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17 de maio de 2026

{Revisitando Clássicos} Fábulas - Bill Willingham (et al) 2002 - 2024

Fábulas era o meu maior pesadelo quando eu comecei esse projeto, e em grande parte, depois de não conseguir terminar a série antes da resenha eu vou explicar da melhor maneira possível os motivos.

A série começa em 2002 e se torna um grande sucesso do selo Vertigo - gerando uma spin-off do João (do pé de feijão, ele mesmo) algumas mini-séries da Cinderela (que é como uma agente secreta nesse universo) e uma outra série chamada Fairest (cujo propósito meio que é o de contar fábulas dentro do universo da fábulas em um nível mais A Origem que o filme do Christopher Nolan - e com uma premissa bastante simples, e que séries viriam a explorar na televisão nas décadas seguintes.

Basicamente a premissa é 'E se as histórias de fadas fossem reais - e, continuassem depois do "felizes para sempre"?'.

Disso surge a genialidade da série, com toda uma estrutura da sociedade que permeiam esses personagens, que ocasiona em fofocas e rumores (como a Branca de Neve que geralmente alguém comenta de seu tempo com os anões ou o Barba Azul e seu histórico de matar esposas, por exemplo) enquanto adicional uma tridimensionalidade a suas perspectivas, quando já no primeiro volume vemos o Pinóquio como um garoto de verdade reclamando da fada azul sendo literal com 'garoto' que o faz se manter uma criança pelos últimos séculos quando ele só quer passar pela puberdade (e, sabe, curtir uma diversão íntima).

A série toma outros rumos, claro, partindo da premissa de que as fábulas vivem em um mundo real (que inspira suas histórias que são contadas no nosso mundo) e devido a um grande conflito lá, tiveram que se refugiar aqui entre pessoas comuns, mas, pela lógica que Bill Willingham constrói para que faça sentido que estes personagens sejam super humanos (que não envelhecem normalmente e possuem poderes coerentes com suas histórias), vivendo pela lógica de um universo ficcional se encontrando em um universo real nessa estrutura.

Então faz sentido que vejamos animais falantes da mesma forma que figuras antropomorfizadas (afinal, são histórias de um reino onde magia existe) ao mesmo passo que consigam sobreviver e aguentar baques e ataques que matariam uma pessoa comum em qualquer outra situação - além, é claro, de poderes e transformações como Bigby que é o lobo mau, mas, mais que isso, um lobisomem - e o fato que eles não envelhecem nas mais de 150 edições da série.

Aqui está o primeiro grande problema (das 150 edições), uma vez que a popularidade do material acabou engolindo a narrativa e a série entrou num modo zumbi produzindo conteúdo sem que fizesse mais lógica, e, nesse modo zumbi gerou séries derivadas e pura e simplesmente chega a um ponto que mesmo a série não pode acabar (em 2022 a série foi ressuscitada para o arco de doze edições a Floresta Negra qua saiu simultaneamente a um crossover com o Batman e tudo isso depois de terminar em 2015 com a edição 150).

Narrativamente, a série traz um conflito dos personagens das fábulas que se exilam no mundo real fugindo de um conflito em seu mundo - um conflito movido pelo Adversário, cujo nome é mantido em segredo até o momento oportuno.

Com isso o conflito entre o povo das fábulas e esse adversário é o grande climax da série, ainda que exista espaço para resoluções (o retorno do povo exilado às suas terras assim como sua readequação à realidade após séculos - sim, séculos - de conflito) e tudo isso se mantém interessante até mais ou menos a edição 75 (que encerra o arco Guerra e Peças), ainda que, sendo generoso o material ainda tenha fôlego mesmo que sem o mesmo gás até a edição 100.

Enquanto rachaduras já vinham aparecendo desde a vitória sobre o Adversário, o negócio degringola mesmo a partir desse ponto quando um grupo super heróico é apresentado para 'defender as Fábulas, e, mostra o quão perdido na necessidade de continuar a história (quando não existe mais uma história para continuar) a série se torna. E é claro que nisso já estamos em quase 10 anos da série, já com o spin off do João e tudo mais...

Só que, e aí existe o grande calcanhar de Aquiles da série, uma vez que o material tem em seus personagens apenas figuras de domínio público, a série poderia continuar indefinidamente desde que a editora assim o quisesse - sem o escritor, sem os artistas ou quem quer que fosse - então o "fim" da história nunca viria nos termos do escritor e isso parece o principal motivo pelo qual a série continuou por tanto tempo e, até porque tem um grupo de super heróis ali após a edição 100, meio que como um metacomentário da indústria de quadrinhos estadunidense que precisa de super heróis e não consegue enxergar outro tipo de histórias diferente disso e como um ouroboros fica tentando comer o próprio rabo se retroalimentando sem criar nada novo ou, bem, sair do lugar... Mas talvez eu esteja lendo demais nisso - e, no celeuma bastante público de Willingham com a DC recentemente.

Mas fica evidente que a série vai se perdendo, e isso acontece justamente porque a série toma tamanho demais para que o autor consiga manter algum foco ou coerência (são spin-offs, mini-séries e uma editora que não quer um ponto final definitivo e concreto) no que leva os leitores a abandonar o barco em diversos pontos e momentos, e, bem, numa história que não parece capaz de se concluir de forma coerente e, mais importante, satisfatória.

 

Ressalvas e Problemas

Olha, sinceramente o maior problema da série se dá no fato de ser beeeeem longa (162 edições, com vários spin-offs e mini-séries, alguns mais interessantes e relevantes que outros), e, como eu disse, ela perde bem o gás depois de um ponto relevante da história, o que torna a série menos acessível conforme cada vez mais personagens secundários ganham destaque (alguns inclusive morrem) e outros novos personagens (filhos de um casal ou parentes distantes de outro) vão aparecendo e ganhando destaque.

Não existe um elenco fixo para que o leitor possa simplesmente pegar e ler de qualquer ponto sem precisar pensar muito, pois mesmo no começo se faz necessário conhecer as histórias de contos de fadas, que, bem, talvez não sejam tão reconhecidas para o público não falante de inglês como o Príncipe Azul ou Barba Azul, e, sim, é parte do objetivo aqui e ali apresentar alguma história folclórica menos conhecida e oferecer algum destaque para esse ou aquele personagem, só que existem momentos em que a caracterização desse personagem depende intrinsecamente do conhecimento da fábula na qual ele se baseia, e não fazê-lo representará menor entendimento narrativo.

Ao contrário de outras séries que envelheceram mal ou tem mais violência (ou sexo), aqui efetivamente não parece nada que desabone além do fato que é uma leitura bem mais volumosa e, por isso, cansativa. Além disso, caso você opte por ler apenas Fábulas, talvez perca alguns dos elementos das séries derivadas - que tem pouco relevância no geral mas tem alguma, principalmente com João que é um personagem interessante e que ganha bastante destaque no universo da série.

Destaco como ressalva, inclusive, que eu mesmo não consegui ler todo o material. Não li as edições 151 a 162 (que são o epílogo publicados após o final da série) assim como boa parte dos spin offs e séries derivadas. Então talvez você que leia esses materiais tenha uma percepção diferente da minha ou até mesmo não se empolgue com nada do material de qualquer forma.

Eu acho que vale a pena pelo menos os dois primeiros volumes para conhecer a série e sentir se isso pode funcionar pra você - são material bem fácil de achar e que tem uma ótima qualidade tanto na arte como no roteiro, até porque, e isso eu acho que é um problema grande para a série, não é particularmente algo que vá mudar sua visão de mundo ou oferecer algo mais interessante e complexo, sabe?

Quer dizer, são fábulas vivendo no mundo moderno e lidando com problemas iguais aos nossos (e eu imagino que você já tenha associado com alguma outra série de televisão em algum momento desse texto, né?), sem oferecer alguma reflexão mais complexa ou algum tipo de perspectiva maior sobre a natureza humana.

Por mais que Bill Willinghan seja um ótimo escritor e crie situações muito interessantes, como eu disse, ele mesmo perde o entusiasmo e nisso a situação toda se perde. O que, no fim das contas, é uma pena. 

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