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16 de outubro de 2013

Epílogo - O autor

É quase um ritual.
Ele encara o branco da folha hipotética diante de si, acende um cigarro, ajeita os parcos
fios de cabelo, e, uma vez mais mexe o gelo de seu copo, que fica sempre estático ao
lado de sua máquina e ali permanece (entre um gole e outro, entre uma mexida e outra
do gelo) até que ele conclua seu projeto.
Seja um parágrafo, uma folha inteira, um capítulo... Geralmente, ao menos uma idéia
completa passada para o papel, seja isso o que realmente for.
Os tragos do cigarro são mais freqüentes, enquanto ele encara a folha.
Cada vez mais desafiadora, cativando seus pensamentos... A folha faz dele o que é,
assim como ele se esforça em dar à folha significado. O frenético galopar das teclas a
preencher os espaços em branco com pixels que representam a tinta e palavras que
passam, de forma sintética e formal a compor frases, sentenças e idéias traduzindo
pensamentos abstratos em conceitos pragmáticos.
Tudo se juntando para fazer algum sentido... Para traduzir todo um mundo através de
suas palavras. Ele se sente importante fazendo isso, mesmo incapaz de notar os seus
erros de português ou vícios de linguagem sem a ajuda do corretor ortográfico... Não,
ele não se importa. As ferramentas do artesão não diminuem a sua competência, é o
exato contrário.
Orgulho, talvez seja a palavra correta. A empáfia de estar criando arte. De criar algo
relevante. Algo com valor agregado... Importância artística... Qualidade para subsistir e
sobreviver ao teste do tempo.
Orgulho definitivamente é a palavra correta, o que, é bem verdade, mesmo que somente
após um resultado positivo ele deveria realmente se sentir de tal forma.
Até o momento, nada além dele ali sentado, fumando um cigarro barato e fedorento
enquanto digita palavras aleatórias que juntas compõem uma frase inconvincente, e
entre uma tragada e pequena formação de palavras, mexe o gelo de seu copo, ou coça a
têmpora, com uma expressão fatigada, que, talvez fosse somente sua representação de
frustração, em resposta direta ao orgulho de outrora. Uma montanha-russa de emoções
que moldava seu espírito, que definiria a paixão ou o tédio com que as palavras fluiriam
pelo papel e o texto tomaria forma.
Seguia horas e mais horas diante da folha vazia. Pensando. Sentindo as palavras que
irão ordenar suas idéias, que irão preencher os vácuos do papel.
Nada.
Ele respira fundo, fecha os olhos e começa a criar um mundo. Em breve compõe a
intrínseca cadeia de eventos que leva a criação de vida átomo por átomo. Letra por letra.
Respira fundo, e então abre os olhos.
Bebe um gole, buscando no fundo do copo a inspiração.
Respira fundo, apaga o cigarro, pensa. Pensa no personagem, sua vida pregressa e o que
fizera ou teria para servir de motivação. Pensa nos obstáculos, nas coisas, no mundo em
que ele habita e suas circunstâncias. Nos desafios, nas tragédias, nos coadjuvantes...
E pensa na folha em branco.
Parece haver uma expressão irônica, satírica por trás daquela inanimada página diante
de si. Ela o desafia ao mesmo tempo em que motiva e perturba. Provoca seu orgulho de
escritor, motivando as palavras a jorrarem, dando forma ao universo criado.
Mais uma vez, digita freneticamente palavra após palavra como se sua vida dependesse
disso. Escreve como que possuído por uma força maior... Como se a história que
habitasse sua mente pulsasse viva buscando sair de alguma forma e essa fosse
exatamente a forma escolhida para fazê-lo.
Frenético, enfático, inspirador.
Já não sabia fazê-lo de outra forma.
Precisava da inspiração para escrever, dar voz a seus pensamentos... O que é estranho
quando observa-se que são certamente antagônicos, uma vez que os escritos são
estáticos até que alguém traga vida a eles com sua imaginação.
Vivia disso, era sua arte, como dizia. Seus sonhos, suas frustrações, todos vívidos e
reproduzidos monocromaticamente diante de seus olhos a cada novo conto, a cada nova
história, a cada nova crônica. Era sua vida. A vida de seus personagens.
Escrevia e reescrevia veloz e prático. Sem humildade, e sem revisar pela primeira vez
que fosse ao texto, e já o considera sua obra-prima.
E porque não? A modéstia nunca foi pré-requisito para nada, principalmente para
sucesso, ou sequer para real demonstração de talento.
Cigarro, gelo, têmpora.
Parágrafo novo, diálogo simples, sucinto, rápido para justificar a ação apresentada.
Fim do parágrafo.
Coloca o gelo em cima de sua testa por alguns segundos. Sente uma pequena dor de
cabeça, mas não quer parar ainda. Não pode parar ainda.
Está apenas começando, e está se empolgando com o resultado. Se parasse agora, teria
de refazer todo o processo... Algo que pode levar horas, até dias para retomar sua
inspiração.
Não... Parar agora seria loucura. O gelo alivia um pouco a dor, e as palavras fluem
novamente frenéticas por seus dedos que flutuam pelo teclado rapidamente entre
espaços, vírgulas e caracteres. E o pulsar das teclas é o único som a eclodir da sala.
Sua respiração é baixa e silenciosa, seu computador novo e potente não emite som
algum... E o sibilo da chama consumindo filtro e papel é tão baixo que se perde
facilmente entre o bater e rebater das letras.
Só é necessário, porém, um instante para sua mente divagar e se perder... Uma pausa
mais longa e toda a concentração se esvai, derramada, espalhada... Navegando um mar
de possibilidades que de nada o ajudam, somente a se perder definitivamente sem nunca
achar porto seguro, ou voltar ao caminho que vinha traçando.
Aproveita o momento, fuma mais um pouco, bebe o que restara no copo, e se serve uma
nova dose. Desta vez saboreia a bebida, valendo-se da oportunidade para relaxar, e
sorver o momento. Desligar sua mente de vez, se preparando para iniciar de novo o
‘ritual’ e, encara a folha, sentindo as palavras que nela vão brotar para compô-la. Toda
aquela epopéia que já está ali escrita na página em branco, somente esperando para
ganhar forma.
Fecha os olhos por um instante, respira fundo.
Uma. Duas vezes.
Começa de novo a digitar, antes mesmo de reabrir os olhos, mais calmo e relaxado.
Breve ele digita novamente, com menor velocidade, com menos paixão... Segue em seu
ritmo diminuto de forma natural ao digitar as palavras. Agora é mais uma questão de
acabar o texto, é o que pensa. Só mais algumas palavras, mais algumas linhas e estará
terminado.
Com certeza não será algo marcante, ele percebe... Passou, e se perdeu instantes atrás,
mas acredita que, no final, o saldo ainda foi positivo.
Era o que esperava...
Continuava mecanicamente, seguindo seu ritmo, buscando o fim do trabalho.
Até que surge uma nova folha em branco.
























E o ciclo recomeça.

9 de outubro de 2013

Ato 3 - O Sentido da vida (parte final)


Ele segura sua pequena, carinhosamente e parece que o tempo não existe, assim como qualquer outra coisa no universo.
Aquela diminuta criaturinha loira e babona incapaz de realizar qualquer coisa que difira de dormir, chorar e fazer coco, mamar... E ser simplesmente adorável. Aquela prova viva de que a simplicidade é o caminho da felicidade, e que isso mesmo tão simples e evidente desde nosso nascimento, ainda é algo tão facilmente esquecido.
A pequena sorri, enquanto seu pai brinca com ela, segurando um chacoalho ou outro brinquedo infantil colorido e barulhento que ele balança freneticamente diante dela. E ela sorri, gargalha alto e chama a atenção de todos que passam ali.
E é algo bom.
Não há quem veja aquela criaturinha linda e charmosa sorrindo e se divertindo ao lado de seu pai que consiga manter um olhar sério, carrancudo ou pessimista. Os sorrisos se espalham, o carinho se espalha e um bem estar, uma sensação clara de que algo bom existe e está bem ali, diante de qualquer um que queira ver.
Mais que qualquer um, evidentemente, quem sorri é o pai, que se diverte e se sente realmente feliz, somente por estar ali. Ela parece cansada, e ele resolve colocá-la no carrinho um pouco, empurrando-o para frente e para trás, cantando uma canção suave e envolvente que a embala para o sono.
_ Demorei muito? – pergunta a mãe, olhando no relógio e carregando sacolas e mais sacolas de compras.
_ Confesso que não percebi... Essa pequena exige tanta atenção que...
_ É... Eu sei bem disso... – diz a mãe sorridente entregando as sacolas de compras para o pai, enquanto se posiciona atrás do carrinho de bebê – Vamos?
Sem uma palavra, o trio segue pelos corredores da loja, Milton, Marina e a pequena Verônica.
***
O machado desce suavemente contra a madeira, sem falhas, sem a necessidade de repetidos golpes, algo que somente com anos repetindo esse ritual vespertino para tornar o hábito mais eficiente, nessa que era sua última tarefa diária antes do regresso ao lar. Mas não era um lar.
Ele estava sozinho, e sabia muito bem disso, mesmo que o sentido e contexto não fossem exatamente claros. Não havia mais nenhuma vivalma nas ruas, em outras casas e no restante do mundo, e fazia muito tempo disso. Tempo demais, para se ter certeza de estar completa e totalmente sozinho.
O pequeno casebre de madeira, improvisado em um lugar alto de uma colina fria, parecia deixar mais frio entrar que impedi-lo de fato, e ele sente que aquela seria uma noite particularmente fria. Não havia lua, e as nuvens se formavam densas no horizonte. Uma tempestade seminal, talvez, embora improvável. Não havia vento.
Ele deixa as toras ao lado da casa, carregando apenas o que precisaria para acender uma fogueira, para impedir que morra com o abraço gelado da noite, que seus cobertores vinham repetidamente se provando insuficientes.
Como em outras ocasiões, aqueles pareciam os seus últimos pensamentos a correr pela vastidão de sua massa cinzenta, por isso parecia lógico abrir sua última garrafa de vinho, consumi-la até o final e passear pelo tortuoso caminho da memória, através do pesado álbum de fotografias que deixava como um troféu e seu bem mais precioso ao lado de sua cama.
“Dias de ouro”, ele sussurra, virando as páginas que a cada instante parecem mais embaçadas pelas lágrimas a turvar-lhe os olhos. Seu pai, sua mãe, seus amigos, alguns nem tanto... O antigo pessoal do trabalho, do time de futebol amador, dos encontros de pôquer... Seu grande amor do colégio. O grande amor de sua vida. Sua filha.
Chorava caudalosamente, sentado ao chão apoiando suas costas à poltrona, mantendo nela inclusive um segundo álbum quase tão grosso e pesado, este trazendo ainda mais fotos, e mais histórias – como desenhos e trabalhos de escola de sua filha. Abraçou com força o pesado documento que carregava contra seu peito, como se estivesse de fato, não só com uma ou outra das pessoas de suas lembranças e sim todas.
E assim ficou, pelo restante da noite fria de inverno.
No suave abraço das lembranças, no confortável toque das boas recordações. Algo que, mesmo sendo o último homem do mundo, cansado e faminto, não lhe seria privado.

2 de outubro de 2013

Ato 3 - O Sentido da vida (parte 2)


_ Você não está esperando uma festa surpresa ou um bolo ou relógio de ouro... Ou que alguém vá realmente implorar para que fique, né? – diz Fausto adentrando na sala, sem cerimônias, sabendo que este é um de meus momentos finais na instituição.
_ Não... Já passei dessa fase – digo enquanto continuo a guardar minhas coisas e preparar minha saída – Tudo que eu quero é sair tranqüilo, consciente de que fiz um bom trabalho, que não deixarei nenhuma bomba pra trás ou coisa parecida.
_ Eu li o seu relatório. Achei bem prolixo. Completo. E é por isso que eu vim falar com você.
_ Olha, eu não acho que...
_ Mas ache. Existe muita coisa que precisa ser refeita e repensada, realmente, e seu relatório serve pra isso, mais que qualquer outra coisa que esta ou outra instituição já teve ou recebeu. Os erros acabam mascarados e perdidos em meio a tanta conversa, inveja, fofoca e intriga, e nunca chegam a lugar nenhum. Falta uma postura objetiva, e realmente a vontade de mudar. Muitas histórias são só ouvidas e ditas, sem que cheguem a lugar nenhum, ou realmente apontem para um traço de verdade na história toda... E muitas injustiças são cometidas porque as histórias não são ouvidas por inteiro. Porque nós pegamos um traço do que aconteceu e deduzimos que existe uma vítima aparente ou evidente e um monstro a solta... E claro que muitas vezes é isso, por mais que haja variação e limitação do real para o ficcional, mas às vezes, as coisas não são tão preto e branco assim.
Sem dizer uma palavra, olhei com uma expressão forte, segura e um tanto contestadora a Fausto. Sentia que aquele era o momento de mais um discurso motivacional sobre caráter, integridade e como a empresa defende e valoriza todo esse blá-blá-blá. E sobre como ele queria que eu ficasse, como fez e fez e pretendia que eu continuasse aqui, uma vez que ele tinha realmente se esforçado para me manter, e, eu estava me sentindo um pouco como um bandido fugindo no meio da noite.
_ Outras administrações tiveram outras prioridades e gente menos e menos interessada em fazer alguma mudança que fosse proveitosa para os funcionários, afinal, isso só melhoraria a qualidade de vida deles... Quantos exemplos existem disso na história? Foi você quem me contou a história de Rodrigo Bórgia, aquele que viria a se tornar o papa Alexandre VI, e todos os crimes que ele cometeu... Seus atos realmente devem condenar o que a igreja prega e ensina de bom? Ou as pessoas boas que acreditam e agem conforme estes ensinamentos? Mesmo que um lado racionalista e científico fale mais alto em você, ainda existem exemplos e exemplos, como o nazismo nos altos patamares da Alemanha com toda sua pesquisa eticamente questionável para dizer o mínimo... Devemos acreditar que estas decisões ruins que foram tomadas nestas épocas devam minar todo e qualquer avanço e coisa positiva que por ventura tenha trazido?
São os pecados do pai. Podemos pagar pelos erros deles, ou devemos nos esforçar para corrigi-los?
Eu opto pela segunda, e é o que posso fazer, enquanto estiver aqui, na direção, no leme deste navio. E é o que acho justo e correto fazer. O que já foi, já foi. E agradeço muito você por apontar onde falhamos para detectar o que precisamos fazer. Trilhar esse caminho muitas vezes é o mais difícil.
Agora, eu preciso finalizar, agradecendo realmente por todo o seu trabalho, seu companheirismo e dedicação. Foi muito bom trabalhar com você... Pessoalmente acho que enriqueceu um pouco a vida de todos nós aqui. Sua demissão já está assinada, as cartas de recomendação também estão feitas – além de que o departamento pessoal já deu baixa em tudo o que precisava ser feito para você não ser mais um funcionário aqui. Mas existe algo mais.
A porta da instituição estará sempre aberta pra você, ao menos enquanto eu estiver aqui, caso algo mude, caso precise ou queira voltar.
Dois homens incrivelmente constrangidos deixam de lado um machismo bobo e sem preceito para abrir mão de um seco aperto de mão e, nesse momento singelo oferecerem um abraço um ao outro.
_ Você sabe como me encontrar, caro amigo. Caso precise de uma consultoria, de alguma ajuda ou de uma companhia para o almoço, sempre pode dar um pulinho na faculdade e procurar o doutor Milton.
_ E de onde veio o título?
_ O Severino, faxineiro das instalações é quem me concedeu, e sempre devemos respeitar pessoas mais sábias.
Há um pouco de riso, e um dia com ar de saudade, de realizações cumpridas e promessas quebradas. Algo que chega ao fim, enquanto tudo mais continua.

***
É estranho estar aqui de novo.
Não faz tanto tempo desde a última vez, e ainda assim parece uma eternidade... Tanto mudou... Tantas coisas aconteceram... E esse pequeno paraíso fora da realidade, fora do horizonte de cidades, da visão comum de prédios ou do mais singelo odor de fumaça dos carros e fábricas e seus tons de cinza...
Árvores, plantas e muito espaço. Mesmo sabendo que tipo de lugar é esse, até dá uma certa vontade de ficar por algum tempo...
Eu não avanço muito. Fico o mais afastado que posso, próximo ao meu carro, esperando que Virgilio venha. Já havíamos combinado, e, depois de meu último vexame aqui, gostaria de manter um pouco de dignidade caso precise voltar aqui ainda algum dia em minha vida. Não que eu duvide de meu amigo e da capacidade do serviço oferecido em sua recuperação, porém eu nunca fui um homem de duvidar do poder de atração de recaídas, e, como muitos antes de mim já disseram “talvez você só não faça novamente por não viver longevamente o suficiente”.
_ Ei! Quanto tempo, peregrino! – por algum motivo, John Wayne nunca pareceu tão fora de contexto. E talvez o fato de nos abraçarmos, faça parecer ainda mais com que ele esteja revirando em sua tumba, por tal desgraça em sua memória.
_ Parece uma vida. E você parece que ganhou uma nova também... Está mais corado, com uma aparência revigorada e centrada.
_ Você também... Parece que voltou ao mundo dos vivos.
_ É... Eu sinto como se tivesse ido ao inferno e voltado, realmente... Achando um novo propósito... Em um dos momentos mais assustadores dela.
Eu vi meu próprio funeral, e foi horrível.
Havia algumas pessoas, claro... Você estava lá... Minha família, Marina, o dr. Borges e alguns outros poucos que realmente significam algo. E fora isso, fora aquela pantomima vergonhosa para justificar minha vida, o que mais me assustou foi que isso não mudou nada. Minha vida nesse contexto não alterou nada, não conquistou nenhuma realização, não foi capaz de influenciar mesmo que mudanças mínimas... Tudo o que fez foi causar alguma dor nas poucas pessoas que tiveram o trabalho de se importar comigo. E isso dói, cara. Isso dói por demais.
Há um breve silêncio. “É difícil pensar o que dizer em um funeral”, é tudo que passa pela minha cabeça, mas eu não consigo verbalizar isso, e ficamos somente em silêncio por um tempo. Eventualmente Virgilio me questiona sobre Marina, e eu lhe conto toda a história desde que ele entrou na clínica de reabilitação até o último natal. Até o dia depois, e o que isso resultou... Não escondo nada. Nada de omitir minhas falhas ou dizer que eu sou vítima na história ou que é culpa de meu trabalho e do quanto este estava a sugar de mim. Acredito que cresci o bastante nos últimos meses para ser melhor que isso, e por isso digo apenas a verdade que sinto em meu coração sobre o assunto.
_ É... O tempo escraviza a todos nós... – diz Virgilio, meio que jogando a frase sem jeito.
_ Isso é pra ver se eu li o seu ensaio sobre Proust ou...
_ Sem motivos difusos, meu amigo. Somente o que é. Uma afirmação, uma constatação... A justificativa de que fazemos tanto, e muitas vezes tão pouco pela ilusão do tempo que desejamos e do tempo que realmente temos. Frustração pelo tempo perdido... O que nos leva a problemas, a soluções improvisadas.
Era evidente que ele estava falando de seus próprios problemas. De seu caminho até o vício... De como somos egoístas quando se trata de tempo, achando nossas prioridades e caminhos mais importantes que as dos outros, daqueles que realmente nos importam e que valem alguma coisa pra nós. Sobre quanto nos envolvemos em nossas próprias perfídias ignorando a dos outros, com a desculpa do tempo. Foi o que eu fiz com Marina. Foi o que eu fiz com Virgilio. Fui escravo do tempo, invés de trabalhar e viver em função dele.
_ Eu não tenho sido um bom amigo, não? Fiquei todos esses meses sem visitá-lo... Correndo atrás de minha própria vida, buscando uma solução pra minhas próprias frustrações e negligenciei a você, que estava precisando de ajuda...
_ Ei. Não é como se eu estivesse todo esse tempo te ajudando com seus problemas, não é mesmo? Nós nos negligenciamos. Deduzimos que mentiras absurdas pudessem ser verdades absolutas. Pessoas não lêem pensamentos, ou podem descobrir o que quer que seja somente ao ver a expressão de uma pessoa. Estes tempos que vivemos, reverenciamos cada vez mais e mais a multitarefa... A capacidade de resolver e se envolver e mais e mais do que nossa própria capacidade. E acabamos ignorando muitas coisas, para cumprir algumas. Sinais e sintomas não são mais suficientes... Precisamos de mais palavras. Mais ações diretas.
Como poderíamos adivinhar?
_ Não é uma questão de adivinhar... É uma questão de como nos comportamos e agimos. É uma questão de egoísmo e narcisismo. Somos tolos, e queremos mais que podemos ter. Que podemos exigir dos demais.
Silêncio, e uma longa viagem.
...

25 de setembro de 2013

Ato 3 - O Sentido da vida (parte 1)


Enclausurado.
Deprimido.
Indisposto.
Olho meus olhos e vejo apenas um vazio. Olho ao redor e não vejo nada.
Essas coisas são minhas, não esse lugar. Sinto um grito, um urro no fundo de minha garganta, mas não tenho sequer a vontade de libertá-lo.
São sete da manhã, véspera de Natal, minha cabeça dói, meu estômago está todo revirado, e sei que a noite de hoje será a mais importante para o restante de minha vida. É a minha chance de me encontrar novamente.
E isso me assusta.
Essa droga de vida, ela me atormenta, como essa mancha de mofo na parede, os odores desagradáveis do banheiro e a pia que continua intermitente, e esse meu inferno particular, tudo isso pode desaparecer, pode deixar de existir, se eu for capaz de me redimir. Se eu puder fazer as pazes comigo mesmo... Com o velho e bom Milton, aquele que realmente vale a pena salvar.
Aquele que merece uma segunda chance... Não... Aquele que jamais faria as idiotices em primeiro lugar.
Fecho os olhos pesadamente, como se fosse dormir. Sonolento. Cansado.
Espirro uma ou duas vezes. Minha cabeça arde.
Um pesadelo recorrente, um demônio familiar me fita os olhos. Ele ri. Ele diz da facilidade, da simplicidade, do quanto me faltava pouco. Desmaio, quase sem fôlego, quase sem forças, enquanto meus olhos se fecham pesadamente uma vez mais.
Acordo com a cabeça zonza, confuso do que me ocorrera, de como vim a chegar ao chão.
São quase sete e meia da manhã, o que mostra que será um longo dia.
Busco algum remédio em meio a minhas coisas, e encontro algo que, há algum tempo não via, e sou capaz de sorrir novamente. Aquela mãozinha minúscula perfeitamente moldada e representada pelo exame feito por Marina meses antes, e aquele rostinho mais lindo que ficavam o tempo todo em minha carteira e ainda assim eu tão pouco via.
“É por você que estou aqui, minha filha”, penso enquanto levo a foto próxima de meu peito, como se abraçasse minha pequenina e ainda não nascida filha. “E um dia você contará a história desse seu idiota de pai... Tente não me fazer pior do que realmente sou”.
***
Já é o quarto... Quinto cigarro...
Ele olha para dentro com mais consternação que gostaria de admitir, e, realmente, em momento algum o faz. Assim como em momento algum acende o cigarro, como fizera com os outros quatro. Os movimenta repetidamente, simulando o ato de fumar enquanto disfarçadamente olha para o telefone, vez sobre vez sobre vez, inquieto e pueril.
Sua família está toda reunida no salão de jantar, como já fizeram tantas e tantas vezes antes. A diferença desta vez é sua “um-dia-virá-a-ser” esposa está grávida. Seis protuberantes e impossíveis de se disfarçar meses, algo que está longe dos desejos dela. Seu orgulho materno a coloca resplandecente no centro da sala, sorrindo e expondo a quem quiser ver o habitat da primeira criança em tempos para aquela casa. Em seu estado, seu sorriso é capaz de derreter geleiras, e foi até capaz de reunir uma família distanciada pelo tempo, pelo individualismo moderno e por toda e qualquer outra justificativa vaga que possa explicar o afastamento daqueles, que, o motivo mais simples da distância, também é o mais verdadeiro. Mas é claro e evidente também que existe dúvida em seus olhos. Ela teme, por seu futuro, por sua criança... Por todas as coisas que aconteceram.
Ele vê, através de uma janela, observando do exterior da casa, toda a movimentação, toda a aglomeração ao redor dela. Aquela cena perfeita, tirada de um livro infantil, ou de uma história açucarada de Natal (convenientemente dada a época em questão), e, por um minuto ele sente e pensa em como tudo aquilo seria bobagem. Que ele estava levando as coisas fora de proporção demais. Que precisava de uma nova perspectiva. “Porque...”, ele pergunta, enquanto coloca o cigarro cuidadosamente entre os lábios, temendo que alguém o pudesse ver ali, e suspeitar de seu comportamento.
A pergunta nunca é completada em sua mente, quando a lágrima lhe corta a face. E ele sabe a resposta. É hora de assumir responsabilidades e crescer. Buscar ou retornar ao caminho correto.
Ele se sente mais isolado que antes. As coisas mudaram tanto e ainda assim parece que falta algo e lhe falta algo. O jantar segue, e seu isolamento continua, lhe afogando, comprimindo. Mesmo os líquidos descem difícil pela garganta. Pesados. Sua mente não está ali, e por um bom tempo não estará. Existe algo a se fazer, e até ser feito, seu corpo e mente estarão em lugares diferentes mesmo.
Saem, sem muito alarde ao final da ceia, as palavras fluem truncadas, com muito mais silêncio que som, até o momento em que a noite se encerra, com um beijo seco de boa noite, e cada um virado para um lado, para descansar.
Um dia horrível, toda aquela sensação horrível, estaria para terminar, pensava ele. Suas dúvidas vinham diminuindo e suas certezas aumentando. Só haviam algumas poucas coisas a fazer, alguns últimos ajustes para garantir que tudo possa terminar bem. Ele precisava atar os nós dos fios perdidos para que tudo se concentrasse e formasse um único tecido. E tudo começaria pela manhã.
***
Na manhã seguinte, logo que acordo vou até o cemitério.
Assim que entro, meu corpo parece se inflar de esperança, mesmo que seja um lugar tão depressivo como é, este local sempre me trouxe paz. Foi pra onde eu sempre vim quando precisava de asilo... Precisava ver um rosto familiar, mesmo que numa lápide, um rosto que não me julgaria, ou faria algum comentário maldoso, pesado. É um lugar lúgubre e pacífico, quase isolado do mundo moderno, mesmo que no coração dele. No horário do dia em que estou, quase não tem pessoas aqui, e o silêncio é uma benção. Nada aqui dentro é moderno ou tecnológico, e mesmo os costumes, são os mesmos preservados, validos e repetidos através dos séculos desde tempos imemoriais. Este é o destino final daqueles que andam pela terra, e onde um dia estaremos todos que hoje vivem e respiram. Ou de forma menos genérica, ao menos, uma vez que alguns seguem métodos menos ortodoxos de funerais. Mesmo que um tanto catastrófico, não chega a ser triste. Pra mim é um lembrete, do quanto a vida é importante e delicada... E pensando no contraste disso, na minha filhinha que em questão de meses estará em meus braços, só posso ver o quanto esta perspectiva faz mais sentido.
Meu pai sempre me olhava com o mesmo olhar compassivo e calmo, e isso sempre ajudou. Eu sempre consigo pensar melhor aqui, e este é o lugar de todos os lugares onde posso ser honesto, completamente honesto, comigo mesmo acima de tudo. Inibições e temores de ser franco demais não existem. Os falecidos não julgam ninguém. Eles somente olham compassivos e calmos da foto de suas lápides.
Existe um banco, bem em frente ao seu túmulo. Quando a conversa é mais longa eu me sento, e hoje é uma dessas. E não, não estou louco a ponto de ouvir a sua voz dizendo algo de volta. Estou bem ciente disso... Confesso que realmente sequer acredito que sua alma imortal, caso realmente exista, possa ficar vinculada a este lugar ou espaço, e já discuti vezes e mais vezes a filosofia e teologia toda da coisa. Algumas vezes o coração suplanta a lógica. Vincular este lugar a meu pai é mais fácil que acreditar que ele se foi para sempre, e acreditar que um dia eu poderei e irei revê-lo é mais confortável que crer que os poucos anos que ele esteve aqui ao meu lado foram tudo. Mesmo que quisesse, a memória não ajuda mais. Faz tanto tempo que ele se foi que lembrar de sua voz, de seus modos, dele mesmo como era... É difícil. E não importa. A lógica disso é o menos importante. Eu preciso falar um pouco mesmo, e preciso falar com alguém com paciência e todo o tempo para me ouvir e compreender meus dilemas.
E meu pai não vai a lugar algum.
***
Passo a tarde em casa, visito minha mãe. Também faz um bom tempo que não temos um tempo pra conversar, pra receber um pouco de mimo... Nos últimos meses, quando conversamos, ou ela me deu alguma bronca por minha indigna falta de maturidade, mas hoje enquanto peço alguns conselhos, pergunto algumas coisas sobre casamento e como criar crianças e sobre o quanto eu fui difícil quando menor (ao que ela diz que eu continuo difícil, e nós rimos um pouco, apesar de ser verdade), finalmente temos algum tempo de mãe-filho.
“Tolerância, meu filho, tolerância”. Ela diz, me encarando com aqueles olhos de mãe, gentis como nunca, quase lacrimosos. Ela sentiu minha falta, e o abraço carinhoso que ela me dá após isso deixa bastante evidente. É quando percebo o quanto me deixei envolver por problemas que não podia resolver, que eram maiores que a própria vida.
Ela prepara um almoço, como a tempos não tenho tempo de comer. Uma refeição incrível, e ela me faz, por algum tempo, me sentir como uma criancinha, curtindo o mimo e a atenção da mãe, que faz o mundo externo parecer nulo. E os problemas todos se esvaírem com o cheiro do prato de arroz, do sabor... Deus, como eu me sinto egoísta com tudo isso.
A única coisa que desejo neste momento, é que eu possa reverter os caminhos errados, e manter a coragem que está me livrando dos caminhos errados.
***
Ao voltar para casa, Milton percebe, com o primeiro olhar, que Marina estava preocupada, e, não só isso, furiosa. Seria uma noite longa. E começa com Milton fazendo de tudo para acalmá-la, explicando o que aconteceu, e porque eles precisavam conversar.
_ Precisamos começar de algum lugar, e, eu começo pedindo desculpas, e, esperando alguma complacência. Jogo-lhe a bandeira branca, e imploro que me oferte ao menos isso.
_ Você sabe que eu tenho motivos para estar brava, certo? Esses dois últimos dias foram bons, foram gostosos, me fizeram lembrar de quanto eu sempre gostei de sua companhia, e o quanto mais dói tudo isso.
_ Você não gosta mais de mim?
_ Queria que fosse tão fácil...
Ficamos em silêncio um minuto, ela fica sentada na cama, paciente, sem me olhar, cabisbaixa. Eu puxo um banquinho, e me sento em frente dela, seguro sua mão esquerda, em forma de concha, e, por alguns minutos ficamos assim.
Até que ela quebra o silêncio, me devolvendo a pergunta: “E você, ainda gosta de mim?”.
_ Eu fui um grande babaca, e, sempre que precisar falar sobre o assunto, vou ser o primeiro a admitir isso. Não nego, Marina, não nego mesmo, que fui um idiota... Querendo jogar a culpa em uma situação impossível que foi me consumindo, absorvendo e demandando cada vez mais e mais... Me assustando e me afastando de você, e até me fazendo temer sobre a nossa situação, sobre essa vida de casado, essa vida pra qual estamos nos encaminhando, com a filha por nascer e... Nossa rotina... E, sei lá... De todas as coisas, eu senti que eu estava atrapalhando seu caminho...
Que eu não sou bom o suficiente, e nem seria bom o suficiente pra cuidar de nossa filha, que não seria um bom exemplo...
Ela chora um pouco, cobre os olhos, se sente um pouco culpada pelo que vai fazer, mas longe de achar que isso responda a angústia que veio sofrendo... Que veio sentindo nos últimos meses, e mesmo todas as dúvidas e aqueles sentimentos ruins lhe consumindo e... Todas as dúvidas.
_ E isso quer dizer o que? Que gosta de mim ou não?
_ Continuo te querendo como nunca. Quero você em minha vida, você e nossa filha.
Ela olha para mim, pela primeira vez, chorosa, e com um tom de fúria ainda.
_ Você se lembra de uma noite em que estive com você no hospital? - ela faz que não com a cabeça, do que sei, ela pouco se lembra desse período – Sabe que não sou religioso... Não sou homem de rezar, de... – agora eu começo a chorar, lembrando da noite em questão – Mas eu pedi, pedi com toda a fé... Toda a esperança que carrego em meu coração... Implorei, que nada de grave lhe acontecesse, ou a nossa filha – aperto sua mão mais forte, e choro com mais intensidade, viro meu rosto, e sinto minha garganta se fechando, trancando – Não... Implorei... Supliquei... Exigi que, se alguém ali naquele quarto tinha que partir... Que fosse eu.
Acho que foi isso que foi me afastando de você...
_ Não – ela diz seca. Ríspida.
_Não?
_ Não. Não me venha com isso... Não venha querendo culpar ninguém... Não venha querer dizer que...
_ Desculpe... Eu sei... Os últimos meses foram estranhos... Ruins mesmo. E tudo que eu possa dizer... Todas as coisas, nada vai justificar, nada vai fazer com que fique melhor, acerte ou...
Tive medo que você fosse me abandonar, ou que estivesse se aproximando de outro... Mas acima de tudo, quando você foi internada... Eu temi demais que aquilo fosse o fim. Eu fiquei pensando... Temendo que você realmente não estivesse mais aqui, ou que, caso voltasse, não quisesse mais ficar comigo. E essa idéia me assustou. Me assustou pra caramba. E é por isso que eu vim agindo como um babaca, que fugi pro mundo... Que...  Que fiz o que fiz.
Eu não posso justificar todos os erros cometidos, e não existe coisa que eu possa dizer, ou mesmo fazer... Achando que você merecia algo melhor.

Olha... Eu sei que é uma justificativa barata, que é algo fútil e vão culpar... Usar um bode expiatório até... Mas a verdade é que eu mudei, e mudei bastante durante esse tempo todo que estivemos juntos. Mudei pra pior, em muitos aspectos de minha vida, conforme avançava em direção ao abismo, me tornando cada vez mais parecido aos monstros que eu jurava querer ver o fim, que eu questionava e... Todos aqueles preguiçosos e vagabundos de altos escalões, em ternos engomados, cuja parte de cima passava e passa mais tempo no escritório que eles próprios. E eu fui entrando num ciclo vicioso e cada vez mais seguindo em direção a este caminho.
Só acordei dessa agonia quando você anunciou que estava grávida, e foi quando eu comecei a repensar minha vida, nossa vida... O que cada coisa e cada pequena coisa significava. E cada coisa absurda e grande também. Quando você quase perdeu a pequenina... Eu acabei perdendo um pouco o eixo, mas cada vez mais fazia sentido que mudanças deveriam ocorrer. Que era hora de buscar um novo rumo.
Precisei voltar a ser um idiota pueril para finalmente amadurecer, e acho agora que sou um homem sério, comprometido com um propósito maior na universidade...
Ajoelhado perante Marina, seguro com uma de suas mãos às duas dela, posicionadas sobre o colo, enquanto com a outra alisa o rosto, tirando o cabelo que insistia em lhe cobrir ao tempo que enxuga algumas lágrimas.
_ E querendo me comprometer a algo maior com você...
Ela nada diz, engole o choro seco, sente que deveria demonstrar alguma raiva ou indignação ou temperança, mas, honestamente, seu coração não consegue se manifestar, em nenhum sentido. E é verdade que foi de longe um pedido bem medíocre de casamento, num momento bastante inoportuno.
_ E como nós ficamos?
_ Essa é uma decisão sua, Marina... Eu quero fazer parte da vida de nossa filha... Eu quero fazer parte de sua vida. E quero você em minha vida, Marina. Quero que passemos a ser uma família de verdade, numa casa nossa... Só nossa. Feita e projetada pela melhor arquiteta que conheço, e bancada pelo que de lucro que pude juntar com investimentos – somando ao apartamento e alguns outros trocos que receberei de minha saída do banco, de rescisórios e outras verbas. É pouco o que estou oferecendo, mas as coisas vão mudar... Eu acertei minha situação com um emprego que vai me oferecer mais tempo, que vai me dar maior disponibilidade para cuidar de você, da pequenina... Mas a decisão final é sua.
Se você vai me aceitar, se vamos ficar juntos todo o tempo, ou ter a custódia da menina dividida, ou... Enfim... É sua decisão, e, eu vou respeitar.
Por mais que me doa.

18 de setembro de 2013

Ato 2 - A crise de identidade (parte final)


As últimas notícias que tive de Verônica vieram numa noite chuvosa, quando o telefone tocou nervosamente, e, pensando por um minuto que fosse Marina, corri em sua direção. Sua voz suave e doce era como brasa em meu peito. Sentia grande agonia, e constantemente pensei em desligar o telefone.
Não fui homem o bastante.
(Não sou homem suficiente para admitir que eu liguei para ela. Não... Não consigo. Preciso dizer que foi ela quem ligou. Preciso acreditar nisso. Que aquelas noites em que passamos por horas conversando, que ela tomara a iniciativa. É algo no que preciso acreditar... Preciso que seja verdade).
É difícil falar sobre uma mulher que, um dia julguei ser perfeita, sem realmente abusar de elogios e fantasias. Eu amei Verônica, e isso é verdade. Isso foi verdadeiro. Jovens, inexperientes, cheios de ideologias, sonhos e idiotice juvenil. Buscando inspiração. Buscando nos rebelar contra o sistema opressor e maniqueísta, sempre querendo ou fazendo algo chocante e igualmente estúpido para alterar as concepções, para ver um mundo diferente. E buscamos nos amar, nos apaixonar, e nos descobrir.
Não fui capaz de vê-la com outro quando terminamos, por mais pacífico, honesto e calmo que tenha sido nosso fim. Vê-la em outros braços, e isso me fez começar a ver que a idade adulta, a época de realmente crescer e amadurecer começava.
A adolescência voa, os ideais começam a parecer menos importantes que se manter, que pagar as contas, que comprar os livros da faculdade, e procurar um emprego, se conformar e seguir um caminho normal e careta parece cada vez mais lógico e coerente.
Aprendemos a lutar nossas batalhas, e quais valem a pena seguir adiante, de quais devemos desistir. Nem todo mundo nasce para mudar o mundo, e, nem sempre se muda as coisas da forma que se espera.
O discurso vazio de adolescente, com algo falso e pragmático de boutique, ignorante à realidade e à condição humana não é rebeldia ou mudança. Não... Era minha forma de parecer autêntico com um clichê que só era diferente dos demais. Era a forma de buscar atenção no colégio, como tantos outros faziam, através de notas perfeitas, ou arranjando brigas, desafiando os professores e ou pregando peças, ou presunçosamente tocando um violão em círculo com uma turma. Cada um busca a forma que lhe parece mais agradável, ou que lhe parece mais fácil. É como vivemos. Quis ser um revolucionário, para parecer legal, agora sou um lunático, sozinho, brevemente desempregado e tentando reconstruir a vida.
A vida segue.
***
Não sei se foi um sonho, uma ilusão ou o que pode ter acontecido, mas lembro de uma noite particularmente sem graça,e estava saindo do serviço, desanimado e um tanto deprimido, devo dizer.
Nada demais, um tempo chato, nublado apenas para cobrir a lua, afinal a noite era quente e abafada. Encontrei-me com alguém que, honestamente, não pensei que veria novamente em qualquer momento de minha vida: José Antônio Leão, alguém ainda mais desiludido e deprimido que eu.
Conversamos por dez, talvez vinte e tantos minutos. Ele falou de sua vida, das condições e como muitas coisas ainda estavam mal, e outras ainda piores.
A esposa doente, já há algum tempo, com um tratamento caríssimo e que somente minimizava os efeitos – sem qualquer perspectiva de algum dia curá-la. A filha, grávida, abandonada pelo pai da criança, e, voltando para casa, pedindo ajuda dos pais. Haviam outros problemas, alguns que ele fez questão de enfatizar, outros de sublimar.
Fiquei um pouco mal. Voltei direto pro apartamento após essa conversa, pedi alguma coisa pelo telefone e passei o restante da noite quieto e tranqüilo, tentando digerir tudo aquilo. Sentia um tanto de responsabilidade, uma vez que agora tinha contato direto que era quase parte daqueles responsáveis pela injusta demissão dele no passado. Também pensava no quanto eu poderia me tornar naquele homem num futuro... Após minha saída da empresa... Após tentativas e mais tentativas não sucedidas de seguir com minha vida... Seria aquele meu destino?
Não lembro quando foi a última vez que senti vontade de fumar na vida.
Sete, talvez oito anos atrás, quando já tinha parado de fumar por algum tempo, eu acredito. Acho que estava começando a trabalhar, e o estresse estava me consumindo e me forçando a repensar a decisão. Naquele momento, mal percebi como ou quando exatamente eu sai para comprar um maço.
Ele me encarava, desafiador, como que pedindo ‘só um, vamos’.
Tirei um e segurei por algum tempo, diante da janela, pensando em acender. Em como iria soltar a fumaça pela janela como que em um ritual, expelindo minhas preocupações, dúvidas e meus demônios através deste ato.
Foi uma noite difícil, tive diversos pesadelos, minha digestão foi terrível durante todo o período e somente graças a remédios digestivos não regurgitei. Esse sentimento me assombrou por mais alguns dias...
***
_ Onde os sonhos vão para morrer, você me perguntou certa ocasião, e essa pergunta me acompanha e vem perseguindo por dias e semanas agora... Confesso não saber responder acuradamente, não pelo fato da geografia de lugares abstratos não ser exatamente clara ou direta. Paraíso e inferno são mais simples, claro. O paraíso é onde está nosso coração, ou onde encontramos conforto e paz, como religiões de todo o mundo denotam e declaram. O inferno, porém, é onde o homem cai de seu pedestal, vê a brutalidade e selvageria de sua natureza, e toda a dor e destruição que essa pode carregar ou produzir.
Os sonhos porém, jamais tocam a terra. Jamais chegam ao chão, ou saem dele. Pairam e vivem no ar, na dimensão do ontem fantástico e do amanhã utópico, e, estes reinos mesmo que sem seus adjetivos, jamais estarão em nosso alcance. Não... O amanhã pertence à fantasia, como os sonhos. A um reino etéreo e lúdico onde homem algum pode entrar se munido de preconceitos, a menos que seja a esperança.
Faz uma pausa, dramática ao mesmo tempo que necessária. Um homem precisa molhar sua garganta também, afinal, para que mais palavras possam ser proferidas.
_ Os sonhos, meu amigo, são parte importante da tradição oral humana, da necessidade por comunicação estabelecida por este animal social, tão afoito e preciso de contos, fábulas e mistérios.
Compreender os sonhos é um mistério profundo e complexo, que, mesmo com toda a tecnologia do mundo seria um estudo dificilmente proveitoso. Não, não creio que seria de qualquer proveito mesmo.
Os homens buscam respostas para os mistérios do mundo, e, o mundo se recusa a nos oferecer estas respostas facilmente. Buscamos refúgio em nós mesmos, e surgem as histórias. Nossa mente é algo fabuloso, por mais que compreendamos dela tão pouco. Nascem os mitos da criação. Nascem as suposições primordiais. Daí surgem as visões de mundos cintilantes e capazes de despertar e fascinar nossa própria imaginação.
Assim nascem os sonhos.
A forma de, continuamente estimularmos nossas mentes em busca de respostas e mistérios divinos cada vez mais complexos e fantásticos. A forma de continuarmos com nossas histórias, e a criar novas e mais fantásticas histórias. De estimularmos nossas mentes arcaicas e imunes à fantasia devido a constante imersão num mar de cinza, num universo particular e restrito da rotina do dia-a-dia.
Uma nova pausa, um novo gole de água.
Veja bem, a rotina, a constante é algo que, em tempos primievos salvou nossos ancestrais, impediu que a grande maioria de nossa população – que em dado momento, como você deve saber, chegou a perigosos índices de menos de cem habitantes em todo o globo – e isso faz parte da cultura, do pensamento comum humano, de que a rotina, repetição e padrões são bons. E que seria loucura buscar além disso. Desbravar.
Curiosamente, são os desbravadores e aqueles capazes de ousar que ganham a história, valendo-me do chavão britânico ‘quem ousa, vence’, mas isso é outro assunto. Doravante, estes sonhos pululam e se dispersam por nossa mente e nosso dia-a-dia para que sejam facilmente identificáveis, e assim igualmente facilmente compreensíveis.
Não... Isso saiu errado.
Os sonhos são parte de nós. Parte de nossos temores, de nossas ambições. De nosso universo particular querendo compreender o universo maior, explorar e desbravar e compreender o todo, a partir do pouco que temos e somos capazes de conceber. São esperança e inocência.
E afinal, onde vão estes para morrer, eu me e te pergunto?
Hum-ram (pigarro).
Eles não vão. O máximo que pode ser feito deles, é ser esquecidos e negligenciados, ignorados e deixados de lado. Como um livro antigo, guardando pó.
Somos, meu amigo, a essência desses sonhos. A matéria-prima deles, e, somente com nosso passamento é que estes poderão assim também fazê-lo.
Silêncio.
_ Mas a vida não é uma obra literária.
_ Não creio que seja...
_ Então, não é nada prudente interpretar o mundo da mesma forma, correto?
_ Bem, nos é dada uma perspectiva limitada, o que nos impede de ver a figura toda... Não somos capazes de compreender o conto todo, uma vez que só conhecemos e sabemos interpretar completamente um dos personagens.
_ Então, o que fazer?
_ Viver, meu amigo. Creio que só podemos viver, e deixar que outros se preocupem com nossos contos.
***
Já é começo de dezembro quando consigo finalmente estabelecer alguma nova conversa com Marina. Ela diz-se mais calma e disposta a oferecer a bandeira branca, para que possamos ao menos estabelecer uma relação civilizada, em virtude de nossa menina. Minha mãe havia nos convidado para o jantar de Natal, sem saber de toda essa briga que tivemos, e fiz de tudo para que pudéssemos, ou estabelecer um relacionamento honestamente bom ou pelo menos atuar sobre isso.
Saímos para jantar, como um experimento. Acredito que funciona bem, apesar de todos os silêncios constrangedores, os olhares para o nada e uma vasta soma de momentos que poderíamos ambos passar sem vivenciar novamente. Existe um elefante na sala, e ninguém quer ser o primeiro a mencionar.
Principalmente porque ele não é o problema.
Não... Somos nós.
Não existe mais um nós. O vaso está quebrado, e não importa quão habilidoso seja com a cola, sempre haverá rachaduras.
Humpf.
***
**
*

11 de setembro de 2013

Ato 2 - A crise de identidade (parte 6)


_ Você quer um conselho? Bem, eu posso sugerir muitas coisas, e quem não pode? Todo mundo se julga especialista na vida dos outros, pois afinal é mais fácil dirigir outrem que arriscar o próprio pescoço. Mas eu sempre julguei prudente analisar o mundo a partir de comparações de fácil entendimento ou, no caso, de mais fácil entendimento – diz um calmo e ponderado Dr. Borges, com um copo de chá quente em suas mãos.
_ O ser humano é um dos poucos animais coletivos que funciona pior coletivamente que individualmente. Sozinhos somos mais espertos, mais hábeis, mais capazes até. Em grupo cometemos atos estúpidos para sermos aceitos, como julgar e pré-julgar outros, e, na grande maioria criamos fogueiras grandes demais para os pecados que queremos expurgar. É o contrário das formigas, abelhas e tantos animais aos quais consideramos de casta inferior e menos sofisticados, seja biologicamente, seja evolutivamente... Estes, em quantos maiores seus números, mais coisas serão capazes de fazer.
Relacionamentos são complicados, afinal, cada ser humano em si é complicado sozinho, e juntos, essas complicações se multiplicam, se combinam e, muitas delas pioram. Afinal, diz-se que nenhum homem é uma ilha, mas eu penso o exato oposto. Todo homem é uma ilha, isolado, e, num máximo próximo o suficiente para formar um arquipélago. E nada mais. Sempre haverá espaço suficiente entre cada pessoa para separar ilha de ilha.
Os relacionamentos são as pontes que ligam estes pedaços de terra, e às vezes algumas pontes são mais frágeis do que outras.
Agora, como reparar uma ponte que ruiu? Como impedir que uma delas caia ou construir uma nova?
Não sou nenhum engenheiro ou alguém capaz de entender como pontes se formam, funcionam ou se moldam. Se minha vida dependesse de apontar uma fórmula para isso, bem... Estaria com os dias contados. Pulemos esses detalhes, e partamos um passo mais perto das respostas. São questões de múltiplas respostas, e todas elas dependem da vontade das pessoas envolvidas mais que qualquer outra coisa. Você precisa de um pouco de paciência, vontade e franqueza.
E pelo que me disse, de um lugar para ficar até ela esfriar a cabeça. Eu posso te indicar uns lugares... A faculdade sempre indica alguns apartamentos para professores ou alunos que precisem de lugares por aqui, e eles são bem acessíveis, normalmente já mobiliados... O que quer dizer que são sujos e mal conservados – ele ri, nervosamente, e eu fico ainda mais preocupado com minha situação.
_ Agradeço sua preocupação, doutor. Gostaria que isso resolvesse meus problemas, mas...
_ Mas você os criou, e ninguém mais, não é mesmo? Sua garota tem toda a razão para estar nervosa. Diga o que quiser, faça o que fizer. Ela precisa de um pouco de tempo para repensar porque ainda deve continuar nessa, e você precisa usar esse tempo para convencê-la disso.
Ou pelo menos parar de fazer idiotices.
Um dos dois, com toda a certeza, já será suficiente.
Mesmo usando palavras um pouco mais ásperas, o tom é o mesmo calmo e contemplativo. Ele bebe um gole do chá, e continua com aquela expressão de quem parece não ter problema algum no mundo, sequer um passado ou vida além daqueles livros e teses e ensinamentos.
Invejo um pouco mais esse homem a cada minuto que passo em sua companhia.
E aceito seguir seus conselhos.
Primeiro passo, me assentar no pulgueiro que ele chama de apartamento oferecido pela universidade.
Segundo passo, agir como, e quem sabe até me tornar um homem melhor.
Terceiro passo, reconquistar minha mulher.
E rezar, antes e entre cada um deles para não tropeçar.
***
O apartamento novo é horrível. Pequeno, apertado, com uma colônia de férias para fungos na cozinha e um banheiro bastante nojento (tanto que tenho de tomar banho de chinelos). O quarto tem um cheiro estranho, que realmente não consigo decifrar, e, à noite quando as luzes se apagam, um constante gotejamento se faz notar na sala, já começando a formar algumas pequenas estalagmites em meu teto. Lembro uma vez mais dos tempos da faculdade, mas desta vez não vejo nada de animador... Mesmo porque meu apartamento daquela época ainda era melhor que isso.
De tudo isso, só tenho o alívio de que, só terei de pagar alguma mensalidade se estiver aqui ainda em janeiro. O apartamento estava disponível já há algum tempo, e, minha estada aqui facilita ou compõem parte dos regimentos internos da faculdade, de acordo com uma ajuda do doutor Borges, que me registrou como docente substituto. O que não é de todo mentira, afinal, ele conseguiu uma vaga para mim, prestando uma espécie de monitoria aos alunos com dúvidas e oferecendo algum eventual curso. Paga pouco, mas constitui créditos importantes para um eventual mestrado, e me deixa menos tempo sozinho com meus pensamentos, e mais tempo me dedicando a ser uma pessoa melhor.
E isso ajuda bastante.
As freqüentes conversas com Borges, a presença sempre de gente em minha sala ou solicitando minha presença em algum lugar do campus, acaba me desviando de meus problemas, e consigo me sentir melhor, mais confiante.
Realmente me sinto bem fazendo isso. Sinto que estou fazendo algo importante, que as pessoas se beneficiam de minha experiência para algo positivo. Algo produtivo.
Sinto que estou fazendo algo de bom para as futuras gerações, e, mesmo que o cansaço de manter dois turnos seja grande, ainda assim vale muito a pena. Consigo não pensar em Marina tanto, e em minha própria estupidez.
Quando penso nela durante o dia, sempre que posso sigo o conselho do doutor e envio alguns mimos, diversos pedidos de desculpas e fico no aguardo de uma resposta por parte dela.
Fico esperando que ela ligue de volta, ou simplesmente atenda ao telefone, mas não acontece.
Passam dias... Algumas semanas até que eu receba a primeira notícia dela. Ela atende, e, brevemente me diz que não está a fim de ouvir de mim ainda. Quer esfriar a cabeça, quer apaziguar os ânimos ainda, e precisa ficar um pouco sozinha. Mas agradece meus intentos para reatarmos... Só espera que não seja tarde demais. E eu também.
Os dias são longos e cheios de coisas acontecendo, poucas acabam ficando em minha memória.
***
_ Doutor, porque fazemos certas coisas?
_ Questionando o sentido do destino, meu caro Milton? Alguns homens perderam fortunas e boa parte de suas vidas buscando respostas, enquanto outros perderam a sanidade. É um caminho longo e tortuoso, e nem sempre um que valha a pena trilhar.
_ Talvez apenas filosofando um pouco, não sei bem. Faz algum tempo que venho me perguntando o que estou fazendo com minha vida... Porque segui esse caminho e não outro... Porque escolhi a faculdade que escolhi, e ignorei seu caminho para conseguir um emprego... Porque Marina me escolheu... Porque eu continuo a ter medo e fazer coisas estúpidas...
Há um breve silêncio, até que a conversa seja retomada, com tom interrogativo.
_ Conheces Richard Parker?
_ O Homem Aranha?
_ Creio que este seja Peter, meu caro. Richard é uma figura um tanto mais peculiar e curiosa. Ele figura em um sinistro conto de Edgar Allan Poe sobre um navio que fica à deriva, e, seus passageiros tem as mais diversas atribulações, chegando ao ponto de, bem, recorrer ao canibalismo para sobreviver.
Quase sessenta anos mais tarde da história ser escrita, um navio desapareceu, tendo em seu rol de marinheiros um jovem inglês batizado “Richard Parker”. O nome rendeu pelo menos mais três casos semelhantes. O já falecido Poe havia previsto tamanha tragédia? Ou como parece mais provável uma singela coincidência bizarra que nosso cérebro busca por padrões lógicos na compreensão do ilógico? Tentamos explicar o caos e o acaso a partir de teoremas e regulações. Sincronismo ou coincidência? Destino? Predestinação? Bem, que diferença faz?
Existem mistérios demais para nossa compreensão e percepção, e às vezes o melhor a fazer é deixar que as perguntas sejam suas próprias respostas, ou sequer se importar com as mesmas.
***
O trabalho não melhora.
As semanas que seguem são corridas, com cada vez mais demissões e, um alarmante número de afastamentos ocasionados por estresse e até alguns suicídios de funcionários ou ex-funcionários (recém demitidos, diga-se de passagem). Numa quinta-feira pela manhã recebo a notícia de que sete ex-colegas, de cidades diferentes – e até estados - coincidentemente nos deixaram.
Nunca fui muito de pensar sobre suicídio, e, agradeço minha rotina e vida bastante por isso, mas recentemente confesso que pensamentos recorrentes sobre o assunto cobrem minha mente. O fim para o sofrimento.
Puro e completo egoísmo, me diz Virgílio, me olhando inquisidor, dizendo que eu não sou o centro do universo, e que é vergonhoso querer desistir só porque as coisas ficaram difíceis. Que eu não faço idéia do que realmente significa a palavra difícil.
Mesmo assim, o pensamento me atormenta, me persegue como uma assombração, e acaba surgindo em momentos tenebrosos, quando estou sozinho em meu horrível apartamento encarando um prato de alguma gororoba nojenta que preparei e, se não em companhia do mais completo silêncio contemplativo, ouvindo cada e todo barulho que se passa com meu vizinho de parede, ou de andar. Seja um deles fazendo sexo ruidoso e burocrático, ou seja outro (ou o mesmo) usando a descarga de seu vaso sanitário, continuas e repetidas vezes... Ou mesmo durante meus almoços solitários durante o expediente, também contemplando algum grude asqueroso, e sozinho em uma tentativa de cozinha no prédio em um andar vazio e quase abandonado devido ao desmanche dos departamentos e setores, ouvindo o barulho de máquinas de escrever ao longe, que parecem destacar ainda mais o sentimento de assombração que me acomete.
Tenho medo.
Mais que quando Marina esteve mal, que eu pensei que pudesse perdê-la, eu temo que agora serei incapaz de me encontrar. Temo ficar sozinho, perdendo mais e mais sonhos, preso mais e mais em algo que, desde o começo não quis fazer parte.
A mudança parece piorar essa situação.
Sei que já faz algum tempo que estou no apartamento, mas não me acostumei com a idéia, e muita coisa eu nem tirei das caixas. Muita coisa eu nem peguei do apartamento velho... Marina mesmo disse que isso é temporário – apesar de não significar que voltaríamos a morar sob o mesmo teto. Só que existem algumas coisas que me fizeram desenterrar o passado, e, provocam sentimentos adormecidos, e alguns mortos.
Numa noite em particular que não tinha serviço qualquer na universidade, começo a revirar as caixas de recordação, e encontro muita coisa de meu tempo de colégio... De meu tempo de faculdade. E de, alguns anos depois o começo de namoro com Marina.
Vejo tantas fotos quanto sou capaz de ver, e, algumas faço questão de ver novamente, ou separar para manter mais perto de mim, de minha rotina. Não são tantas fotos que estão comigo, afinal ainda não trouxe todas minhas coisas, e honestamente espero nem precisar. Vejo meu pai, jovem com um bigode robusto, me carregando quando ainda era criança. Minha mãe também está ali, com uma expressão feliz, que há muito tempo não vejo em seu rosto, e, que também nada fiz para facilitar isso, bem o contrário. Ela segura meu irmão, um pouco maior que eu, uma vez que também um pouco mais velho. Mal lembro quando vi essa foto pela última vez, ou mesmo que a tinha.
Alguns amigos que partiram desse mundo, ou que simplesmente partiram para outros países ou cidades mais distantes. Tem uma foto que me chama muita atenção... É a primeira que tirei ao lado de Marina. Havia um brilho em seu olhar, seus cabelos longos e soltos como há um bom tempo ela não usa mais. Eu, com uma camisa... Bem, é a mesma que eu estava usando ontem. Cinco anos e ainda tenho a mesma camisa. Meu cabelo também está diferente, um pouco mais ralo, bem mais curto, sem franja ou topete, e a barba por fazer, que na época eu tentava transformar em um cavanhaque ou algo, e hoje é só por preguiça mesmo.
Bate uma saudade desse ‘não-tão-velho-eu’...
Fico por mais um tempo vendo e revendo as fotos, com calma, vagarosamente, quando toca meu telefone. Penso um minuto antes de atender, e, vendo que não conheço o número, resolvo simplesmente não fazê-lo.
Quando começa a chamar novamente, mudo de idéia. Pode ser importante, afinal.
_ Milton? Milton, sou eu Virgílio! Precisava falar com você, meu amigo!
_ Virgílio?
_ Eu mesmo... Eu... Estou envergonhadíssimo de nossa última conversa, e, só agora consegui criar coragem pra te ligar e pedir desculpas... Não conseguiria esperar mais, e, depois que liguei em sua casa e vi que você não estava lá, resolvi tentar o celular e...
Fico em silêncio por um instante, pensando se ele já descobriu sobre minha condição, sobre minha briga com Marina... Penso que a recíproca só confirma minhas suspeitas.
_ Milton... Eu precisava falar com alguém, e... Estive mal, mal demais. Acho que se havia um fundo de poço, eu cheguei lá com uma pá, e aumentei o buraco. Quando surtei com você só pensei no quanto queria enfiar minha cabeça num buraco e me esconder por lá... Acho que agora estou um pouco melhor, o tratamento parece me ajudar bastante. Sinto menos ansiedade, e minha angústia minha depressão também não mais me acompanham...
Pela primeira vez em muito tempo conversamos. Quer dizer, eu ouço bastante. Ouço cada e toda palavra que ele tinha que dizer, sobre sua condição, sobre o que o levou pra clínica de reabilitação. Sua quase overdose meses atrás, sua depressão, como estava alienado e confuso com o mundo. Solitário, atolado em serviço pra pesquisa... Sobre como ficou uma semana inteira sem ver a luz do sol, lendo e revisando livro atrás de livro para adiantar algumas páginas de seu trabalho. Parte do que estou ouvindo agora a enfermeira da clínica já havia mencionado para mim. É triste. Me faz pensar.
_ Eu não sei... É confuso... Eu me sentia sozinho... Tão sozinho que dói... Não sei se você já se sentiu assim.
Olho ao meu redor, para caixas, coisas empacotadas, um espaço amplo sem móveis, e com todo aquele espaço e com aquelas paredes sujas... Uma lágrima me escorre, enquanto faço isso, e fecho os olhos pesadamente.
_ Agora há de melhorar, meu amigo...
Desligamos o telefone, e passo a noite em claro, olhando para Marina, pensando o quanto eu quero, o quanto preciso dela, para não sentir mais essa dor, esse vazio.
***
Fausto está cansado. Faz tempo que ele está lutando com um leão por dia para manter algum ou alguns empregos para alguns de nós. Creio que ele conseguiu salvar muitos, e com seu empenho, salvou a si mesmo, com mesmas condições, porém um leve rebaixamento, para analista jurídico no processo de incorporações, devido a forma como lidou brilhantemente com o Cosette. Será efetivado no cargo a partir de março, quando nada além do Swann existirá. Sei que sua chegada em minha sala é para falar sobre meu cargo, seja para me manter, para me oferecer alguma condição para ficar, ou para anunciar meu fim. É o que ele anda fazendo por aqui ultimamente, e, nosso histórico aponta que ele viria pessoalmente falar comigo.
_ Olha, eu sei que não é muito, e que as coisas andam difíceis, mas eu consegui mover uns pauzinhos e, enquanto eu estiver como presidente interino, tenho alguns poderes e garantias adicionais por aqui. Por exemplo, eu consegui reverter a demissão de um bocado de gente, e consigo garantir que muitas pessoas não saiam também.
E eu quero você aqui, conosco, Milton, na minha equipe.
Fico em silêncio por um tempo. Ele me pergunta se está tudo bem, se eu ouvi bem o que ele veio para dizer. Digo que sim, e, sigo eventualmente com minha resposta.
_ Agradeço o esforço, Fausto, e não quero parecer ingrato ou coisa do tipo... É que...
_ Todo mundo odeia ‘É que...’, Milton. E todo mundo sabe o que isso quer dizer. Você quer sair, então?
Fico um tanto constrangido, como já estava. Meço com todo o cuidado as próximas palavras, e resolvo que é hora de seguir um conselho de alguns dias atrás, que ofereci para Fausto.
_ Sim. Eu quero sair, e acho que é o momento.
Você me conhece há bastante tempo, sabe muito sobre minhas condições, sobre minha formação acadêmica e tudo o que fiz de cursos e desenvolvimento para minha vida...  Dos projetos que tentei seguir, das empresas que planejei montar. Todos os meus fracassos, entre um copo e outro eu te contei. E foram muitos. Fiquei muitos destes anos porque precisei, porque o dinheiro nunca foi ruim, e sempre me valeu bem... E nenhum projeto vingou. Nada deu certo o suficiente.
As dívidas com o hospital de Marina só consegui pagar graças a essa promoção que recebi graças a seu esforço de me trazer pra cá, e faço questão de enfatizar isso, pra dizer que não sou mal agradecido.
_ É a hora de sair do casulo...? Quem sou eu para discutir a busca por condições melhores, ou que valham mais a pena?
Não posso dizer que isso me agrada, que fico contente de ouvir o que você acabou de me dizer, mas você está certo... Tem de seguir seu caminho... – ele está agora mais tenso, escondendo seus sentimentos. Obviamente está chateado. Sentindo-se até traído, eu diria.
Sem pestanejar, continuo com meus argumentos, mesmo que pareçam não mais necessários.
_ Muito do que passei nos últimos meses, muitas das inquietações, das dúvidas, dos transtornos e desentendimentos... Muito se deve a minhas dúvidas sobre o que estou fazendo e o que isso significa para mim. Invariavelmente vi respostas que não me agradam.
Invariavelmente vejo um homem no espelho que não me agrada.
Este não é o homem que eu sonhei em me tornar, Fausto, e hoje o banco... A vida me oferece uma chance de começar de novo, e eu preciso aceitar, meu amigo.
Pode ser a maior burrice que eu faça. Pode ser que eu vá ganhar um bocado menos, pode ser que eu nem consiga quitar todas minhas dívidas sem um novo empréstimo ou refazendo meus empréstimos... Não importa muito.
_ Certo... Certo... – diz ele pensativo, coçando a cabeça com a mão direita, olhando para o chão, tentando ocultar o desapontamento e o cansaço.
Assino sua demissão com uma única condição.
_ Claro, me diga.
_ Quero que me ajude, estabelecer planos e condições para melhorar a futura gestão, nesse fim de transição... Nesse novo início... – seus olhos emanam um fogo, uma paixão pela empresa, que, eu realmente precisaria de mais dez vidas para ser capaz de entender. Ele saiu e voltou, vendeu uma leva de diretores e pessoas para manter seu cargo (sim, eu disse antes que ele labutou para manter muita gente, da mesma forma que se esforçou para condenar e afastar um outro tanto, principalmente de pessoas incompetentes, com altos salários, é verdade, mas um eventual ou outro desafeto, sem motivo maior que isso), e ainda assim, ele quer o melhor da empresa. Desenvolvimento, progresso, sucesso. Algumas vezes chego a pensar que sou incapaz de entender as outras pessoas, e talvez essa seja a raiz de todos os meus problemas. – Hoje – ele continua, ainda empolgado – com o acesso irrestrito e meios diversos e capazes de propagar os ideais e vontades de todos... Hoje, mais que em qualquer tempo da história, em que o papel aceita tudo, mas não só o papel é meio para comunicação escrita, e, a comunicação visual se faz tão simples e aceita quanto qualquer outra opção. Não são só os vencedores capazes de contar suas versões da verdade e da história, apesar de ainda serem eles somente capazes de moldar o destino, mas todo e cada um pode espalhar seus contos e epopéias. Espaço para tal existe, e, mesmo que seja algo chato, patético e, bem, sem nenhum propósito, motivo ou mesmo capacidade para mudar o mundo ou a sua forma de vê-lo como, tantos alienados sem talento foram capaz de mostrar, e isso está em todo lugar, com todas essas pessoas vazias que lançam produtos com sua marca, tudo que se precisa é um pouco de vontade... E, talvez um pouco de marketing. Mas vontade principalmente.
Você está me entendendo?
(Confesso que não segui toda a linha de raciocínio, e minha cara de ponto de interrogação deixou isso bastante evidente).
_ Quero que você use seu talento e idéias para me apresentar, ao menos um escopo disso, antes de você partir, o que ainda insisto que é uma pena.
Estes são meus termos, para que saia daqui, pela porta da frente, e, com uma passagem de volta caso precise descontá-la se um dia precisar.
Sei que não é demais, sei que você já deve ter dezenas de idéias e projetos engavetados por aí que atendam ao que estou pedindo. E é por isso, principalmente que peço.
Sorrio, e me levanto de minha mesa, andando alguns passos em sua direção, contente afinal, aperto suas mãos vigorosamente.
_ Como posso dizer não, meu amigo?