Anteriormente, em X-men:
Para um breve contexto, X-men é uma série que surge nos anos 1960 com Stan Lee inflando as publicações da Marvel com toda ideia idiota que ele conseguisse colocar no papel, e, continuando o que lhe garantiu emprego na editora nas décadas anteriores, abraçou bastante a noção de romance - quando a verdade é mais 'novela ruim nível Gloria Perez'.
A série passa por uma gigantesca transformação com a Segunda Gênese, quando os personagens originais são substituídos por uma nova equipe completamente diferente que vai se desenvolvendo (e crescendo) na próxima década e além, conforme a série também cresce em popularidade. Com o crescimento de popularidade a editora começa a buscar crescer a franquia e isso nos leva a novos títulos e novos títulos e novos títulos para acomodar uma cada vez maior e mais crescente quantia de personagens. Isso leva a eventos crossovers a cada trimestre entre os múltiplos títulos (visando uma gigantesca sinergia corporativa e vendas) enquanto a qualidade das histórias declina consideravelmente no final dos anos 1980 e começo dos 1990, como o arco sobre a nação estado de Genosha (que escravizava mutantes para conseguir prosperidade - e que se concluí com a derrota de um vilão aranho-robótico), e isso se tornaria mais importante depois.
Com a virada dos anos 1990, o declínio vai avançando cada vez mais (enquanto paradoxalmente as vendas crescem ou seguem bem firmes e fortes) e as histórias vão para todo lado com clones, viajantes do tempo, linhas do tempo alternativas, mas não esqueçamos o comentário social através do vírus legado (que seria o equivalente do HIV, mas, sabe, afetando unicamente mutantes) e, no ápice (ou seria o nadir?) da coisa toda, temos o Massacre, onde não apenas as franquias X se reúnem mas todo o universo Marvel para combater a fuuuuuuuusão do professor Xavier e Magneto (que formam o vilão Massacre).
Após os eventos de Massacre, em 1998 a ideia é de limpar a casa e recomeçar (mais ou menos como na Segunda Gênese, inclusive trazendo de volta os personagens desse período e não por mera coincidência), com a ideia de reestabelecer a fraquia e consolidar os personagens, claro que pensando na sinergia corporativa do vindouro filme pela Fox. Ou seja, reapresentar os personagens (mais interessantes) num ponto de partida fácil para os leitores que sairem empolgados dos cinemas pelo filme da franquia.
Um pequeno parêneteses, porque pra mim foi exatamente isso quando eu comprei Fabulosos X-men 50 (que eu tenho ainda hoje, por mais que tenha me desfeito de uma quantidade enorme de quadrinhos da coleção ao longo dos anos) e que eu comprei bem empolgado justamente com a ideia do filme que estava em vias de estrear e eu queria saber mais sobre a franquia. Eu só não me lembro se comprei essa hq antes ou depois do lançamento do filme - mas os problemas disso eu já falarei em um instante.
E, eu confesso que não sei qual o problema aqui se foi editorial, se foi de quase uma década de autores num modo específico de escrita envolvendo múltiplos títulos (que os manteve fixos num modo específico) ou se foi pura e simplesmente o fato que eles não tinham os melhores nomes disponíveis ou se importavam com o resultado, mas o que vemos aqui é uma colagem de tudo de errado que poderiam fazer nesse sentido.
Sim, é fácil olhar em retrospecto mais de vinte e cinco anos depois e ciente de tudo o que aconteceu (nos quadrinhos e fora deles) com a franquia para dizer que essa foi uma bola fora e que tinha tudo para dar errado, ainda que tivesse o gigantesco talento de Alan Davis, Chris Bachalo, Carlos Pacheco, Adam Kubert e Steven Seagle (escritor de vários sucessos e material conceituado na DC nos anos 1990) por exemplo, tivesse o regresso de vários dos personagens mais populares da franquia no time principal (e isso fosse uma mensagem para os fãs de longa data clamando por seu retorno ou uma nova chance para a franquia) e, bem, todo o potencial que de fato existia aqui.
Esses não são os problemas aqui, pelo contrário, esses são os pontos fortes que me fizeram ler na época e rever agora vários anos mais tarde. O problema está no restante, que tenta manter uma estratégia fracassada da Marvel nesse período (que, lembremos, levou a editora a decretar falência em 1996), e que ainda parecia vigente na mente de vários dos editores da empresa.
No lugar de histórias simples e claras, temos material convoluto que tenta ligar eventos com uma longa (e estúpida) cronologia convoluta, e explicações que pouco fazem sentido ou funcionam. São raras histórias ou edições nesse período sem uma nota de editor apontando para outra edição ou arco ou história.
Como a ideia de que o professor X ressurge (após o Massacre, diga-se de passagem), porém substituído pelo super computador Cérebro (sim) que tomou corpo após o ataque de Bastion em outro mega-evento e resolveu montar seu super grupo para destruir os X-men e dominar o mundo, e, daí temos os alicerces da série por vir sempre com um pézinho para trás numa convoluta e absurda narrativa que nunca tenta avançar, se explicar ou desenvolver além do que os anos 1990 fizeram.
Gambit volta (após seu julgamento) e enquanto tenta reatar com Vampira, ela tem de discutir seus sentimentos com Magneto e/ou seu clone Joseph - que foi criado pela vilã Astra que sempre totalmente esteve ali e não é só uma recente (e desinteressante) criação, soma-se a isso toda uma lista de personagens desinteressantes que vão aparecer aqui, acolá e inflar o número de pessoas por página ao passo que desaparecer completamente na edição seguinte (ou mesmo no quadro seguinte em alguns casos), enquanto as coisas nunca parecem capazes de criar uma narrativa pungente e interessante.
O argumento da Guerra Magnética - de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - é interessante como conceito, mas que se perde conforme esse cerne da história dá lugar para o conflito entre o clone de Magneto (que é seu lado bom e nobre) com sua criadora Astra e posteriormente com o próprio Magneto em meio a uma série de explanações e mais explanações para tentar corrigir toda a estrutura narrativa desses dois personagens na última década.
Por outro lado a 'guerra' em si se resolve conforme uma personagem propõe à ONU um plano de conceder Genosha ao vilão e, bem, nós não temos muito mais detalhamento ou desenvolvimento nessa personagem chamada Alda Huxley (que, como você deve imaginar, não tem grande consequência ou relevância depois disso - e nem vamos fingir que é difícil ver de onde vem o nome da moça) e tudo parece se resolver fácil e simples demais sem um fluxo natural de história ou mesmo qualquer propósito para os personagens (os X-men enfrentam asseclas de Magneto durante boa parte da história enquanto o vilão em si está isolado enfrentando seu próprio clone, e, a história em si - sabe, de que efetivamente Magneto se cansa de seus métodos e resolve partir para cima dos humanos com um ultimato - ocorre com um emissário robô do vilão lidando com personagens sem nome ou qualquer ação e decisão nos eventos).
A solução de oferecer Genosha à Magneto parece arbitrária e confusa num primeiro momento (inclusive quando consideramos histórias anteriores em que Magneto teve um asteróide ou um terreninho na Terra Selvagem e foram expropriar ele de lá), mas são ainda mais confusas quando nos trazem o Capitão América comparando diretamente as ações de Magneto às ações de Hitler (o que eu adoraria ouvir os pensamentos desse Capitão América de 1998 sobre um certo presidente que quer anexar o Groenlândia), quando curiosamente, a comparação mais clara é que a formação do estado de Israel, mas nesse caso aos mutantes (e claro, talvez o líder mutante seja alguém apto por se apropriar de terras vizinhas e dominar seus vizinhos, ao contrário do gentil e respeitoso povo de Israel, certo?).
Curiosamente, existe um problema aqui da própria Marvel que vem desde o evento Atos de Vingança (entre 1989 e 1990) que coloca Magneto trabalhando diretamente com o Caveira Vermelha (que era uma figura proeminente do regime nazista e que é em parte responsável pela morte da família do Magneto na Alemanha), e tudo isso tenta colocar o personagem num mesmo balaio que todo outro vilão da editora, além de desligitimizar suas motivações e, mais importante, o longo arco de redenção trabalhado por Chris Claremont nos anos anteriores (culminando no julgamento do personagem em 1985).E de novo, é curioso que em 1984 a mesma Marvel faz num julgamento interplanetário de Reed Richards uma justificativa dialética (absurda) para justificar a existência de Galactus que é essa forma devastadora pelo universo - incluindo o genocídio do Império Skrull, algo do qual Richards é parcialmente responsável - mas quando a situação é bem mais próxima da nossa realidade, a perspectiva se inverte.
Porra, mesmo quando Magneto resolve deixar o planeta e levar os mutantes embora com ele - afinal se os humanos não os querem, que pelo menos os deixem em paz - é lançada uma bosta de uma ogiva nuclear para destruir o astróide e acabar com o Magneto e todos os mutantes nele!
Quando Magneto questiona a forma como os mutantes são tratados, sofrendo todo tipo de indignidade, agressão e forçados a trabalho escravo na Genosha no século XX, enquanto abertamente perseguidos nas ruas por máquinas inteligentes criadas ou pelo governo ou com a ajuda do governo dos Estados Unidos, ele é só um vilão tão estúpido quanto o Metalóide espumando de raiva, e, mais até que isso ele é visto, comparado e retratado como Hitler de novo e de novo (quando a própria Marvel tem o Caveira Vermelha que é basicamente Hitler sob efeito de esteróides e o Doutor Destino que mantém um país refém sob sua estrutura de poder e tentou em diversas ocasiões controlar o mundo).
O que é inclusive interessante quando, na mini-série Magneto Rex vemos com mais detalhes o que de fato o vilão recebe com Genosha - que é bem próximo de terra arrasada, haja visto que boa parte da população mutante foi exterminada pelo vírus legado (basicamente o HIV mutante), levando a uma gigantesca guerra civil e disputas de poder.
Isso é relevante para eventos futuros dos X-men, inclusive na mini-série Magneto Rex que vem pouco depois, e, claro, a fase de Grant Morrison a frente do título alguns anos mais tarde - mas nada é particularmente desenvolvido ou trabalhado.
Tão logo a história se encerra um epílogo rápido é cortado com a aparição de um alienígena que sequestra os mutantes para combater o Fanático em outro plano de existência, sem espaço para que as ações, e, bem, a vitória de Magneto resultem em um argumento mais complexo. Perde-se tempo com mundos alternativos e histórias bem ilustradas que de nada servem para avaliar as perspectivas dos mutantes sobre o evento transcorrido, e, bem, até mesmo do mundo maior da Marvel (qual a visão dos Vingadores ou do Quarteto Fantástico agora que Magneto venceu e conseguiu um território para si próprio, concedido pela ONU?).
O argumento narrativo, a história - que prometia transformar o universo Marvel e mostrar mudanças significativas - se perde numa bobagem de narrativas que em nada tentam desenvolver os eventos anteriores ou avançar o argumento da história. Droga, na própria história não se tenta desenvolver ou avançar o argumento da história.
A história é ruim justamente porque para forçar essa narrativa que Magneto é o Hitler mutante e está espumando de raiva sem qualquer justificativa depende que todo o contexto do próprio universo Marvel seja ignorado e deixado de lado. Que o Quarteto Fantástico que move montanhas para salvar Galactus da morte não parece interessado em buscar uma cura para o vírus legado que dizima mutantes aos milhares, ou que os Vingadores que salvam povos alienígenas de seus regimes opressores não enxergam nada de errado num país escravizando mutantes na Terra, ou bem, que mutantes sejam perseguidos abertamente em ruas dos Estados Unidos por agentes da ICE, digo, Sentinelas julgando as pessoas pela qualidade de seus 'jeans' (pisca, pisca).
Magneto não argumenta, os X-men não argumentam, droga mesmo a maquiavélica doutora Alda Huxley ou o vilão da vez Zealot (que seria algo como Fanático religioso numa tradução mais literal) ou as nações unidas combinadas argumentam pelo fato ou fatores. Jogam elementos mas não uma história, e tudo é para mostrar o vilão como um tirano em busca de poder e nada mais que poder - mesmo quando ele recebe uma terra arrasada precisando de um salvador capaz de lutar pelo seu povo, e não um paraíso idílico de onde pode lançar uma campanha de conquista (como tanto se tenta vender no argumento da história).
Cara, na sequência da história do Magneto você tem um arco com o Caveira Vermelha (fugindo da custódia de um porta aviões da S.H.I.E.L.D. que é a polícia global dos EUA do universo Marvel) com um plano de manipular um mutante para controle mental de toda uma divisão de soldados da organização (clandestina e que não tem nenhum poder real enquanto varre o mundo com equipamento de destruição em massa), e, além de ser uma história incrivelmente ruim, ela mostra muito dessa dissonância e incapacidade de pontuar e argumentar as diferenças e nuances entre os personagens e suas motivações.
O Caveira Vermelha consegue fazer toda uma série de coisas porque a história pede que ele faça (droga ele estava na cadeia, como ele consegue manipular um mutante cujo DNA foi combinado com um alienígena?) e o resultado todo é apenas alguma bobagem para lançar três títulos novos da Marvel (que obviamente são celebrados até hoje e todo mundo se lembra muito bem de suas histórias revolucionárias), e mesmo que exista mais espaço e páginas para justificar a narrativa de Magneto, bem, não se gasta linhas de diálogo para racionalização, porque nós precisamos de um longo conflito entre os X-men e os acólitos ou de um clone com sua criadora e depois com o originador de seu DNA...
No entanto, existem elementos importantes que vão catapultar a partir dessa história nos anos seguintes, e, o que ao meu ver é mais interessante efetivamente é o quanto nas décadas seguintes dessa história nós vemos uma série de questões relevantes no mundo real e principalmente do quanto a Marvel em si tentou em diversos momentos ser isentona (ou quis se manifestar de alguma forma) e o quanto isso envelheceu mal.
Eu genuinamente acho que o potencial é muito maior que o resultado, e, talvez com outra equipe, mas principalmente com um editorial melhor, esse material poderia brilhar muito mais e continuar muito mais interessante que uma breve nota de rodapé para algo muito maior...



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