E quanto mais eu lia, mais eu achava que tinha envelhecido mal... E curiosamente parece que eu começo já pelas 'ressalvas e problemas' que é uma sessão recorrente destas resenhas, mas é impossível ignorar.
Só que, e eu acho importante, a grande questão é se isso de fato envelheceu mal ou se isso sempre foi ruim, e é onde eu acredito que resida o maior problema tanto de objetividade quanto da análise. Transmetropolitan é sobre um jornalista, Spider Jerusalém que volta de um exílio (auto imposto ou somente altamente imposto) e tem uma vibe bem Hunter S Thompson com jornalismo gonzo levado a todos os extremos, ainda que, e isso seja importante, leve a mais e maiores extremos a importância do jornalismo.
Spider Jerusalém é um jornalista que ameaça, que suborna e agride seus entrevistados e faz de tudo por uma matéria e projeção (droga, em dado momento ele concorre à presidência) e enquanto isso deveria ser cômico, satírico e ao mesmo tempo uma crítica social (como um espaço para Warren Ellis e Darrick Robertson destilarem seus comentários e opiniões).
E aí é onde eu vejo que o material acaba envelhecendo mal nem tanto pelo que é ou produz mas pelo que o mundo virou, em que o jornalismo se tornou uma grande propaganda disfarçada de notícia com o pretexto de vender mais ou defender interesse corporativistas. Spider Jerusalém seria um herói nos tempos atuais? Um Dom Quixote lutando para manter a integridade do jornalismo num mundo cada vez mais cínico - quando ele próprio já era um gigantesco cínico quase três décadas atrás?
Verdade seja dita, parte do problema se dá pelo fato que é um material de comédia que apesar de mostrar um mundo 'do futuro', acaba em momentos sendo mais tópico com eventos do momento em que a história foi escrita, e, invariavelmente como ocorre com 30 Rock ou, bem, qualquer outra comédia que tente traçar um paralelo ou comentário político relevante, isso acaba se chocando com a estrutura e realidade de forma que acaba extremamente datado.
Mas, e aqui novamente eu preciso reconhecer o fato, não é exatamente culpa do material e sim pelo quanto o mundo mudou... Existe um sitcom britânico chamado The Thick of It (algo como, em tradução livre "No meio disso"), do mesmo criador de Veep (outro seriado que envelheceu mal), que é sobre um grupo de pessoas lidando com escândalos banais que, bem, destruíam carreiras num mundo pré-Brexit.
Esse é o ponto da coisa toda, pois os escândalos do presidente de Transmetropolitan que Spider Jerusalém luta com unhas e dentes para relevar e destruir sua carreira, bem, parecem uma terça-feira para a maioria dos políticos modernos. Droga, Trump com toda a certeza já fez muito pior, e, não obstante o jornalismo cobriu e destacou suas ações desavergonhadas e continuamos a ver zero repercussões...
A piada perde a graça quando o mundo real se tornou milhares de vezes pior do que a sátira.
Então, voltando a pergunta: Isso era realmente ruim ou envelheceu mal?
Bem, quase na mesma época que o material, Warren Ellis produziu outra série chamada Planetary, e, droga, Planetary continua tão boa quanto na época que foi publicada, com apenas 27 edições e alguns especiais. Mesmo que algumas edições acabem piores que outras (e aí, principalmente reside a edição em que Ellis produz um velório para o John Constantine que se transforma em Spider Jerusalém - que tem muito mais a ver com a saída conturbada do autor de Hellblazer anos antes que com qualquer factualidade), mesmo assim o universo criado explorando paralelos com a história da ficção do século XX (com ênfase no fantástico mais que qualquer coisa) que vai se expandindo conforme a série avança e os autores ganham mais confiança, forma um material que é auto contido e incrivelmente poderoso e que continua a reverberar mesmo décadas depois de sua conclusão.
Inclusive porque Planetary, mesmo que tenha seu humor e produza algumas cenas hilárias, não tente fazer mais que examinar o passado e contextualizá-lo, o que, invariavelmente é muito mais fácil que examinar o presente, e, mais complexo ainda, satirizá-lo.
Então, leia Planetary que vale muito mais a pena e é um material muito melhor antes de qualquer outro dos materiais de Warren Ellis, seja da época ou mesmo do mesmo período.


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