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30 de outubro de 2025

{Hallowsenhas} Dracusferatu - Ou quem é morto-vivo sempre aparece!

Eu vou ser bastante honesto em uma coisa e dizer que eu sinceramente não entendo o fascínio que ainda existe sobre a história de Drácula no século XXI (ou em qualquer ponto após a segunda guerra no século XX).

Quer dizer, existe um certo charme gótico que funcionava para a era silenciosa do cinema - e essa é uma época que influenciou muitos dos criadores e produtores que produzem filmes até os dias de hoje, e, nem só na condição de filmes pois tem toda uma toada de quadrinhos, jogos de videogame e o que mais que se estrutura nesse charme gótico - mas é curioso como o material pertence a outro tempo e contexto e não faz sentido, ao meu ver, para a estrutura moderna... Mas quando facilmente um noticiário matutino traz mais violência e sangue que uma história de um século atrás que ainda é considerado um clássico do horror, eu confesso que tenho minhas dúvidas se não é a hora do vampirão aposentar sua casaquinha e deixar o reino da noite para as novas gerações de mortos-vivos...

Drácula (e sim, Nosferatu que é a mesma história mas, sabe, com problemas de direitos autorais) é uma história carola sobre gente reprimida que tem (muito) medo da própria sombra e por isso tenta justificar que existem monstros (comedores de moscas controlados por esses terríveis estrangeiros lascivos). E, ei, eu sei que isso continua o exato mesmo discurso conservador da galera da mamadeira de piroca...

Só que esse é o ponto na verdade.

Esse verniz clássico e gótico para o exato mesmo tipo de racismo que a sociedade tinha no século XIX não o torna mais charmoso ou menos ridículo. Sim, sim, o monstro bebe sangue - ao contrário dos costumes altamente médicos de rejeitar vacina ou paracetamol enquanto bebe a própria urina, digo, de usar sangue-sugas porque uma pessoa tinha "sangue demais" - tudo isso está no mesmo contexto de que, e eu sei que isso vai me fazer impopular com um grupo de pessoas mas eu preciso enfatizar: O horror é o gênero mais carola e conservador que existe.

Eu poderia gastar vários parágrafos com exemplos disso, desde os exemplos clássicos do horror de Drácula, Frankenstein e as bruxas, que existem no popular como contos cautelares para a manutenção de valores tradicionais (e a crítica àqueles que quebram as normas), e subir para exemplos mais recentes com os filmes de horror dos anos 1970 e 1980 como os assassinos seriais dos massacres de serra elétrica e Mike Myers (yeah, baby) e Jason ou mesmo Freddy Krueger que trazem comentários sociais.

Não é à toa que a 'garota final' (a única mocinha pura e virgem) sobrevive ao ataque sem fim do bicho-papão da vez, enquanto os demais personagens morrem um a um (e geralmente são pessoas que quebram alguma das normas sociais, como com a garota que fez e gosta de sexo, mas tem diversas situações do uso de drogas ou por fazerem pixações, vandalismo ou qualquer argumento para justificar que a vítima do assassino serial) e não incomum o próprio assassino/monstro é alguém com sérios problemas mentais (e geralmente com perturbadores poderes sobrenaturais que o permite sobreviver continuamente e inclusive escapar do próprio inferno para continuar matando).

O horror tem em seu DNA os valores conservadores sendo desafiados por protagonistas ou monstros que são constante e frequentemente estereotipados (o sujeito com problemas mentais que se torna um psicopata assassino que mata adolescentes através das décadas, o homossexual que prende mulheres em seu porão para usar suas peles, o estrangeiro que seduz nossas mocinhas belas, recatadas e do lar...) e enquanto criadores mais talentosos aprenderam a subverter as estruturas para oferecer críticas sociais, isso é um fenômeno bem mais recente, e, como destacado, uma subversão da estrutura.
 
Pânico do Wes Craven é o maior exemplo disso justamente ao quebrar com a quarta margem e expor através do metacomentário os clichês e reforçar estereótipos do gênero, mas diversos outros filmes antes já foram minando e testando as águas aqui e acolá, desde o Predador que é um filme de ação que joga horror quando o monstro aparece para enfrentar o herói imparável ou mesmo Alien cujo vilão efetivamente não é o monstro gosmento que sai de um ovo, e sim a corporação capitalista maligna que joga os trabalhadores na rota de colisão com esse monstro (plenamente ciente dos riscos) por uma mera margem de lucro maior.
 
Então nisso eu te pergunto: Porque nós continuamos a ver remakes de Nosferatu, Drácula (um Frankenstein do Guillermo del Toro saindo em novembro e outros tantos em pré ou produção)...?
 
O motivo cínico é porque esses personagens fazem parte do domínio público e isso significa que estúdios não precisam pagar direitos autorais para utilizá-los (vide porque logo que os direitos do Ursinho Pooh ou do Mickey seguiram essa rota a primeira coisa que fizeram foram filmes de horror com eles). Além disso, ainda mantendo uma ótica cínica, estes são personagens facilmente reconhecíveis e histórias que não precisam de grande contextualização e explicações do que motiva ou condiciona esses personagens, e, mesmo que filmes de época custem um pouco mais, o horror é um gênero de produção barata e rápida (vide os exemplos no parênteses anterior).
 
Mas eu acho que não é só isso, pois existem motivos mais complexos para a situação toda, e, em grande parte é porque esses personagens ainda nos fascinam, envoltos nessa aura gótica de mistério e ouso dizer sedução que escapa do horror moderno, e sim, existe a grande romantização da época - motivo pelo qual esses filmes continuam a ser produzidos se passando na Inglaterra vitoriana e não atualizados para os dias de hoje por exemplo.
 
Drácula não é apenas um monstro terrível que suga sangue e mata sua vítimas, mas é bastante comum em seus filmes que ele corteje e mantenha uma pose aristocrática cheia de seus formalismos antes de aplicar o bote, e, não é difícil ver nos exemplos seja de filmes do Francis Ford Coppola, do Luc Besson ou do Robert Eggers cenas de gigantescos salões de baile com grandes sequencias que parecem saídas de animações de princesas da Disney.
 
E, claro, não vamos fingir que a questão política que eu já gastei alguns parágrafos referenciado não seja importante, mesmo se, talvez, hoje o Drácula seja mais para o sujeito que usa spray de bronzeamento artificial para ficar com a pele laranja e se eleger em algum carguinho burocrático por aí do que um conde da Romenia...

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