contas Howard é ao mesmo tempo um material altamente cômico, cínico e realista. As histórias de Howard não são sobre um pato combatente do crime ou qualquer coisa do tipo... Howard não é um herói (apesar de saber Quack-Fu), ele é só um ferrado sem dinheiro tentando levar a vida. Ele só calha de ser um pato alienígena fumante de charutos cheio de cinismo.

E o material é bem imprevisível, com um ritmo frenético e bizarro, indo de um feiticeiro contador transdimensional para um rabanete alienígena e o protagonista concorrendo para presidente dos EUA em 1976, tudo isso nas primeiras 10 edições, geralmente em histórias avulsas e que não requerem a leitura da edição anterior, sem muito de uma estrutura de arcos ou capítulos para narrativas maiores (ainda que existam histórias maiores como de Howard concorrendo para presidente ou lidando com seu colapso mental ou posteriormente enfrentando o super vilão Doutor Bong). O ritmo diminui um pouco enquanto o próprio autor tenta lidar com a maluquice e pisa no freio, questionando o personagem e seu papel (de maneira bem existencialista mas de certo um tanto comercialmente também), colocando Howard em terapia - e encontrando uma garota possuída por (droga, eu não posso falar sem estragar, mas é uma piada ótima). Vale destacar que é um produto de seu tempo com toda a certeza - o personagem contempla o suicídio logo na primeira edição, como Horácio de Maurício de Souza fazia, ou seja, da maneira mais como se fosse um charme peculiar que um problema mental sério e que requer atenção.

Ainda que, bem, ao contrário de Horácio, Howard não mantém pensamentos suicidas ao longo dos quadrinhos mas tem um colapso mental completo, se vê internado em um manicômio (de novo, produto de seu tempo) e é submetido à tratamento antes de voltar a ser o rabugento de sempre. E também ao contrário de Horácio, Howard encontra em Beverly Switzler a âncora para sua personalidade (ou principalmente para seus atributos mais negativos e pessimistas), e como ying e yang os dois mudam seus ciclos autodestrutivos. Conforme a série avança, inclusive, fica bem claro o quanto Bev fez e faz o pequeno pato mudar e tentar ser uma ave melhor.

Existem negativos, é claro, mas eu tenho que ser honesto e dizer que vejo mais como produto de seu tempo e da falta de apoio para Gerber produzir o material da melhor forma possível. Seja com coadjuvantes que desaparecem completamente da história e tramas (secundárias) que não são mais mencionadas ou desenvolvidas (ainda que o próprio Steve Gerber admita isso na edição mais experimental da série quando ele admite que não tinha tempo para escrever uma edição completa).

18 de maio de 2023

{Resenhas de Quinta} O futuro não é como costumava ser...

Eu ainda sinto muito a falta do selo Vertigo para a DC e acho que foi uma das piores decisões da editora de encerrar essa linha para publicações autorais - e onde os verdadeiros talentos da editora apresentavam projetos ousados, criativos e muito mais interessantes que o restante da linha convencional de super heróis publicada mês após mês. 

Dito isso, o selo Black Label (apesar de um começo conturbado - e particularmente estúpido com a hq cujo maior - sem trocadalhos - destaque foi apresentar o pinto do Batman) vem produzindo os melhores e mais interessantes trabalhos da editora, e, sem pensar muito, dos quadrinhos norte-americanos da atualidade.

Material como Catwoman - Lonely City de Cliff Chiang (algo como Mulher Gato, Cidade Solitária) que se passa ou Rogues de Joshua Williamson (algo como Galeria dos Vilões), ambos que se passam aproximadamente uma década no futuro quando os vilões em questão (a Mulher Gato no primeiro e a galeria dos vilões do Flash no segundo) arma um último grande plano após a desilusão da vida e dos anos.

Ambos trabalham bastante com a condição da frustação destes personagens em seus cenários e vidas ferradas e sem perspectivas, mas, com tons bastante diferentes - com Chiang potencialmente mais otimista que Williamson.

Eles se juntam a materiais de Tom King (com Estranhas Aventuras e que facilmente poderia incluir Supergirl Mulher do Amanhã, mas que apesar dela falar palavrões - censurados por $%* no lugar das palavras, acabou ficando no selo convencional - mas é bem legal e vale a pena a leitura) ou Jeff Lemire (com o Sorriso Matador e o Retorno de Sweet Tooth e do Questão) e outros projetos que eu já resenhei em momentos anteriores e são o que vale a pena da editora nesses últimos anos.

São quadrinhos interessantes, com suas histórias contidas para que em 3, 4 ou no máximo 12 volumes seja contada toda a história, e, talvez gerar uma segunda temporada ou nova obra, mas nada necessariamente. E enquanto possa sair alguma coisa mais sem graça aqui e acolá, pelo menos vem saindo mais material interessante que porcaria nesses anos, e, eu realmente recomendo.

Pessoal talentoso com liberdade criativa para fazer o que bem entender com os personagens da DC sem se importar com cronologia. Vale muito a pena!

16 de fevereiro de 2023

{Resenhas de Quinta} Quase X-men (Y-men?)

A Patrulha do Destino de Arnold Drake e Bruno Premiani surge em My Greatest Adventure 80 de junho de 1963 - enquanto a trupe de mutantes criados por Jack Kirby e Stan Lee chegou às bancas em setembro do mesmo ano - e as similaridades do grupo de desajustados temidos e odiados pela sociedade (que juraram proteger) liderados por um cadeirante genial e com principal grupo de vilões uma irmandade do mal (no caso com o acréscimo de 'mutantes do mal' na Marvel).

Existem diferenças, é claro, que não se limitam ao estilo e narrativa - e inclusive a arte de Premiani é bem mais sútil e arrojada que os traços de Kirby no mesmo período - e, no geral se dão pelo fato que Drake realmente abraça a chamada do título dos heróis mais estranhos (e ridículos) do mundo, e isso se vê edição por edição. São o General Immortus, o Gorila, monsieur Mallah (que é o servo devoto do Cérebro - literalmente um cérebro numa jarra) e criaturas cada vez mais bizarras como e eu não consigo enfatizar o suficiente o Homem-Vegetal-Mineral-Animal (que, sim, eu coloco a imagem ao lado justamente pra provar que eu não estou mentido, mas, honestamente, quem dera eu tivesse a imaginação para algo desse calibre).

Lee e Kirby tentavam algo mais focado no que a Marvel queria construir de um universo coeso e ainda que 'realista' seja uma palavra muito distante do que de fato acontecia na editora, pelo menos, o mais próximo da realidade ainda se mantendo uma ficção de super-heróis dos anos 1960 (escritas por Stan Lee). E, enquanto é verdade que as histórias em parte envelheceram mal, em parte são produto direto de seu tempo e em grande parte são incrivelmente inferiores ao extraordinário trabalho realizado por Grant Morrison nos anos 1980, a verdade é que sem essa base, sem esse material, não só a fase de Morrison não existiria como a ótima série da HBO, e, francamente, muito mais dos quadrinhos que não tinham medo de passar por ridículo em nome de uma história divertida (Como praticamente tudo do Mike Allred? Peter David? Howard, o Pato?).

{EDITADO} E é curioso, acima de outras coisas, o quanto os quadrinhos da Patrulha do Destino fugiram da convenção que os heróis sempre vencem (ou estão certos). Inúmeras vezes eles fracassam ou vencem apenas marginalmente (algo como um empate em que o vilão da vez escapa sem ser derrotado), ao mesmo ponto que o Chefe (o Professor Xavier da trupe) muitas vezes soa, no mínimo, um grande e completo babaca, e, quase tão vilão (se não mais) que os inimigos que eles combatem. {Fim da edição}

Por outro lado, na década de 1980 (na verdade, a primeira edição literalmente de 1980), a autora Octavia Butler fez algo que, bem se parece bastante com as noções dos personagens mutantes, ao menos no material de Chris Claremont - mas curiosamente com tramas que parecem com as tramas desenvolvidas na X-Factor de Louise Simonson a partir de 1986.

Butler estabelece um mundo de pessoas geneticamente modificadas (aqueles primeiros a surgir as 'Sementes originárias' e, bem, o título do livro) com poderes fabulosos, e que passam a conviver em um assentamento do ainda recém colonizado Estados Unidos. A história segue principalmente os passos de Anyanwu que se junta a Doro, e por mais diferentes e antagônicos que sejam na maioria do tempo (e até seja fácil enxergar seu relacionamento como tóxico por toda e qualquer métrica), existe uma abordagem e análise sobre esse tipo de ser poderoso sob a concepção e criação da grande dama da ficção científica. Eles não são odiados e perseguidos por uma sociedade que os odeia. Eles vivem à margem, pois são criaturas altamente poderosas, mas, de mesma maneira, podem impor sua vontade quando bem entenderem ou acharem cabível.

Também não pensam em usar colante ou resolver todo (ou qualquer) problema do mundo. Querem viver suas vidas da melhor maneira possível, acumulando riquezas, familiares e experiências positivas... Mas eu tenho que dizer com toda a certeza que esse é um dos livros mais chatos da autora que eu li até hoje (e espero que seja o único). Quase nada acontece narrativamente nas 350 páginas da história, o conflito é pequeno e insípido (ainda que a natureza dos dois personagens Anyanwu e Doro seja oposta e confrontante, eles raramente denotam mais que uma pequena animosidade - por mais motivos que existam para isso)... Ou menor, existe um cenário apresentado no primeiro 'livro' (sim, essa história se divide em três livros e um epílogo), em que os dois personagens se encontram na África e partem para o novo mundo, um segundo livro no novo continente em um vilarejo com outros seres poderosos como eles e um terceiro após uma certa cisão e, por fim, o conflito entre Anyanwu e Doro resultando em um acordo e compromisso entre os dois. Mas é isso.

Até porque existe 5 volumes desta série, e talvez eles desenvolvam melhor a trama e seus temas principais (ainda que eugenia seja clara desde o começo), talvez falhem completamente em fazer qualquer sentido - afinal foram publicados fora de ordem cronológica originalmente. Primeiro em 1976 saiu o último (Pattermaster, ou 'O Padronista' ainda não publicado), depois o segundo da série em 1977 (Mind of my Mind - aqui saiu como Elos da Mente), em 1978 saiu o quarto livro da série (Survivor ou Sobrevivente) seguindo em 1980 deste que é o primeiro e em 1984 saiu o último livro que é o terceiro da série (Clay's Ark ou A arca de argila - ou do Clay). Eu, sinceramente, vejo pouco interesse de tentar desbravar os demais livros, ainda que ficção científica ruim de Octavia Butler seja milhões de vezes melhor que ficção científica 'boa' de alguns autores.

8 de janeiro de 2023

{Deixa eu te explicar...} Reexplicando as eras (ou um resumo do que vimos até aqui)

Continuando a situação de porque os quadrinhos vendem mal, e meio que para compilar todas as muitas partes até aqui, vamos em partes de resumo e de compilação para explicar um dos temas obtusos e que complicam a compreensão da estrutura de quadrinhos que são as pretensas 'eras' (de ouro, prata e etcs).

Basicamente a Era de Ouro é vista na condição da gênese dos quadrinhos de super herói, a partir da Action Comics 1 até mais ou menos 1961 quando se inicia a Era de Prata com o Flash de dois mundos quase simultaneamente a Stan Lee e o Quarteto Fantástico. Sim, é um resumo de um resumo de maneira extremamente simplista, mas a verdade é que é incrivelmente reducionista e errado.

Primeiro porque se essa Era em questão se relaciona a algum metal, com toda a certeza não é o Ouro, mas o Níquel, uma vez que a grande base da produção nesse período é o preço baixo para que os quadrinhos sejam comercializados pelo custo de centavos ou 'cents' de dólar (algo que vai da Action Comics 1 de 10 Cents até boa parte da Era Marvel de Stan Lee em que a diferença de 5 cents de uma revista da Marvel para uma revista de ótima qualidade de Jack Kirby na DC fazia toda a diferença em números de vendas), o que, considerando o contexto histórico (da grande depressão, do intervalo entre duas guerras mundiais e a pressão da lei seca nos Estados Unidos) fazem sentido para a produção de entretenimento barato, de baixo custo e com fins ufanistas para manter os jovens na linha, ainda que seja mais atrelado à realidade norte-americana, ou, mais especificamente, estadunidense (não existem exemplos equivalentes no Canadá ou México no mesmo período), e enquanto boa parte do mundo tem seus primeiros passos e experimentos com quadrinhos, a coisa toda é bem embrionária, com pequenos espaços em jornais aqui e ali.

É claro que a visão de 'Era de Ouro' condiciona a uma noção de que as coisas eram melhores (uma vez que o ouro é tradicionalmente atrelado a condição de destaque no pódio, por exemplo), o que simplesmente não é verdade. Com roteiros simplistas e arte precária (afinal, são quadrinhos produzidos a toque de caixa para comercializar rapidamente de maneira quase descartável) é apenas a gênese da editoração de quadrinhos como uma estrutura que surge nos Estados Unidos que existe na chamada era de Ouro, e nada mais. O que acontece é que a tempestade perfeita se formou, e sem devida concorrência, os quadrinhos triunfaram supremos, até que outras mídias enxergassem ali uma ameaça. No entanto já havia ali a estrutura para a produção que começa a ser copiada pelo restante do mundo (seja Osamu Tezuka no Japão ou Gian Luigi Bonelli na Itália) as revistas em quadrinhos tomavam forma no mundo todo a partir dos anos 1950, não mais apenas nos Estados Unidos.

Com o mercado se estabelecendo em todo o mundo, a partir dos anos 1960 (na chamada 'era de Prata') se inicia uma revolução maior que condiz com o estabelecimento da produção de quadrinhos como um meio em praticamente todo o mundo. As produções norte-americanas são republicadas nos demais países, assim como estes outros países passam a produzir seus próprios quadrinhos (sim, eu percebi depois o excesso de palavras começando com 'p'), e com isso a indústria passa a se reinventar com novas técnicas de impressão e produção, mas mais importante, com novas visões e perspectivas de criação, e, com a popularidade da mídia, houve uma retroalimentação de talentos (como no caso de Stan Lee com a Marvel, mas, a situação é global). Surgem também os movimentos de contracultura (gente como Crumb e Harvey Pekar).

Aqui acho que cabe a maior distinção que faço na interpretação do contexto histórico dos quadrinhos ao vislumbrar não eras mas ondas (até porque após a 'Era de Prata' as versões são conflitantes sobre o que vem a seguir). Até a década de 1960 temos um caldo primordial com algumas marolas tomando forma, e, claro, uma intensa onda que ocorre nos Estados Unidos - e se colapsa em si mesma com as pressões externas do congresso e união de país. Com os anos 1950, ondas pequenas vão criando forma (ainda que não definidas ou sem grande força), mas com os anos 1960 com a "ciência pop" que dá vazão a Vonnegut e a Jornada nas Estrelas, temos também heróis mais científicos como o Flash (com inúmeros conceitos físicos traduzidos nos Fatos Flash) os exploradores do Quarteto Fantástico ou mesmo o Homem Aranha enfrentando vilões com, bem, ao menos lógica científica (como o isolamento para combater Electro, por exemplo).

A década de 1960 com o movimento beat e a contracultura também dá espaço para uma onda concorrente de gente que leu os quadrinhos da fase embrionária ou 'Era de Ouro' e que, bem, não se importa em produzir quadrinhos comerciais e trabalha para elevar a arte e para produzir quadrinhos e usar os quadrinhos como meio para sua arte - assim como os artistas desse momento cultural buscavam suas influências em seus respectivos meios, levando o movimento hippie e a contracultura para o verve da cultura, fossem os Beatles, Kerouac ou, bem, Crumb e Pekar.

Esse movimento da década de 1960 se expande na corrente principal de quadrinhos nos anos 1970 com obras mais experimentais da Marvel espacial de Jim Starlin ao mesmo tempo que refletem nos autores independentes (ou ao menos fora do eixo Marvel/DC) como David Sim com Cerebus ou Wendy e Richard Pini com Elfquest, mas também vai criando forma no resto do mundo. Os anos 1970 são transformadores na Europa também com o surgimento da Heavy Metal e o início da grande transformação no mercado japonês (com alguns grandes clássicos como Lobo Solitário) e claro, aqui no Brasil o maior (se não único) grande caso de sucesso com a Turma da Mônica efetivamente vai tomando forma a partir dos anos 1970 com publicações mensais.

Os anos 1970 também são marcados por expandir a ciência pop para uma filosofia pop (com um enorme viés espacial/futurista). Surfista Prateado e Adam Warlock marcam os celeumas e dicotomias de um messias que sofre pelos nossos pecados enquanto Orion, Scott Free e o Povo do Amanhã discutem o papel da humanidade no futuro em meio a uma ópera espacial complexa que se desfralda sobre o valor da vida e da individualidade. Não são os únicos, é verdade, e exemplos tanto levam os personagens às estrelas (como os X-men e o Cristal M'kraan) quanto trazem os alienígenas para vislumbrar os celeumas terrenos (com o Arqueiro e Lanterna Verdes cruzando os Estados Unidos ao lado de um dos Guardiões da Galáxia).

Tudo isso enquanto fervilhava um caldeirão de descontentamento de artistas com os métodos de pagamentos, acordos e licenças sobre seus trabalhos com figuras como Neal Adams e Will Eisner buscando estruturas e condições para formar uma indústria mais sadia e justa para todos (morreram ambos sem conseguir isso efetivamente, ainda que hoje existam condições muito melhores justamente por sua luta). No Japão na década seguinte (de 1980) os acordos extremamente vantajosos de merchandising (e que viriam a inspirar o restante do mundo) permitiram compensar as penosas jornadas para cumprir os prazos semanais com a perspectiva de royalties altos e retornos com licenciamento, o que resultou em gigantes surgindo e dominando a cultura popular como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, e, em contrapartida, inspirando de volta nos Estados Unidos com acordos similares para as Tartarugas Ninja.

Mas artistas inspirados pela contracultura e filosofia pop da década de 1970 partiam para, bem, filosofia real e a elevação da mídia como uma forma de arte. Gente como Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, Dave Mckean e Bill Sienkiewicz partem para os tradicionais quadrinhos de super heróis para alterar as regras do gênero ao buscar formas novas de produzir arte, explorando os limites do 'conflito na literatura' através dos quadrinhos - o homem contra Deus, contra a ausência de Deus e contra o autor imperam nesse período em obras como Monstro do Pântano e Homem Animal.

Com o que chegamos aos anos 1990, e enquanto os quadrinhos japoneses começam a dominar o mundo (ainda que em pequenos episódios, brigando para transpor a barreira linguística) e os quadrinhos norte-americanos (em momentos questionando o próprio estado da indústria de quadrinhos norte-americanos) chegam a um grau de maturidade ímpar (com o talento de artistas independentes capazes de criar suas histórias com maior liberdade com o selo Vertigo e a nova editora Image), a década é marcada mais pela alta especulação e diversas mudanças para se adequar aos maiores índices de retorno. Mesmo no Japão o esgotamento com as rotinas estafantes leva alguns autores ao limite (ou bem próximo dele) e essa década parece chegar ao fim com o fôlego diminuindo consideravelmente, grandes promessas se desfazendo e muito pouca mudança efetiva com relação ao cenário promissor da década passada. E o movimento japonês de transformar toda (ou quase) obra em uma animação buscando tirar cada centavo possível e imaginável do público encontra seus pontos de estafa, ainda que ao conquistar novos mercados para que o processo reinicie foi possível manter a máquina funcionando por mais tempo, mesmo sem saber até quando se sustentará.

No entanto a década de 1990 termina com um novo potencial de retorno rápido para as franquias com os cinemas, que, com poucos e esparsos filmes de heróis no período, e, encontra nos anos 2000, principalmente após os atentados de 11/09/2001 uma válvula de escape ufanista para os norte-americanos (se você leu qualquer quadrinho do Homem Aranha de antes dos anos 2000, vendo o personagem perseguido e atormentando por tudo e todos a cada painel e no filme de Sam Raimi carregado por figurantes num metrô, bem, é a válvula de escape ufanista de que estou falando). Em algum ponto nesses 20 anos os quadrinhos vão perdendo a importância para suas empresas mãe que enxergam apenas o potencial para grandes franquias multibilionárias.

1 de dezembro de 2022

{Estranhas de Quinta} Resenhas no Paraíso

Primeiro de tudo, sim são três volumes com o mesmo nome da série (ainda que o primeiro volume fosse uma mini série em 3 edições publicadas pela Antartic Press, o segundo volume com 14 edições pelo Abstract Studios e o terceiro e mais longo volume que inicia pela Image comics e termina com a Abstract - estúdio do próprio Terry Moore - com 82 edições), mas essa resenha focará apenas no primeiro volume na mini série e na temática do material como um todo sem entrar em detalhes, ainda que possa comentar algum tema ou mesmo trama das séries seguintes.

Segundo de tudo, sim, eu sei que julgar a série toda somente pelas primeiras edições (ou seja a minissérie) é bem difícil pois acontece muita coisa depois, e, honestamente, Estranhos no Paraíso é bem diferente de um material da HBO como Mare of Easttown ou The Night of, até porque essas histórias são minisséries enquanto o material de Moore nasceu como uma minissérie somente porque, num mercado populado por super heróis (e definhando em vendas). Isso, inclusive, é parte do motivo pelo qual o material acaba vertendo para caminhos mais absurdos no segundo volume para atrair o público mais tradicional que consome quadrinhos, então surge um consórcio criminoso e agentes secretas (com porte de modelos internacionais) que vai consumindo mais e mais do restante da história que sai de duas garotas suburbanas vivendo e lidando com amor e relacionamentos para toda uma situação 100 Balas redux.

A série surge em 1993, quase um ano antes de Friends e nesse primeiro volume, nessa primeira minissérie, é surpreendentemente similar - ainda que aqui focado em duas garotas (e seu[s] relacionamento[s], enquanto o famoso seriado foca em um grupo maior de diversas faixas demográficas/socioeconômicas [ainda que, sem nenhum negro, pois afinal, amigos negros nos anos 1990?]). Terry Moore tem um estilo sólido tanto na arte quanto no roteiro e a leitura é leve e focada, cobrindo os temas de amor, amizade e relacionamentos, e mesmo personagens secundários ou terciários tem espaço para brilharem e fornecer grandes.

E francamente, eu fico surpreso mesmo é com o quanto o material continua bem escrito e pertinente todos esses anos depois enquanto a série de tv, bem, tem toda uma série de condições que envelheceram (bem) mal.

Katchoo, Francine e David são personagens complexas, tridimensionais, com toda uma gama de personalidade que poucos autores seriam capazes de trabalhar, e Terry Moore o faz com maestria, e eu realmente recomendo bastante o material em seus dois primeiros volumes (Um Sonho de Você e Ama-me com Ternura), ainda que o segundo arco já dê claros sinais de uma trama gigantesca e rocambolesca que na minha opinião não funciona com o tom inicial mais pé-no-chão do primeiro volume (e fica bem difícil falar sem entrar em território de spoilers - mesmo que a série já tenha encerrado há mais de uma década e essas edições tenham quase 3 décadas de sua publicação original).

O primeiro volume parece bem com Friends como eu disse. Duas amigas dividem uma casa e tem de lidar com problemas de relacionamentos, empregos e toda dose de situações comuns para pessoas na fase dos vinte e poucos tentando encontrar seu lugar no mundo, e, essa até pode ser a forma mais abrangente para resumir a série como um todo, o que eu particularmente acho muito interessante e com enorme potencial (até porque nós temos uma enormidade de seriados que surgiram depois do já citado Friends nas últimas três décadas tentando repetir a fórmula fosse com pequenas variações ou copiando desavergonhadamente). E Terry Moore consegue acrescentar um grau de realismo às personagens que é sem sombra de dúvidas único.

Elas parecem pessoas reais que talvez eu ou você conheça ou tenhamos cruzado numa fila de supermercado. Pessoas complexas cujas ações e reações não procuram o maior impacto narrativo mas que seguem as muitas vezes ilógicas reações tipicamente emocionais que fazem parte de nossa personalidade. Talvez com um certo vaudeville mais cartunesco no primeiro volume com um autor tentando encontrar sua voz e ainda sem timing de piadas (e mesmo narrativo), ainda que demonstrando claro enorme potencial.

A partir desse parágrafo terei alguns spoilers leves/moderados dos volumes seguintes para entrar nos negativos do restante da série, mas reforço e destaco a recomendação ao material. Ótima leitura, talvez não na versão em português da Devir, porque afinal de contas é a Devir (o que significa que provavelmente está muito mais caro e com uma qualidade questionável de impressão), mas ei, talvez dessa vez eu esteja errado.

Ok.

A partir do segundo volume a história toma um rumo menos pé-no-chão com uma enorme e rocambolesca narrativa sobre uma organização criminosa que parece diretamente saída de um quadrinho do Homem Aranha e que tem ligação intrínseca com os personagens principais da história e cujas ramificações serão sentidas por praticamente todas as edições e arcos seguintes. Isso pra mim perde e muito do apelo do material porque tira da condição da identidade dessas personagens como pessoas comuns com as quais poderíamos trombar na fila de mercados e as aproxima mais de figuras como Al Capone e bem alguns efetivamente ficcionais como Lex Luthor e sua(s) curvilínea(s) choffer/segurança... O que, bem, parece menos coerente com uma narrativa coesa sobre a vida e relacionamentos.

Eu entendo as dores de um chifre ou de não ter seu amor correspondido, mas eu tenho maiores problemas de empatizar com cenários de sindicatos do crime internacional com grupos de altamente treinadas assassinas que facilmente poderiam desfilar em qualquer semana de moda - ao mesmo tempo que derrubar um campeão de UFC com poucos golpes. Isso foi me perdendo conforme a trama avançou e por esse motivo eu não consegui terminar a série até hoje.