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17 de junho de 2015

{RESENHA} The Room: O Cidadão Kane de nossa geração?

A maneira mais fácil que eu encontrei para explicar 'The Room' para um grupo de amigos foi a seguinte, e por favor, acompanhe o raciocínio:

É como se você tivesse que retirar as amígdalas, sem anestesia e por algum motivo o procedimento escolhido exige uma incisão no seu pé. Ah, e o cirurgião é um chimpanzé (e eu quase tenho certeza que ele não tem um diploma médico mas eu não acho que esse seja o detalhe mais importante nesse ponto).

Tommy Wiseau consegue de uma tacada só fazer um filme tão ruim, com diálogos mais artificiais que SPAM (e não o e-mail que é mais saboroso que aquela gororoba enlatada), atores com menos expressividade que árvores ou pedras, uma trilha sonora mais entediante que partida de xadrez às 3:30 da madrugada após tomar remédio para tosse... O roteiro é cheio de clichês e mal costurado, a direção horrorosa, a edição de cenas lamentável... Eu acredito até que eu poderia seguir por horas pra destrinchar tudo que existe de ruim nesse filme, mas é como uma colisão de trens: Você meio que se vê compelido a assistir.

Porque é genuíno a ruindade do negócio.
Não é aquela coisa artificialmente produzida para parecer ruim como naqueles filmes de "Todo mundo em Pânico" ou "Crepúsculo". Esses caras parecem realmente acreditar no projeto - mesmo que como um grupo de amigos reunidos com o intento de produzir isso. E é algo tão natural, tão obscenamente não intencional que é impossível não rir (mesmo que a intenção fosse de produzir um drama, lembre-se disso)!

Veja um exemplo: Na primeira cena, Johnny (Tommy Wiseau, o diretor E roteirista também, diga-se de passagem), chega em casa com um vestido sensual como presente para sua noiva Lisa (Juliette Danielle). O casal então recebe a visita do vizinho Denny (Philip Haldiman), que, alheio a todo o diálogo com clara conotação sexual - inclusive de que o casal estava indo para seu quarto fazer sexo, dito da maneira mais explícita e clara possível - Denny resolve SEGUIR o casal!
Isso gera alguma estranheza? CLARO QUE NÃO! Johnny e Lisa estavam fazendo guerra de travesseiros e não acham nada estranho que o vizinho pegue uma almofada e se junte a festa!
E ISSO É APENAS A PRIMEIRA CENA!

Claro que é impossível descrever em palavras os eventos dessa insanidade sob forma de filme, e vai ficando cada vez mais difícil conforme cenas sem muita lógica (um casal que entra e sai do filme sem nenhuma conexão com a trama principal, um assaltante/traficante de drogas que aparece para cobrar Denny de dinheiro que lhe é devido, a cena da festa de casamento...), que descrever os absurdos é chover no molhado, inclusive quando já existe um vídeo brilhante para isso, do pessoal do CinemaSins.


"Oh, hi Mark"

Mas... O que esse filme diz ou significa para nossa sociedade?
Você achou provavelmente que eu estivesse brincando com o Cidadão Kane do título, certo?
E curiosamente, eu não estou.
Pelo menos não nisso.
The Room é sem dúvida um filme muito importante e que precisa ser assistido e interpretado por estudiosos, fãs de cinema, sociólogos, antropólogos, mágicos e gurus porque existe algo muito maior que um filme ruim aqui, e é em parte o retrato de uma geração (dessa geração), um retrato horroroso, sem filtros e sem retoques da geração atual. Droga até uma crítica ao cinema de espetáculo e sem conteúdo (com um filme sem nenhum conteúdo ou mesmo qualidade mas que reverbera já há doze anos - ei, você se lembra de algum dos indicados ao Oscar do ano passado? Eu não me lembro dos indicados desse ano, e olha que eu fiz um post sobre eles...).
E eu juro que isso não é piada. Não tenho nenhuma carta na manga para reverter ao 'ha, ha, Hi Mark!"ou algo similar. Eu REALMENTE vejo esse filme como uma obra que precisa ser estudada e que reflete mais sobre nós que estamos dispostos a admitir.

Provavelmente eu também precise de alguma análise e terapia, mas isso é assunto para outro dia...

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