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4 de janeiro de 2026

{Explicando o fim...} O final melancólico de Stranger Things

Se você nunca ouviu falar de uma franquia de jogos de videogame chamada Silent Hill (que em breve voltará aos cinemas) ela e conta a história de uma cidade nefasta constantemente permeada por névoa onde monstros habitam para torturar os poucos que são tolos ou aventureiros o suficiente para passar pelas fronteiras pela cidade.

O segundo jogo coloca James Sunderland aventurando pela cidade em busca da esposa falecida que, curiosamente, lhe enviou uma carta, e, entre os muitos finais da história, as variações são de deprimentes a péssimas (desde o protagonista se matando a descobrir que é diretamente responsável pela morte de sua finada esposa) até, bem, a descoberta que o arquiteto de todo o sofrimento de James é um cachorro (e, claro, que isso explica tudo). E, olha, enquanto eu poderia falar muito mais sobre todo o contexto de Silent Hill - e talvez eu o faça num fuutro não muito distante - e todo o trauma e problema experimentados pelo protagonista e os coadjuvantes, eu preciso lembrar que esse é um texto sobre Stranger Things e não Silent Hill.

E enquanto o jogo na época com toda a certeza teve mais liberdade para trabalhar e desenvolver James e mesmo a cidade do que o mega projeto da Netflix que emplacou uma série de atores e atrizes desde o seu lançamento pouco menos de uma década atrás - desde gente que foi para o MCU ou estrelou franquias diversas como King Kong e It e Caça Fantasmas, até gente que não se deu tão bem com o remake dos Power Rangers - o material permite pra Netflix vender Mclanche feliz, capa de caderno e bolacha recheada, e, foi aos poucos tirando a urgência e capacidade dos autores de contar a sua história e da forma que assim preferiam.

E eu não vou entrar em spoilers para te dizer o que acontece ou deixa de acontecer no final, talvez você até enxergue que a interação final dos garotos (e inclusive conforme os créditos sobem) que exista algo mais complexo, como que essa gurizada estava jogando RPG o tempo todo e essa piração de monstros, mundo invertido e segredos militares são uma forma de contextualizar através do jogo de fantasia toda a frustração e trauma. 

Sinceramente, se essa fosse a direção real, droga seria um final muito melhor (e mais honesto com o conteúdo do show) num realismo fantástico à Scott Pilgrim vendo o mundo como um videogame (com um ponto importante nos capítulos finais em que ele confronta o passado de seus relacionamentos e descobre que, bem , não foi assim tão brilhante) ou o mundo de Kevin can Fuck Himself em que a protagonista se vê presa em uma realidade deprimente e um simulacro de sitcom multicâmeras quando diante do marido.

Ainda que essa não seja essa direção do final ou mesmo da série de maneira alguma. Sim, existe um monte de simbolismo em que as lembranças e traumas do passado são revisitados enquanto as pessoas estão dentro das mentes e memórias uma das outras perseguindos monstros literais e figurativos em algo mais próximo de Akira - em que os monstros são uma externalização dos sentimentos e problemas internos, e não uma metáfora ou comentário - e eu continuo citando finais e histórias melhores que não são o que Stranger Things caminha ou tenta produzir.

Sim, o final traça uma série de paralelos diretos ao final de O Retorno do Rei (enquanto isso é bem evidente), inclusive com múltiplas conclusões para os desfechos dos personagens individualmente e a partida para uma névoa da vida adulta, após a derrota do vilão (que controla um número definido de pessoas - como os anéis) numa terra desolada... Droga, eles até evocam o Sean Astin (que aparece  nas imagens finais depois de ninguém lembrar dele por várias temporadas) nos momentos finais da série... 

Se você conferir as temporadas anteriores fica claro que existem escolhas difíceis que foram necessárias para o desenvolvimento dos personagens e da narrativa (talvez até por obrigações contratuais, é verdade), mas que eliminam atores e mudam os cenários e núcleos, criando e desenvolvendo a história de maneiras diferentes.

Nisso, em decisões muito mais contratuais que narrativas, a Netflix viu que a série precisava de um final e construir um final emblemático, gigantesco e épico, construindo para isso um grande vilão que serviria como o canal para justificar, explicar e contextualizar toda a série, e, na forma de Vecna que é o grande monstro capaz de matar criancinhas para seu plano terrível de destruir o mundo (e que obviamente vem desde a primeira temporada) vem como o chefão final para ser vencido e, com sua derrota, fazer com que tudo fique bem no mundo novamente.

E eu nem vou ficar buscando furos do roteiro com elementos das temporadas passadas (quando você não precisa ir nem muito longe na própria quinta temporada com a Linda Hamilton pra gente focar em apenas um ponto), porque nada disso é relevante. Esse mega-evento dividindo a """"temporada final (TM)"""" em três partes com um filme de duas horas como o capítulo final e lançado nos minutos finais de 2025 (assim como os outros episódios foram lançados pouco antes do Natal - e, vale lembrar, em momentos que muitas vezes não existe lançamentos de episódios novos de outras séries, além de acontecer a reunião e confraternização do público consumidor, e, com isso ter assunto para discutir numa ceia com seus amigos e família - ou mesmo para assistir com essa galera todo mundo junto enquanto aguarda o peru).

Isso não foi produzido para fazer sentido ou funcionar enquanto roteiro mas como evento, então julgar com base do argumento do material é perder a perspectiva de que ele não existe para ser visto como um material.

Parece até roteiro produzido por IA com um salto cronológico de um ano e meio no final da história que ignora completamente a tensão da cena anterior (sim, o grupo estava detido pelo exército em uma instalação militar, mas, puff, um ano e meio depois) porque a série quer um final feliz e otimista para deixar todo mundo contente e pimpão na hora de estourar a cidra (edição especial Stranger Things (R) ) ou pura e simplesmente acordar nos momentos finais e perceber que tudo termina bem com todo mundo feliz sem levar em consideração todo o processo.

James Sunderland não pode simplesmente deixar Silent Hill e encontrar uma lâmpada mágica que traz sua esposa de volta e tampouco funciona para o elenco de Stranger Things para voltar a um porão mofado para jogar RPG depois de sobreviver a ataques de monstros terríveis de dimensões paralelas capazes de destruir o universo.

Falta talvez que este final estendido se dê mais tempo no final que na pirotecnia e nos apresente como essa gurizada seria capaz de retornar a um semblante de vida normal e suburbana depois de tudo o que viveram, mas a verdade é que falta coragem para fazer um final que não deixe a porta aberta para spin offs (As Novas Aventuras de Nancy e Robin (R) em junho, somente na Netflix), continuações (Strangest Things (R) em 2027, somente na Netflix), animações (Strangers Things babies (R) em maio, somente na Netflix) e todo tipo de material derivado promocional imaginado.

O final tem que servir justamente para isso e oferecer uma fantástica dose de sacarina e nostalgia em quantidades cavalares para permitir retornar à fonte quantas vezes a sinergia corporativa permitir. Não é mais sobre concluir a história, não é mais sobre o grupo de garotos nerds de uma cidade suburbana dos Estados Unidos que se encontraram num filme de terror... É para oferecer um show do Coldplay cheio de positividade para agradar uma molecada que começou a assistir motivada por algoritmo da internet e quer um final feliz e fofinho (que, de novo, vai permitir a manutenção do ciclo).

Se você pensar no final de que tudo é apenas um jogo de RPG, é curioso como ele se parece bem mais com o final do cachorro de Silent Hill que eu mencionei antes (sim, isso explica tudo), porque ele parece coerente como uma análise mais abrangente (nada do extraordinário de fato aconteceu além da imaginação das crianças), mas muito se perde no contexto do que é real ou não (e que é um problema constante quando uma história tenta um narrador não confiável de último minuto), porque você tem que costurar a história para entender onde ela é literal e onde ela é fantasia mesmo que em alguns pontos isso faça mais ou menos sentido (monstros e mundo invertido? Fantasia. Família se mudando para a Califórnia ou valentões do time de basquete perseguindo jogadores de RPG - que não vai ter qualquer conclusão narrativa satisfatória...? Um pouco exagerado...?).

Tá, eu sei que o material é para jovens adultos e, como praticamente tudo nesse gênero ele sequer tenta alguma abordagem mais complexa (sim, existe uma escola de magia nos arredores de Londres, e Dorothy não está mais no Kansas, Totó), mas o gênero de horror no qual a série tem raízes mais profundas tem em seu DNA um comentário social mais complexo e desafiador... Só que nem é só isso.

Quer dizer, o final da série tenta te oferecer uma noção que essa molecada que viu monstros pandimensionais e transitou por buracos de minhoca voltaria para uma vida normal para se formar do colegial e operar como peças produtivas e eficientes do complexo industrial capitalista. Todo mundo rumo a faculdade e formas de atuarem como membros produtivos da sociedade, ninguém questionando a ação do exército em uma cidadezinha ou todo o caos e destruição... Apenas uma devoção inalianável a uma promessa da vida idealizada e perfeita que os espera.

E isso é o que torna o final ainda mais patético quando a gente considera que ele quer fazer um paralelo direto ao Retorno do Rei, e mesmo nele os personagens não voltam para suas vidinhas idílicas e perfeitas numa devoção inalianável de suas vidas idealizadas e perfeitas. Frodo mesmo não consegue se adaptar ao retorno ao condado (e por isso parte com os elfos e abandona a Terra-Média), e mesmo os demais personagens estão mudados e tem reações diferentes a voltar para suas vidinhas comuns. 

9 de novembro de 2025

{Explicando o fim...} Round 6

Eu poderia gastar horas explicando porque o final de Round 6 é decepcionante...? Não, honestamente.

O final é bastante clichê, verdade seja dita, e diga o que quiserem, mas não existia nem motivo para mais de uma temporada - ou, pelo menos não da forma como seguiram as duas temporadas seguintes - a menos que você considere uma ponta de dez segundos sem diálogo de uma atriz incrivelmente conhecida (e que não agrega absolutamente nada para a cena ou a série) algo que mereça discussão e debate - enquanto eu acho que isso é simples e unicamente análise excessiva.

Não existe nada para se observar, analisar ou discutir no final de Round 6 além de como é um final vazio, apático e, categoricamente, sem nenhum do impacto e crítica contundente ao contrário do que fez a primeira temporada um fenômeno global. Então porque isso aconteceu?

Bem, esse é o ponto que pretendo analisar nesse post, ainda que não pareça categoricamente difícil de entender (é o capitalismo, baby), mas eu pretendo demonstrar através de alguns exemplos na história não tão antiga que demonstram como isso acontece de novo e de novo e porque.

Começando quase cinco décadas atrás quando Rambo - Programado para Matar um livro de 1972 e adaptado para os cinemas uma década depois, e, se tornou um baita sucesso rendendo várias continuações, uma série animada (com duas temporadas e sessenta e cinco episódios!) e mais uma série de brinquedos, lancheiras e todo tipo de merchandising... O que é particularmente curioso porque o filme original era voltado para adultos ao lidar com assuntos pesados como transtorno pós-traumático e o tratamento de veteranos de guerra (que vale lembrar, no filme e no livro são tratados pior nos Estados Unidos que no país em que estavam combatendo - Rambo especificamente conta histórias sobre frequentar bares com outros soldados em Vietnam enquanto é escorraçado por um xerife pura e simplesmente por cruzar uma cidade).

O ponto todo do livro de David Morrell está no fato que esses jovens foram mandados para lutar em guerras pelas quais ninguém se importa - inclusive com esses jovens quando voltam para casa. Não existe nenhum reconhecimento ou parada. O que acontece depois? Uma franquia em que Rambo vence o Vietnam sozinho mais de uma década depois do fim do conflito enquanto vendendo lancheiras para crianças, e com isso toda a crítica contundente se torna pasteurizada e perdida numa confusão para criar (mais) um supersoldado herói de ação genérico.

Não é um caso isolado, alguns talvez até foram sucessos maiores (como as Tartarugas Ninja que eram um quadrinho beeeeem violento e foram adaptadas na maior franquia animada dos anos 1990 e que continua a render frutos) e no geral o motivo principal é grana com toda a certeza, e não só certeza é pungente. Essa é a lógica da Netflix aqui com Round 6 também, vendendo ultraprocessado de frango, fantasia de Carnaval e Halloween e licenciando o material para tudo possível e imaginável - inclusive com um esforço enorme para infantilizar o conteúdo e vender para crianças através do Mr Beast (e não só ele).

Marketing, propagação da marca, lave e repita. Isso obviamente dilui o argumento, e quando a segunda e terceira temporadas surgem anos mais tarde, você já viu tantas variações e diferenciações que não existe muito mais que a franquia de fato conseguiria criar de novo ou interessante, não é mesmo? Ou mesmo que consiga algum baita argumento fantástico, ele se dilui e perde em alguma das incontáveis peças obrigatórias para garantir o número de episódios ou o tempo de duração firmados em contrato.

E, vamos lembrar, a Netflix conseguiu muito sucesso buscando contratos fora do mercado estadunidense, justamente ao buscar brechas e condições de distribuição mais baratas, onde encontrou na Índia e Coréia do Sul lugares espetaculares para comprar novelas e programas para lotar suas grades ao passo que concorrentes surgiam.

Nada disso foi realizado com a perspectiva de encontrar ouro, e sim de lotar a grade, e, se por sorte/coincidência algo se tornasse um fenômeno global, bem, não é como se eles tivessem grande coisa a perder - provavelmente com os contratos já bem amarradinhos para garantir maximização de lucros, distribuição e merchandising, e, caso precisassem renovar, eles tem um número gigantesco de advogados e executivos prontos para oferecer todo tipo de conversinha para dissuadir um criador sonhador (como oferecer um bônus de performance com coisas do tipo "Ei, mas na primeira temporada você não teve toda a máquina da Netflix para promover seu show, e agora ele já é um fenômeno global... A segunda temporada claramente terá muuuuuuito mais audiência").

Sim, dinheiro e cinismo, a mais fantástica combinação para garantir maximização de lucros e a precarização de resultados (o que inclusive oferece melhor condições de barganha pra maldita empresa na renovação de contrato devido a redução nos números da série - enquanto a empresa lucra horrores com licenciamento). E não duvide que isso (forçar metas impossíveis depois de um sucesso único em uma geração enquanto diluindo os retornos continuamente) seja tática padrão dos contratos para que o criador tenha o mínimo de controle criativo e abra mão de seguranças financeiras importantíssimas.

Veja, voltando para Rambo, o final do livro é bem diferente do filme. Rambo morre no final (e não apenas morre como é assassinado pelo Coronel Trautman) como uma mensagem clara do governo estadunidense varrendo os veteranos do Vietnam como meros inconvenientes, o que claramente é uma mensagem bastante crítica não apenas da 'Murica como da estrutura do complexo industrial militar fomentado pelo capitalismo... Mas se Rambo se redime e vira o grande herói de ação em filmes subsequentes (e séries de animação) enquanto reconhecido como o mais brilhante soldado vivo, bem, a mensagem vira outra bem diferente, não é mesmo? A mensagem quase se torna nula e inválida, pasteurizada e perdida numa masturbatória ode ao soldado estadunidense que vence uma guerra sozinho porque nada ou ninguém se compara (USA, USA!!!) 

Rambo não é mais um soldado lidando com trauma, ele é um herói.

A mensagem muda e o dinheiro continua jorrando, mesmo que o ponto se perca completamente.

Então o que acontece com Round 6? A primeira temporada é uma severa crítica ao capitalismo que joga pessoas em uma série de competições (que são jogos infantis tradicionais na Coréia) ao mais completo desespero para aceitar condições abjetas por uma promessa de recompensa gigantesca - que pode ou não vir - e que força as pessoas a seus instintos mais crueis, vis e primitivos pela sobrevivência. Como você continua quando a situação chega às últimas consequências e alguém vence nesse jogo?

Bem, a conclusão lógica é de partir para o enfrentamento para destruir a estrutura e acabar com o jogo, expondo o quão absurdo e ilegal ele de fato é (afinal todo aquele monte de gente morrendo para diversão de meia dúzia de apostadores bilionários), mas, conforme o sucesso da primeira temporada e tudo o que eu argumentei até agora, eles precisam refazer o jogo e reestabelecer os elementos e agregar novos conceitos (novos jogos e desafios) enquanto conduzindo algum mínimo de trama sobre o enfrentamento para destruir essa estrutura e acabar com essa máquina maligna de moer gente.

No entanto essa não é a mensagem que os produtores e executivos querem - pois a estrutura e máquina maligna de moer gente gera audiência e consegue contratos de licenciamento - e talvez funcione melhor com um 'Mas será que o verdadeiro Round 6 não são os amigos que formamos pelo caminho?' ou algo nas linhas de que talvez o problema sejam as pessoas ruins que mantém o jogo e não o jogo em si...

Indiferente, o final todo se volta em tentar criar uma imagem positiva e deixar claro que é impossível acabar com essa estrutura toda - pois sempre haverá alguém para assumir o controle do jogo, talvez até a multitalentosa Cate Blanchet...

Lave e repita... 

12 de junho de 2025

{Explicando o Fim...} Anora (com spoilers)

Enquanto eu sei que eu poderia facilmente fazer uma resenha e comentar o filme (e seu final) eu genuinamente não acredito que eu conseguiria fazer isso direito sem spoilers.

Então eu vou falar brevemente sobre o filme e quando chegar na parte dos spoilers eu te avisarei - mas essa parte será importante para explicar o filme como um todo e o que faz dele realmente brilhante.

Sem spoilers, o filme tem um roteiro e direção arrebatadoras, e, ainda que alguns momentos sejam mais explícitos o que pode ser desconfortável para certos públicos, eu acho que o vocabulário explícito é mais desconfortável que qualquer cena de teor ou conotação sexual, mas, claro, sua milhagem pode variar.

O filme começa num caminho (com luzes brilhantes e filtros de instagram) e cria algo que parece que vai seguir um rumo até mudar drasticamente (mudando também o tom das luzes e câmeras para algo bem mais sombrio e realista) e continuar mudando e apresentando cenários e rumos bem diferentes do que você imaginaria.

Começa parecendo um conto de fadas moderno e termina, bem, como um conto de fadas moderno terminaria se deparando com a realidade. Você pode imaginar que vai assistir Uma Linda Mulher nos anos 2020 mas você acaba como A Primeira Noite de um Homem - com os personagens tendo seu grande momento épico e catártico para depois contemplar as consequências (e perceber que não fazem a menor ideia de como seguir a partir dali).

No entanto com Anora, isso é um ponto bem antes da metade do filme e passamos todo o restante do tempo vendo as consequências se desfraldando.

Última coisa antes dos spoilers, se eu acho que o filme mereceu os Oscar, inclusive de melhor atriz?

Sean Baker, sem sombra de dúvidas mereceu o prêmio (acho que o único filme que chega perto do que Anora faz com as escolhas de cinematografia é Pecadores, mas esse só saiu agora em 2025), e o filme realmente é surpreendente, ainda que acabe mais na subjetividade se é o melhor ou não do ano, e, na mesma subjetividade, cai a questão da melhor atriz.

Não querendo puxar a sardinha pra Fernanda Torres, mas eu acho que entre ela e Mikey Madison, a brasileira tem uma pequena vantagem (que de novo, é bem subjetiva), e ao meu ver reside no fato que eu tenho bem maior simpatia pela personagem vivida por Fernanda que pela desbocada Anora. Mas, a atuação de Madison consegue produzir um impacto maior, talvez inclusive, pelo fato de sua personagem ser muito mais antipática e ainda assim ela conseguir expor nuances da personalidade dela (inclusive com o final que diz muito sobre essa personalidade).

Então sim, o filme mereceu os prêmios que recebeu mesmo que talvez ele não vá agradar a todos, principalmente porque ele é um filme bem mais adulto que, bem, todos os filmes que eu citei até agora e que são utilizados como comparação. Não é uma princesinha Disney, não é a Cinderella para o século XXI, é uma prostituta, digo, uma "dançarina exótica norte-americana" (que é sinônimo para prostituta, mas num país onde prostituição é ilegal) que se envolve com um cliente bilionário, e as coisas desandam.

Ok? Então agora vamos para a área de spoilers, e se você não quiser ler sobre eles, por favor assista ao filme e volte aqui depois.

Sério, eu não vou oferecer mais cinco avisos consecutivos, esse é o ponto dos spoilers sobre o filme e eu não quero ver alguém comentando que eu não avisei o suficiente.

 

 

 

 

Passado mais ou menos a marca dos 40 minutos, depois de todo o deslumbramento e do fascínio de uma aventura longa e exótica cheia de excessos (sim, pleonasmo), com toda o ostentação, luxo e a vida boa que o dinheiro pode comprar, a família bilionária descobre o que o herdeiro morando nos EUA aprontou dessa vez e resolve mandar algumas pessoas para resolver a situação.

O filme abandona os tons de instagram para oferecer algo mais sujo, mais realista conforme a ficha começa a cair. Anora vê que sua vida não virou um conto de fadas enquanto seu "marido" parece uma criança que enxerga nela apenas um brinquedo (para sexo, claro, mas um brinquedo não obstante) e, um inconveniente.

Quando funcionários de seus pais aparecem para confrontá-lo, ele foge para continuar numa aventura longa de excessos, enquanto os funcionários dos pais e Anora precisam enfrentar os fatos, ainda que, por uma boa parte do tempo remanescente do filme a protagonista tentará juntar as peças para visualizar melhor a figura, e entender a imagem maior (e inclusive para entender que ela é apenas um brinquedinho e inconveniente na briga de um garoto mimado com os pais).

Entender qual é o seu papel, e, mais importante, o quanto ela se deixou levar pela fantasia e pelo delírio dos excessos até que de fato a realidade venha mostrar sua face cruel e as consequências surjam, leva a toda uma compreensão difícil sobre o escapismo (que os clientes de Anora também buscavam em suas visitas ao clube de "dança exótica", vale destacar) coincide com os filtros de instragram de uma realidade simulada para parecer mais interessante e fascinante que de fato é.

O final não oferece nenhuma grande revelação diferente do que o filme já tinha mostrado, mas serve para cimentar além de qualquer dúvida e reforçar o argumento do filme - Anora tem problemas de intimidade, e, de forma paradoxal, usa do sexo para evitar contato humano, algo que fica evidente na cena final enquanto ela tenta evitar beijar uma pessoa (que demonstra respeitá-la e com quem ela denota algum interesse genuíno) durante o ato sexual.

Sem entrar em argumentos vazios sobre como esse é um comentário sobre a estrutura artifical da vida moderna diante dos telefones e com mera percepção de realidade atráves de filtros de redes sociais que nos afastam do contato com o humano e real, e, mais que isso, com nossos próprios sentimentos e emoções. Isso é palavrório vazio.

O filme não me parece tentar nenhuma tese extremamente complicada além de oferecer um estudo sobre personagens, e, através destes personagens oferecer um reflexo maior de nossa realidade.

Até por isso ele oferece uma jornada com uma estrutura diferente e com uma perspectiva diferente do que comumente se vê, e por conseguinte, espera desse tipo de filme: Garota conhece garoto, se apaixona e enfrenta uma série de desafios para se adaptar com a família (que a odeia pura e simplesmente ou odeia as origens - humildes ou não - dela), o amor conquista tudo e triunfa ao final.

Você já assistiu a uma dezena de filmes (exatamente) assim, e, honestamente mesmo nessa década você sabe que um ou outro cabe exatamente nesse molde.

E esse é um molde estúpido. O amor não conquista tudo nem triunfa no final.

Diversos fatores interferem para que um relacionamento fracasse, muitos dos quais antecedem a primeira troca de olhares, e, esse é um ponto crucial que o filme aponta com seu final. Anora precisa corrigir muita coisa em si própria para que consiga desenvolver uma relação sadia e funcional, e, tudo isso exige tempo e esforço (e não apenas uma crença vazia que o amor conquista tudo e triunfa ao final).

Ok, o filme não reinventa a roda, mas quebra o molde e oferece uma visão mais completa e por tabela mais complexa do exato tipo de situação e cenário que tantos e tantos filmes similares fazem questão de ignorar ou fingir que, bem, está tudo bem e Julia Roberts, ex-prostituta se casa com um empresário Richard Gere e tem uma vida feliz e contente sem nenhum problema que essa bagagem e passado pode trazer - porque afinal de contas casais nunca brigam ou discutem, e discussões nunca ficam feias para usar elementos do passado do outro. 

18 de maio de 2025

{Explicando o fim} Peep Show e sua antítese em Friends

Friends foi a maior sensação dos anos 1990 e, ainda hoje, continua a ser uma das séries mais assistidas de todos os tempos, e, os motivos são muitos mas que se resumem ao fato que a série consegue abordar uma série de dilemas bastante universais (do múltiplos desafios do início da vida adulta - lidando com pouco dinheiro, dificuldades amorosas e todo um turbilhão constante que surge em nosso caminho).

Não apenas isso - na verdade esse é o gancho para o público geral - mas com uma perspectiva que foge do senso comum de sitcoms tradicionais da época (em que todo o propósito narrativo existe por 22 minutos até os créditos e nenhum senso de continuidade será respeitado para o próximo episódio, retornando ao status quo), ainda que, bem, uma sitcom tradicional da época para uma grande corporação multibilionária preocupada com indíces de audiência e os retornos com publicidade... Existe uma fina linha em que o material poderia ser "subversivo" e galgar além do esperado para séries desse tipo, e, é justamente nesse minúsculo espaço que a série opera e, honestamente, prospera consideravelmente.

Com o foco em um grupo maior de protagonistas, o seriado consegue abranger um número bem maior de personalidades, tornando a identificação mais fácil para o público maior, ainda que a trama principal corra sempre ao redor mais de alguns personagens (Ross e Rachel são as forças motrizes desde o início da série quando seus casamentos colapsam, e, começam a lidar com os sentimentos que um nutre pelo outro).

E, enquanto o final da série é um ponto simples em que o grupo se separa cada qual seguindo seus caminhos na vida (alguns recém-casados e com filhos, outros seguindo novos desafios nas carreiras enquanto alguns continuam tão perdidos quanto a série começou - e partem para séries derivadas do outro lado do país), devemos lembrar que não ocorre de forma orgânica e natural conforme essas histórias caminhavam para isso.

Phoebe serve de barriga de aluguel para o meio-irmão durante a quarta temporada, e, bem, durante os anos seguintes após o nascimento das crianças o fato praticamente é ignorado como um sonho febril - quando obviamente faria sentido para a personagem construída até aquele ponto que desejava mais que qualquer coisa estabelecer contato com uma família que perdeu/nunca teve (ao ponto de aceitar servir de barriga de aluguel para o meio-irmão). E o motivo pelo qual não vemos a personagem servindo de babá ou visitando frequentemente o meio-irmão e seus sobrinhos nos anos seguintes, que a afastaria do grupo (e dos múltiplos desafios do início da vida adulta), que é algo coerente e lógico para a personagem ocorre muito mais por questões de bastidores que pela lógica interna da série e de sua narrativa.

O meio-irmão de Phoebe é vivido por Giovanni Ribisi, que além de ser escalado para muitos projetos, estava migrando para Hollywood e trabalhando em diversos projetos grandes (como um filme de Kevin Costner ou o clássico cult As Virgens Suicidas - além de filmes com Nicholas Cage e, anos mais tarde, um filmezinho com personagens azuis num planeta distante que talvez você tenha ouvido falar), enquanto a esposa dele na série, Debra Jo Rupp embarcava para um de seus papéis mais memoráveis em That 70's show (quase no mesmo ano da quarta temporada de Friends).

Com isso a série finge que está tudo certo e mantém Phoebe nas maluquices habituais com a irmã gêmea, com relacionamentos ou passando a dividir o apartamento com Rachel (até rumar para um relacionamento mais consistente com o personagem - sem muita personalidade - vivido por Paul Rudd), e, isso ocorre de mesma maneira em proporções diferentes com os outros dos personagens.

Acontece que, com o casal principal (e talvez o maior gancho dos primeiros anos) da série, o maior problema, é que Ross precisa crescer (porra!).

Ao começo da série ele é um homem divorciado cuja esposa o traiu (com outra mulher, em 1994, vale destacar) e ao final da primeira temporada ele é pai pela primeira vez, partindo para a China para investir em sua carreira. Nas nove temporadas seguintes ele é um homem divorciado e com um filho (e que precisa crescer - porra!), com a situação apenas escalonando conforme ele se torna um homem que tem mais uma criança e mais dois divórcios (e continua precisando crescer - porra!).

Boa parte do dilema do personagem é que ele sofreu com uma traição e se vê bastante abalado com isso, tendo problemas em seus relacionamentos posteriores e lidando muito porcamente com sua paranóia e ... E nada disso é incoerente ou horrível, só indica que ele precisa aprender a lidar melhor com essas situações e crescer (porra!).

Do lado oposto de seu relacionamento, Rachel, é uma mulher que passa por um considerável crescimento conforme ela corta laços com seu passado de patricinha mimada. No entanto ela continua com uma irritante tendência constante de querer apenas o que ela não pode ter, e perder completamente o interesse assim que consegue.

Droga, após seus segundo divórcio ele, já professor em uma universidade, se envolve com uma aluna (e isso se torna ainda pior quando Rachel passa a se envolver com o pai dessa aluna), que reforça exatamente estes dois pontos (que Ross precisa crescer - porra! - e que Rachel quer o que não pode ter).

Ross e Rachel tem um relacionamento turbulento - e honestamente são completamente incompatíveis um com o outro, por mais que a série (e o público) insista e tente justificar que são um casal perfeito - e terminam após uma série de bobagens que começam com 'um tempo' (coisa de colegial) leva a uma traição (de novo, coisa de colegial que terminou e já sai procurando outra parceira e não de um adulto divorciado com um filho) e que seguem pelas demais temporadas como um argumento vazio para o casal não voltar. Eles não discutem seus sentimentos, não resolvem sua situação e mais importante, não amadurecem como pessoas após essa situação e continuam trombando com o mesmo problema de novo e de novo e a mesma discussão de novo e de novo.

Esse ciclo não chega a uma conclusão coerente ou satisfatória por anos (Rachel e Ross tem uma filha juntos, e enquanto tentam criá-la na mesma casa suas diferenças irreconciliáveis vem à tona rapidamente) até que nos capítulos finais eles voltam finalmente (sem nenhum dos aspectos do parágrafo anterior - amadurecimento, discussão honesta sobre seus sentimentos ou a resolução do cerne da questão que levou ao rompimento anos antes - que é a falta de confiança do lado de Rachel e o ciúmes doentio do lado de Ross). Tudo está resolvido, eles estão felizes e cada qual segue com suas vidas, um final perfeitamente meloso que cerra em 22 minutos uma longa série de uma década em que um paleontólogo aceita que a evolução é apenas uma teoria para agradar a 'murica rural.

Mas nada disso é genuíno... É apenas um enrome laço para forçar uma conclusão em algum ponto arbitrário e estabelecer que de agora em diante tudo será diferente (porque os contratos estavam caros demais e os atores não tinham mais qualquer interesse em continuar fazendo isso por mais duas, três ou vinte e cinco temporadas), mas, deixando claro que haveria espaço para uma continuação, spin-off ou o que mais eles pudessem conseguir encaixar, mas, com o fracasso abjeto de Joey, bem, ficou claro que era a melhor condição concluir dessa forma e seguir em frente - por mais artificial, forçado e arbitrário que acabe aparecendo no final das contas. Quer dizer, talvez você não veja Friends há um bom tempo, mas você se lembra de algum episódio em que Ben (o primeiro filho de Ross) é apresentado à sua irmãzinha Emma? Ou qual a explicação minimamente lógica para como Phoebe banca um apartamento em Nova Iorque com seu dinheiro como massagista...?

Esse é, talvez, o maior aspecto de como Friends existe como uma anomalia estranha aparte da realidade que ele tenha imitar. Quanto mais você presta atenção, mais ridículas parecem as tramas (como Jenifer Anniston tendo dificuldades para encontrar um encontro ou Joey conseguindo um bom salário como ator), mas ainda assim existe um aspecto a série usa constantemente para manipular suas emoções e te fazer se sentir bem. Friends é um ventríloquo que manipula brilhantemente nossas cordinhas sentimentais em busca do maior apelo.

Tudo isso é resultado de uma estrutura em que os personagens estão presos no formato (de um universo que não criaram): Cenários repetitivos, mesmas piadas e situações semana sim e semana também e tudo em função da audiência (e contratos que exigem 25 episódios - quando 10 ou menos seriam suficientes) e não da trama.

Claro que é um formato que pode ser explorado e obter resultados diferentes (com vários graus de sucesso), mas mantém a necessidade de criar algo que não é genuíno e não explora minimamente os aspectos mais profundos da personalidade e características dos personagens.

Entra Peep Show.

De 2003 a 2015 a série britânica explorou a dinâmica de dois homens dividindo um apartamento com personalidades completamente diferentes: um sujeito descolado que vive para relacionamentos casuais e um neurótico obsessivo, com uma série de traumas formativos, que vive pelo seu trabalho (que não é muito diferente do que vemos na dinâmica com Joey e Chandler em Friends).

No entanto, Mark e Jeremy (vividos pelos excelentes David Mitchell e Robert Webb) funcionam de uma maneira diferente, e não apenas pelo fato que as tramas os colocam em cenários nos quais eles constantemente perdem - já no primeiro episódio Mark é perturbado por um grupo de adolescentes até surtar - mas principalmente pela forma como o roteiro intercala na perspectiva individual de cada um deles e a narração nos oferece uma perspectiva sobre seus pensamentos.

É extremamente comum perceber dessa forma a dúvida real dos personagens assim como o desprezo e toda uma série de emoções bastante humanas que acabam escapando de uma sitcom tradicional para agradar um público mais abrangente (e para construir algum conflito artificial de fácil resolução).

Mark e Jeremy dividem o apartamento por necessidade e se mantém juntos após tantos anos com um desprezo mútuo que é lógico diante de todas as situações de sitcom em que ambos experimentam e colocam um ao outro, no entanto existe uma amizade genuína entre esses dois na parceria em apoio da bizarrice um do outro.

Por mais que Mark considere os planos de carreira de Jeremy insanos (seja como músico ou como coach), ele constantemente o apoia e ajuda, e o mesmo vale na situação inversa. Jeremy está sempre ajudando as fixações malucas de Mark por alguma garota que nessa semana ele acredita ser "a escolhida".

Vale destacar que Peep Show segue Mark e Jeremy em jornadas que, muitas vezes se assemelham ao que vemos em Friends (além das dificuldades de relacionamentos e profissionais de jovens adultos, temos algums batidas recorrrentes como a contínua tentativa de relacionamento entre Mark com Sophie - que tem muitos paralelos com Ross e Rachel, inclusive com um filho após a tentativa fracassada do relacionamento), mas com conclusões completamente diferentes, e, muitas vezes até opostas.

Sophie tem de lidar com um problema sério de alcoolismo após o fim traumático da relação com Mark, mas, acaba prosperando e se resolvendo como pessoa, e, bem, não apenas ela como várias pessoas que saem do eixo caótico de Mark e Jeremy ao longo dos anos (e finalmente conseguem prosperar), enquanto a dupla se afunda cada vez mais e mais até a inevitável conclusão de que eles estão presos um ao outro sem qualquer perspectiva de quebrar o ciclo (depois de tanto tempo).

E isso muda muito a perspectiva de como a série funciona todos esses anos mais tarde enquanto, bem, Friends envelhece cada vez pior (e olha que eu nem mencionei qualquer questão sobre a homofobia latente na série até agora, e vou deixar por isso para não alongar demais).

Com isso, temos dois finais diametralmente opostos nas duas séries.

Em Friends todos seguem em frente com suas vidas (em um ponto arbitrário perfeitamente aceitável) e entregam a chave do apartamento de Mônica (onde passavam a maior parte do tempo) enquanto uma versão melosa da música tema da série toca e tudo se resolve, finalmente a estrutura de sitcom se volta contra o seu propósito e o ciclo constante de retorno ao status quo se rompe.

Com Peep Show, Mark é demitido de seu trabalho e tenta desesperadamente se reconciliar com uma antiga namorada (que estava com problemas com relacionamento com o marido), e, quando tudo parece que dará certo nesse relacionamento partindo para o pôr do sol num cruzeiro, Jeremy (com a ajuda de Super Hans) complica as coisas, e acaba estragando tudo para Mark que se vê de volta ao partamento com seu permanente companheiro de quarto sem qualquer perspectiva de mudança, preso para sempre num ciclo vicioso.

12 de outubro de 2024

{Explicando o fim (ou Analisando o Arkham)} Coringa

Como eu disse na minha resenha do segundo filme do Coringa, eu vi que muita gente vem reclamando e criticando bastante severamente o filme (algumas pessoas de maneira mais razoável que outras), mas no geral me parece coisas que, bem, elas não entenderam sobre o filme ou o personagem.

Sobre o filme de maneira bem geral, você precisa entender dois pontos: Encare o filme menos como uma narrativa linear e mais como uma sessão de terapia do personagem título relatando os eventos (o que permitirá muito melhor compreensão entre os buracos e absurdos narrativos) e segundo, de maneira complementar a esse primeiro, lembre que o personagaem título é um narrador (extremamente) pouco confiável.

Para que isso faça mais sentido é importante falar mais sobre o personagem de maneira geral (não somente nos quadrinhos) e como ele funciona (essa é a parte do analisando Arkham).

No geral, o Coringa é um personagem extremamente inconsistente e que segue o que o roteirista da vez quer que ele faça ou como ele funcione (ou o que ele saiba ou o que ele é capaz de fazer), e francamente isso torna pra mim o personagem bastante estúpido e sem graça. Eu francamente não gosto dessas histórias em que ele sozinho consegue derrotar todo um super grupo (de novo e de novo) sem mover um dedo (que em se tratando da DC é mais uma coisa do Exterminador, Slade Wilson), ou mesmo quando ele tem planos altamente elaborados como o de Injustiça. Além disso o personagem é extremamente inconsistente em sua estrutura também e pode ser um serial killer, um terrorista, um mafioso, uma piada (que adora surfar) ou o que a história precisar.

Dito isso (além do fato do personagem ser usado demais), é possível apontar alguns pontos chave sobre o personagem e sua estrutura que são bastante importantes. Um, além de um psicopata (o que é óbvio mesmo nas versões mais cômicas) ele é um gigantesco ególatra (e/ou narcisista), do tipo que faria peixes se parecerem com ele ou que ao descobrir que está para morrer faz de tudo para que o mundo fique repleto de outras versões suas. E, vai por mim, os exemplos vão além - com a Piada Mortal ao tentar corromper o comissário de polícia para se tornar uma outra versão de si mesmo, ou com a origem da Arlequina (em que ele tenta fazer uma versão feminina de si mesmo), ou com várias outras histórias que bebem do mesmo tipo de material e eu passaria horas listando elas sem mudar o fato que ele acha que é perfeito e que o mundo deveria existir à sua imagem (e existe uma história exatamente nesses moldes chamada 'Imperador Coringa').

Isso inclusive explica bastante das estruturas contraditórias dos relatos do personagem sobre seu passado e origem, que, ele tende a ignorar (em partes porque o seu passado o envergonha por não ser seu eu idealizado de agora e em partes por não representar seu eu idealizado de agora) e mesmo porque no geral ele sequer tem um passado anterior a se tornar um sujeito com terno roxo e maquiagem de palhaço. No geral o passado não lhe importa porque o que vale é o ponto em que ele se tornou 'perfeito' e vê como sua missão fazer o mundo à sua semelhança (o que ao seu ver torna justificável matar qualquer quantia de pessoas em seu caminho para conseguir seus objetivos).

Mas o fato dele fugir ou tentar revisar seu passado também tem a ver com um complexo de inferioridade que podemos ver quando analisando outros dos detentos do Asilo Akrham. Ele está ao lado de professores, doutores, médicos e advogados notórios, e, quando olhamos para os relances de seu passado, estamos falando quase sempre de um gigantesco fracassado (um comediante fracassado, um mafioso fracassado, um homem de família fracassado).

O morcego entra nessa equação tanto pelo aspecto de que ele obviamente se compara com o Batman que é capaz de derrotar todos esses professores, doutores, médicos e advogados notórios e, mais importante, fazer com que mesmo nessa visão idealizada e narcisista, ele se sinta novamente um fracassado. Mais que isso se ele, Coringa, que é perfeito, é impedido e derrotado por um alguém, então essa pessoa é também perfeita e digna de sua admiração e respeito, correto? Ou seria mais adequado querer destruí-lo por ousar ser tão bom quanto ele?

Inclusive, criar essa aura de mistério sobre seu passado (como na história Estudo de Caso de Paul Dini) e faz parte da mitomania que o personagem usa para manipular as pessoas como bem entender. Se ele deixa de ser um mistério - se suas motivações e ações são claramente explicáveis, ele perde seu efeito. De um ponto de vista narrativo, é importante manter essa aura de mistério sobre o passado do personagem para fomentar a estrutura de bicho-papão aterrorizador (e que pode atacar de qualquer forma e a qualquer momento), mas do ponto do personagem é importante pelos mesmos motivos... Para a DC, a 'origem' do personagem efetivamente se dá quando ele cai num tanque de ácido (essa também é a origem da Arlequina que eu já comentei antes e do Rastejante na versão animada).

Por isso a gente volta ao ponto de que os filmes de Todd Phillips não retratam a origem do personagem mas o relato do mesmo sobre seu passado ANTES de sua origem - e justamente por isso eles seguem uma estrutura fluída que pode mudar de acordo com sua necessidade no momento, ao mesmo tempo que acaba revelando pontos importantes sobre si mesmo sem que ele perceba, e é justamente por isso que eles são bem mais um quebra-cabeças do que a narrativa linear do passado do personagem.

Quer dizer, nos filmes ele é retratado por Joaquin Phoenix que fez 50 anos agora em 2024, mas, pelos fatos que são demonstrados, não parece que o personagem tenha a mesma idade que o ator retratando ele. Na verdade, eu tenho uma larga impressão que no primeiro filme, "Arthur Fleck" (que, sim, pode ser só mais um dos muitos pseudônimos do personagem para mascarar seu real passado) está na faixa dos 15-20 anos, alguém que abandonou o colegial lidando com problemas mentais (o que até bem pouco tempo atrás o estigmatizaria pela dificuldade de aprendizado para dizer o mínimo), buscando um emprego fixo para arcar com despesas pessoais enquanto cuidando de algum parente ou guardião legal doente.

No entanto devido a seu narcisismo ele não consegue imaginar a si mesmo como diferente do que é hoje, portanto mesmo em seu passado com aproximadamente 15 anos ele se enxerga como é hoje (e por isso o papel é vivido por um ator com 50 anos e não com quinze). E por isso que ele se insere na narrativa de seu passado antes de existir o palhaço do crime e mesmo embeleza ou tenta tornar a narrativa mais interessante (sabe, com cortes musicais, com explosões do fórum e mesmo de matar um apresentador de talk-show).

Por isso ele se vê fantasiado de palhaço aqui e acolá (mesmo que isso não fizesse sentido para si mesmo naquele momento da vida), por isso que ele se vê com sua idade atual vivendo com os problemas que tinha com 15 ou 20 anos, e, como eu disse, são peças de um quebra-cabeças maior.

Então no primeiro filme o que estabelecemos é que ele fora diagnosticado como problemas mentais e tentava levar uma vida ordinária apesar de suas limitações (o que, com problemas mentais e sem uma formação acadêmica fica ainda mais difícil). Eu insisto na faixa de 15 a 20 anos que o coloca essencialmente como um menor porque o evento mais importante desse primeiro filme é a morte de sua mãe/responsável legal, o que o colocaria numa situação de ficar sob a tutela do estado, e, sofrendo de uma doença mental acabar em um sanatório (ou inclusive seja responsável por uma morte natural pelo simples estigma de sua doença).

O segundo filme faz parecer que ele está em julgamento pelo assassinato do apresentador de talk show enquanto eu efetivamente duvido que esse é o caso, e ele esteja lidando com um caso sobre sua interdição e custódia pelo estado, e, seja parte justificativa de sua vergonha (por isso até o filme seja tão deprimente e mostre um protagonista que não tem urgência ou age em seu favor).

Ele se vê desesperado e desprezado, inclusive vendo que mesmo a afeição que acaba recebendo tem segundas intenções e o deixa ainda mais isolado, com toda sucessão de eventos que coincide com a primeira paixão (ao meu ver não correspondida e mal interpretada - e, o que eu acho mais fascinante e que efetivamente reveladora, que ele identifica a Arlequina mesmo que a personagem só surgiria mais tarde) do personagem durante seu período num hospício e que acaba o levando para a cadeia onde esse lado de si próprio acaba 'morrendo' ou é assassinado se você preferir para ressurgir como o mafioso Jack Napier ou criminoso Capuz Vermelho que anos mais tarde cairia em um tanque de ácido e blá, blá, blá.

Existem inúmeros aspectos sobre o narcisismo (com o personagem querendo assumir indiretamente a responsabilidade pela morte dos pais de Bruce Wayne) e complexo de inferioridade (com o fato que ele se vê julgado por Harvey Dent - o Duas Caras - que provavelmente nem teria como nota de rodapé em seu currículo de ser o responsável por essa condenação), mas eu vejo que é a mitomania que toma o lugar constantemente, construindo um mundo que simplesmente não faria sentido e não teria como funcionar.

Mas no geral é um retrato sobre um homem que se envergonha de seu passado e não acha que os eventos estão à altura da pessoa que ele é (de novo, por isso explosões, por isso ele se vê responsável pelo mais importante assassinato da história de Gotham - inclusive sabendo o que esse assassinato signifique), e por isso existe toda uma gama de caos que, efetivamente não faz sentido com a estrutura que narrativa propõe.

Insisto que não acredito que isso faça dos filmes melhores do que são (ou que quem não gostou deles é idiota), mas eles são bastante coerentes com o personagem e sua estrutura e, sem querer cansar demais o leitor, eu acredito que facilmente existam bem mais exemplos a se destrinchar e correlacionar com os quadrinhos e filmes/animações (eu nem comentei sobre A Máscara do Fantasma, por exemplo), mas, honestamente, acredito que as bases estejam aqui e seja mais do que o suficiente para justificar o caso (fique a vontade para discordar nos comentários).

15 de setembro de 2024

{Explicando o fim} Matrix

{Respira... Fica ciente que uma grande parte dos nerds ficarão putos com o texto... Respira de novo e vai.}


O Matrix é um filme de 1999 em que as máquinas dominaram o mundo. Não confundir com o Exterminador do futuro de 1984 em que as máquinas substituiriam os humanos tentando dominar o mundo ou Blade Runner de 1982 (baseado no livro Androides sonham com ovelhas elétricas de 1968) em que os humanos são substituídos por robôs... O que eu quero dizer é que essa ideia de humanos versus tecnologia não é nova (e provavelmente continuará a existir enquanto existir a humanidade). A diferença é que o filme da dupla Wachowski soma a alegoria da Caverna - que Grant Morrison reintroduziu à cultura popular com Os Invisíveis em 1994 - com o conceito de os humanos perderam a guerra e agora vivem como baterias enquanto suas consciências perambulam em um mundo virtual controlado pelas máquinas.

Mas vamos lá: O filme de 1999 permeia com uma visão comum do fim dos tempos com toda a questão do ano 2000 chegando, o bug do milênio e todo esse papo cataclismico de que futuro não será mais como antigamente.
Neo surge como o Messias millenial (ou mais da geração X) hacker que curte música eletrônica e vai nos livrar do tédio suburbano de nossas vidas sem propósito na prisão psicológica criada por um mundo artificial (nesse caso literalmente). Neo não é King Mob, portanto ele tem seu empreguinho engravatado do qual precisa ascender e ressurgir como o grande herói de filmes de ação que luta kung-fu e desvia de balas.

E, por se tratar de um filme com orçamento de 63 milhões por um grande estúdio e com grandes astros, ele não seria uma crítica anarquista às instituições, nem resolveria qualquer coisa com uma conversa educada e uma mensagem de paz e unidade de maneira transcedental. Neo, afinal de contas, é um herói de ação tal qual Stalone e tantos outros e vai salvar o mundo com muitas explosões e pancadaria.

Menos meditação sob uma figueira mais metralhadoras e kung-fu.

Talvez seja óbvio reforçar, mas, é melhor não deixar batido NEO é um anagrama para ONE, que é como o personagem é frequentemente chamado durante os filmes, mesmo que nas traduções apareça como 'o escolhido', e igualmente é um anagrama para EON e NOE, mas esse último é menos importante pois em inglês, o barbudo da arca se chama Noah, e ainda que a analogia do sujeito escolhido por Deus para salvar a humanidade se aplique, eu ainda acho que não é o ângulo que se aplica para o personagem).

Como a Oráculo lhe revela, ele não é o Messias, no entanto (só um garoto muito, muito levado) e algo mais próximo de um profeta. Como Moisés que libertaria os escravos para conduzir seu povo a terra prometida, e isso é algo que o primeiro filme faz de maneira bem pouco sútil reforçando os temas religiosos conforme Morpheus busca respostas sobre Neo, e essa é a questão mais complexa para as continuações porque elas divergem em alguns pontos sobre o que o filme original conclui.

No final do primeiro filme Neo derrota o Agente Smith - mas não apenas 'derrota', ele destroça e apaga o agente Smith da existência quando consegue superar sua velocidade e capacidade dentro da máquina, algo que, até então ninguém havia chegado perto de fazer. 

E é isso. Smith derrotado, a ilusão destruída, hora de partir para o mundo real e enfrentar os problemas bastante reais (sabe, pessoas presas às máquinas e usadas como baterias, um mundo coberto de fumaça e sem recursos naturais ou provimento de alimentação e etcs), mas o importante é focar na vitória conquistada, terminar com uma baita música e sair animado da sessão.

É um ponto de rebeldia juvenil de vencer a opressão e se impor ao homem (inclusive por isso a música de Rage Against the Machine).

Com um sucesso nas bilheterias, o filme que deveria ser único (sabe, como O Grande Lebowski ou Casablanca) recebe alguns dos acordos mais opulentos e ousados da história. Para se ter ideia, o plano era para que em 200 fossem produzidos com um orçamento de 300 milhões mais 2 filmes lançados com um intervalo de 6 meses, 1 jogo de videogame (Enter the Matrix) e uma animação (The Animatrix) que ofereceriam conteúdo complementar e exclusivo e um jogo de MMO, The Matrix Online (que acabou atrasando e saindo em 2005).

Ou seja, entre 1999 e 2003, além dos prazos de negociação e contratos, foram escritos os roteiros para CINCO projetos diferentes com suas cenas exclusivas e conteúdos únicos.

Mesmo que o Animatrix explore aspectos da construção de mundo (com histórias explicando a guerra entre humanos e máquinas ou com capítulos que exploram a situação de pessoas comuns descobrindo falhas na matrix ou qualquer outro tipo de aspecto mundano) enquanto pelo menos dois capítulos tem alguma relevância direta com os filmes (O último vôo da Osíris - que é citada nos filmes e é parte do prólogo do jogo Enter the Matrix - e A história de Kid, que é a única em que Neo aparece), e não tenha envolvimento direto das Wachowski, ainda é muita coisa para um curtíssimo intervalo de tempo.

Então como se pode imaginar, os filmes seguintes trariam contradições com o primeiro e se perderiam na condição de construir uma narrativa lógica, e mais importante, satisfatória e conclusiva (lembre bem que parte da ideia era vender a assinatura para um MMO), o que não casa com a ideia de uma conclusão definitiva e que amarre todas as pontas num belo e perfeio laço.

Trazem novos personagens que agregam pouco ou nada à mitologia da trama (como o Chaveiro, Soren - que é o personagem de Enter The Matrix - Persephone, o Arquiteto, blá, blá, blá) e mudanças nas regras que acabam fazendo pouco ou nenhum sentido. De repente Neo é de fato o Messias e manifesta seus poderes no mundo real. De repente Smith consegue fazer um 'upload' e está no mundo real...

E eu sinceramente nem sei se alguma ou todos esses pontos são explicados em algum dos outros zilhões de projetos paralelos. Se em Enter The Matrix ou no jogo de super trunfo explicam qual o papel do Chaveiro ou como Smith faz o upload de sua consciência para o mundo real, mas, será que realmente importa? Eu acho extremamente pretensioso que seja necessário material complementar para explicar falhas de roteiro.

Inclusive nem muda muito, são meros complementos porque os filmes Reloaded e Revolutions não trazem assim tanto no quesito história. Após derrotar Smith, não é como se Neo liderasse toda uma complexa estrutura de exércitos para garantir a derrubada sistemática das máquinas e libertação do povo... Só que essa é a trama de Duna 2, não dos dois filmes de 2003...

Neo volta para a Matrix para brincar de Superman, surrar centenas de clones do Agente Smith, se perder numa estação de trem e encontrar um sujeito que faz alguém ter um orgasmo com comida enquanto personagens sem graça vão aparecendo aqui e acolá para expor filosofia barata de boteco e uma pretensa ideia de narrativa ou escolha (de que Neo precisa escolher entre salvar a humanidade ou Trinity, por exemplo) para de maneira bastante anticlimática o filme terminar com Neo se sacrificando para salvar a humanidade após propor um acordo com as máquinas (que nunca fica muito bem explicado o que significa ou como funcionaria), o que talvez seria melhor explicado/desenvolvido no MMO ou algum dos muitos projetos que estavam engatilhados caso as cifras fossem melhores talvez.

Enquanto parte da história se passa 'no mundo real', esses segmentos parecem não carregar nenhum peso e são mais artificiais que as partes da história que se passam na interface da Matrix. E, como eu já mencionei, essas barreiras inclusive se borram quando Neo no mundo real manifesta poderes ao mesmo passo que o Agente Smith aparece no mundo real. 

Olha, eu não sou fã das continuações e continuo achando que são ruins e o Resurrections de 2021 é mais interessante (talvez não que o Animatrix, mas aí é outra história), e sei que o Resurrections traz toda uma série de mudanças na história e rearranja o que lhe é conveniente para construir uma continuação quase 20 anos depois do último filme lançado (e após um longo e turbulento período na vida, tanto pessoal quanto profissional, das diretoras).

O que muda no final das contas?

Pouca coisa na verdade. O final de Revolutions (que é o terceiro filme) nos coloca basicamente na mesma condição que o final do primeiro Matrix: Smith derrotado, a ilusão destruída, hora de partir para o mundo real e enfrentar os problemas bastante reais (agora com a libertação de todo mundo após o sacrifício de Neo).

Resurrections parte para uma visão revisionista (bem) mais meta (criticando a Warner justamente por tentar relançar uma franquia e todas as imposições de múltiplos lançamentos produzidos no passado) e tanto ignora pontos dos filmes anteriores como os recontextualiza. A ideia, menos de rebeldia juvenil e mais de crise de meia idade (algo que parece o padrão dos quartos filmes de franquias) coloca Neo e Trinity enfrentando seus criadores (ou o 'analista de mercado') e estipulando que agora será do jeito deles.

Dadas as circunstâncias, faz sentido.

Em 2003 com tantos projetos simultâneos, a coisa toda acaba sob um cobertor curto dividido por inúmeras pessoas (cada uma puxando - ou tentando ao menos - o máximo possível para si próprio), e acaba perdendo os propósitos justamente para reforçar questões mercadológicas que visavam otimizar lucros acima de contar uma boa história.

30 de setembro de 2023

{Explicando o Fim} O final de Lobo Solitário é bom ou ruim?

Lobo Solitário é um material que raramente precisa de explicações. Publicado entre 1970 e 1976, com várias adaptações tanto para o cinema quanto televisão (já nos anos 1970 mesmo) e republicada no mundo todo, o material é facilmente um dos principais porta-vozes do mangá para o mundo.

Narra a história de Itto Ogami e seu filho Daigoro em suas perambulações pelo Japão feudal em busca de contratos como assassino para executar seu plano de vingança contra o clã Yagyu. No entanto, essa história serve bem mais de pano de fundo para retratar crônicas desse período, tirando a perspectiva ufanista de um passado glorioso (e resgatado alguns anos antes como a visão dos tempos de glória do país na mobilização para a segunda guerra mundial).

Itto Ogami funciona de certa forma como o ideal ufanista do samurai perfeito seguidor do bushido e reconhecido e admirado por todos onde vai pela sua superioridade moral contrastando com o passado real (afinal, outros samurais, incluindo o clã Yagyu são retratados como sórdidos e corruptos, gente que estupraria a própria irmã ou que rouba e mata camponeses indiscriminadamente). Não só isso, com vários episódios retratando algo que passa longe do retrato ufanista perfeito - gente passando fome, as constantes revoltas pelos impostos altos e o tratamento desumano do cidadão comum, com um exemplo que vem muito em mente do lorde gastando os recursos do feudo em um esporte antiquado (de caçar cachorros) enquanto a população camponesa não tem água ou comida. Mas, obviamente não é só isso. O tratamento de mulheres na época (sempre objetificadas e constatemente vítimas de importunação sexual e abusos) demonstra muito de uma cultura longe de respeitosa e, como o código da honra do bushido defende.

Dito isso, ainda temos a história em si de Itto que sofre com uma acusação injusta que causa a destruição de seu clã, a perda de sua reputação e com isso tem de fugir pelo país, não buscando provar sua inocência mas buscando vingança, que significa destruir os Yagyu responsáveis pela sua miséria.

Claro que, e é importante destacar que a história em seus vinte e oito volumes (cada qual com aproximadamente 300 páginas) é uma longa alegoria e não somente uma única e contida história. Vários personagens tem seus momentos, e cada narrativa serve para detalhar e contextualizar os motivos dos personagens principais, e de suas escolhas.

Não digo que tudo funcione (francamente acho que existem ao menos 3 grandes problemas principais para o final, e detalharei mais sobre eles em breve), mas existem dois grandes fatores que estabelecem o cenário da batalha final, e seu resultado (incluindo seu curso).

Um dos pontos principais do confronto final é a teatralidade da batalha de Itto e Retsudo (líder do clã Yagyu), enquanto o outro ponto é a fatalidade da situação toda.

A teatralidade da batalha final de Itto e Retsudo é algo bastante claro quando observamos, inclusive, que ambos esperam por uma audiência para de fato lutarem com toda a determinação, ainda que durante a série esta questão esteja também distilada em pontos diversos. O Bushi e a horna tanto comentadas ao longo da série são relevantes apenas quando outros observam, e mesmo Itto que é retratado como o ideal do samurai honrado não parece se importar em usar da honra contra o adversário (ou ignorá-la para benefício próprio - e num exemplo bem evidente já desde o começo é quando o samurai Itto arremessa sua espada para atacar de surpresa seu adversário, algo que vai contra os códigos de honra justamente pela virtude da espada como extensão do samurai, arremessá-la é abrir mão de um pedaço do próprio corpo).

A batalha final é um enorme palco que Itto vai montando aos poucos, expondo as fraquezas de Retsudo (e dos Yagyu) e justamente nisso partindo para a fatalidade do confronto. Droga, eu diria até que Itto poderia facilmente derrotar seu adversário em qualquer momento de seus confrontos anteriores mas opta por morrer pela sua espada como ato final dessa peça, porque de sobremaneira Itto sabia que não havia vitória para ele ao final daquela batalha.

Não importava de maneira algum que ele derrotasse Retsudo (em qualquer das ocasiões em que se enfrentaram), isso era irrelevante para o Lobo Solitário. Ele já havia destruído o clã Yagyu (eliminado os herdeiros, revelado seus segredos e assim enfraquecendo seu poder - inclusive pela incapacidade de seus mais poderosos soldados lidarem com um único homem - e no ato final exposto sua covardia, ao lutar sem espada e ferido contra Retsudo que usou seus últimos soldados e subterfúgios contra Itto), e, efetivamente ele sabia que vencer essa batalha não lhe traria nada. Não restararia a honra dos Ogami, não devolveria seu cargo como executor do Shogun ou daria qualquer possibilidade de uma vida melhor para seu filho Daigoro. Vencer Retsudo não lhe traria nada, mas perder em desvantagem (de novo, com a espada quebrada, com um ferimento enorme e isso depois de expor os segredos do clã)? Isso destruiria fatalmente seu adversário mais que qualquer coisa que ele pudesse fazer.

Esse inclusive é o ponto que Retsudo aceita quando essa fatalidade (após ficar preso pelo shogun, após ver seu clã se dissolvendo e além de qualquer chance de reparação), e, no ato final da série aceita de braços abertos o golpe de Daigoro, e após isso o abraça.

Tudo isso é ótimo, em consonância com a série e são os argumetnos positivos da conclusão. No entanto eu sei que muita gente enxerga esse final de maneira anticlimática e com grande razão, como eu disse existem três grandes problemas para isso.

O primeiro é o final de How I Met Your Mother que foi planejado exatamente ao começo (no primeiro volume já é dito que este seria o resultado - a derrota de Ogami e a quase dissolução dos Yagyu) e não se pensou em alterar conforme a série avançava e expandia. O problema aqui é que mesmo ciente da teatralidade e do plano de Itto relatados acima, fica difícil aceitar essa conclusão como um plano ideal depois de basicamente tudo o que aconteceu. Itto vence todo tipo de obstáculo, enfrenta exércitos e agremiações inteiras de guerreiros e plebeus, derrotando todo ataque que é movido contra ele e de repente seu plano é o de morrer em combate com o Shogun assistindo e chorando. Dizer que é anticlimático é pouco, mas, verdade seja dita, funcionaria melhor se a série tivesse 10 ou 15 volumes apenas.

(Ainda mais com os volumes finais com dois intervalos entre o duelo de Itto e Retsudo, a prisão do segundo, uma enchente e um incêndio atacando Edo e vários capítulos maçantes e desnecessários sobre espiões Yagyu deixando seus postos, e tudo isso sem falar de Abe Tonomo, o provador de comidas do Shogun, que na melhor das hipóteses é um alívio cômico, na pior um desperdício de papel).

Somado a isso, nós temos dois elementos ou armas de Checov que são as cartas na manga de Itto durante a série (a carta dos Yaguy com seus segredos e o dinheiro que ele recebe pelos assassinatos). Ambas situações são igualmente anticlimáticas.

Além do fato que a carta não é usada por Itto (mas pelo alívio cômico/desperdício de papel), e, além do julgamento de Retsudo acabar favorável para o personagem (mesmo que expondo seus segredos enquanto diminuindo seu poder e influência), a verdade é que a série tenta demonstrar por vários capítulos que isso seria a grande arma de Ogami contra os Yaguy, que varreria o clã da face da terra e devastaria Retsudo até não sobrar pedaços, e, ao final é apenas um pequeno e minúsculo peido. Além do fato que o impacto das ações de Itto até aquele momento ser muito mais devastador (matando os herdeiros de Retsudo, por exemplo), o julgamento com o Shogun perdoando Retsudo é, droga, é difícil de engolir, ainda mais pelo que vemos na própria série com gente sendo ordenada a cometer seppuku por ofensas muito menores (como o provador de comida que é condenado porque sua casa - que estava no trajeto do Shogun - pegou fogo).

Do dinheiro temos algo parecido, uma vez que durante a série vai se comentando sobre os planos de restaurar o clã Ogami (através de subornos e etcs), inclusive com propostas feitas a Itto para oportunidades que ajudariam a restaurar seu clã através de favores (usando o dinheiro para construir canais, pontes ou outros projetos que favoreceriam a população). No entanto ao final da série nos é revelado que o dinheiro já estava reservado para a compra de dinamite (claro) que seria a arma do menino Daigoro contra os soldados Yagyu no caso da derrota de Itto no campo de batalha. E aí imediatamente a dinamite é usada para impedir que a água das chuvas destrua Edo... Ou seja, sequer é utilizado para a o propósito previsto.

Fica ainda mais anticlimático quando levamos em conta o plano (nos parágrafos anteriores) de morrer na batalha nas mãos de Retsudo e não deixar sequer uma fração do montante acumulado para alguém de confiança cuidar de Daigoro ou mesmo para que o filho tivesse uma vida e criação dignas.

O último elemento, talvez seja menos importante que os itens destacados aqui mas a ausência de um epílogo para relatar o que aconteceu com Daigoro após o final da batalha entre Itto e Retsudo (no mínimo, mas seria bom ver os desdobramentos do conflito numa escala maior, com o shogunato, com Edo e o restante do Japão também), o que fica ainda mais perceptível quando temos ao menos três capítulos relatando a jornada de espiões de Retsudo, e toda a história bastante dispensável de Abe Tonomo, ou a tempestade e depois o incêndio de Edo, mas não temos a conclusão da história do filhote do Lobo Solitário (do título, né? Lobo Solitário e filhote - Lone Wolf and Cub) que é crucial para a série e seu desenvolvimento.

Faz com que o final pareça abrupto, e deixando em aberto fatos relevantes ao leitor, ainda que exista sim um aceno na cena final de que Retsudo, ao abraçar Daigoro o aceite, e, dessa maneira o adote.

No que repito e reforço, com tantos capítulos que parecem avulsos ou são de fato desinteressantes, no mínimo um capítulo a mais para destacar a história do garoto Daigoro e do que haveria de consequências do confronto entre Retsudo e Itto não seria nada demais.

26 de junho de 2022

{Explicando o fim} Neon Genesis Evangelion

Evangelion é um daqueles materiais que, se eu tiver que explicar de maneira bem resumida - e com poucas palavras - é como o padre dos balões. Não é elegante como Ícaro e suas asas queimando por voar próximo demais do sol (e isso abrir o panorama de que talvez deveria ter asas melhores). Não é isso.

É realmente o padre dos balões: Alguém que por nenhum motivo lógico ou coerente deveria fazer (nada d)isso, mas quando começa é fácil de se perder na maluquice toda e buscar chegar ao final.

Como no caso do padre dos balões, o final de Evangelion não é exatamente algo coerente (ou fácil) ainda mais quando não existe exatamente um final, ou um único final (inclusive com o segundo diretamente influenciado pela reação negativa do público ao primeiro e anos mais tarde um terceiro final tentando fazer mais sentido dos dois outros), mas, a ideia geral do contexto do final - que segue numa condição bem meta de exploração do público e sua interação com a obra resultando em contrapartida.

Tenho que ser honesto, no entanto, porque se eu disser que eu entendi 100% da série (ou dos filmes) eu estaria mentido imensamente, ainda que, e acho isso importante, a série tem um efeito de telefone sem fio em que o criador faz uma amálgama de conceitos do cristianismo (de onde saem as Evas, Lilith, os anjos e mais uma série de termos utilizados), só que, bem com robôs gigantes combatendo monstros enquanto são citados aqui e acolá com enorme liberdade termos cristãos por personagens que muito dificilmente entendam qualquer condição dos dogmas, doutrinas e mesmo simbolismos religiosos atrelados a tudo isso.

Não falo disso num contexto de crítica, deixando bem claro (até porque não é exatamente diferente do que ocorre no Ocidente com visões deturpadas tanto de religiões orientais como de seus dogmas e preceitos na cultura popular), isso é só uma observação. Inclusive, mais um contexto que outra coisa, pois, ao meu ver, o final de todas as versões da série não dependem em nada desses fatores. De novo AO MEU VER não dependem, mas, claro, compreender os significados e simbolismos pode conferir algum significado extra e mais contundente.

De maneira bem geral, as narrativas japonesas tem uma constante de representar deuses, demônios e mitologia em geral de maneira bem diferente do que se vê na narrativa ocidental (vide One Piece com o 'God' Enel, os muitos deuses - e múltiplos senhores Kaioh e deuses da Destruição - de Dragon Ball ou os Cavaleiros do Zodíaco com a mitologia greco-romana adaptada livremente, ou basicamente todo JRPG que compreende num grupo de pessoas comuns se unindo para enfrentar Deus e impedir o apocalipse). Com isso é importante entendermos que as narrativas japonesas não enxergam como sacro ou intocável a religiosidade (ao menos as religiões ocidentais), e, como essas histórias geralmente apontam, não é função do homem esperar pela ação de Deus ou dos Deuses (ou Deusas) mas sim de conduzir e construir seu próprio destino, mesmo que tenha que enfrentar Deus (ou Deuses ou Deusas) para garantir que seus destinos se concretizem.

Evangelion retrata - com robôs gigantes destruindo monstros - um conto sobre fé, seu papel na sociedade e como a fé molda o homem, e mais importante, o contrário também se faz. Essa pode servir como a versão simples e resumida dos finais, no entanto existem aspectos particulares que mudam tanto as interpretações como a natureza dos eventos.

Todos os finais dependem da chegada do eventual 'apocalipse' - na série chamado de 'terceiro impacto', uma vez que ocorre um proto-apocalipse em 2000, sendo esse o 'segundo impacto', contido acidentalmente e resultando nos anjos/evas e todos os protocolos e eventos que moldam a história.

Então vamos a estes finais:

Final 1) O final da série de 1996 (episódio 26 "Sekai no Chuusin de Ai o Sakenda Kemono")

Este final e o final 2 estão bastante interligados, até porque de maneira geral eles são o mesmo final, porém sob óticas/perspectivas diferentes. No geral são sobre o tal "Terceiro Impacto" (que é o apocalipse conforme a série) ocasionado pelos anjos/Evas.

No entanto, o tal terceiro impacto transcorre por ação direta do protagonista da série Shinji. Ele molda o apocalipse com sua interação com os anjos, Evas e o que mais, e, nesse final acompanhamos a mente de Shinji lidando com todo o conhecimento e caos dessa força destrutiva. Esse final é bastante meta, e, com uma enorme dose de otimismo, com muitos aplausos e agradecimentos.

Isso está interligado ao tumultuoso final da produção - o diretor com severa depressão, as restrições orçamentárias na reta final, incluindo os patrocinadores abandonando o barco e com isso uma enorme dificuldades para produzir os episódios finais. Vendo o material (e sabendo dessa condição) fica bastante claro que o final à Mr Neutron é consequência destas restrições para produzir o material como gostariam, e, pelo simples fato que conseguiram fazer um final e 'concluir' o material fizeram algo otimista para agradecer aos fãs e espectadores. Não explica ou responde várias das questões levantadas pela série (que somente os filmes décadas mais tarde fariam efetivamente), mas não é o propósito efetivo.

Final 2) O final do filme de 1997 (End of Evangelion)

Esse é essencialmente o mesmo final anterior, mas com mais contexto, explorando as ramificações e ações de Shinji do ponto de vista exterior (do que ocorre para que Shinji esteja no final da série de 1996 e transcorram suas ações). No entanto, este final é bem mais sombrio e pessimista (que inclui logo numa das primeiras cenas o protagonista Shinji se masturbando diante de uma colega convalescente em uma cama de hospital, mas nem de longe se limite a isso - pois ele tenta espancá-la em outro momento do final e é geralmente misógino durante o filme todo).

Esse é um final mais sórdido que o anterior, e, em grande parte, se deve pela reação extremamente negativa dos fãs ao primeiro final (incluindo ameaças de morte aos criadores/produtores) - e por isso Shinji passa a personificar os fãs (reclamões) e através dele há uma caricatura dos fãs como punheteiros sujos (assistindo a animação apenas para ver alguns peitinhos) e que deveriam 'sair mais e fazer efetivamente alguma coisa'. Essa visão também expande um bocado a história, matando vários dos personagens de forma horrorosa e trágica (uma delas tendo um caso com o pai de Shinji e matando uma criança e se suicidando depois só pra se ter alguma ideia), além de efetivamente destruindo o mundo (onde sobram somente Shinji e Asuka, esta que insulta Shinji mesmo que nessa condição ele seja o único - e último - homem vivo no mundo).

Final 3) O filme Evangelion 3.0+1.01 Thrice Upon a Time.

Este filme lançado em 2021 é a quarta parte (e final) de uma série de filmes iniciada em 2008 com Evangelion 1.11 You are (not) Alone ou "Você (não) está sozinho", continuando em 2009 com Evangelion 2.22 You can (not) advance ou "Você (não) pode avançar" e em 2013 Evangelion 3.33 You Can (not) redo ou "Você (não) pode refazer", terminando me 2021 nessa última parte (até agora).

O primeiro destes filmes com pouquíssimas alterações é uma recontagem dos eventos dos primeiros seis ou sete episódios da animação original, enquanto a partir do segundo filme muitos novos elementos e eventos são apresentados para expandir a história e contextualizá-la mais. Nos é explicado melhor o que ocorreu com a mãe de Shinji, assim como a relação dele com seu pai de maneira mais categórica.

O segundo filme termina com o 'terceiro impacto' (ou um 'quase' terceiro impacto como os filmes seguintes descrevem), e, nisso mudando completamente a história e os eventos para nos filmes seguintes explicar e contextualizar melhor o final da série, conforme molda o caminho para uma nova conclusão - oferecendo maiores explicações sobre o que ocorre com personagens terciários dos quais os fãs gostam e preenchendo as lacunas gerais até a conclusão em que, bem, Shinji reescreve o universo para um mundo sem os Eva, Anjos e todas aquelas monstruosidades para que ele possa crescer e viver como um adolescente normal.

Mas o que tudo isso significa?

Entenda bem: O primeiro final está ligado a limitações orçamentárias, um diretor com depressão e um material que dificilmente poderia concluir de forma coerente e propícia (mesmo sem esses desafios), e desagradou os fãs.

Então a série teve um novo final seguindo uma vertente diametralmente oposta (o primeiro foi otimista, esse foi pessimista) e por mais de uma década isso acabou concluindo tudo e ficando por isso mesmo.

Nesse intervalo (de 1997 a 2008) várias revisões de cenários para a série foram apresentados em videogames e mangás - incluindo uma lançada em 1995 quase simultaneamente ao anime e difere completamente do material (mas, se for para eu comparar mais os materiais adicionais eu vou enlouquecer).

Shinji, essencialmente, é um garoto com diversos problemas (em seu relacionamento com o pai, com sua personalidade bastante retraída, no que inclui seu relacionamento com demais pessoas ao redor) e isso acaba exacerbado em um contexto em que monstros gigantes surgem para destruir Tókio e ele é a única esperança da humanidade. Ao contrário de diversos quadrinhos, filmes ou produções narrativas, Shinji não é um herói esperando o chamado para a aventura. Ele é um garoto complexado e lidar com robôs gigantes o afeta (assim como aos demais ao seu redor). O trauma (e pós trauma) de lidar com os robôs gigantes e destruir monstros faz parte do DNA da série, e, a pergunta que se faz e repete constantemente é o propósito disso tudo.

Só que ninguém tem uma resposta e seja a NERV ou a SEELE ou as nações Unidas... Ninguém sabe exatamente se os Anjos ou as Evas trazem a resposta ou qualquer solução. Todos tem dúvidas (e pouca informação, com eles próprios compreendendo pouco sobre o segundo impacto e a criação de todos seus problemas), portanto vivem e conduzem suas ações puramente com base na fé.

Fé de que destruir os anjos prevenirá o apocalipse, ou que trará um apocalipse do qual a organização 'x' conseguirá tirar proveito e moldar um novo mundo como melhor preferir. Mas, e, até mais importante, a fé de que a resiliência humana permite viver um dia após o outro mesmo depois do fim de tudo.

E ao final, tudo depende da engenhosidade humana... Para o bem ou para o mal.

22 de julho de 2017

{Explicando o fim - parte 2} Watchmen (Filme vs Graphic Novel)

Yep, parecia que tinha terminado, né?

Mas veja bem, é preciso e importante destacar o que o filme faz de errado - e que perde completamente o sentido pro final redondinho (e cíclico) da graphic novel, e, por isso se faz necessária uma análise complementar focando mais no filme.

Primeiro ponto: O fim da hq é o começo (começa com a narração do diário e termina com o diário sendo aberto pelo funcionário gordo do tabloide)... No filme, por algum motivo, há uma cena de luta inicial ANTES da narração de Rorschach, então esse senso se perde.
Sei que parece pequeno, mas é aquele enorme 'telefone sem-fio' ou 'efeito borboleta' em que uma pequena mudança representa uma enorme diferença.

Sei que o fim não seria o começo (justamente pelo fato que existem os créditos logo na sequência), mas Kubrick fez algo bem elaborado com 2001 (que começa a termina com uma tela escura enquanto toca ópera), e é a importância da estrutura cíclica que faz parte de toda a história (o passado replicando no presente e futuro como o Doutor Manhattan destaca com os relógios, ou com os flashbacks do funeral do Comediante e a epifania de Espectral em Marte ao se lembrar de uma briga de seus pais de quando ela era uma criança).

Segundo ponto: Todo o plano elaborado de Ozymandias tem como ponto e foco construir uma elaborada rede - que não deixa nenhum rastro ou indício. Todo mundo envolvido ou desaparece ou morre em circunstâncias bizarras e misteriosas (que invariavelmente parecem um acidente E, mais importante, algo que um maluco por conspirações encontraria).
No entanto, o projeto bastante público para o meio ambiente de Ozymandias e Dr Manhattan coloca um enorme alvo na cabeça de Ozymandias (ao ponto de colocá-lo na berlinda após o pseudo ataque do Doutor contra o mundo).

Droga, criar uma história em que o Doutor Manhattan ataca o mundo (depois de trabalhar como sócio de Ozymandias) colocaria Ozymandias sob enorme escrutínio da mídia, do(s) governo(s) e sob enorme e constante observação...  Além, é claro, da ex-mulher e associados...

E eu sei que o diário de Rorschach num tabloide sensacionalista dificilmente ganharia alguma notoriedade MAS uma coisa é um lunático citando que um monstro gigante é algo feito por um milionário para acabar com a guerra. Outra é quando ele cita que esse milionário - que estava trabalhando com o cara que obliterou várias cidades do mundo e fugiu - manipulou a coisa toda...

Principalmente considerando que vivemos em um mundo em que qualquer coisa envolvendo 'celebridades' VIRA motivo de atenção dos grandes veículos de mídia...

Terceiro ponto: O plano de culpar o Doutor Manhattan coloca um enorme alvo na cabeça do governo americano (afinal, Manhattan ERA um agente do governo).
Essa é simples e fácil, mas mais provável que não, o plano de Ozymandias levaria à Terceira Guerra Mundial e não preveniria (que era o plano na graphic novel)... Com toda a negação possível e imaginável, eu simplesmente não vejo no cenário da Guerra Fria que o mundo simplesmente deixaria passar um ataque de um agente americano (mesmo que os EUA também fossem um dos alvos).

De novo, eu sei que o final da hq não deixa claro se a paz conquistada pelo plano de Ozymandias daria certo (e, provavelmente não daria), mas existe dentro da lunática tentativa um plano coerente. Por bem ou mal, seria uma atitude altamente cretina de qualquer país inimigo se aproveitar do momento terrível para atacar (pois seria como atacar os EUA após o 11 de setembro).
No filme, bem, eu vejo os russos atacando dois minutos depois em retaliação...