Vamos lá, eu não vou fingir que isso é bom (ou mesmo que eu gostei do material) e te enrolar por vários parágrafos até chegar nessa conclusão, ainda que eu vá elaborar um pouco mais o argumento.
E não é que a ideia em si seja ruim, muito pelo contrário, é uma sacada muito interessante e que, talvez para uma série limitada ou mãos mais experientes traria um resultado bem interessante, afinal essa é uma história que começa no final. Os heróis venceram o grande mal que aflige o mundo e agora voltam para casa, e aí?
Tá, é mais para 'os heróis de uma jornada de D&D vencem o grande mal que aflige o mundo e agora voltam para casa' do que qualquer coisa - até porque para quem leu ou lê quadrinhos estadunidenses de super heróis isso significa que um novo grande mal surge na semana seguinte, e, para o retorno após derrotar um grande mal num filme de ação significa que seu irmão, primo ou tio distante voltará para buscar vingança.
Indiferente numa visão de que D&D surge inspirado por O Senhor do Anéis que tem toda uma série de capítulos com a jornada de volta para casa e como os heróis que partiram não são mais os mesmos e suas vidas não tem como funcionar da mesma forma que eram antes, e, sinceramente é uma premissa bastante interessante de ver o mundo mudar após a vitória sobre o mal supremo e como os heróis seguem em frente e, bem, como o mundo trata(rá) esses heróis com o tempo que passa.
Então porque eu disse que eu não gostei já de cara? Bem, alguns parágrafos atrás eu até já deixei alguns dos elementos (que a premissa é interessante mas funcionaria numa história limitada e mais curta - tipo do Studio Ghibli - ou que alguém com mais bagagem faria algo melhor nisso), mas não é (só) isso.
Do que eu vi/li do material, existe uma dificuldade para pegar esse conceito interessante e desenvolvê-lo vem em grande parte da escolha da protagonista - que é uma elfa que tem dificuldade grande de demonstrar suas emoções e compreender as emoções dos outros (e a primeira sugestão de pesquisa no google é que isso é código para autismo) - mas, sinceramente eu acho que isso é só a ponta do iceberg, porque eu genuinamente não vi histórias interessantes que usam da boa premissa para transformá-la em algo maior.
Eu vejo algo pretensioso que flerta com ideias sobre como o passado não é exatamente como lembramos dele (e que talvez no capítulo 26 vão aflorar numa reviravolta genial), e como o tempo muda nossas percepções de eventos... Sabe, ideias novas como daquele lançamento recente, Em Busca do Tempo Perdido, né?
Inclusive porque tem uma questão mais complexa da estrutura da ocidentalização que mercado japonês busca desde o pós segunda guerra (que a gente vê com A Princesa e o Cavaleiro da década de 1950) e que tem em muitas obras um retrato bastante favorável da cultura européia (principalmente) com sua arquitetura medieval e as histórias de capa e espada, mostrando uma nobreza europeia como um espírito similar à da nobreza nipônica - do bushido e os códigos de honra samurais que, bem, igualmente são bastante recorrentes nos quadrinhos japoneses também (seja Lobo Solitário, Vagabond e mais uma série de outros tantos quadrinhos sobre o espírito indomável dos nobres guerreiros do Japão feudal).
Não vou nem fingir que sou um grande especialista na cultura japonesa de quaquer maneira, e vou tentar me manter mais distante de qualquer comentário sobre a sociedade como racista e isolacionista (fatores que estão enraigados num passado de isolacionismo que somado pela exploração por outras culturas - o que por consequência e tabela leva a uma maior desconfiança em outros povos), mas é importante destacar que, com o pós segunda guerra e uma vasta expansão econômica, ocorre uma gigantesca transformação social, o que gera uma série de conflitos pela identidade nacional e a própria cultura (conforme a sociedade passa a tentar compreender e assimilar o restante do mundo, e é quando vemos turnês gigantescas de artistas pelo Japão nos anos 1980, por exemplo).
A dúvida genuína aqui é se o Japão passa a tentar entender melhor o mundo para vender melhor para o mundo, mas é algo que, ao menos do que eu consumi de material japonês mostra um cerne de conflito interno pela identidade e cultura. É o que a gente vê em Akira ou mesmo em Dragon Ball quando Akira Toriyama relata sua experiência de mudar de uma área tipicamente rural para a cidade grande (nos anos 1980) e como isso lhe causava estranheza.
Recentemente com a crescente popularidade do gênero Isekai - que mescla a ideia de uma estrutura de uma pessoa migrando para outro mundo (algo que Flash Gordon ou John Carter já faziam nos anos 1930) com jogos principalmente RPGs, inclusive tipicamente inspirados pela estrutura da Europa medieval através de jogos como Dungeons and Dragons, que, de sobremaneira se inspiram em O Senhor dos Anéis - e tudo isso se combina nos passos de uma Elfa em uma sociedade medieval (tipicamente europeia) perambula pelo mundo contemplando suas escolhas e seu caminho de maneira mais contemplativa (e eu sei que essa não é uma série Isekai sob nenhuma perspectiva, ainda que use estruturas de castelos ou palavras como Mana, tipicamente associadas a jogos).
Como eu disse, eu sei que não é algo típico no entretenimento, principalmente no gênero que é voltado para o público mais jovem e que tenta, quase sempre, oferecer cenas de ação cada vez mais elaboradas e menos preocupadas com desenvolvimento de personagem além do básico e simples (20 anos depois One Piece continua trazendo Luffy almejando se tornar o rei dos piratas e encontrar o One Piece exatamente como no primeiro capítulo - e várias séries de Dragon Ball depois não fogem muito de Goku querendo lutar contra gente cada vez mais forte), inclusive com capítulos e mais capítulos com lutas e cenas de ação elaboradas, enquanto Frieren é mais focada na introspecção e diálogo.
Ainda que, e aqui é onde eu vejo a limitação padrão do gênero, a protagonista seja básica e simples sem compreensão ou expressão de emoções para que isso seja uma constante durante o material.
Tudo bem que para o adolescente (e jovem adulto) médio que tem o contato com esse material, de fato é algo surpreendente e fora do comum que se espera e, verdade seja dita, se tem no entretenimento como um todo. O que vemos é bem mais a ideia de gente que continua junto e se vendo todos os dias mesmo depois de décadas (e sem qualquer motivo coerente além da necessidade dos roteiristas manterem essa galera no mesmo lugar), enquanto a vida toma rumos diferentes e, coloca as pessoas em situações diferentes conforme os anos passam. Eu vivi isso quando num intervalo de um mês perdi minha avó, conclui a faculdade e iniciei um novo emprego - e toda uma gama de cenários de isolamento e revisionismo do passado começam a te acompanhar (com força) a cada dia e rotina nova em sua vida...
Então eu entendo a estranheza e noção do que a série quer oferecer, e talvez até por eu ter passado por isso de maneira bem maior que uma boa parte do público alvo de adolescentes e jovens adultos, e, me parece algo bastante comum para uma fase crucial da vida - em que começamos a assumir mais responsabilidades e perdemos o contato com amigos, que, igualmente assumem mais responsabilidades e precisam lidar com filhos, carreiras e seus outros tantos e particulares dramas.
EU particularmente não recomendo algo que PRA MIM não funcionou (e, sinceramente até acho que a galera que tá nos 15-20 que foi quando eu li Sandman ou Watchmen pela primeira vez, talvez achariam essas obras sem graça ou que não funciona para eles), mas entendo plenamente que muita gente pode gostar do material e funcionar e expandir horizontes para outras obras, e acredito que quanto mais jovem, maior a tendência de gostar do material.
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