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5 de abril de 2026

{Revisitando Clássicos} Y: O Último Homem - Brian K Vaughan e Pia Guerra 2002-2008

A série de 2002 de Brian K Vaughan Y: O Último Homem conta a história de Yorick Brown e seu macaco (sim) Ampersand que sobrevivem a um evento cataclísmico que elimina todos os seres com cromossomos masculinos do planeta. Esse cenário que, num primeiro momento poderia funcionar como uma paródio pornô e fantasia adolescente (certo? Ser o último homem do planeta), rapidamente degringola para algo bem mais apocaliptico e problemático.

Vaughan apresenta aos leitores do selo Vertigo do início do século XXI que ele claramente sabia pelas análises de mercado que seriam adolescentes ou jovens adultos em sua maioria homens, e, pelo fato que estavam lendo uma série de quadrinhos, gente mais introspectiva e que no geral era submetida a um tipo de material e conteúdo, bem, em que mulheres eram na melhor das hipóteses coadjuvantes de luxo e ou objetos para permear sonhos molhados (como a Psylocke do Jim Lee constantemente em trajes sumários ou, bem, a Vampira da Terra Selvagem).

Esses jovens adultos - não diferente dos jovens adultos de hoje - dificilmente compreendia a perspectiva e realidade feminina, e, através do substituto do público na forma de Yorick, Vaughan vai apresentando os cenários e problemas das mulheres na América e no mundo, certo? O personagem se depara com um grupo de presidiárias e ali surgem estatísticas sobre como mulheres são condenadas a sentenças maiores que homens pelos mesmos crimes, enquanto em outro momento uma freira católica busca encontrar um homem ainda vivo para permitir alterações na Igreja (Católica, de novo) para que assim mudem as regras na escolha de um papa (ou mais especificamente nesse caso, uma papisa)...

O mesmo vale para política - com primeiras damas querendo rasgar a constituição em nome de sua manutenção no poder - e outros aspectos da vida cotidiana - com super modelos tendo de trabalhar como lixeiras por exemplo. Tudo isso enquanto lidando com o luto (pela morte de seus maridos, filhos, irmãos e todos os homens que conheciam) além de uma gigantesca bomba relógio ambiental (considerando que animais bastante importantes para a subsistência e manutenção do ecossistema desapareceriam, com sorte, em questão de semanas - e o mesmo em se tratando de gado e alimentos).

Mas, e desculpe por dizer ou reforçar isso, a história de um sujeito que sozinho sobrevive sozinho a um evento cataclismíco rodeado por mulheres e que examina o papel das mulheres na sociedade não é uma série sobre o que é ser uma mulher. Essa é uma série sobre o que é ser um homem.

E eu sei que isso é extremamente narcisista e egocentríco, de que mesmo num mundo em que 99,999% da população é feminina, ainda assim o único homem restante continuaria sendo o ser mais importante da face da Terra, mas, a história é contada pela perspectiva de Yorick e seu grupo (a agente 355, a Doutora Alison Mann e o macaquinho Ampersand) e não de outras sobreviventes ou pessoas, cujas histórias são meros relatos ou narrativas tangenciais que cruzam seus caminhos.

Inclusive porque cada um destes personagens tem suas narrativas e objetivos próprios. Yorick quer encontrar sua ex-namorada (a quem ele propôs em casamento momentos antes do evento que exterminou 50% da vida no planeta), enquanto lida com desejos subconscientemente suicidas (da culpa de sobrevivente, mas não apenas ela).

A Doutora Mann se sente culpada e responsável pelo evento e busca reparar seu erro - o que motiva a toda uma busca ao redor do globo por um laboratório melhor assim como mais informações, enquanto a agente 355 lida com seu dilema de proteger e salvaguardar a vida dos outros enquanto abrindo mão de sua própria identidade. E Ampersand é um macaco capuchinho, não é como se você pudesse esperar mais sobre ele...

No entanto, e aí vem a grande sacada de Vaughan, Yorick e seu grupo personagens pequenos no contexto maior das coisas também. Yorick que é o nome de um minúsculo personagem de Shakespeare é alguém que vai migrar de lugar a lugar em busca de respostas enquanto encontrando mais perguntas, e, de maneira geral, mais dos problemas do velho mundo que ficou para trás. 

Conforme a série avança é que vemos o restante do mundo e o impacto mais geral da sinopse (supra), pelos olhos de Yorick e companhia, mas a premissa não muda e continua sobre um mundo que sobreviveu a uma crise sem precedentes e está a beira da extinção (e sim, era algo em voga na época tanto que The Walking Dead em 2003 assim como filmes e jogos sobre o assunto).

A diferença evidente é que, ao invés de zumbis ou a destruição do mundo de maneira mais abrangente, o que temos é uma extinção seletiva que traz toda uma série de complicações e problemas (muitos dos quais não são previstos), o que coloca a série com algo mais próximo de The Leftovers, mas com uma ênfase na ficção científica e os desdobramentos lógicos do cenário, enfocando no que acontece com o mundo - e o que as pessoas que sobraram precisam fazer para continuar em frente.

Tanto que é justamente por isso que logo no primeiro arco a doutora Mann (sim, conveniente que seu nome se pareça com 'Homem' em inglês), especialista em clonagem é a principal esperança para a sobrevivência e manutenção da humanidade, e é algo importante para a história considerando a, ainda recente primeira clonagem de uma ovelha, em 1996, mais até do que descobrir os motivos do incidente - ainda que todo mundo tenha suas teorias, e, conspirações e vão variando de atos divinos, vírus construídos em laboratório (com propósitos militares de derrotar a população chinesa) e mais uma série de outras teorias que vão pululando ao redor das sessenta edições, o que nunca é relevante ou mesmo importante, pois descobrir o causador do evento não vai revertê-lo.

E, honestamente, Brian Vaughan é um autor tão foda para criar personagens interessantes que chega a me irritar. Droga, ele vai cria uma série nova e todos os personagens parecem tridimensionais e pessoas que você encontraria numa rua qualquer - mesmo que sejam super-heróis que se tornam prefeitos de Nova Iorque ao impedir os atentados às Torres Gêmea, gente lutando numa guerra sem fim e tentando extrair o melhor de uma situação ruim ou o último sobrevivente de um apocalipse genético, e, sinceramente isso são só as séries autorais onde ele tem maior liberdade e qualidade para produzir algo no seu próprio tempo e ritmo.

Nisso mesmo que você ignore a história principal, somente as interações entre os personagens, somente os diálogos e ações já funcionam como uma aula na construção de cenas e cenários, e, Vaughan brilha a cada momento na série, criando personagens que, mesmo quando detestáveis e odientos funcionam perfeitamente no cenário e contexto.

 

Ressalvas e Problemas

No cenário atual, com gente cretina da direita tentando lacrar confundindo sexo e gênero, a ideia de um vírus mortal que mata todos os "homens" do mundo, e, é fácil enxergar que isso pode degringolar para mais de uma discussão problemática e que ignora tanto a premissa quanto, bem, o cenário de 2002 que era bem diferente do que vemos hoje. Droga, quanto tempo faz que um apresentador cretino quis falar sobre uma mulher trans na comissão das mulheres (que, lógico, quando só tinha homens presidindo e atuando nessa mesma comissão não havia problemas).

Quer dizer, Friends ainda estava no ar quando os primeiros volumes de Y: O Último Homem estavam começando sua publicação, e a extremamente popular série de televisão tem seus momentos mais constrangedores no retrato de pessoas trans (como o pai de Chandler), e, sinceramente, esse ainda é um retrato muito melhor que praticamente 90% do que vem antes (mesmo lembrando do mundo de Priscilla ou Para Wong Foo..., mas lembrando como Thomas Harris retratava o assassino Fada do Dente - no ganhador de Oscar de 1991 - e, será que eu tenho que falar da Praça é Nossa de novo?).

Mas isso eu acho que é um problema nosso em não ser capaz de separar a obra do contexto histórico atual, e puta merda, vamos ser honestos que é muita infantilidade olhar sob o contexto atual para qualquer coisa feita num outro cenário - e cobrar que esse material tenha os mesmos valores atuais. É uma noção utópica e ridícula que já fracassou quando falamos sobre os cigarros nos desenhos antigos (sim) ou do Monteiro Lobato ou de qualquer outra coisa. Mas sabe o que é pior? Os adversários políticos não só estão cagando para o assunto como mesmo quando isso já é visto como ponto pacífico continuam a tentar criar polêmica - vide um apresentador nojento e corrupto de direita tentando criar caso tão recente quanto 2026, ou o deputado que andava em jatinho de bandido fingindo que não há problema ou preconceito em considerar gente negra como bandida...

Sinceramente eu não vejo motivo para qualquer incômodo ou mal estar, considerando o que é a proposta da série de funcionar como de maneira a introduzir conceitos bem mais complexos para um público que está acostumado a uma mídia onde criaturas super poderosas resolvem todos os problemas do mundo com seus punhos - ou mesmo da cultura popular tradicional quando personagens LGBTQIAPN+ são representados no geral. 

E, insisto, o problema não é ou está na série em si mas no mundo real e a percepção de gente que insiste em confundir sexo e gênero para lacrar na internet...

Quer dizer, não é nem necessário a gente procurar exemplos na do livro que é vendido como grande exemplo de moralidade, sim, a Bíblia em que ocorre a morte generalizada de pessoas ditas ruins ou imorais (no dilúvio ou em Sodoma e Gomorra só pra ficar em exemplos bem conhecidos) mas que não traz exatamente uma contextualização de que as pessoas boas conseguiram se salvar ou foram avisadas para dar uma voltinha uns dias antes, não é mesmo?

"E então o anjo Galadriel surgiu nos céus e clamou para todas as pessoas boas de Gomorra para segui-lo" ou um capítulo de erratas em que Deus se apresenta a todos os inocentes mortos nesses eventos e diz 'Pô, foi mal... Tava doidão'.

A ficção não precisa de muito contexto, apenas da ideia, e, aqui a ideia é debater uma questão mais complexa sobre gênero de maneria acessível e, para um público bem menos familiarizado com essas ideias (em 2002) e ao contrário do que acontece com 100 Balas (da outra resenha), as possibilidade de histórias aqui são muito maiores, e, Vaughan busca isso - explorando como esse mundo se adapta e sobrevive nos mais diversos aspectos - e se tivesse mais dez, vinte ou quarenta capítulos poderia facilmente abordar um número muito maior de questões e propostas.

Vaughan poderia abordar por exemplo tribos no meio da Amazônia que acabam descobertas décadas mais tarde e completamente intocadas pelos efeitos deste apocalipse ou mesmo o aspecto de mulheres trans sobrevivendo, e lidar sua perspectiva e dilema existencial em sobreviver num evento que matou todos os homens.

Recomendadíssimo, mesmo se não continuar 'atual'. 

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