Se você nunca ouviu falar de uma franquia de jogos de videogame chamada Silent Hill (que em breve voltará aos cinemas) ela e conta a história de uma cidade nefasta constantemente permeada por névoa onde monstros habitam para torturar os poucos que são tolos ou aventureiros o suficiente para passar pelas fronteiras pela cidade.
O segundo jogo coloca James Sunderland aventurando pela cidade em busca da esposa falecida que, curiosamente, lhe enviou uma carta, e, entre os muitos finais da história, as variações são de deprimentes a péssimas (desde o protagonista se matando a descobrir que é diretamente responsável pela morte de sua finada esposa) até, bem, a descoberta que o arquiteto de todo o sofrimento de James é um cachorro (e, claro, que isso explica tudo). E, olha, enquanto eu poderia falar muito mais sobre todo o contexto de Silent Hill - e talvez eu o faça num fuutro não muito distante - e todo o trauma e problema experimentados pelo protagonista e os coadjuvantes, eu preciso lembrar que esse é um texto sobre Stranger Things e não Silent Hill.
E enquanto o jogo na época com toda a certeza teve mais liberdade para trabalhar e desenvolver James e mesmo a cidade do que o mega projeto da Netflix que emplacou uma série de atores e atrizes desde o seu lançamento pouco menos de uma década atrás - desde gente que foi para o MCU ou estrelou franquias diversas como King Kong e It e Caça Fantasmas, até gente que não se deu tão bem com o remake dos Power Rangers - o material permite pra Netflix vender Mclanche feliz, capa de caderno e bolacha recheada, e, foi aos poucos tirando a urgência e capacidade dos autores de contar a sua história e da forma que assim preferiam.
E eu não vou entrar em spoilers para te dizer o que acontece ou deixa de acontecer no final, talvez você até enxergue que a interação final dos garotos (e inclusive conforme os créditos sobem) que exista algo mais complexo, como que essa gurizada estava jogando RPG o tempo todo e essa piração de monstros, mundo invertido e segredos militares são uma forma de contextualizar através do jogo de fantasia toda a frustração e trauma.
Sinceramente, se essa fosse a direção real, droga seria um final muito melhor (e mais honesto com o conteúdo do show) num realismo fantástico à Scott Pilgrim vendo o mundo como um videogame (com um ponto importante nos capítulos finais em que ele confronta o passado de seus relacionamentos e descobre que, bem , não foi assim tão brilhante) ou o mundo de Kevin can Fuck Himself em que a protagonista se vê presa em uma realidade deprimente e um simulacro de sitcom multicâmeras quando diante do marido.
Ainda que essa não seja essa direção do final ou mesmo da série de maneira alguma. Sim, existe um monte de simbolismo em que as lembranças e traumas do passado são revisitados enquanto as pessoas estão dentro das mentes e memórias uma das outras perseguindos monstros literais e figurativos em algo mais próximo de Akira - em que os monstros são uma externalização dos sentimentos e problemas internos, e não uma metáfora ou comentário - e eu continuo citando finais e histórias melhores que não são o que Stranger Things caminha ou tenta produzir.
Sim, o final traça uma série de paralelos diretos ao final de O Retorno do Rei (enquanto isso é bem evidente), inclusive com múltiplas conclusões para
os desfechos dos personagens individualmente e a partida para uma névoa
da vida adulta, após a derrota do vilão (que controla um número definido de pessoas - como os anéis) numa terra desolada... Droga, eles até evocam o Sean Astin (que aparece nas imagens finais depois de ninguém lembrar dele por várias temporadas) nos momentos finais da série...
Se você conferir as temporadas anteriores fica claro que existem escolhas difíceis que foram necessárias para o desenvolvimento dos personagens e da narrativa (talvez até por obrigações contratuais, é verdade), mas que eliminam atores e mudam os cenários e núcleos, criando e desenvolvendo a história de maneiras diferentes.
Nisso, em decisões muito mais contratuais que narrativas, a Netflix viu que a série precisava de um final e construir um final emblemático, gigantesco e épico, construindo para isso um grande vilão que serviria como o canal para justificar, explicar e contextualizar toda a série, e, na forma de Vecna que é o grande monstro capaz de matar criancinhas para seu plano terrível de destruir o mundo (e que obviamente vem desde a primeira temporada) vem como o chefão final para ser vencido e, com sua derrota, fazer com que tudo fique bem no mundo novamente.
E eu nem vou ficar buscando furos do roteiro com elementos das temporadas passadas (quando você não precisa ir nem muito longe na própria quinta temporada com a Linda Hamilton pra gente focar em apenas um ponto), porque nada disso é relevante. Esse mega-evento dividindo a """"temporada final (TM)"""" em três partes com um filme de duas horas como o capítulo final e lançado nos minutos finais de 2025 (assim como os outros episódios foram lançados pouco antes do Natal - e, vale lembrar, em momentos que muitas vezes não existe lançamentos de episódios novos de outras séries, além de acontecer a reunião e confraternização do público consumidor, e, com isso ter assunto para discutir numa ceia com seus amigos e família - ou mesmo para assistir com essa galera todo mundo junto enquanto aguarda o peru).
Isso não foi produzido para fazer sentido ou funcionar enquanto roteiro mas como evento, então julgar com base do argumento do material é perder a perspectiva de que ele não existe para ser visto como um material.
Parece até roteiro produzido por IA com um salto cronológico de um ano e meio no final da história que ignora completamente a tensão da cena anterior (sim, o grupo estava detido pelo exército em uma instalação militar, mas, puff, um ano e meio depois) porque a série quer um final feliz e otimista para deixar todo mundo contente e pimpão na hora de estourar a cidra (edição especial Stranger Things (R) ) ou pura e simplesmente acordar nos momentos finais e perceber que tudo termina bem com todo mundo feliz sem levar em consideração todo o processo.
James Sunderland não pode simplesmente deixar Silent Hill e encontrar uma lâmpada mágica que traz sua esposa de volta e tampouco funciona para o elenco de Stranger Things para voltar a um porão mofado para jogar RPG depois de sobreviver a ataques de monstros terríveis de dimensões paralelas capazes de destruir o universo.
Falta talvez que este final estendido se dê mais tempo no final que na pirotecnia e nos apresente como essa gurizada seria capaz de retornar a um semblante de vida normal e suburbana depois de tudo o que viveram, mas a verdade é que falta coragem para fazer um final que não deixe a porta aberta para spin offs (As Novas Aventuras de Nancy e Robin (R) em junho, somente na Netflix), continuações (Strangest Things (R) em 2027, somente na Netflix), animações (Strangers Things babies (R) em maio, somente na Netflix) e todo tipo de material derivado promocional imaginado.
O final tem que servir justamente para isso e oferecer uma fantástica dose de sacarina e nostalgia em quantidades cavalares para permitir retornar à fonte quantas vezes a sinergia corporativa permitir. Não é mais sobre concluir a história, não é mais sobre o grupo de garotos nerds de uma cidade suburbana dos Estados Unidos que se encontraram num filme de terror... É para oferecer um show do Coldplay cheio de positividade para agradar uma molecada que começou a assistir motivada por algoritmo da internet e quer um final feliz e fofinho (que, de novo, vai permitir a manutenção do ciclo).
Se você pensar no final de que tudo é apenas um jogo de RPG, é curioso como ele se parece bem mais com o final do cachorro de Silent Hill que eu mencionei antes (sim, isso explica tudo), porque ele parece coerente como uma análise mais abrangente (nada do extraordinário de fato aconteceu além da imaginação das crianças), mas muito se perde no contexto do que é real ou não (e que é um problema constante quando uma história tenta um narrador não confiável de último minuto), porque você tem que costurar a história para entender onde ela é literal e onde ela é fantasia mesmo que em alguns pontos isso faça mais ou menos sentido (monstros e mundo invertido? Fantasia. Família se mudando para a Califórnia ou valentões do time de basquete perseguindo jogadores de RPG - que não vai ter qualquer conclusão narrativa satisfatória...? Um pouco exagerado...?).
Tá, eu sei que o material é para jovens adultos e, como praticamente tudo nesse gênero ele sequer tenta alguma abordagem mais complexa (sim, existe uma escola de magia nos arredores de Londres, e Dorothy não está mais no Kansas, Totó), mas o gênero de horror no qual a série tem raízes mais profundas tem em seu DNA um comentário social mais complexo e desafiador... Só que nem é só isso.
Quer dizer, o final da série tenta te oferecer uma noção que essa molecada que viu monstros pandimensionais e transitou por buracos de minhoca voltaria para uma vida normal para se formar do colegial e operar como peças produtivas e eficientes do complexo industrial capitalista. Todo mundo rumo a faculdade e formas de atuarem como membros produtivos da sociedade, ninguém questionando a ação do exército em uma cidadezinha ou todo o caos e destruição... Apenas uma devoção inalianável a uma promessa da vida idealizada e perfeita que os espera.
E isso é o que torna o final ainda mais patético quando a gente considera que ele quer fazer um paralelo direto ao Retorno do Rei, e mesmo nele os personagens não voltam para suas vidinhas idílicas e perfeitas numa devoção inalianável de suas vidas idealizadas e perfeitas. Frodo mesmo não consegue se adaptar ao retorno ao condado (e por isso parte com os elfos e abandona a Terra-Média), e mesmo os demais personagens estão mudados e tem reações diferentes a voltar para suas vidinhas comuns.