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19 de julho de 2026

{Revisitando Clássicos} Transmetropolitan (e Planetary) Warren Ellis, Darrick Robertson e John Cassaday

Essa era a resenha que eu mais tinha medo de fazer quando em janeiro me propus a revisitar séries clássicas (principalmente) da Vertigo, e, relendo a primeira edição eu já fiquei com uma impressão terrível do quanto isso envelheceu mal.

E quanto mais eu lia, mais eu achava que tinha envelhecido mal... E curiosamente parece que eu começo já pelas 'ressalvas e problemas' que é uma sessão recorrente destas resenhas, mas é impossível ignorar.

Só que, e eu acho importante, a grande questão é se isso de fato envelheceu mal ou se isso sempre foi ruim, e é onde eu acredito que resida o maior problema tanto de objetividade quanto da análise. Transmetropolitan é sobre um jornalista, Spider Jerusalém que volta de um exílio (auto imposto ou somente altamente imposto) e tem uma vibe bem Hunter S Thompson com jornalismo gonzo levado a todos os extremos, ainda que, e isso seja importante, leve a mais e maiores extremos a importância do jornalismo.

Spider Jerusalém é um jornalista que ameaça, que suborna e agride seus entrevistados e faz de tudo por uma matéria e projeção (droga, em dado momento ele concorre à presidência) e enquanto isso deveria ser cômico, satírico e ao mesmo tempo uma crítica social (como um espaço para Warren Ellis e Darrick Robertson destilarem seus comentários e opiniões). 

E aí é onde eu vejo que o material acaba envelhecendo mal nem tanto pelo que é ou produz mas pelo que o mundo virou, em que o jornalismo se tornou uma grande propaganda disfarçada de notícia com o pretexto de vender mais ou defender interesse corporativistas. Spider Jerusalém seria um herói nos tempos atuais? Um Dom Quixote lutando para manter a integridade do jornalismo num mundo cada vez mais cínico - quando ele próprio já era um gigantesco cínico quase três décadas atrás?

Verdade seja dita, parte do problema se dá pelo fato que é um material de comédia que apesar de mostrar um mundo 'do futuro', acaba em momentos sendo mais tópico com eventos do momento em que a história foi escrita, e, invariavelmente como ocorre com 30 Rock ou, bem, qualquer outra comédia que tente traçar um paralelo ou comentário político relevante, isso acaba se chocando com a estrutura e realidade de forma que acaba extremamente datado.

Mas, e aqui novamente eu preciso reconhecer o fato, não é exatamente culpa do material e sim pelo quanto o mundo mudou... Existe um sitcom britânico chamado The Thick of It (algo como, em tradução livre "No meio disso"), do mesmo criador de Veep (outro seriado que envelheceu mal), que é sobre um grupo de pessoas lidando com escândalos banais que, bem, destruíam carreiras num mundo pré-Brexit.

Esse é o ponto da coisa toda, pois os escândalos do presidente de Transmetropolitan que Spider Jerusalém luta com unhas e dentes para relevar e destruir sua carreira, bem, parecem uma terça-feira para a maioria dos políticos modernos. Droga, Trump com toda a certeza já fez muito pior, e, não obstante o jornalismo cobriu e destacou suas ações desavergonhadas e continuamos a ver zero repercussões... 

A piada perde a graça quando o mundo real se tornou milhares de vezes pior do que a sátira.

Então, voltando a pergunta: Isso era realmente ruim ou envelheceu mal?


Bem, quase na mesma época que o material, Warren Ellis produziu outra série chamada Planetary, e, droga, Planetary continua tão boa quanto na época que foi publicada, com apenas 27 edições e alguns especiais. Mesmo que algumas edições acabem piores que outras (e aí, principalmente reside a edição em que Ellis produz um velório para o John Constantine que se transforma em Spider Jerusalém - que tem muito mais a ver com a saída conturbada do autor de Hellblazer anos antes que com qualquer factualidade), mesmo assim o universo criado explorando paralelos com a história da ficção do século XX (com ênfase no fantástico mais que qualquer coisa) que vai se expandindo conforme a série avança e os autores ganham mais confiança, forma um material que é auto contido e incrivelmente poderoso e que continua a reverberar mesmo décadas depois de sua conclusão.

Inclusive porque Planetary, mesmo que tenha seu humor e produza algumas cenas hilárias, não tente fazer mais que examinar o passado e contextualizá-lo, o que, invariavelmente é muito mais fácil que examinar o presente, e, mais complexo ainda, satirizá-lo. 

{Editado 22/07} Respondendo a pergunta: Sim isso envelheceu mal. O mundo mudou, um sujeito com uma lata de lixo na cabeça (literalmente) é atualmente favorito numa eleição na Inglaterra e a propaganda enganosa de Tiririca de que não ficaria pior do que estava se confirmou exatamente o contrário. E isso só falando de política, se entrarmos nos milhões gastos para comprar uma figurinha digital que literalmente tem zero de valor (sim, estou falando de novo de NFT em 2026) ou pior ainda em data centers para IA...

Nem nos sonhos mais selvagens de Transmetropolitan em que Ellis imaginava a mais completa e abjeta distopia em 1999 ele conseguiu chegar perto do que se tornaria o mundo apenas algumas décadas mais tarde...

Isso é uma das maiores dificuldades de toda obra que tenta confabular sobre o futuro. Obras sobre o passado - e mesmo o presente - são muito mais fáceis de produzir, e, na minha honesta e singela opinião, tem maior possibilidade de se preservarem relevantes por maior tempo, afinal, estão ancoradas na realidade, mesmo se usamos passados e presentes alternativos (como o Homem no Castelo Alto ou Watchmen). As extrapolações lógicas são mais possíveis e críveis, e, quando bem produzidas, coerentes com o momento histórico e o sentimento da época.

Os futuros distópicos e a comédia por outro lado, tendem a  fracassar justamente pelo fato de que pendem para o exagero e absurdo como ferramentas para expor os absurdos contemporâneos... E eles mudam ou se tornam normalizados. Monty Python fez um sketch debochando da ideia dos furries nos anos 1960, e, bem, ainda que não sejam tão comuns ou normalizados, os furries existem e estão aí, e o tema não é mais motivo de escândalo ou graça.

Ellis precisava fazer o impossível? Creio que não, mas precisava de uma base bem mais sólida para produzir algo pertinente e, trabalhando em vários projetos simultâneos, com toda a certeza Transmetropolitan era apenas um veículo para ventilar sua raiva e não um projeto mais complexo. {/fim da edição} 

Então, leia Planetary que vale muito mais a pena e é um material muito melhor antes de qualquer outro dos materiais de Warren Ellis, seja da época ou mesmo do mesmo período. 

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