Fênix é uma série escrita por Osamu Tezuka e, que nunca chegou ao seu final. Iniciada em 1967 (ainda que o autor tenha trabalhado em esboços do projeto desde a década de 1950), e sendo publicada até 1988 (com intervalos e pausas no caminho), e, efetivamente, não traz uma única história ou narrativa mas algo mais próximo de uma compilação com um fio narrativo comum que é a ave lendária que dá título à série e é objeto de cobiça, ambição e desejo pelos mais diversos personagens durante o tempo e espaço.
A fênix da série é um pouco diferente da visão mitológica clássica, como uma ave que, sim, pode ressuscitar, mas, não apenas isso, afinal ela pode assumir a forma que quiser, se comunicar (telepaticamente) com qualquer um e em qualquer local, e, seu sangue concede a vida eterna a quem o consumir (ainda que a pessoa continua a envelhecer, e, como ocorre numa das histórias, eventualmente vá encontrar seu fim pelo fato que o corpo não mais se sustenta).
Eu quis ser bastante específico sobre a versão (que é a mais recente publicada pela JBC), porque esse é um material que tem várias versões e nas várias versões ele traz as histórias de forma diferente de outras compilações, como a ordem proposta na wikipedia em inglês (o volume 5, de um total de 12, do arco Karma está publicado aqui no volume 2 e a edição brasileira se conclui em 6 edições).
Eu parei no volume 3, não tenho o menor interesse em voltar a ler a série (mais sobre isso quando falar sobre o terceiro volume), e, conhecendo a JBC, não ficaria surpreso que os volumes 4, 5 e 6 para encher linguiça tenham 200 páginas de outros materiais, como aconteceu com Buda (com quase 200 páginas de Astro Boy), ou, existam vários extras, entrevistas e algum trabalho digno para explicar os planos para volumes seguintes, caso a história chegasse a seu final (ou, seja lá qual seria o final proposto por Tesuka). Isso significa que eu não tenha uma opinião sobre todo o material (de novo, metade do que foi publicado pela JBC, e, inclusive o volume 3 não conclui uma de suas histórias que fica suspensa para conclusão no volume 4), mas eu tenho uma opinião geral o suficiente sobre o material, que, eu acredito forme um contexto geral bom o suficiente, e, agora com um pouco mais de detalhamento volume por volume, eu pretendo expandir nesse comentário.
O primeiro volume é bastante introdutório aos conceitos da série, e, justamente por isso é bastante medíocre no geral. Não existe nada particularmente brilhante aqui, ainda que nada seja de todo abissal. Temos uma história com homens na pré-civilização (numa narrativa que foca na formação da sociedade japonesa) e outra no futuro, e, com vai acontecer em todos os volumes da série que eu li, as histórias do futuro são as piores do material.
Existem boas ideias aqui e ali, existem bons conceitos e noções de ficção científica, e, em no segundo volume, a história do futuro é a melhor que eu li na metade da publicação da JBC, mas essas narrativas do futuro são o elo mais fraco e no terceiro volume chegamos ao ponto mais baixo da série justamente nisso.
A história sobre as origens da sociedade da japonesa, misturando mitologia com narrativa extraordinária e um pouco de historicidade formam algo realmente único e, que oferecem boa fundação para os capítulos seguintes, inclusive oferecendo uma impressão boa o suficiente para animar na leitura.
Volume 1 - Nota 7,0/10
No segundo volume, no entanto, está o que na minha opinião só pode ser uma das melhores histórias que eu li na minha vida, com o arco Karma.
A história de Gao e Akanemaru que é tão intimamente ligada, e, curiosamente tão oposta na forma de seus caminhos e destinos, como Tezuka consegue, em tão poucas páginas, construir uma narrativa poderosa sobre conceitos altamente complexos do budismo como carma e ressurreição e ainda apresentar uma história tão fascinante... É um marco inequívoco e inquestionável da qualidade do autor.
E é uma tragédia tão poderosa a narrativa de ambos os personagens, principalmente porque Tezuka não tenta conter o impacto das tramas ou diminuir as reações para produzir algum final feliz ou algo mais palatável ao leitor. Existem momentos categoricamente desagradáveis e o final de ambos os personagens é triste e melancólico.
Gostaria de falar mais (mesmo que eu tenha feito mais cedo esse ano), ainda que caiba uma larga condição de spoilers para os eventos da história (que, sejamos honestos não é uma história nova ou recente, mas eu acho que é um material que vale a pena vivenciar com olhos frescos, disposto a ver aonde a jornada vai te levar, e vale destacar que é uma história bastante diferente do que as narrativas ocidentais nos acostumaram ao longo das décadas.
Gao e Akanemaru são pobres vassalos cujas vidas são regidas e dirigidas pelas ações de homens poderosos, e, eles pouco ou nada conseguem fazer para reagir, além de controlar (ou não) suas emoções e desejos, e, seguirem seus próprios destinos. Gao recebe mais uma ou várias chances enquanto Akanemaru não tem a mesma sorte, e a justiça não tem nada a ver com isso - mas o karma e sua complexa e incompreensível teia que controla a todos nós.
De fato é uma história incrível e eu não sei como enfatizar mais o quanto eu recomendo a leitura mesmo que somente desse arco em particular.
No restante do volume ainda existem mais duas histórias, uma do futuro chamada Universo (novamente a mais fraca, porém com algumas sacadas bem mais inteligentes e curiosas, que, inclusive trazem repercussões para os eventos que vemos nas outras histórias) e uma segunda história sobre o passado chamada Yamato, do Japão, novamente produzindo algo interessante sobre a historicidade versus fantasia e lenda (aqui inclusive como algo mais efetivo afinal a narrativa parte da premissa de dois reinos trabalhando para a construção da história do país com um buscando algo mais concreto e real enquanto outro se apoia na ficção e lendas).
No geral, o arco Karma é o melhor, mas os demais são muito bons também (Karma > Yamato > Universo), e a nota do volume 2, pela média, é um sólido 9,0.
Aí chegamos ao terceiro volume, e porque eu decidi desistir da série.
Sendo justo, ele tem uma história que é muito boa - é a história mais curta da série até o momento - e simplesmente me deixou embasbacado pela simplicidade de sua execução. Ela é produzida como uma peça de teatro (eu até levei um tempinho pra entender isso enquanto lia), com um cenário estático pela duração da trama, focando em dois personagens principalmente e na sua interação.
Eu genuinamente não me recordo de outra história com esse tipo de sacada (de operar como se fosse uma peça de teatro), e, mesmo que os elementos narrativos acabem deslizando principalmente no final com a explicação sobre os eventos, esse é o material mais interessante de todo o volume...
Até porque o restante se divide em histórias do futuro, e, puta merda, são uma bagunça.
A primeira (o arco Ressurreição) é uma bagunça narrativa migrando no tempo daqui pra lá sem construir uma história interessante ou costurar esses elementos de forma coesa. É algo sobre um cara rico que morre e é ressuscitado pela medicina do futuro enquanto robôs se revoltam (e cometem suicídio em massa) e mais uma enorme e convoluta soma de narrativas pouco ou nada interessante se desfraldam. Eu genuinamente achei bem fraco, mas nada me preparava para o quanto o arco seguinte do futuro seria pior.
Droga, depois de ler Nostalgia (ou pelo menos metade dele, afinal a JBC corta a parte final para concluir no volume 4) com a narrativa de uma mulher que fica presa em um planeta alienígena, e que passa a transar com o próprio filho (e os netos posteriormente) para povoar o planeta. Num dado momento a história também apresenta elementos de canibalismo (porque não, né?) e toda uma convoluta noção de outras espécies alienígenas auxiliando essa mulher a voltar para a Terra - o que faz com que toda a trama sobre canibalismo e incesto pareçam completamente desnecessárias afinal a porra do arco se chama NOSTALGIA.
Por ser um arco do futuro, existem vários elementos de ficção científica (alienígenas, planetas distantes e naves espaciais), no entanto, como a mulher fica presa nesse outro planeta e precisa iniciar uma nova sociedade, bem, a história propõe algo que parece bem mais com uma sociedade primitiva nos primórdios de sua estrutura e civilização, o que se torna ainda mais bizarro com toda a escolha de nomes bíblicos dos personagens (alguns mais inapropriados que outros como Caim, diga-se de passagem).
Perdão, deixe-me reestruturar essa frase porque, e isso é importante, pela ideia de Tezuka a protagonista teria que iniciar uma nova sociedade. Honestamente, ela poderia facilmente representar a resiliência do espírito humano no espaço ao buscar sobreviver da melhor forma que pudesse enquanto tentando encontrar uma saída do local - seja reconstruindo sua nave, seja construindo uma completamente nova, seja pura e simplesmente sobrevivendo até que o resgate chegasse - sem a necessidade de transar com o filho e os netos e toda a narrativa sobre canibalismo, que, e isso é importante, não interfere em absolutamente nada na trama que envolve a personagem deixando o planeta depois (ela sai do planeta com a ajuda de um alienígena com poderes telecinéticos, que só tem a ver com o fato dela transar com o filho e netos, porque esse alienígena é um descendente distante gerações no futuro).
Isso tem mais a ver com a estrutura de misoginia da sociedade japonesa de enxergar numa mulher nada mais que uma procriadora (e portanto essa deve ser a função da personagem na história, tendo filhos até que um desses descendentes pudesse resolver seu problema), do que ela efetivamente ser capaz de resolver seu próprio problema com esforço e trabalho duro.
Droga, a própria Fênix comenta na história (a Fênix que é a força motriz para a condução narrativa e que aparece ocasionalmente como a fonte de motivação dos outros personagens), ela aparece para comentar o quanto admira a ação dessa protagonista e como isso representa o espírito humano.
Eu não sei como essa história termina, mas, sinceramente, se eu esquecer como ela começou ou até mesmo que eu a li em algum momento, eu realmente não terei perdido nada. Disputa como uma das piores histórias em quadrinhos que eu já li na vida... Uma história longa que não parece capaz de chegar ao ponto ou seu argumento e conduzir essa trama nesse sentido e mesmo o que ela apresenta, bem, é só um desperdício de tinta e papel. Tudo é extremamente convoluto e lento, com algo que parece mais querer gastar o tempo do leitor que efetivamente produzir uma narrativa que valha a pena ler.
Horroroso.
Nota para a o volume 3? Bem, com uma história (curta) que tem uma boa sacada e duas histórias ruins, sendo uma que eu me pergunto se é a pior que eu já li na vida, eu acho que um bom 3,5 está bem generoso para o material, e não me empolga a saber como continua ou o que vem em diante - a menos que uma baita promoção abaixo de R$50,00 nos 3 volumes seguintes juntos.
Então, eu recomendo, e muito, o segundo volume da série, e, talvez até de maneira mais específica, o arco Karma que traz a história de Gao e Akanemaru, que vale muito a pena ler mesmo que seja a única coisa que você leia da série toda.
O resto tem suas boas sacadas aqui e ali, tem algumas boas histórias - algumas eu diria até que ótimas - mas nada que chegue perto da qualidade do arco supra, e, pode até ser que nos volumes seguintes o material melhore (até porque se for só ladeira abaixo o volume seis deve ser uma coletânea de papel higiênico usado), mas não me vejo mais compelido ou interessado em descobrir.
Os dois primeiros volumes eu recomendo, e, acho que é difícil de alguém se decepcionar com esse material.
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