Eu confesso que de todos as reações à galera de direita defendendo coisas abjetas até agora, contrargumentar o que o Petry disse numa conversa com o Humberto Mattos um tempo atrás me parece o menor dos problemas, em grande parte porque ele não parece um desses otários bitolados que insiste no seu erro e continua apostando em algo errado mesmo depois de corrigido.
É naquela toada pra defender 'liberdade de expressão' pela terríve esquerda canceladora que perseguiu o Léo Lins por fazer piada (ignorando claro que o cara foi demitido do SBT - esse bastião da liberdade de expressão - por fazer piada que um dos apresentadores de extrema direita não gostou), e, eu poderia até explicar de novo a situação do Léo Lins mas me dá preguiça, e eu vou focar nesse mimimi da esquerda canceladora jogando reaça pra (zona de conforto da) direita.
Primeiro de tudo, se essa galera está se sentindo confortável em meio a racistas, nazistas e transfóbicos e toda uma gama de gente escrota... Bem, será que isso não diz mais sobre eles do que sobre a terrível esquerda canceladora? E olha que isso vem de silogismo religioso que a galera da direita adora, né? "Diga-me com quem andas que te direi quem és" (mas aí se o cara anda com racistas, nazistas e transfóbicos ele fica ofendido que estão chamando ele por qualquer um desses termos).
E curiosamente, eles se sentem ofendidos de serem chamados de racistas, homofóbicos e nazistas - e vão andar justamente com a galera que é racista, homofóbica e nazista... Engraçado, né?
Assim, quando o cara do MBL vai pra uma zona de guerra pra praticar turismo sexual (ou quando os amiguinhos dele estão ligados a escândalos de corrupção), você vai cancelar ele só por isso? Puta esquerda canceladora, mêo!
Quer dizer, na lista de coisas que me incomodam bastante em termos de argumento ruim e forçado é essa manobra bizarra que a direita insiste em manter de novo e de novo de que "A cultura do cancelamento da esquerda..." tentando justificar ou mais importante se vitimizar de que, "Oh, meu Deus, acabaram com a carreira desse brilhante artista" (e veja que não tem um link na palavra desse, brilhante ou artista porque simplesmente não tem qualquer pessoa que preencha qualquer um desses critérios de alguém de direita que foi "cancelado" por lacração.
Saca, quando aparece aquele comediante ruim - tipo o Dedé Santana ou o Paulo Cintura - para dizer que 'hoje em dia eles não teriam programa mais na televisão'? Não porque eles são ruins por bosta e que eram carregados por gente muito mais talentosa que eles, é pela cultura de lacração (e não o fato que há quase cinquenta anos eles fazem as mesmas piadas - que já eram sem graça cinquenta anos atrás)!
Tem o sujeito que foi cancelado por assédio sexual (contra múltiplas funcionárias), tem o sujeito que foi cancelado por transfobia, tem o sujeito que foi cancelado por décadas drogando e estuprando mulheres... E todos esses caras continuam ganhando muito dinheiro (inclusive mais de um milhão da monarquia da Árabia Saudita num festival de humor alguns meses atrás)... Maldita esquerda canceladora, né?
(E olha que eu nem busquei muitos exemplos que, sinceramente, nem seria difícil passar de dois dígitos, mas sinceramente, esses caras parecem que ou foram prejudicados minimamente por repercussão negativa de seus atos ou são apenas gente que teve um breve momento de glória que já passou?)
Curiosamente, se tem alguma coisa que se perde é a história da cultura do cancelamento e, como ela é indubitavelmente um produto da direita conservadora, e, eu poderia falar desde os tempos da Inquisição Espanhola e mais pra trás, ou pura e simplesmente falar sobre o MacCartismo e Frederick Wertham (de novo) e todo o prejuízo causado à indústria cultural como um todo (perseguindo atores, autores, diretores e produtores considerados 'não americanos')... Poderíamos falar horas sobre Lenny Bruce ou Raul Seixas presos por fazerem piadas (contra conservadores), mas, a verdade, e isso é importante, é que a direita é péssima em fazer comedia.
E nem é só isso, verdade seja dita. A direita odeia a arte como um todo e se esforça em perseguir quem produz algo diferente - de novo e de novo e de novo... E eu acho que já falei sobre isso algumas vezes até.
Nos anos 1970 eram os filmes de terror e o heavy metal (com mensagens satânicas escondidas de trás pra frente) que destruiam a juventude. Nos anos 1980 o rap (que curiosamente se torna mainstream quando o lorinho Eminem ou o mauricinho Gabriel, o Pensador entram nessa onda) e os satânicos jogos de RPG. Nos anos 1990 os videogames violentos e o hip hop. Isso segue e segue até hoje com a galerinha Maga queimando livros e o pessoal do MBL e Brasil Paralelo criticando o funk ou hip hop (curiosamente gêneros musicais predominantes de artistas negros).
Mas, claro, é a terrível esquerda canceladora que acabou com a carreira de algum produtor executivo que molestava atrizes e um comediante que colocava bolinha na bebida (e tem quase três dígitos de denúncias de estupro) é que é o problema, né?
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