Sim, eu disse que não faria resenhas de quadrinhos ou filmes de super-heróis esse ano, mas eu quero fazer um aparte para, o que eu considero uma das piores histórias não só do Demolidor mas no geral que eu já li (e isso só convenientemente agora que a Disney vem relançando a série no streaming):
Caindo em Desgraça, rescentemente
republicada pela Panini.
Eu sei que o que vem depois não é nada melhor, e, é fácil parecer uma hipérbole de que o material é uma das piores histórias, mas deixe eu fazer um breve resumo da trama (nem vou entrar no mérito do monte de personagens e eventos) e você tire suas próprias conclusões se eu estou exagerando.
Em 1963, um experimento do exército desenvolve um vírus misterioso (que é basicamente mágico mas vamos ignorar isso por enquanto) que, agora (em 1993) é o alvo das buscas da organização criminosa Ordem Serpentária (no original Snakeroot, que é uma facção do Tentáculo - com conexões ao vilão da saga Elektra Assassina, a "Besta") com o propósito de ressuscitar Elektra.
Até aqui tudo bem, certo?
No entanto, um número considerável de pessoas também busca esse vírus misterioso por motivos particulares e essas pessoas vão aparecendo a cada capítulo com explicações de como o vírus resolveria seus problemas. Temos uma versão demoníaca vudu do Demolidor (não estou brincando) chamado Hellspawn - que espera virar um menino de verdade com a ajuda do vírus - ou Venom e Morbius - que esperam que o vírus resolva a limitação de seus poderes - além de Silver Sable (essa só é uma mercenária que foi paga para caçar o vírus, ainda que nunca se explique diretamente por ou para que). Além deles temos a Ordem Serpentária que quer ressuscitar Elektra (mencionado no parágrafo anterior), e que conta com a ajuda de John Gareth (que ajuda a personagem em Elektra Assassina - e termina como o presidente dos Estados Unidos), trazendo uma história avulsa da cronologia regular (e que estava perfeitamente bem lá) para a continuidade regular Marvel com explicações bobas e convolutas (sim, o final - ou talvez todos os eventos - de Elektra Assassina se deu na cabeça de Gareth preso em um tanque de animação suspensa na S.H.I.E.L.D.). Curiosamente, tanto a S.H.I.E.L.D. quanto o exército dos Estados Unidos parecem pouco interessadas nessa busca, e, se você está se perguntando porque então o Demolidor está preocupado (quando os antagonistas são personagens do Homem Aranha e a trama envolve elementos que deveriam interessar o Capitão América), bem, eu não sei, porque concomitante a tudo isso uma estagiária do Clarim Diário descobriu os diários do Ben Urich e viu que o Matt Murdock é o Demolidor, é por isso.
Respira, respira...
Vamos lá, eu li não muito tempo atrás o segundo volume de Blueberry, e ele trás um longo arco chamado o 'O Homem que Valia 500.000 dólares' que é uma história envolvendo vários personagens (e grupos) com suas agendas pessoais e propósitos específicos em busca de um mesmo obejtivo (os tais 500.000 dólares). Ainda que alguns grupos e personagens tenham mais destaque que outros, a motivação de cada personagem é clara e evidente - para a maioria é somente ganância enquanto para alguns existem propósitos específicos para o que querem fazer com tanto dinheiro.
O ponto para as motivações destes personagens é claro, específico e definido.
Venom, Silver Sable e a Ordem Serpentária todos querem coisas completamente diferentes com o tal víruso mágico e nenhum destes objetivos é claro, específico ou definido. Cada personagem aparece (e desaparece) da história sem uma lógica inerente de sua participação ou mesmo de suas motivações. Quer dizer, como o mesmo vírus perdido desde 1963 seria capaz de ressuscitar uma pessoa morta, curar um vampiro e aumentar as tolerâncias de um simbionte alienígena?
E eu nem vou entrar no mérito que esse é um universo com jóias do infinito ou cubos cósmicos que podem atender as motivações destes personagens com a mesma facilidade (e talvez maior eficiência) e igualmente um criador poderia facilmente adicionar outro qualquer artefato místico equivalente.
O problema aqui, além de uma história mal escrita, ilógica e sem propósito, é que a narrativa não se constrói de forma natural, orgância e funcional, no que as conclusões não funcionam (e já abordarei esse aspecto nos próximos parágrafos).
Quer dizer, porque a Ordem Serpentária resolve que precisa da Elektra nesse ponto específico? Como apontado, o vírus foi desenvolvido em 1963, Elektra morreu na edição 181 de Demolidor de 1982 (a edição inicial de Caindo em Desgraça é a de número 319 - quase 140 edições e mais de 10 anos depois após as passagens de Frank Miller, Denny O'Neil, o retorno de Frank Miller e Ann Nocenti), então porque esse é o ponto específico em que faz mais sentido que a tal Ordem busque ressuscitar Elektra, e não, sabe, logo após a morte da personagem...?
E porque eles precisam de Elektra especificamente e não qualquer um dos milhares de ninja e assassinos que o universo Marvel produz semana após semana (como a Mary Tifóide da fase de Ann Nocenti ou mesmo o Mercenário que Frank Miller tanto trabalhou?).
Tudo isso faz com que sejam escolhas editoriais conduzindo a história, e não escolhas narrativas.
O mesmo acontece com Matt que muda de uniforme (porque não) e simula a própria morte - algo que pelo menos é familiar com o que acontece durante A Queda de Murdock e mais tarde durante o arco dos X-men Inferno quando se presume que o personagem morre.
E, mesmo presumindo que você ignore tudo que aconteceu até aqui (que o Rei do Crime derrotou o Demolidor duas vezes consecutivas fazendo com que ele perdesse o rumo e vagasse por meses pelos Estados Unidos até finalmente se reencontrar e fazer o necessário para conseguir derrubar tanto o Rei do Crime quanto seus asseclas criando assim um vácuo de poder que todo tipo fantasiado de Nova Iorque tentou aproveitar) ou que você leve isso tudo em consideração, a questão toda é que o Demolidor estava finalmente dando passos para reassumir sua vida (recentemente reatou com a namorada Karen, reiniciou a firma de direito com seu amigo Foggy), porque entrar de cabeça nessa busca obsessiva por uma ex-namorada...?
Mais até que isso, fingir que ele forja a própria morte para sumir com a reportagem sobre sua identidade quando, 1 ele mal dava qualquer tempo do dia para sua identidade civil e 2 a própria história trabalha para desmentir a notícia - e 3 anos mais tarde Brian Bendis fez a mesma história da revelação da identidade, só que, sabe, bem melhor - não faz o menor sentido e interrompe qualquer progresso e lógico até o momento. A situação com Karen e Foggy vão para os ares porque Matt resolve forjar a própria morte, e, nem ao menos tenta reatar com a ex-namorada morta Elektra.
Falando da Elektra, apesar das várias vezes que eu falei que o propósito do arco é ressuscitar a personagem (4 vezes nos parágrafos anteriores - mas quem está contando...?) revelação de spoiler: Ela nem estava morta no fim das contas.
Esse é facilmente o mais confuso aspecto da história, afinal, ela tenta amarrar todos os elementos de histórias anteriores (que são claramente antagônicos - e inclusive não fazem parte da cronologia comum da Marvel naquele ponto, como a série Elektra Assassina) e interpreta completamente errado o final da fase de Frank Miller quando a ordem de ninjas da qual o mestre do Demolidor Stick fazia parte (os Castos, um enclave de ninjas místicos que combate o Tentáculo desde tempos imemoriais) faz um velório da Elektra, e, Matt acredita que vê o semblante da garota como se ela tivesse renascido.
A história deixa a ideia no ar, ainda que fique bastante claro (já na edição seguinte quando o Demolidor joga roleta russa com o Mercenário) que na realidade Elektra continuava tão morta quanto meses atrás, mas Caindo em Desgraça interpreta isso como literal e a ninja estava escondida nas montanhas do Himalia por todo esse tempo em conjunto com os ninjas milenares dos Castos... Então porque ela ficou todos esses anos sem se manifestar simplesmente para voltar agora para impedir a ressurreição de alguém que não era ela (afinal ela não morreu)?
Na verdade, o que eles estão tentando ressuscitar se ela está viva? Ah, jovem padawan, é a essência má de Elektra que ela descartou ao se juntar com os Castos, e agora ela precisa se livrar de seu lado mal (ou ao menos impedir que os vilões fiquem com ela).
(De novo volta às questões de 'porque especificamente agora e não em qualquer momento dos dez anos e quase 140 edições nesse intervalo, mas vamos deixar isso pra lá)
Elektra volta, se une ao Demolidor para enfrentar as hordas de vilões que querem o vírus mágico no último capítulo, para que fiquem os dois sozinhos contra uma gigantesca oposição, e tudo se conclui de maneira pouco satisfatória ou relevante. Matt forja a própria morte mas nem ao menos tenta reatar o relacionamento com Elektra ao mesmo tempo que Elektra sequer tenta partir para cima da Ordem Serpentária (que agora estava bastante exposta) e terminar a luta de uma vez por todas (E, inclusive mal aparece nas edições seguintes pouco ou nada justificando seu retorno no fim das contas).
As coisas não melhoram e a série acaba sendo cancelada, ainda que leve uns bons quatro anos para isso, mas o que vemos claramente é que a interferência editorial forçando não para um desenvolvimento natural da história mas para soluções que ninguém estava pedindo, acabam por afastar o público. Algo que por acaso se parece muito diferente do que a Disney vem fazendo com o MCU hoje...?
Deixando bem claro, D G Chichester é um autor bastante competente (e ele produziu uma que talvez seja minha história favorita com o personagem na edição 304, 34 horas em que acompanhamos pouco mais de um dia na vida do personagem enquanto tenta ajudar o máximo de pessoas possível - além de produzir o arco Ritos Finais que é bem sólido), e Scott McDaniel é um dos meus artistas favoritos (com seu trabalho no Batman e Asa Noturna principalmente, é verdade), ainda que a série já apontasse para um navio com crossovers e mais crossovers e cada vez menos desenvolvimento para os personagens e as histórias eclodindo nessa bagunça sem fim e sem sentido.
E que no final ninguém aprende nada com os erros do passado...