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11 de fevereiro de 2026

{Revisitando Clássicos} Preacher - Garth Ennis e Steve Dillon 1995 a 2000

Essa era uma série que eu tinha medo de revisitar e esse medo se manteve na minha cabeça por anos conforme eu queria reler mas continuava imaginando o quanto a coisa toda envelheceria mal.

Quer dizer, parte da premissa vem da condição que o mundo acabaria no ano 2000 (de acordo com uma profecia católica - que envolve uma conspiração encabeçada pelo próprio Vaticano), além de um sujeito que tenta cometer suicídio e acaba com uma deformação (e passa a ser conhecido como 'O Cara de Cu'), mas sejamos honestos, não é isso que me assutava particularmente.

Eu sempre tive medo de reler, porque a verdade é que Garth Ennis foi um autor extremamente importante na minha formação como leitor e fã de quadrinhos. Hábitos Perigosos continua o melhor começo para Hellblazer, e o restante da fase tem excelentes momentos (que nesse caso eu continuo gostando de ler e reler), mas ele também é o cara que escreveu The Boys e Crossed que, puta merda, são obras cujo valor reside no choque e cenas cruéis e violentas.

Preacher fica na metade do caminho (entre Hellblazer e The Boys), com um bocado de bons momentos sentimentalistas e inteligentes intercalados em uma série de momentos nojentos e desagradáveis simplesmente para chocar (como a orgia de Jesus de Sade), e enquanto esse material foi extremamente importante para mim conforme eu estava desenvolvendo meu gosto e crítica de quadrinhos (e não apenas quadrinhos), existe um aspecto da transformação de Frank Miller que eu vejo refletida em Garth Ennis conforme os anos passam, e cada ano que passa (e com essa releitura) parece mais evidente que o ponto de virada foi Preacher, e, em grande parte o sucesso que a série conseguiu.

Tirando de lado o aspecto emocional de minha experiência pessoal temporariamente para focar no material, eu só quero dizer que, sim, o material foi muito importante na minha formação como leitor principalmente para a minha transição entre os quadrinhos mais tradicionais e simples da Marvel e DC para algo mais complexo e capaz de experimentar, em parte porque era mais fácil de achar nos sebos do que outros materiais (como Sadman ou Monstro do Pântano), ainda que achar completo já fosse um desafio extra, exceto se considerarmos as Rapaduras Açucaradas e outros caminhos da Romenia para encontrar com maior facilidade estes materiais.

E, verdade seja dita, era esse aspecto da dificuldade de completar a coleção, de buscar por diversos arremedos de editoras pequenas (como Atitude, Tudo em Quadrinhos, Metal Pesado, Brainstore, Pixel...) tentando publicar ou continuar de onde a antiga editora parou... Algo inclusive que facilmente unia colecionadores oferecendo um assunto comum e discutir sebos e onde comprar as edições ou a ordem para ler (afinal, não tinhamos guias tão bons como estes do Guia dos Quadrinhos ou lojas além da Rika para achar edições online).

Vale destacar que essas edições eram horríveis, produzidas por gente que tinha muito mais paixão por quadrinhos que competência técnica, e, enquanto eu não acredito que tivessem tantos erros quanto as edições modernas da Panini, eu confesso que não tenho mais nenhuma dessas edições ou reli qualquer uma delas recentemente para conferir e comparar (reli no kindle na edição em inglês).

 


Preacher conta a história do reverendo Jesse Custer que, vem enfrentando um dilema moral sobre sua fé cristã, e, acaba se tornando hospedeiro de uma entidade chamada Genesis (que é basicamente uma criatura meio anjo e meio demônio - e sim, esse conceito já foi trabalhado em Hellblazer se você quiser marcar os pontos).

Com o poder de Genesis, Jesse é capaz de forçar as pessoas a fazerem tudo que ele mandar (e os padrões de fala nos balões mostram bem essa entonação mais enfática, quase bíblica), e colocam o agora ex-reverendo no caminho de uma série de organizações que querem o controle deste poder, enquanto ele próprio resolve partir em busca de Deus (literalmente, ainda que a jornada tenha certo aspecto mais figurativo) para questioná-lo sobre a criação. Jesse se encontra com a ex-namorada Tulipa e o vampiro Cassidy enquanto encontram todo tipo bizarro e esquisito que Garth Ennis e Steve Dillon pareciam capazes de criar.

Como o (anti)vilão Herr Starr (que constantemente é usado como alívio cômico para a série se deparando com infortúnios cada vez maiores), ou o Santo dos Assassinos que é o mais próximo da maior ameaça para, bem, toda criatura vivente e pensante na história, mas a verdade é que essas figuras coloridas e estranhas são apenas ruído numa jornada de três amigos (que é o cerne de Preacher) e a tumultosa interrelação deles, assim como suas complexas motivações.

Se você extrair os elementos coloridos e buscar algo menos literal na história, muito dela passa a ganhar um contexto novo, reduzindo o realismo fantástico para algo mais realista, que fantástico, como metáforas e analogias para os problemas reais enquanto os persoangens tentam encontrar seu caminho e suas vozes.

Sim, Cassidy como um vampiro (literal) produz cenas interessantes, inusitadas e engraçadas na história, mas o fato mais coerente é que ele é um parasita que se aproveita das pessoas e nunca parece capaz de aprender ou reconhecer seus erros, o que leva para uma série de ressentimentos com, bem, absolutamente toda pessoa com a qual ele se relacionou durante sua vida.

De maneira parecida, Jesse vive com a família da mãe e não tem 'voz' (até um ponto em que ele é capaz de ordenar as pessoas a fazerem qualquer coisa com sua voz) e precisa se impor para crescer e encontrar seu lugar no mundo e, de maneira similar, Tulipa  uma mulher criada como uma decepção para o próprio pai (que queria um menino) e lidando com seu papel e aceitação no mundo, e traz em seu dilema o contexto de feminismo e feminilidade.

Não foge ainda uma busca por fé e moralidade cristã (haja vista a busca por Deus como mote da história, incluindo elementos em que ele literalmente se manifesta e comete ou permite coisas horríveis para enfrentar Jesse ou impedi-lo) conflito bastante comum, se não durante toda a história ao menos bastante comum na sociedade Irlandesa dos anos 1970-1980 (Ennis nasceu na Irlanda em 1970), resultando numa dualidade entre a racionalidade do constante progresso com as noções arcaicas do espiritualismo religioso cristão.

Isso, efetivamente, é o cerne da história enquanto os personagens viajam pelos Estados Unidos para aprenderem sobre seu passado enquanto se descobrirem. É uma jornada espiritual em busca da iluminação e voz própria (e é óbvio que isso traz paralelos de narrativas religiosas, de onde inclusive vem o título de 'Preacher' que significa padre), servindo como uma peregrinação em tempos modernos, questionando o valor e o papel da religião num mundo com a tecnologia como possuímos hoje em dia. Por isso os comentários sobre o Vaticano escondendo tantos segredos (sem spoilers), assim como das igrejas do sul dos Estados Unidos além de toda uma questão mais elaborada sobre estruturas de poder.

Isso leva a uma série de conflitos na personalidade e história pregressa deste trio conforme o trio segue em sua jornada e precisa lidar com suas limitações e sentimentos. Esse é o cerne e o ponto que mantém a série relevante e interessante mesmo todos esses anos (quer dizer, já estamos falando em mais de 30 anos do início da série e 26 do fim).

Dito isso, vale destacar que para que a série não seja apenas uma história sobre três amigos descobrindo sobre seus passados e lidando com sua bagagem eles encontram toda uma série de figuras e eventos bizarros, que, bem, tem seus variados níveis de graça e curiosidade, como a situação envolvendo o Vaticano sequestrando Cassidy - que acaba descobrindo a história secreta de Jesus no processo - ou Jesse se tornando um xerife numa cidadezinha onde o dono de um frigorífico gosta de transar com carne (eu nem vou tentar explicar mais que isso)...

E eu não sei dizer se essas histórias secundárias/terciárias/quaternárias das figuras peculiares que cruzam o caminho de Jesse e seus amigos são particularmente interessantes além da curiosidade e peculiaridade (o que é mentira, pois boa parte dessas histórias e personagens são bastante interessantes quando não bastante engraçadas - ainda hoje na minha humilde opiniõa), ainda que, numa releitura já conhecendo os personagens, e, sabendo quais deles não são interessantes ou trazem algum elemento significativo para a narrativa, esse ruído fica mais alto e acaba ofuscando o brilho da história principal.

Quer dizer, eu entendo a ideia de criticar o movimento grunge e a música dos anos 1990 ao colocar o 'Cara de Cu' como um cantor que se torna a voz da geração (quando ele mal consegue articular uma frase coerente), e acho que funciona e tem seu valor. O problema é que isso parece cada vez mais acrescentar páginas e páginas para prolongar a duração da história e não para oferecer algo interessante...

Você já deve ter visto as páginas de Herr Starr provando chapéus ou perucas (que trazem 3 páginas com 9 quadros e a primeira, literalmente, é a mesma imagem repetida 9 vezes), mas enquanto nada talvez seja tão descarado assim, existem vários episódios e situações que acabam desnecessários ou repetitivos.

Como o Santo dos Assassinos em, bem, praticamente toda aparição ou sua longa contextualização (e edição especial), ou, bem, o quanto vemos a partir do arco 'Guerra no Sol' (que termina na edição 37) parece titubear e caminhar um tanto sem rumo até o arco final.


Problemas e Ressalvas

Enquanto eu acredito que boa parte das ressalvas eu já fiz durante a resenha, vale destacar que, bem, o material foi produzido nos anos 1990 com a premissa, acima de tudo, de causar estranhamento e choque sim (não é à toa que a premissa central da história envolve um anjo e um demônio tendo um filho - que é a entidade Gênesis - ou que um dos personagens já do começo é 'você sabe quem'), porque nesse momento histórico, diversos autores buscavam de uma maneira ou de outra testar as barreiras e os limites do que poderia ou não ser aceitável, com diferentes graus de sucesso e, bem, de aceitação décadas mais tarde.

Eu vi bastante gente tentando recontextualizar Alan Moore pelas cenas de estupro em Monstro do Pântano e Watchmen como gratuitas e meramente para chocar leitores da mesma forma que, bem, o tatu bola em Preacher (que curiosamente diz muito sobre toda uma comunidade de bilionários em ilhas que precisam se sentir exclusivos, não?).

Nos quadrinhos que passaram décadas presos nos limites do Comics Code a ideia de testar todo e qualquer limite de bom gosto e de censura mesmo com conteúdo mais implícito de que explícito. E Ennis NESSE PERÍODO é um autor bem mais contido, e não dá nem de longe para comparar com o cara de anos mais tarde com The Boys ou principalmente Crossed (que é simplesmente atroz), afinal aqui ele parte para o escracho em todo momento e cada curva disponível, e, seu material foca no aspecto cômico sempre que possível.

Se isso passa hoje como algo mais problemático ou não será digerido com a mesma tolerância que num momento em que autores buscavam uma transgressão maior, bem, eu consigo entender, ainda que eu tenha que destacar que o contexto histórico é importante, inclusive com a necessidade da transgressão testar limites e encontrar a voz de autores e mesmo do gênero literário de maneira maior.

Dito isso, bem, a série foi produzida entre 1995 e 2000 e parte dos elementos (assim como Invisíveis que eu pretendo comentar mais pra frente) corriam pela ideia do fim do mundo como conhecemos na virada do ano 2000, o que, 26 anos mais tarde parecem cada vez mais realistas... Mas, verdade seja dita, existem alguns outros elementos anacrônicos e que envelheceram mal aqui e ali na história, ainda que, sinceramente pouquíssimos casos consigam fugir dessas armadilhas.

Então meu veredito? Ao contrário de 100 Balas que eu acho que se mantém bastante sólida hoje em dia (e talvez seja até mais atual hoje) e qualquer leitor pode pegar e ler sem medo de errar, Preacher é mais nichado e, eu duvido que qualquer pessoa com menos de trinta (e poucos ou até mesmo muitos) vá conseguir gostar.

Talvez pelos elementos cômicos, talvez pelo ruído mais que pela história, mas eu genuinamente não vejo a história se traduzindo para um público diferente daquele que leu originalmente quando ela foi publicada (ou que, se for ler hoje pela primeira vez, pelo menos estava vivo durante esse período para ter alguma lembrança e conhecimento de causa da época). 

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