Eu vou ser bastante honesto em uma coisa e dizer que eu sinceramente não entendo o fascínio que ainda existe sobre a história de Drácula no século XXI (ou em qualquer ponto após a segunda guerra no século XX).
Quer dizer, existe um certo charme gótico que funcionava para a era silenciosa do cinema - e essa é uma época que influenciou muitos dos criadores e produtores que produzem filmes até os dias de hoje, e, nem só na condição de filmes pois tem toda uma toada de quadrinhos, jogos de videogame e o que mais que se estrutura nesse charme gótico - mas é curioso como o material pertence a outro tempo e contexto e não faz sentido, ao meu ver, para a estrutura moderna... Mas quando facilmente um noticiário matutino traz mais violência e sangue que uma história de um século atrás que ainda é considerado um clássico do horror, eu confesso que tenho minhas dúvidas se não é a hora do vampirão aposentar sua casaquinha e deixar o reino da noite para as novas gerações de mortos-vivos...
Drácula (e sim, Nosferatu que é a mesma história mas, sabe, com problemas de direitos autorais) é uma história carola sobre gente reprimida que tem (muito) medo da própria sombra e por isso tenta justificar que existem monstros (comedores de moscas controlados por esses terríveis estrangeiros lascivos). E, ei, eu sei que isso continua o exato mesmo discurso conservador da galera da mamadeira de piroca...
Só que esse é o ponto na verdade.
Esse verniz clássico e gótico para o exato mesmo tipo de racismo que a sociedade tinha no século XIX não o torna mais charmoso ou menos ridículo. Sim, sim, o monstro bebe sangue - ao contrário dos costumes altamente médicos de rejeitar vacina ou paracetamol enquanto bebe a própria urina, digo, de usar sangue-sugas porque uma pessoa tinha "sangue demais" - tudo isso está no mesmo contexto de que, e eu sei que isso vai me fazer impopular com um grupo de pessoas mas eu preciso enfatizar: O horror é o gênero mais carola e conservador que existe.
Eu poderia gastar vários parágrafos com exemplos disso, desde os exemplos clássicos do horror de Drácula, Frankenstein e as bruxas, que existem no popular como contos cautelares para a manutenção de valores tradicionais (e a crítica àqueles que quebram as normas), e subir para exemplos mais recentes com os filmes de horror dos anos 1970 e 1980 como os assassinos seriais dos massacres de serra elétrica e Mike Myers (yeah, baby) e Jason ou mesmo Freddy Krueger que trazem comentários sociais.
Não é à toa que a 'garota final' (a única mocinha pura e virgem) sobrevive ao ataque sem fim do bicho-papão da vez, enquanto os demais personagens morrem um a um (e geralmente são pessoas que quebram alguma das normas sociais, como com a garota que fez e gosta de sexo, mas tem diversas situações do uso de drogas ou por fazerem pixações, vandalismo ou qualquer argumento para justificar que a vítima do assassino serial) e não incomum o próprio assassino/monstro é alguém com sérios problemas mentais (e geralmente com perturbadores poderes sobrenaturais que o permite sobreviver continuamente e inclusive escapar do próprio inferno para continuar matando).



