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17 de setembro de 2026

{Resmunguenhas de Quinta} Lanternas - HBO 2026

Olha, eu ainda estou lidando com um turbilhão de coisas para botar a cabeça em ordem, e uma das coisas que me surpreendeu novamente (mas sejamos honestos, não tanto assim) foi que tal qual a Odisseia, uma galera gigantesca resolveu se manifestar contrária a série da HBO - que faz parte do universo cinematográfico da DC - Lanternas, e, eu vou tentar explicar da maneira mais educada o possível porque essa galera que critica o material é burra e hipócrita, e, mais importante, resenhar de certa maneira o que a série fez até agora (e porque para desenhar para a galera burra e hipócrita).

Lanternas é uma adaptação, e, sem dúvidas ela toma uma série de liberdades com o material fonte (ainda que, como eu destaquei nos parágrafos anteriores, use e referencie bastante coisa como alicerce para sua construção de mundo). Não é algo tão revisionista quanto Absolute Caçador de Marte (em que ele não é nem um Caçador e nem de Marte - e se eu entendi direito o segundo volume que acabou faz pouco tempo, ele é mais uma figura de linguagem ou uma ideia) mas também não é como os filmes do Joel Schumacher ou do Scott Snyder (em que o Batman seria estuprado na prisão segundo o diretor - que por algum motivo ainda tem uma leva de gente que acha que era bom).



 

Uma das críticas mais comuns é de que a série não é uma adaptação mais ipsis litteris do material fonte e toma certas liberdades para com o material buscando algo, sabe, mais coerente com um orçamento mais baixo para uma série televisiva com menos de dez episódios (e sem dragões) enquanto funcionando melhor em um universo compreensivo e expansivo. É claro que Lanterna Verde já teve uma adaptação para o cinema que é bastante literal (que foi um fracasso retumbante de bilheteria) e, no mesmo ano uma animação (com uma equipe fantástica incluindo o brilhante Bruce Timm responsável por quase todos os sucessos anteriores de animações da DC - exceto os Jovens Titãs), e que usa muito dos conceitos mais recentes, e nisso, bastante literal, e mal conseguiu uma segunda temporada... Além de alguns filmes de animação que muita gente nem deve saber que existiram -  então eu não acredito muito nesse argumento de que o problema da série é que ela toma liberdades com o material.

Principalmente porque, e, isso é extremamente importante, a fonte tem problemas sérios até dizer chega.

Se você não conhece o Lanterna Verde (apesar do parágrafo anterior), lembre que ele é um personagem com mais de oitenta anos de histórias e, ao contrário de outros personagens como o Superman ou Homem Aranha, que tem um nome único associado ao título heróico, nesses oitenta anos existiram milhares de Lanternas Verdes (é sério, a Tropa dos Lanternas Verdes divide o universo em 3600 setores nos quais era apenas 1 representante e hoje são 2 por setor, ou seja, 7200 Lanternas Verdes - e contando apenas os humanos que usaram o anel energético, estamos falando de algo próximo de 10 personagens diferentes - somente na continuidade padrão, sem elseworlds), e, por quase sessenta desses 80 anos ele teve dois calcanhares da Áquiles: Madeira (é, ainda que seja para o Lanterna Verde original, Alan Scott) e a cor amarelo.

Deixa eu repetir para o amiguinho que ficou chateado quando assistiu o primeiro episódio de Lanternas e viu descaracterizações dos personagens, e gostaria que fosse mais literal: Na fonte o Lanterna Verde Hal Jordan tem como fraqueza a cor amarela.

Isso faz parte dos Super Amigos, isso faz parte da história do Frank Miller em que o Batman se pinta de amarelo para descer o sarrafo no Lanterna Verde, isso persiste até mais ou menos 2004 quando foi publicado o arco Renascimento e alguém percebeu que essa era uma ideia extremamente ridícula (ou talvez alguma piada interna e que ninguém levava o personagem a sério).

Nisso, inclusive, vale lembrar que a história do personagem depende de um elemento um tanto aleatório em sua origem, uma vez que seu poder vem de um objeto inanimado - um anel energético - que escolhe o usuário na condição de que ele não tenha medo, mas, como o arco de quase dois anos na década de 1960 já buscava debater, o anel é meio preguiçoso e escolhe a pessoa que está mais perto e não a mais capaz (é isso mesmo).

O que é importante como um elemento num universo compartilhado em que existem pessoas como o Superman, a Mulher Maravilha e sei lá, dezenas de heróis e heroínas - e até uma boa dose de vilões - que seriam incrivelmente qualificados para posição de Lanterna Verde, mas são eliminados pela preguiça do anel (e, que vale destacar, a série desenvolve sobre isso de forma que fica inequívoco que não é apenas preguiça do anel ou um fator aleatório de proximidade).

Pra mim, principalmente o episódio mais focado no John Stewart que é uma entrevista de emprego explicando sua origem heroica funciona brilhantemente para estabelecer exatamente isso - ainda que, claro, padeça do mesmo mal de material do Damon Lindelof, como Watchmen, porque ele acha que entende melhor do material fonte (sem nunca ter lido) porque leu uma tese numa escola de artes liberais, ainda que o Tom King esteja ali para pelo menos balancear minimamente isso enquanto consultor. 

Eu acho que o Lindelof é o grande problema da série, sem sombra de dúvidas (até porque eu duvido que ele tenha um osso criativo em seu corpo ou tenha se dedicado para entender o material), mas sinceramente me parece que existe uma série de adultos na sala que estão usando de passa moleque nele para que suas (falta de) "ideias" fiquem mais em segundo plano.

Acabam sobressaindo de vez em quando - quando ele quer reforçar alguma ideia boba como a de sua versão de Watchmen que os super heróis são racistas (e não propaganda em massa estadunidense através de um produto cultural que retrata o racismo estrutural dessa cultura, afinal ele não chegou nessa aula da escola de artes liberais), até perdendo a perspectiva que é justamente com o Lanterna Verde nos anos 1970 que os quadrinhos se permitem desafiar noções estabelecidas no mercado do gênero.

Quando o Lanterna Verde perambulou a América ao lado do Arqueiro Verde (num arco bastante referenciado e onde o personagem com um arco e flecha tende a ser mais útil que um sujeito com um anel energético que é chamado de 'arma mais poderosa do universo' por algum motivo), onde enfrentam elementos de racismo e injustiça social, e, não muito depois é apresentado um terceiro candidato ao anel energético, John Stewart e pelos próximos anos até o começo dos anos 1990 as histórias permeiam entre Jordan, Stewart e Guy Gardner sobre quem deveria ser o verdadeiro Lanterna Verde - até que Jordan enlouquece, mata todos os demais Lanternas Verdes em busca de mais poder para se tornar o vilão Parallax e reconstruir o universo à sua imagem, mas, ei, a série não é literal... 

Olha, eu poderia continuar (lembrando quando o Hal Jordan namorou uma menor de idade, que Guy Gardner se divertiu com alienígenas que se parecem com cachorros ou o fato que os Guardiões da Galáxia - que criaram os anéis energéticos, foram responsáveis por um genocídio interplanetário), mas vamos ser honestos e francos, quem odiou a série simplesmente quer insistir que não foi pelo comentário sobre como o pessoal Maga é racista no primeiro episódio então tentam disfarçar com alguma pseudobobagem.

O material segue numa estrutura que lembra True Detective com alienígenas e super poderes para contar uma narrativa que busca apresentar os conceitos da Tropa dos Lanternas Verdes de maneira mais coerente e pé no chão - meio que tentando corrigir o curso do universo DC cinematográfico, meio que tentando estabelecer os próximos passos.

Nisso a série trabalha com as restrições (orçamentárias) para uma série de televisão e usa isso ao seu favor com menos efeitos especiais e cenas de ação e mais cenas de investigação, diálogo e desenvolvimento de personagens. 

E, sinceramente? Funciona.

Não é o Pinguim que a mesma HBO produziu (longe disso), mas eu não consigo pensar em um único seriado do MCU que chegue sequer perto desse material que está ali razoavelmente acima da média (um 7/7,5 até agora). 

Um material com ótimas atuações, um roteiro bastante coeso (eu sei, não é perfeito, mas estamos em 2026, bom já está quase no excelente nesse ponto da história), e, francamente que vale muito a pena conferir, sim. 

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