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23 de julho de 2026

{Resenhas Flandéricas} A Odisseia de Nolan

Eu sei, eu sei tem um monte de gente (idiota) criticando o filme por 'não ser fiel' a fonte, ao que, sinceramente? Ainda precisa explicar que uma adaptação, ainda mais quando se trata de um autor com maior autonomia como é o caso do Christopher Nolan aqui, tende a se manter mais fiel aos temas da fonte original que à pura e inequívoca fidelidade linha por linha, verso por verso do original.

Kubrick quebrou o tema de Stephen King em O Iluminado e fez algo muito melhor que o livro - e a adaptação meia boca que o próprio King tentou anos mais tarde, o filme de Senhor do Anéis removeu Tom Bombadill e se tornou muito melhor por isso, e, sinceramente, eu preciso citar Adaptação de 2002?

Droga, se fosse uma adaptação literal o material precisaria se narrado em verso com odes e trovas, e, sinceramente? Você acha que isso funciona para o cinema (e para o público estadunidense idiota que continua pagando dinheiro para o Adam Sandler)...? Ainda mais em 2026 em que cada vez menos gente se dispõe e propõe a pagar qualquer quantia que seja para assistir alguma coisa nos cinemas?

E, só mais uma coisa nessa babaquice de adaptação literal (em 2026): Com tantas versões e adaptações do material, pra que diabos você quer ou precisa de uma adaptação ipsis literis? Sério? Pô, se você quer a Odisseia de Homero, aprenda grego antigo e leia o material - eu tenho quase certeza que tem disponível na internet no original.

Essa é uma história quase tão velha quanto a Bíblia (mais velha que o Novo Testamento e provável e possivelmente com histórias tão velha quanto passagens do Velho), e, se não tão conhecida ou difundida, com toda a certeza é bastante conhecida e renomada, e, invariavelmente você já deve ter ouvido uma ou outra das muitas passagens da longa Odisseia de Ulisses.

Nolan pega essa história, adapta para formar um longa metragem (de quase 3 horas) em que usa as múltiplas passagens para abusar de estruturas narrativas menos convencionais e ideias que fogem do que se espera de um filme do diretor.

Temos cenas que parecem saídas de um pesadelo de Junji Ito ou de um filme de terror dos anos 1970. Temos cenas de guerra que são viscerais e terríveis ao mesmo tempo que temos cenas de guerra estilosas dirigidas por Scott Snyder.

É, sem sombra de dúvidas, a melhor experiência cinematográfica para se ver esse ano, e, eu acho que nem Duna vai chegar perto disso (e os dois primeiros filmes de Duna foram as melhores experiências cinematográficas dos últimos anos), e, não acredito que funcione tão bem numa telinha em casa como funciona no cinema.

Nolan chegou num ponto da carreira em que ele pode fazer um projeto como ele quer e bancar do jeito que ele quer - depois dos infinitos Oscar de Oppenheimer e do sucesso multibilionário da franquia Batman, ele ganhou algum prestígio para escolher o que quer fazer e como... E ele vem escolhendo bem, ao menos na minha opinião. Permitiu que o diretor não caísse numa repetição e zona confortável (como, sabe, o Spielberg voltando pra ets ou pra alguma aventura infanto-juvenil), e, A Odisseia permite através de seus múltiplos segmentos que o diretor use ferramentas diferentes para criar essas cenas e contar essas histórias.

Se outras versões de A Odisseia funcionam melhor narrativamente ou como filme, bem, talvez, de novo é um livro antigo e que já foi adaptado muitas vezes ao longo das décadas, mas Nolan consegue pegar esse material antigo e dar uma boa lufada de ar de forma que funciona perfeitamente para os tempos modernos.

Funciona para oferecer uma visão mais complexa sobre o nosso mundo através das lentes narrativas de Homero, e estabelece paralelos e pontos - que talvez não estejam ou sejam relevantes para a obra - e oferecem nuance ao material original. Ulisses pode ser apenas um joguete na mão dos deuses, e, ei, se você prefere a versão literal, ótimo pra você.

Mas Ulisses pode muito bem ser um homem lidando com estresse pós traumático e incapaz de voltar para casa pois sabe que não é mais o mesmo homem que partiu. Os deuses são mais metafóricos e ideias e isso permite uma complexidade maior à obra, assim como mais interpretações.

Pode não funcionar para uns e outros, e, sinceramente, existe muito para não se gostar no material (começando pelo Matt Damon - que eu não acho que está ruim, só, bem, um pedaço de cartolina faria o mesmo papel que ele - e terminando pelo looooongo ato final do filme), mas tem muito mais para se elogiar e defender.

E, puta merda, desde a pandemia com filmes e mais filmes esquecíveis e mais e mais motivos para não ir ao cinema, esse, sem sombra de dúvidas é o filme para justificar o ingresso caro, a pipoca sabor isopor e os adolescentes idiotas que aplaudem o final do filme. 

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