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12 de abril de 2026

{Editorial} Solo Leveling é a coisa mais idiota que eu já assisti?

Existe algo que eu genuinamente admiro na estrutura de quadrinhos japonesa (e eu sei que Solo Leveling que está no título é uma série sulcoreana, por favor, me dê um pouquinho mais de crédito), ainda que eu saiba de todos os problemas da estrutura de produção, da estafa, e tudo o mais que afeta a estrutura produtiva, e, o que eu admiro genuinamente é a forma como a indústria de quadrinhos japonesa é capaz de se reinventar a cada dez/quinze anos.

Não vou fingir que eu conheço todas as fases, ali dos anos 1950 pra frente, mas pegando mais ou menos ali quando eu nasci e começa uma onda de grande popularidade nos anos 1980-1990 com Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho (mas obviamente não apenas esses), e que tem uma transição até o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 quando começam a surgir One Piece, Naruto e mais uma leva de outros quadrinhos relevantes, incluindo Death Note e Full Metal Alchemist e mais próximo do momento atual dos 2015 pra frente (ainda que One Piece continue sendo publicado assim como Naruto agora através de seu filho Boruto e Dragon Ball foi ressuscitado uma terceira vez), temos mais uma leva surpreendente com Jujutsu Kaizen, Dan Da Dan, Demon Slayer, Dr Stone, My Hero Academia e mais uma lista crescente.

Isso tudo sem ignorar fenômenos de quadrinhos de esportes como Hajime no Ippo (sendo publicado desde 1989) ou Slam Dunk e outras obras sejam com escopo mais limitado (como Akira ou Ghost in the Shell que são mais curtas) ou com finalidades mais cômicas ou mesmo voltadas para nichos mais específicos.

Eu acho muito legal isso, mesmo que bem provavelmente chegue pra gente só uma fração muito pequena de todo o escopo de material - afinal são os produtos que dão certo no Japão e conseguem catapultar para o mercado internacional de uma forma ou outra, geralmente através das animações (que já são o primeiro passo para catapultar uma produção de sucesso no próprio Japão e conseguinte para outros mercados), e muito legal quando comparamos com o que estamos acostumados dos Estados Unidos, Europa e não obstante o próprio Brasil, com material que vai seguindo uma estrutura da cobra comendo o próprio rabo e expandindo ad infinitum sem qualquer pretensão de considerar uma nova voz e ouvir suas histórias - apenas a de vender novas roupagens para personagens antigos.

Não vou fingir que todas as histórias e séries citadas aqui nos parágrafos anteriores são ideias originais e criações inovadoras (eu sei que não foi George Morikawa que inventou o boxe e que Akira Toriyama bebeu bastante de Jornada para o Oeste para o começo de Dragon Ball), ainda que seja hipocrisia fingir que todas as histórias e séries populares no Ocidente o sejam (droga, Superman usa a história de Moisés como base para sua origem enquanto Batman é inspirado em heróis como Zorro - que é inspirado no Pimpinela Escarlate, sim, isso existe), mas tudo isso é parte de uma discussão maior de como artistas 'se inspiram' ou até mesmo roubam o trabalho de outros, e, francamente eu não quero mexer nesse vespeiro até porque eu passei cinco longos parágrafos sem nem entrar no assunto do texto.

Todo esse contexto é para falar de um dos animês/mangás que ganhou notoriedade nos últimos anos, a produção sulcoreana Solo Leveling e que compartilha muito da estrutura narrativa e visual da produção japonesa mas falta alguns aspectos fundamentais para que o material tenha de fato substância, e são problemas estruturais (e não, eu não vou pegar os graficos do Felipe Boni apara justificar as superestruturas do capitalismo), porque o material é 100% estilo.

Faz sentido que o estilo seja impressionante - e várias das cenas de luta são realmente interessantes de se ver, ainda que, passado o terceiro ou quarto confronto do protagonista fica mais claro que ele nunca corre nenhum real perigo - mas são apenas calorias vazias, é só salgadinho de milho e logo você quer mais, só que percebe que não vai conseguir extrair aqui. 

Solo Leveling é uma história Isekai em que portais mágicos se abrem aleatoriamente no mundo e estes portais levam a mundos de RPG onde os monstros de D&D são reais e, obviamente, uma vez que esses portais surgem as pessoas do planeta também tem maior propensão para combater esses monstros - na exata e idêntica estrutura de uma campanha de dungeons and dragons, incluindo classes e encantamentos, mas, de maneira a dialogar com o jovem que conhece RPGs através de videogames, também com caixas de pilhagem e recompensas aleatórias. 

 

 

 

Isso é basicamente um jogo de RPG moderno, não é mesmo?

Tipo Persona, né? Só que sem o carisma dos personagens, a motivação dos vilões, a construção de mundo e, sabe, o elemento mais importante de um jogo, a interatividade...

Ou seja, um jogo sem muita imaginação e criatividade com elemento bem típico de uma estrutura narrativa de Mary Sue em que o protagonista realiza todas as fantasias - e compensa todas as frustrações - do autor, mas, e pior que tudo, um jogo sem a decisão e ação do jogador, e sem qualquer imprevisibilidade pois tudo já foi arquitetado em avanço, e que, devido a parca habilidade narrativa do autor, fica muito claro o desfecho de cada evento antes mesmo de rolarem os créditos de abertura do episódio.

O gênero Isekai se popularizou bastante nos últimos anos - mais ou menos desde a pandemia, mas acredito que um pouco antes, e isso produziu uma série de obras, que honestamente, eu só de ver os títulos já me faz passar longe, e Solo Leveling (de novo, que é coreana e não japonesa) é talvez uma das grandes responsáveis dessa popularização do gênero em conjunto com Sword Art Online... 

E eu não sei se isso é uma limitação do gênero Isekai (que eu acho que comentei em outro texto, mas basicamente é onde alguém que é um nada aqui na Terra se vê em um mundo onde ele é incrível e genial - mais ou menos como Flash Gordon e John Carter, só que em universos inspirados por RPG) ou mesmo quais as características do gênero em si para ver se nele se inserem por exemplo Matrix ou Avatar (que pela minha descrição no parêntesis anterior funciona perfeitamente, certo?) ou se ele de fato começa e toma forma a partir de Sword Art Online no final dos anos 2000 começo dos 2010.

Mas, Solo Leveling especificamente falha em estabelecer tanto o personagem principal da sua narrativa - que singra entre mundos com liberdade e começa como um garotinho mirrado e que apanha sempre e se torna um cantor de K-Pop em algumas semanas (inclusive ficando mais alto) conforme se torna mais forte e confiante... No entanto, falta o desenvoolvimento ao personagem, que conforme ele 'sobe de nível' (como num jogo) e fica mais forte, não existe nenhuma alteração significativa em sua personalidade ou qualquer conflito.

Sung Jin-woo tem um dilema em que ele enfrenta criminosos (que estavam dispostos a matá-lo, é verdade) em determinado episódio e sua reação diante do cenário não é muito diferente de quando ele precisa enfrentar um monstro que lhe oferece pontos de experiência (para subir de nível), e mesmo depois não vemos o personagem lidando com isso com alguma consequência mais dramática ou significativa - mesmo que a história prometa um confronto vindouro com o irmão de um desses bandidos que é um cara muito mais forte e etc, só que é uma consequência muito vazia e rala em si.

Droga, tem toda uma narrativa de dois investigadores acompanhando o caso de Sung Jin-woo e um desses caras é um psicopata - que leva a outro confronto com uma pessoa sem nenhuma consequência, reação ou desenvolvimento do personagem - e no geral isso só vai cansando pelo quão vazio tudo é, se esforçando tanto mais tanto mesmo para ser legal com suas cenas de ação (que são boazinhas, claro, se você considerá-las fora de contexto narrativo) e ignora todo o resto, jogando clichês e estruturas subdesenvolvidas de narrativa e personagens para prencher o vazio dos capítulos.

E enquanto existem coisas que eu não gosto mas consigo entender o público desse material - e que eu não estou nesse público, como os filmes do Mário da Illumination ou Frieren que eu comentei não muito tempo atrás -  e eu sei que isso se aplica aqui também, não muda o fato que quanto mais eu penso sobre o material mais eu vejo as lacunas e falhas em sua execução e desenvolvimento, coisa que eu não consiga nos outros exemplos nesse parágrafo, só entenda que eles são para outro público que não eu.

Tudo bem se você curtiu e curte Solo Leveling, amigo leitor, seja feliz com o que te faz feliz. Eu só proponho que você tente observar um pouco mais de perto porque as rachaduras vão ficar visíveis e com isso talvez você consiga apreciar outras narrativas e histórias melhor desenvolvidas.

Tente ver que os desafios são todos risíveis, que o protagonista não tem nenhum desenvolvimento (e é uma Mary Sue - ou seja, uma auto-inserção do autor para compensar suas frustrações, tal qual a saga Crepúsculo), ao mesmo passo que a narrativa não oferece nenhuma reviravolta relevante ou mudança da estrutura "protagonista enfrenta desafio e vence" e mesmo as cenas de ação que são o grande chamariz para o material, que elas fracassam quando a vitória já está definida e o protagonista vai vencer quase sem nem suar.

Mesmo o ponto de algum maior mistério que é a janela pop-up que o protagonista (e somente ele) tem acesso, não parece gerar qualquer tipo de questionamento ou desenvolvimento narrativo além de alguma observação mínima aqui e ali.

Então é a coisa mais idiota que eu já assisti? Dificilmente, mas que se esforça para entrar na lista com toda a certeza se esforça (e honestamente, eu tenho que destacar que eu assisti aquele seriado do tiozão que quer ser um Kamen Rider, e aquilo é tão estúpido que quase faz Solo Leveling parecer Shakespeare em comparação)

8 de maio de 2025

{Resenhas Perdedoras de Quinta} Go, Go, Loser Ranger!

Quando eu vi pela primeira vez a ideia de Go, Go, Loser Ranger (algo que seria como "Avante Guardião Perdedor" mas numa alusão à canção tema dos Power Rangers - ainda que a série trabalhe com personagens e elementos da trama que fazem bem mais alusão a Gatchman/Batalha dos Planetas), eu confesso que fiquei intrigado.

Eu não cresci com os Power Rangers em grande parte porque eu cresci assistindo outras séries japonesas que efetivamente inspiraram o grupo (Changeman, Jaspion e vários, vários outros da extinta Manchete antes dos Cavaleiros do Zodíaco), mas o conceito não me é completamente alienígena, e, honestamente eu nem acho que seja necessário contextualizar tanto assim uma vez que a ideia é já bastante batida e clichê com tantas variações e repetições à fórmula: Grupo de pessoas recebe poderes especiais (e uniformes coloridos) para combater monstros/alienígenas/robôs tirânicos e salvar o mundo (em intervalos episódios semanais nos quais enfrentam o monstro da semana que geralmente trará alguma importante lição de moral - e talvez uma batalha final com robôs gigantes).

Não que eu imaginei que seria uma grande revolução, honestamente Alan Moore e Garth Ennis já fizeram esse tipo de comentários há pelo menos umas quatro décadas já. O que me surpreendeu foi a perspectiva de alguma obra japonesa fazer algo em uma toada semelhante.

É diferente do que existe com os super-heróis como Liga da Justiça e Vingadores pela estrutura, uma vez que o monstro da semana não é um criminoso ou mesmo alguém que possua qualquer característica redimível, e invariavelmente eles são acompanhados de um exército de bucha de canhão que não serve para nada além de fazer parecer que o monstro da semana é uma ameaça maior (do que realmente é).

Não existe dubiedade ou confusão: Os heróis coloridos são bons e justos e quem eles enfrentam são vilões que precisam ser destruídos. Ponto. Nenhum vilão tem algum argumento válido como Magneto ou uma origem trágica como o Senhor Frio ou qualquer nuance e etc... São monstros que querem destruir o mundo, simples assim (geralmente comandados por um monstrão mais poderoso que lidera todos eles).

Go, Go, Loser Ranger propõe alguma variação significativa nesses clichês com o questionamento dessa premissa básica, ao propor que os Rangers não são exatamente bons ou justos, e, verdade seja dita, a história sequer é sobre eles mas sobre um dos membros do exército de subalternos que está cansado de apanhar semana sim, semana também e sob a perspectiva da qual aprenderemos mais sobre o mundo em questão.

Os Rangers venceram a guerra com os monstros quase uma década atrás mas mantém os minions como escravos para promover shows regulares como demonstração de força além de garantia contínua de investimentos, enquanto a história nos mostra de maneira similar que os fantasiados são também pessoas corruptas, canalhas e psicopatas (no mínimo), e tudo isso desmorona tão rapidamente no que a série tenta fazer que é absurdo sequer tentar acompanhar ou entender os motivos para isso (mas que, de maneira bem cínica, seja para apresentar mais personagens e vender mercadoria derivada).

Depois que é apresentada a proposta (que os Rangers são bandidos e corruptos) a série nos apresenta o elenco principal e o conflito com um grupo de jovens que querem ingressar na academia dos Rangers (sim, como em My Hero Academia, e não, não é coincidência) e o minion rebelde tenta se infiltrar no grupo ao que boa parte da história segue as batidas desse tipo de história (dinâmica de formação de grupo e caráter, personagens amadurecendo e enfrentando desafios cada vez maiores), mas é onde acaba me perdendo.

O autor desse mangá/animê toma um tom mais satírico e humorístico (ainda que honestamente eu não tenha visto nenhuma cena particularmente engraçada, por mais que a intenção de colocar dancinhas ou bonecos explicando o que ocorrerá nos próximos capítulos no lugar de uma prévia) o que me parece querer copiar The Boys como uma crítica ao material que referencia, mas, sabe, sem ter a coragem de efetivamente oferecer qualquer crítica (afinal, o problema não são os Rangers ou a estrutura corrupta que os formou mas as pessoas corruptas que ocupam essas posições hoje e substituindo-os facilmente se restaura o status quo e tudo se resolve, confia).

Falta encontrar o tom certo para produzir o material, mas mais que tudo, falta coragem para fazer o material da maneira certa e oferecer algum comentário que valha a pena...

13 de novembro de 2024

{A vida após Netflix} Uma (longa) análise sobre como interagimos com a mídia após o streaming

Talvez essa não seja tão longa (ou tão chata) quanto minha série de postagens sobre porque os quadrinhos vendem mal, mas após ver os inúmeros cancelamentos que a plataforma de streaming faz de novo e de novo (e de novo) de bons seriados enquanto outros materiais tendem a durar bem mais tempo em sistemas convencionais de produção de entretenimento (sabe, com lançamentos periódicos preocupados com audiência e muitas vezes se adaptando e mudando justamente pela flutuação desta).

Eu venho assistindo Shameless com minha namorada - a série é longa com mais de 10 temporadas, com uma versão britânica que precede o material com William H Macy, Jeremy Allen White e Emmy Rossum (além do Goku de Dragon Ball Evolution por alguns episódios) - assim como vi alguns materiais cancelados pela Netflix (a ótima Mindhunter vem em mente, mas obviamente não é o único exemplo) que me fez pensar muito sobre a natureza da produção de entretenimento moderno e tudo o que mudou.

Séries hoje são produzidas de forma diferente de trinta, droga, mesmo pouco mais de dez anos atrás quando a Netflix começou com House of Cards, com temporadas mais curtas - que era o formato destinado a séries de prestígio da HBO - mas muito se deve a forma como interagimos com a mídia mais do que o formato dos shows.

Comédias, animações ou mesmo shows de variedade que comumente possuiam temporadas longas (ainda que muitas vezes de episódios curtos), hoje são divididos em temporadas mais curtas ainda que em alguns cenários com mais de uma temporada por ano, para ter mais tempo de exposição ao público ao material. Mesmo com os animês que possuem uma estrutura bem diferente das convencionais temporadas (ainda que os distribuidores estadunidenses tentem vender nesse tipo de embalagem) cederam mais para uma estrutura mais próxima de temporadas anuais e produção episódica limitada (como My Hero Academia ou Attack on Titan) do que, bem, a insanidade de produzir episódios para acompanhar com o ritmo da produção semanal de um material conforme ele é lançado (sabe, como One Piece ainda é feito).

Este é apenas um teaser para discutir a ideia, e, começaremos em breve numa discussão sobre as estruturas narrativas, o que diferencia um seraido de um filme e as diferenças em formatos de produção de entretenimento.

17 de junho de 2024

{Resenha Lixo} O Estadão, digo, a resenha do Estadão para The Boys

Honestamente eu acho que já falei tudo o que eu precisava falar sobre The Boys. Eu não gosto da série e acho que é superestimada, além do fato que ela só existe porque seu criador ficou putinho que as grandes editoras norte-americanas não lhe davam espaço para publicar histórias de guerra para publicar mais super heróis.

Eu já falei que a proposta não funciona (uma indústria farmacêutica produzindo gente super poderosa desde a década de 1950 e o mundo é virtualmente idêntico ao que nós vivemos com a diferença que essa indústria farmacêutica é basicamente as 50 maiores da Forbes combinadas e depois de quatro temporadas a série ainda não conseguiu explicar qual o papel ou função dos super heróis nesse mundo - além de serem famosos e idolatrados?), eu já falei que o comentário político é raso quando existente (e muitas vezes ele só tende para alguma cena grotesca - de cunho sexual, violento ou uma combinação dos dois), e, droga nada mudou nem dá menção de que vá mudar... Até o Estadão escrever "The Boys se assume woke, abraça o viés político e deixa rivais Marvel e DC para trás", e além do título longo, estúpido e que não significa coisa nenhuma.

Começo pelo fim, da dieia de deixar 'as rivais Marvel e DC para trás' que honestamente é *smack* um coco de cereja colocado num bolo de merda.

Quer dizer, o problema com o filme do Flash foi que não tinha nenhuma cena dele se movendo tão rápido para transar com ele mesmo ou desmembrando pessoas em alta velocidade? Ou é o fato que ele não é woke e faz algum comentário político raso? Realmente gostaria de sacar a análise genial dessa resenha ainda mais quando, e, isso é importante tanto Marvel quanto DC (e, diga-se de passagem mesmo o mercado japonês com My Hero Academia) conseguem produzir material mais maduro e inteligente. Mas o material para gerar lucro para os grandes estúdio e agradar o grande público tem que ser o arroz e feijão para chegar ao meio oeste estadunidense e passar incólume por toda uma leva de gente que se ofende e incomoda com o mínimo do mínimo - e isso significa fazer poucas apostas, produzir continuações e filmes com grandes marcas já conhecidas.

Quer dizer, você viu que tem um novo Bad Boys com o Will Smith nos cinemas continuando a ideia de filmes com duplas de policiais que são basicamente a lei mesmo (ou apesar de) com toda a destruição que causam no processo? E já foi anunciado MAIS um Transformers? Ah, e não vamos esquecer do Velozes e Furiosos 11!

Todos esses vastos exemplos de filmes que empregam talento capaz de revisar completamente tudo o que suas franquias construiu até agora para tecer um novo tipo de comentário, estabelecer alguma autocrítica, mudar o tom ou formar uma ponte para uma nova direção mais ousada para o material, né? (Como assim são basicamente repetições dos mesmos pontos cansados que outros filmes - não somente dessas franquias - já fizeram a exaustão mas que funcionam e portanto serão repetidos para garantir mais alguns quinhões para os investidores?).

Droga... Alguns anos atrás teve toda uma questão sobre a animação da Arlequina que queria fazer uma piada com o Batman fazendo sexo oral na Mulher Gato e a editora disse que isso não é algo que super heróis façam - e depois a piada acabou no ar, e, bem, não é nem engraçada nem funciona e a editora estava certa em barrar (só não em sua justificativa). E isso tudo é só bobagem tentando produzir algo ousado mas sem se preocupar em produzir conteúdo! Isso resume The Boys em cada episódio!

The Boys faz isso desde a primeira temporada e não mudou com a temporada mais recente (seja com o personagem que é flagrado fazendo uma suruba com ele mesmo na quarta temporada sejam outras situações de cunho sexual mais ou menos perturbadoras - como na primeira temporada quando Annie foi forçada a fazer sexo para ser aceita pelo grupo da Vought)!

Não 'ficou woke' ou 'abraçou o comentário político' (droga eles já vinham com esse comentário político do Capitão Pátria republicano e cristão desde o começo do seriado!). E muito menos trouxe a esse comentário algo mais interessante que duas piscadelas para a câmera seguidas de nudge, nudge, não diga mais nada.

A quinta temporada de Fargo traz um vasto comentário político (e extremamente poderoso) sobre conservadores e seus valores "cristãos" (sabe, enquanto considerando mulheres suas propriedades para abusar e espancar quando der na telha), além de uma pesada crítica ao uso miliciano da polícia em sua estrutura. Mas a série não ficou 'woke' (nem deixa para trás suas rivais CSI e Law and Order).

Mas esse é o ponto da péssima resenha do Estadão: Gerar engajamento, sem se importar ou comprometer com qualquer integridade jornalística (ou coerência). Fazer pessoas lerem algo tão mal estruturado para que fiquem incomodadas e se manifestem, compartilhem com outras pessoas e, como um patinho eu cai.

10 de setembro de 2020

{Resenha de quinta parte 2} The Boys don't Cry (versão com Spoilers)

 Imagine um mundo em que os irmãos Lumière não inventaram o cinematógrafo. Por mais difícil que seja imaginar todas as possíveis ramificações, é fácil ver alguns dos efeitos mais claros e imediatos: Sem o cinema, uma enormidade de astros famosos nas telinhas migrariam para outras áreas - seja como atores mesmo ou em segmentos completamente diferentes.

Não haveria Chaplin ou Harrison Ford por exemplo, mas eles talvez seguiriam carreiras como atores de teatro ou rádio. E isso mostra outro efeito da popularização de outra mídia no lugar da que nunca existiu.

Isso é história alternativa, algo que por mais lógico que seja na ficção, seja de fato poucas vezes (bem) explorado e construído. Narrativas no geral tentam ignorar que o mundo seria efetivamente diferente com a existência ou ausência de um fator primordial.

No caso de The Boys é a existência de super heróis.

E enquanto Watchmen ou My Hero Academia exploram em maior detalhes os efeitos da existência de super seres em um mundo tipicamente 'real' e o quanto a presença destes afeta a realidade, The Boys simplesmente finge que a existência de super seres se incorporaria na realidade como celebridades adoradas e idolatradas. E ignora que, bem, tão importante quanto o mito da celebridade está o mito da destruição de celebridades.

Nossa sociedade adora ver o colapso mental de uma figura pública - tenha ela feito algo errado ou não.

Um ator dá um soco na cara de um paparazi (que para a manchete vira 'jornalista')? Milhões vão querer ver! O contexto da história não é importante.

Mas no mundo de super heróis corruptos e auto destrutivos de The Boys, as pessoas preferem ser e se manter ignorantes do comportamento auto-destrutivo.

Por mais que o herói veloz dependa de patrocínios - e precise constantemente competir para marcar seu lugar e sua presença - ninguém tenta flagrar esse personagem com uma amante ou frequentando um clube onde as pessoas se drogam e fazem todo tipo de atividade recriminável. O foco é somente na idolatria destes seres... Sim, eles tem 'rondas' que são monitoradas por equipes de produção enquanto analistas buscam possíveis crimes que sejam cinematográficos o suficiente.

E aqui é onde a coisa fica mais difícil de entender... No universo de The Boys não existem (ou não foram mostrados) vilões ou ameaças que de fato requeiram tamanha demanda por super seres.

Combater roubos a caixa forte, estupros e outros crimes...? A polícia dá conta deste tipo de atividade - com erros e acertos na condução das investigações, e, nenhum dos super poderes mostrado na primeira temporada denota algo de efetivamente auxiliaria no combate ao crime (talvez o herói falido Mesmer).

Desastres naturais e acidentes com transportes...? De fato é mais difícil prever e antecipar, mas não é exatamente o tipo de coisa que ocorre com grande freqüência - nem, como vemos na série que os heróis possam de fato fazer muito mais do que já acontece em nosso mundo.

Porque então existe tamanho culto de celebridade para estes seres poderosos? Faria sentido se, vamos supor, seres como Homelander tivessem impedido o ataque das Torres Gêmeas nesta história alternativa (apesar disso ser outra história em quadrinhos...) ou conduzido uma retaliação mais rápida e eficiente aos terroristas da Al Qaeda. Mas os super heróis dessa narrativa não integram ações militares - na verdade até é o ponto da narrativa na primeira temporada para que os heróis da Vought possam integrar ações militares.

Então repito... Porque as pessoas desta realidade se importam tanto com super heróis se não existe demonstração clara (e evidente) de que eles servem a alum propósito que de fato faz da vida das pessoas comuns melhor?

Sei que com artistas isso é similar (nenhum ator de Hollywood ou cantor de qualquer gênero faz de fato com que a vida de seu expectador seja melhor), mas ainda assim a percepção é diferente, assim como a estrutura. Mick Jagger não é famoso por ser famoso, tampouco Beyoncé.

Do que vemos na primeira temporada, Capitão Pátria é famoso por impedir um assalto e fazer discursos em eventos cristãos... Outros personagens como o Translúcido ou mesmo o Black Noir nem isso tem.

Essas pessoas são famosas por seus poderes, então seria importante ver constantemente a demonstração destes poderes na prática para ao menos criar a ilusão de que eles estão contribuindo para a melhora das vidas das pessoas - o que não ocorre ou é demonstrado no seriado. Então, se existe tamanho culto de celebridade... Onde estão os Paparazzi para flagrar super heróis bêbados ou canais sensacionalistas para cobrir cada erro destas figuras como algo execrável (como é)?

Até porque fica ainda mais estranho (ou confuso) quando o seriado deixa claro que estas pessoas poderosas de fato são responsáveis pela estrutura de mídia acerca de suas marcas, como filmes e seriados... Só que isso não faz exatamente muito sentido (a menos que seja o filme dos Jovens Titãs, né?), e até vai contra o propósito do heroísmo como um todo.

Mais: Porque a idolatria aos super é tamanha e tão grande nesta temporada (antes dos supers estarem envolvidos com o exército), já existindo há pelo menos uma década (uma década mais ou menos do sumiço de Becca Butcher quando Capitão Pátria e Rainha Maeve já eram famosos, mas, como Giancarlo Esposito declara no começo da segunda temporada, eles existem há bem mais do que isso, pelo menos desde a segunda guerra mundial com uma versão do Capitão América) ignorando, bem, o aspecto altamente litigioso do ser humano?

Sério, não só Hughie recebe uma oferta de um calaboca pela morte de sua noiva no começo da série como a esposa de Billy e mais alguns personagens são apresentados com situações semelhantes (num encontro de grupo de suporte para vítimas de acidentes com super poderosos). Isso é, ao meu ver, o aspecto mais bizarro da série.

E não importa que o pai de Hughie destaque que processar um super é tão difícil quanto processar um policial... Antes da participação da Vought em contratos militares, deveria ser extremamente comum - e empresas concorrentes deveriam exatamente explorar estes riscos de acidentes civis e ocorrências litigiosas.

Nessa questão do exército, inclusive, é onde está o grande x da questão de porque a cronologia de The Boys faz pouco sentido, se algum. Vemos que Billy Butcher e seu grupo de caçadores de Super tinham aval da CIA em algum momento entre o sumiço de sua mulher e o presente, mas... Porque a CIA e o FBI (e mesmo o congresso norte-americano assim como o exército) não faria mais e mais detalhadas investigações...?

Em uma temporada vemos uma enormidade de corrupções e crimes dos quais a Vought está envolvida (em um período que, quiçá equivalha a um ano), e o governo dos EUA simplesmente ignora crianças sendo drogadas com compostos químicos perigosos que geram poderes aleatórios...?

Sei que algumas destas questões podem ser explicadas ou corrigidas em futuras temporadas (e até um filme de Billy Butcher que deve sair no meio da segunda temporada pela própria Amazon), mas, considerando que estou somente focando nos principais problemas - ou ao menos nos principais que me chamaram a atenção - parece cada vez menos provável que estes erros se corrijam.

23 de julho de 2020

{Remender de Quinta} Deadly Harry Potter


Deadly Class é ruim. Quão ruim? Beeeem, beeeeem ruim.
Não que a premissa em si pareça interessante ou inteligente, é só uma tentativa de fazer um novo Harry Potter mas sem charme, inteligência ou talento.
Ou uma premissa igualmente interessante. Sabe, tipo My Hero Academia (Harry Potter para super heróis).

É Harry Potter para assassinos. Legal, né?
Só que isso se chama 'fantasia de vingança' e 100 Balas explora isso de maneira bem mais inteligente e coerente (uma arma com cem balas irrastreáveis que é entregue a uma pessoa aleatória para fustigar seus inimigos como lhe bem aprouver). Ter uma escola secreta que treina os assassinos de terceira ou quarta geração (sério) é só idiota.

Mas ei, é aquele filme pipoca e idiota pra você desligar o cérebro e curtir. Deixa rolar, ignora que a premissa e idiota e ainda sobra algo legal, né?
Beeeem... A arte do Wes Craig consegue aqui e ali criar algumas cenas interessantes, e esse é o maior (senão único) elogio que eu posso fazer. Só que do primeiro volume que é tudo que eu li, não tem nenhuma cena de fato memorável, notável ou interessante.
Bem longe do primeiro volume de Invisíveis em que tem uma ótima cena de roubo de carro ou o resgate de King Mob a Jack Frost, ou o já citado 100 Balas com Dizzy Cordova (também no volume 1 de sua respectiva série)... Aqui? Tem alguns painéis bem interessantes e muito bem construídos, tem uma ou outra cena mais dinâmica, mas raramente algo que chame a atenção.

Na verdade o que mais vai te chamar a atenção é que existe uma escola para assassinos e o quanto isso é uma ideia idiota.
Mas, ei, pode ser uma analogia mais complexa para nossa sociedade bastante violenta e camadas e mais camadas de metacomentário que... Eu vou interromper um pouquinho aqui tá.
Nessa eu não vou citar séries muito melhores que fazem exatamente isso, vou citar a segunda edição de Deadly Class em que a série faz questão de destacar as panelinhas do colégio de assassinos.

Claro, é um colégio normal de gente que está treinando para ser assassinos, então, obviamente, eles são adolescentes e se reunirão em grupos como adolescentes normais, não é mesmo?
Só que, tem um grupo de filhos de agentes da CIA e do FBI ao mesmo tempo que tem um grupo de filhos de traficantes...? Assim como traficantes da "América do Sul" que se vestem como estereótipos de mexicanos...?
Ah, e sim, tem um cara trepando com animais de fazenda ao final da segunda edição.
Baita metacomentário, hein?

No fim, é vazio, pouco interessante e bastante idiota.
Talvez melhore depois que a série ache seu prumo ou sua voz... Eu só duvido, e não estou a fim de dar outra chance não.

Nota: 2,5/10.

16 de julho de 2020

{Remender de Quinta} Black Science Matters

Quando saiu em 2013 a série chamou a atenção de muita gente (eu, inclusive), e, sem dúvidas por uma enormidade de motivos.
A primeira edição é bem diferente de tudo que existia no mercado (e eu diria que existe até hoje) com uma arte fascinante e estupidificante de Matteo Scalera (em conjunto com Dean White) que realmente dá o tom de mundos bizarros, assustadores e lindos ao mesmo tempo.

É fácil se perder por horas nos detalhes, nos meandros e no quanto existe e exala a cada página destes mundos estranhos e peculiares e, mais que qualquer coisa, quanto há de fato de vida nestes mundos.
Não são meras alegorias, meras figurações. Cada mundo bizarro e louco tem suas regras e está vivo e pulsando de acordo com suas estruturas sociais e sociedades, e isso transparece nas páginas.

Seja um mundo habitado por homens peixe que são escravizados por homens sapo, seja num mundo com símios evoluídos (com braços mecânicos) ou shamans com armaduras do Homem de Ferro, cada sociedade tem suas estruturas e regras que exala a cada página e que fazem sentido dentro de seus mundos, mesmo que eles apareçam por uma edição apenas e isso mostra o esmero e qualidade do trabalho.

Os mundos nunca parecem vazios ou sem uma estrutura coerente, como rotineiramente ocorre na ficção que tenta expandir universos sem manter sua lógica inerente (vide o universo Marvel - cinematográfico ou não - que constantemente ignora que a existência de super heróis mudaria a sociedade para algo mais parecido com o mundo de My Hero Academia que do nosso, e mesmo que metade do universo desapareça em um instante, não parece haver tanta diferença).

Enquanto tudo isso é fascinante e brilhante por si só, não é o suficiente para construir uma história interessante para se navegar.
Sim, os mundos são embasbacantes e cada página é de tirar o fôlego, mas, e...?
E os personagens e seus conflitos e dilemas? Bem, aqui é onde o negócio acaba degringolando um pouco conforme a série avança e é o ponto mais fraco da série sem sombra de dúvidas.

Tudo é rico de detalhes e coisas aterradoras e lindas, mas os dilemas pessoais e privados de cada personagem ou grupo parece vazio e clichê.
O cientista invejoso que sabota o projeto (e cobiça a esposa do protagonista). Os filhos sem uma personalidade definida além de se meterem constantemente em perigo (tipo Jonny Quest). O soldado que quer constantemente demonstrar seu valor...
E por aí vai.

Ninguém particularmente tem uma história rica, e, ninguém particularmente oferece uma história interessante.
Tá, Grant McKay está tendo um caso e esse caso é (ou pode ser) o fator motriz para todos os problemas decorrentes do uso da 'ciência sombria' mas tudo isso parece tangencial e vazio aos universos fantásticos e criativos que a arte nos apresenta.
Esse cara tão inteligente que construiu o pilar que liga as dimensões não se vê capaz de prever e antecipar os riscos inerentes do uso indevido...? Do que poderia (e acaba por) acontecer?

Isso até pode(ria) desenvolver e desenrolar nos capítulos futuros e apresentar coisas interessantes nessas histórias, só que, bem, verdade seja dita não faz.
No primeiro volume mesmo (na edição 5 ou 6) já nos é apresentado um Grant McKay de uma realidade alternativa, e, o volume 2 nos mostra outros e mais destas realidades alternativas e mundos paralelos com ramificações diferentes para as consequências e ações dos personagens...

O grande problema para essas ideias da série em si reside na concorrência pra lá de desleal com Rick and Morty (que surge no mesmo 2013 que a série de Remender), com muito maior desenvolvimento de personagens enquanto propondo basicamente a ideia de explorar universos paralelos e realidades alternativas como mote e chave para desenvolvimento.
Só não tem uma arte tão incrível quanto a de Scalera...
Nisso, depois de algumas edições em que a história dos personagens em si não chama qualquer atenção é fácil que tudo pareça só ruído, e, como aconteceu em 2014 comigo com a série, deixar para lá para acompanhar séries mais interessantes.

Os mundos alternativos e as variações do mesmo personagem fazem muito mais com que nada importe e tenha conseqüência do que, de fato, que os riscos sejam relevantes e importantes (como é a impressão nítida na primeira edição enquanto o protagonista corre freneticamente por sua vida).
Vale a pena conferir, sem dúvidas, só não justifica o baque que a primeira extraordinária edição causa conforme a série avança.

Nota: 7,0/10.

26 de janeiro de 2020

{Editorial} Mas não é o ponto de uma adaptação...?

Sei que quem leu minha resenha de Watchmen da HBO (eu, inclusive) talvez tenha ficado com aquela pulguinha atrás da orelha e pensando constantemente: "Mas não é o ponto de uma adaptação, bem, 'adaptar' o material e dessa forma transformá-lo de uma mídia para outra...?"

E, sim, esse é o ponto.
Mas quando Douglas Adams adaptou "O Guia do Mochileiro das Galáxias" do rádio para a versão impressa, a essência das piadas e dos absurdos ainda estava ali com a ênfase da narração na construção das cenas.
Quando tentaram levar para o cinema, a narração quebrava o fluxo da história, e o negócio todo degringola e perde a graça (mesmo sendo a mesma história). A mudança de mídia, mesmo que usando o mesmo conteúdo, faz com que se perca parte substancial do que caracteriza o material.

Pense em adaptar a pintura da capela Sistina em uma história. Você pode contar a história da pintura (de como ela foi feita, de todo o processo real, da escolha das tintas e etcs) ou você pode contar a história contida na pintura (do que a arte está evocando e tentando transmitir) e até mesmo outras soluções e condições mais estranhas, imaginativas ou fora da casinha (sei lá, as imagens ganhando vida para combater as forças do mal que estão surgindo para destruir o mundo ou algo do tipo), mas nessas três versões (o processo, a figura e uma extrapolação comercial) existe uma enorme mudança no material e por conseguinte na percepção do espectador.

Talvez eu venha a apreciar mais a obra de arte conhecendo sua história, métodos e como ela foi elaborada, ou talvez o exato oposto ocorra. Mas nesse caso eu estou de fato COMPLEMENTANDO a obra, e, num contexto de adaptação, esse é o melhor cenário e dificilmente tem como errar.

Na segunda versão, as coisas tendem a ficar mais complicadas. Ou você esbarra no cenário em que precisa aglutinar fatos e condensar uma experiência para algo que seja facilmente digerível e acessível a um grupo e escopo maiores, de modo que muitas generalizações, simplificações e facilitações ocorrem para que algo abrangente e, muitas vezes ambíguo, se torne mais literal e direto (de novo, visando um escopo maior de espectadores). Aqui caímos no clichê de que 'o livro é melhor que o filme' em que parece que o original apresenta um escopo mais complexo e desafiador que a adaptação que pensa somente em ganhar dinheiro...
Que é basicamente o que o terceiro tipo de projeto faz, mas de forma mais descarada (tipo os Transformers do Michael Bay). 

Mas ainda no segundo grupo, existe um potencial para fazer algo diferente, para expandir numa história e criar algo maior, melhor e mais interessante. Veja Aliens de James Cameron contra Alien do Ridley Scott, ou Blade Runner do mesmo Scott contra Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? do Phillip K Dick.
A personalidade das histórias ainda está ali intacta, e a adaptação (ou continuação) pensa somente em expandir o material e buscar acrescentar e vislumbrar novos horizontes.
Isso é a essência de uma boa adaptação.

Só não é o que Watchmen da HBO faz. A essência da hq reside no fatalismo, na inescapabilidade do passado e num constante jogo pessimista de derrota e conseqüências, enquanto a série explora o passado como um ponto de ruptura que deve permanecer lá enquanto voamos para um novo horizonte com uma tendência otimista (droga, no final tudo dá certo pra todo mundo MESMO com um número substancial de mortos) e, em vários pontos se parece muito mais com 'My Hero Academia' (inclusive com a sucessão de poderes) que com Watchmen...

Droga, mesmo a concepção do trabalho se perde conforme fica claro (ou cada vez mais claro) que quem escreveu o material não entendeu ou não gostou da obra de Alan Moore. É só ver todo o trabalho para justificar a conclusão de Dr Manhattan na obra de Moore (que parte para o universo para criar vida e descobrir os segredos do universo) com uma piada sobre ejaculação precoce.

A partir daí você pode tirar suas próprias conclusões, não?

7 de novembro de 2019

{Resenhas de Quinta} My Hero Academia (Friendship is Magic) - Kohei Horikoshi

Eu confesso que não sei exatamente como resenhar esse material por uma série de motivos...
Resenhar edição por edição é bastante tedioso (alguns dos arcos levam umas boas cinco ou seis edições para concluir sem que exista grande desenvolvimento edição a edição), e resenhar de maneira abrangente parece, por falta de palavra melhor, preguiçoso pra caramba.

Então eu comentaria a premissa, o material que eu li (até a edição 20) e os pontos positivos e negativos gerais da série até o momento (não estou tão atrasado afinal a edição 22 foi recentemente publicada em setembro de 2019).

My Hero Academia é um mangá vastamente inspirado na ideia de quadrinhos de super herói norte americanos, tanto somando a isso o dinamismo da arte e estilos japoneses como trabalhando com conceitos e ideias bem e tipicamente americanos. Pode parecer difícil de imaginar em primeira instância, mas a verdade é que a série faz isso com enorme qualidade.
Esse inclusive é o maior trunfo do material em mesclar tão perfeitamente quadrinhos americanos e japoneses numa narrativa de um jovem que quer se tornar um super herói.

Aqui, é verdade, a trama acaba seguindo um pouco mais dos clichês de histórias japonesas da jornada do herói em combates cada vez mais complexos conforme desenvolve seus poderes (vide os Cavaleiros do Zodíaco enfrentando, literalmente dos cavaleiros de bronze, prata e ouro na sequência, mas existe o exemplo acima de 9000 de Dragon Ball que também funciona bastante aqui). Essa progressão faz bastante sentido aqui, uma vez que se trata de um grupo de adolescentes super poderosos aprendendo a lidar com seus poderes em uma escola à X-men.

Nisso a história acaba tendo enorme dificuldade no começo para engajar o leitor haja vista os números cada vez crescentes de personagens (logo de cara são duas turmas de uma escola de super heróis com 20 alunos cada somadas a um grupo de professores que varia entre cinco e dez e mais um considerável elenco de apoio não relacionado E super vilões). Somado ao fato que alguns personagens são bem parecidos visualmente e com poderes bastante similares ou pouco interessantes (como o rapaz que tem um rabo, e é isso), nem sempre a história vai fluir caudalosamente.

No centro da história estão Izuku Midoriya (Kid) e Katsuki Bakugo (também chamado Kacchan) rivais/amigos que estão em busca do sonho de se tornarem heróis em uma sociedade em que eles 80% da população tem algum tipo de poder. Ambos admiram o grande herói japonês All-Might (que é bem inspirado na cultura norte-americana e inclusive se parece com o que o Superman seria se fosse criado no Japão), e, o cerne do que move e faz o mangá tão interessante está o debate sobre o que faz e constitui um herói.

O mundo criado por Kohei é bem interessante e abusa da lógica para criar um universo que é ao mesmo tempo coerente com a existência de super heróis (ou seja, o mundo mudou e se adaptou a essa realidade ao contrário do que acontece na Marvel e DC em que o mundo é bizarramente idêntico ao nosso com pequenos ajustes), desde estruturas sociais mais mundanas para processos da efetiva ação de super heróis no combate ao crime em sua estrutura burocrática, pragmática e funcional.

Heróis gravam comerciais da mesma forma que modelos (ou youtubers) para continuar relevantes e aparecendo na mídia, afinal suas imagens públicas são importantes para garantir a empregabilidade. Heróis dependem da ação policial para prender criminosos (não basta só deixar o cara preso numa teia de aranha com um bilhete com uma piadinha). Heróis precisam de licenças emitidas pelo governo para atuar (e não seja o que for que a Marvel quis propor em Guerra Civil com o 'registro'), até porque sua função é basicamente um emprego que os expõe em situações de maior periculosidade considerando que eles estão mais preparados (graças a seus poderes) para lidar com os riscos que, digamos, policiais comuns ou bombeiros - mesmo que policiais e bombeiros também manifestem poderes com menor intensidade, mas como o universo estabelece, o trabalho de herói é vastamente concorrido, e arriscado.

Esse mundo é crível e interessante (devido aos personagens diferentes e muito carismáticos estabelecidos), ainda que alguns nomes sejam simplesmente intragáveis (sim, Mineta é o primeiro que obviamente vem à mente, e alguns outros vão depender de gosto, afinal eu acho o Bakugo bem intragável, mesmo que seja o personagem mais popular da série no Japão), e, claro, nem toda história se desenvolva com o mesmo grau de interesse.

Veredito? É um bom mangá, que cria um mundo interessante (e melhor imaginado que muito quadrinhos da Marvel e DC que fazem isso há décadas) ainda que com vários defeitos (devido o excesso de personagens para citar o principal).

19 de outubro de 2019

{Resenhas} X-men de Jonathan Hickman (com Spoilers)

Discutindo mais sobre a trama propriamente dita da hq, vamos do começo: Ela muda bastante a história dos X-men oferecendo uma grande reviravolta com a condição de Moira como uma mutante que, ao morrer, retorna ao momento de seu nascimento com todas as memórias de sua última vida.

Essa mudança estabelece o cerne da trama rocambolesca entre múltiplas linhas do tempo e tentativas de recriar um futuro em que os mutantes tenham algum semblante de chance de coexistir, existir ou resistir num futuro.

A trama de Hickman questiona, de diversas formas o passado dos mutantes (ou seja, tudo que nos trouxe até aqui) para pavimentar o caminho do que está por vir (e muito do que a hq sugere como material por vir, com o futuro de cem - como a Guerra - e mil anos - como a ascensão - no futuro).

Inclusive mostrando futuros possíveis - como aqueles em que Moira desiste de fracassar ao seguir Xavier e segue os vilões Magneto e Apocalipse em suas cruzadas - e como cada uma destas visões acaba invariavelmente fracassando também...

O que traz ao novo presente, um contexto em que o sonho de Xavier precisa se adaptar e reinventar para ser algo com alguma chance de florescer. E, verdade seja dita, a perspectiva é bem interessante e diferente do que já foi tentado antes com os personagens (que, ainda que o grupo mais interessante da editora acabava sempre escorraçado e às margens de personagens bem menos carismáticos como os Vingadores e o chatissimo Quarteto Fantástico).

Tudo isso é muito legal e muito interessante e tem perspectivas incríveis para anos de histórias (como eu já disse), mas tem alguns problemas muito sérios que precisarão de solução para que a coisa toda flua melhor e mais coerente.

Um dos problemas principais, ainda que algo redundante de quadrinhos de super herói (americanos, diga-se de passagem, já que o mangá My Hero Academia é beeeem diferente nesse aspecto), reside na morte e subsequente ressurreição de personagens.
Hickman deixa bem claro que tem uma técnica para ressuscitar qualquer personagem mutante que ele bem entender, e, enquanto isso pode render problemas maiores e confusões ainda maiores (já existe uma série de especulações sobre Xavier alterar a memória de personagens nesse processo de ressuscitação), nesse primeiro momento ao menos fica uma sensação nítida de que dentro desse status quo dos personagens ao ponto de que mortes, lesões sérias ou qualquer outro tipo de complicação permita tão somente o uso do processo convoluto de ressuscitação desenvolvido por Xavier.

Considerando que a própria Marvel trabalhou com algo bem mais interessante no caso do Hulk Imortal do Al Ewing (imbuindo toda a lógica do Hulk e da radiação gama na ideia dos muitos monstros - que como nos filmes de horror, sempre voltam).

De novo, sei que outros quadrinhos trouxeram personagens dos mortos com explicações ainda mais idiotas (quando sequer ofereceram alguma explicação) mas isso não muda o velho problema de que a morte é só uma inconveniência em quadrinhos de super herói - e no caso dos X-men nem chega a tanto, já que com um processo de ressuscitação tão facilitado, poderia com facilidade levar ao extremo da hq de Bryan O'Malley, Repeteco, em que a personagem reinicia a realidade sempre que o mínimo incômodo e inconveniente lhe ocorre (Surgiu uma espinha em meu rosto? Vou ressuscitar em um novo corpo sem espinha...).

Pode render, pode representar algo no longo prazo (até porque a trama com anos 100 e 1000 tende justamente em conceitos de inteligências coletivas e coisas do tipo e esse debate somado com o conceito de individualidade pode render um caldo), mas também pode tirar todo e qualquer senso de perigo imediato... Na verdade, até 'se' existe qualquer perigo.

Tem uma série de personagens omissos que podem representar mudanças significativas (inclusive com suas ausências definitivas das séries mutantes, nos casos de Bishop ou Cable por exemplo, dois viajantes do tempo), mas é o caso da Feiticeira Escarlate (que era mutante, deixou de ser e eu nem faço mais ideia do que é hoje em dia) que pra mim entra num problema mais abrangente dos retcons (como a DC já experimentou algumas vezes) que é o bom e velho 'o que ainda vale na cronologia?'.

Xavier tem conhecimento de eventos futuros desde o 'ano 0' no que molda-se essa nova realidade que estamos lendo na série. Mas o que mudou e muda?
Quais eventos das histórias X mudam completamente e quais continuam valendo como foram publicados...? Sei que isso pode (ou não) ser explorado nos próximos capítulos e anos inclusive (a primeira edição de X-men lançada nessa semana já traz alguns relances sobre isso), mas é justamente nessa reconstrução de mundo - ainda mais um mundo integrado a outros diversos títulos igualmente mensais e algumas vezes conflitantes - que tudo pode degringolar rápido.

Vou dar um voto de confiança e francamente até ignorar bastante do material avulso (como o crossover programado para 2020), até porque no momento o saldo é bem mais positivo que negativo.