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7 de agosto de 2013

Ato 2 - A crise de identidade na primeira metade do século vinte e um (parte 1)


_ Meu nome é Milton Oliveira Santos, tenho trinta e três anos, estou noivo de uma mulher fantástica, que está grávida de nossa primeira criança, e trabalho numa condição que paga bem e exige pouco de um banco internacional de grande renome, que, neste exato momento está sendo incorporado por outro banco internacional de grande renome. Minha mulher foi internada em um hospital recentemente, por uma reação estranha de seu corpo, que, eu confesso não entender as tecnicalidades todas, mas sei que isso quase causou um aborto espontâneo. Ela foi submetida a um tratamento, sendo observada vinte e quatro horas, e, os médicos não estão seguros em dispensá-la ainda. Não sei ao certo o motivo do que aconteceu, mas não posso deixar de ouvir aquela voz baixinha e grossa que diz coisas ruins, sussurrando que a é o corpo dela me rejeitando. Vê-la com todos aqueles tubos, com tanta dificuldade para me dizer um “bom dia” de vez em quando... Aquilo me dói o peito... Ela não merece isso. Nas primeiras semanas a família estava ajudando como podia, acompanhando boa parte do tempo, visitando durante o meu horário de serviço e cuidando de minha casa enquanto estou no hospital, mas ainda assim é um fardo que dói demais carregar... Ao mesmo tempo, meu melhor amigo, confidente e talvez a única pessoa neste mundo em que ainda confie e que eu realmente sempre jurei confiar está internado também, mas em outro tipo de instituição. Ele passou as últimas semanas em uma clínica de desintoxicação e, agora, foi transferido para um sanatório onde terá acompanhamento de corpo médico especializado no caso, que, eles disseram ser clássico de depressão ou de algum distúrbio e ou desequilíbrio de seu sistema nervoso... Novamente, as tecnicalidades me faltam.  Estou com medo, muito medo do que está acontecendo, e, gostaria sinceramente dizer que é só ‘uma fase’, gostaria de ter certeza que ‘as coisas vão melhorar’, e, até que em algumas semanas toda essa sensação ruim passará. Mas não tenho mais essa certeza, e, temo que nos últimos dias eu perdi um bocado o controle. Acabei passando da conta, bebendo demais e fazendo o que não devia, e continuo com medo. Tudo do que fiz de nada me valeu. As coisas estão mudando rapidamente, e eu estou ficando para trás, e, nesse exato momento a única coisa que eu vejo que realmente preciso é um ombro amigo... É uma pessoa para me ouvir, para me amparar e oferecer algum conselho. Antes que eu chegue ao fundo do poço ou algum outro lugar do qual eu não consiga sair. O álcool distrai meu medo, assim como os outros sentidos, e só me entorpece e distrai. A realidade me acompanha por todo o trajeto, todo o desastroso trajeto que uso como fuga, somente para me acordar no outro dia, com um gosto amargo na boca, uma dor profunda nos olhos e cabeça e uma moleza enorme no restante do corpo. Sei que é idiotice, e isso é como um auto-flagelo, que é bastante eficaz para reduzir a culpa... Faz parecer-nos um tanto mais nobres, eu acho, por suportar a dor ou algo assim... Ainda é estúpido, não vou negar, afinal nem sou o primeiro a utilizá-lo ou o último a criticá-lo. Acho que como tudo na vida... Talvez até no universo, só seja uma questão da perspectiva correta, do local e momento certo.
Eu estou sem nenhuma destas opções, neste momento. Estou vagando, perdido e sem noção do que fazer a seguir, procurando ajuda onde não posso encontrar, e pedindo o que não posso ter. Tudo o que quero, é um pouco de paz e tempo para reencontrar meus pensamentos, e poder colocar tudo sob nova perspectiva, ou, ao menos, sob a perspectiva correta de novo.
Ao menos é o que eu acho...
***
Se era difícil voltar para casa quando Marina estava no hospital, ou voltar para o hospital e passar a noite com ela... Agora que ela está em casa, com enfermeiras a pajeando dia e noite, e, quando ela está acordada ela passa horas e mais horas atualizando seu trabalho, mesmo que seu chefe seja realmente um cara legal e tolerante, e, bem, ela tenha uma real justificativa pela ausência nos últimos quinze dias, e ainda terá a justificativa de sua ausência pelo próximo período... Mas ela tem medo de, ao voltar não ser mais necessária, então, com o tempo que tem enquanto está acordada e com um mínimo de disposição, ela trabalha em seu laptop, e refaz, redigita e acerta os detalhes de projeto após projeto. Normalmente quando chego ela está dormindo, e, apesar da medicação utilizada ser mais suave para não causar problemas na criança, ela acaba sempre desgastada e exausta ao final da tarde. Não é difícil que, chegando direto do trabalho eu só vá trocar uma meia dúzia de palavras com ela por volta das onze da noite, ou meia noite mesmo, quando ela acorda para um dos remédios, normalmente se troca, e, dependendo de seu humor, trabalha um pouco mais, ou volta a dormir. Em outro caso, só na manhã seguinte, pouco antes de eu partir é quando trocamos algumas palavras curtas... Venho falando mais com as enfermeiras em suas trocas de turno que com minha noiva... Não bastasse isso, minha mãe e minha sogra freqüentemente se revezam em casa, cuidando dela, ajudando nas tarefas básicas, e, normalmente fazendo as vias de uma terceira enfermeira (sim, nós estamos pagando duas, apesar de cada uma ser dedutível do plano de saúde de cada um de nós, mas os trâmites operacionais da coisa e nossas justificativas junto ao fisco realmente não são algo que valha a pena algum destaque), o que mantém a casa bastante movimentada, quase sempre cheia. E eu sempre solitário.
Quando chego para uma refeição, ou me contento com o que sobrou da refeição de Marina e de minha mãe ou da sogra, ou faço algo só pra mim... E em qualquer das situações, estarei comendo sozinho. Seja no almoço, se resolvo passar em casa para ver como estão as coisas, e dar uma esticadinha, seja no jantar, e até mesmo no café-da-manhã... O máximo de companhia que tenho é de uma das enfermeiras, mesmo, que não se importam em passar algum tempo na cozinha comigo – o que acho que é mais para fugir do próprio serviço que outra coisa, pois, por mais que eu possa dizer, sei que também não estou sendo das melhores companhias com esse humor de ultimamente. Elas normalmente dizem a mesma coisa, com grandes clichês sobre como Marina tem sorte por ter tanta gente que a ama ao seu lado para cuidá-la, ou algo do tipo, e confesso que cada vez que ouço isso me brota uma quase incontrolável vontade de retrucar que tipo de sorte pode ter uma mulher que quase morreu devido a suas complicações na gravidez, que estava submetida a soro e remédios e que, de acordo com as estimativas dos médicos, gerará alguma eventual seqüela tanto para ela quanto para a criança, por menor que seja. Que merda de sorte é essa? Que dicionário do inferno define isso como sorte? Claro, foi e é uma milagre ela está viva e bem, assim como o bebê que ela carrega. Mas de onde venho, milagres não dependem de sorte, ou mesmo o contrário... Milagres dependem de muitas coisas, e a sorte somente dela própria, no máximo do acaso – que, este assim como o caos são definidores de todo o universo.
(Faz algum tempo que estou ranzinza... Pessimista ao extremo e, sei bem que não ajuda nada no que está acontecendo em minha vida, e sei também que deveria encarar o mundo de forma diferente, em virtude exatamente do que me está ocorrendo, mas não posso evitar. Noites ruins, preocupações em excesso e estresse... A cada dia que passa tenho mais e mais medo que vá pegar uma máquina de escrever e digitar folhas e folhas de ‘Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobalhão’ – e, agradeço por só ter a máquina e nenhum machado nas imediações).
Agora que ela está em casa, o sono flui um pouco melhor, consigo descansar um pouco, sabendo que onde ela está, e que, mesmo nas piores estimativas, ela sobrevive (abrindo mão da criança e até da possibilidade futura de ter uma nova), e, só de estar longe daquele ambiente de hospital, acho que já faz o sono fluir mais satisfatório. Às vezes fico ao seu lado, vendo enquanto dorme. Um anjo. Um anjo caído, é verdade, ainda divino. Gosto de vê-la dormir, ficar ao seu lado, esperando alguma reação, algum contato visual, ou ao menos para lhe oferecer algum apoio. E raramente tenho algo nesse sentido.
Ela passa boa parte de seu tempo acordada durante o tempo que estou trabalhando.
Há muito tempo não fico assim sozinho...
Acabo aceitando uma oferta estúpida... Uma proposta feita por um funcionário novo. Ele começou faz nem um mês, e, já é o sujeito mais comentado do prédio. Não por seu talento, é verdade. Acho que ninguém saberia falar de seu talento, e, sequer ousaria. Foi indicado diretamente pelo novo presidente, o banqueiro do Swann’s, e, é filho ou sobrinho de um importante... Enfim, é alguém que está intocável na instituição devido seu status, e, não só por isso fala-se tanto sobre ele (mas confesso que não seu nome, e, acho que nenhum dos outros funcionários... Normalmente o chamam pela alcunha de ‘estagiário’ ou ‘almofadinha’ e ‘filhinho de papai’, quando não está presente, e por ‘você’, quando está. Acho que já ouvi algumas vezes diferentes versões para o nome, Vitor, Vivaldo e Valdese – sempre algo que começava com v, igualmente sem muita importância – o fato é que, quando necessário mesmo, usavam o sobrenome do pai, famoso na instituição, e impossível de gerar confusão: Sousa). Sua vida social bastante ativa é motivo de falatório também, com suas histórias com funcionárias da casa, fotos em colunas sociais, e, os causos que ele faz questão de contar em alta voz durante intervalos para o café – que, devido a estas histórias acabam se prolongando mais que deveriam. É um beberrão e grande puxa-saco. Vive atrás de Fausto e de mim e de qualquer outro diretor e funcionário com mais tempo de casa com uma patente um pouco superiora, e, bem, digamos apenas que se ele trabalhasse tanto quanto se esforça para nos convencer a beber cerveja com ele, e, vivenciar uma das ‘insanas noitadas pela cidade’, ele seria um funcionário realmente digno de nota.
Falador, cheio de histórias sobre como ele conheceu alguma celebridade enquanto estava passando pelo clube ‘a’ ou como ele fez sexo com gêmeas, que, apesar de ser ao mesmo tempo, sem que uma soubesse que a outra estava com ele, e outros contos que, os menos atentos poderiam até dar algum crédito. Principalmente se você ouvir apenas uma ou duas de todas elas, sem se importar com pormenores... Mas ele gosta de entreter seu público, e, de certa forma, aquele grupelho de senhores de meia-idade e senhoras de igual tempo de vida acaba se sentindo compelido a reviver seus ‘bons anos’ enquanto encoraja a continua e constante elaboração de histórias absurdas.
E apesar de tudo isso que acabei de relatar, absurda é realmente uma palavra que descreve bem o que acontece quando ele segue o seu fluxo de balada em uma típica noite de terça-feira, com dois sujeitos em busca de diversão. Um, na verdade, pois eu somente buscava distração, mas isso já é outra história e conversa, e, se eu me ater muito aos detalhes, verdade seja dita, jamais chegarei ao próximo ponto, e, realmente importante/interessante desta história toda em primeiro lugar.
Começamos em um bar bastante movimentado, cheio de pessoas, e com reserva para outras tantas, e, mesmo para um dia típico da semana como este, um segurança mal encarado do tamanho de um armário olha com desdém a tudo e todos que se move em direção à porta. Como o novato – e acho que já passou do momento de saber seu nome, é verdade, e, se soubesse, com certeza diria – tem bastante familiaridade com o dono e, por algum motivo, freqüenta bastante o lugar, sua entrada é facilitada.  Confesso que não vi motivo para tanto.
Ambiente caro, bastante elitista para meu gosto, e, bem, não que eu estivesse com a cabeça no lugar certo no momento, mas confesso que não achei que as pessoas fossem assim tão bonitas como em outros lugares... Quer dizer, não parecia uma horda de zumbis, ou um dia comum com os clientes da agência em que eu comecei trabalhando (e sim, eles eram tão feios que tivemos de mudar os vidros para foscos para que as pessoas do lado de fora não se assustassem)... Mas, posso dizer sem medo de parecer falso ou mentiroso que, nunca vi um grupo tão grande de gente rica e feia reunida na vida. Mulheres que obviamente passaram do ponto nas cirurgias plásticas que fizeram, homens que claramente perdido o controle sobre seu físico, para dizer o mínimo (juro que ouvi um garçom dizendo que um dos clientes começando a desenvolver sua própria órbita). Todos em vestidos e ternos caros, com assessórios ainda mais caros, em um ambiente que tentava simular o estilo clássico e elegante dos anos trinta ou de uma adega européia ou algo que realmente escapava minha compreensão. Acho, em uma análise simples, que, o fato dos preços nos mais altos patamares concebíveis antes de algo ser considerado criminoso e a atmosfera que tentava emular alguma sorte de classe e nobreza seja o que motiva a procura e demanda pelo local. Com medo do eufemismo, o mais próximo de se ver ali era o ‘menos feio’, com exceção de uma mulher.
Chegou discretamente, calma e contando seus passos conforme passava, mas logo chamou atenção. Era obviamente a pessoa mais atraente do lugar, e, talvez eu até seja considerado um cretino por isso, mas vejo que era a única pessoa realmente atraente do lugar. Seus cabelos longos e loiros balançavam livremente, enquanto suas pernas firmes e esbeltas traçavam o caminho. Confiante, ela andou até o balcão, balançou sutilmente dois dedos – como se precisasse fazê-lo para atrair a atenção do garçom naquela casa – e, delicadamente moveu seus lábios carnudos e vermelhos, sussurrando seu pedido. Mesmo à distância como estava, podia perceber que ela falava baixo, pelo fato de ser necessário se aproximar do ouvido do garçom para que ela a entendesse, e, é verdade que o som nem estava assim tão alto. Ela se virou no balcão, olhando ao redor, e, pude vê-la finalmente de frente. O rosto claro, ao que me parecia sem maquiagem alguma e ao mesmo tempo sem retoques cirúrgicos, com traços distintos e ainda assim sutis. Um nariz pequeno e fino, olhos grandes e verdes, e, os já citados lábios carnudos e vermelhos (esses talvez o único retoque cosmético em sua face). Ela era magra, apesar das curvas bem definidas por todo o corpo, e bastante claras através de seu vestido branco – ou talvez prateado – colado ao corpo, e curto o suficiente para permitir o vislumbre de suas pernas, longas, firmes e esbeltas.
E ela me viu.
Achei estranho, em primeiro momento, talvez pelo fato de que estava realmente em transe naquele instante, em parte pelo meu corpo bastante suscetível ao álcool naquele momento, ainda mais devido a todo o tempo que passei sem consumi-lo, e, naquelas poucas horas ali já passara da terceira dose de whisky. E só vim a achar possível, quando, num segundo momento, o novato, ao voltar do banheiro me perguntou o que havia perdido, notando então a estonteante loira ao balcão. “Ei”, disse me cutucando com o braço “É impressão minha ou ela está olhando pra cá?”. E foi quando, olhando uma vez mais em sua direção, notei que ela acenava para mim.
Resolvi ir em sua direção, após o insistente encorajamento, tanto do novato quanto do álcool, e, foi somente a alguns passos diante dela que a reconheci. Verônica, a garota de meus sonhos durante o colegial, que perseguiu minha mente durante a faculdade e a quem dedicara muitas noites e dias de solidão.
_ Quantos anos você acha que faz desde que...? – ela pergunta, com uma expressão surpresa ao me ver, e bastante contente, devo dizer. Ela parece bastante deslocada ali, e eu sou como um bote salva-vidas para lhe acolher.
_ Uns bons doze anos, se não mais. A faculdade já faz um bom tempo agora...
_ Sim, muitas coisas já fazem um bom tempo agora. E eu sempre fui uma pessoa que preferiu o agora ao muito tempo. Te garanto uma coisa, não mudou.
_ Eu me lembro bem dessa sua postura perante o mundo. Achei que o tempo se incumbiria de...
_ De me assentar? Me dar algum juízo? Bah... A vida é curta demais para se preocupar com todas as conseqüências. A única coisa que realmente importa é a diversão... O quanto podemos nos divertir com tudo isso.
_ Acho que estou tendo um deja vu... (Não, não é isso... Repeteco? Flashback? Analepse?... Nossa... De onde saiu isso?) Esse discurso não é novo...
_ Não, e você ainda não aprendeu.
Ela me olha com um... Não sei como me expressar direito, talvez só vendo aquele rosto, aquela feição... Aquele olhar meio aberto, e o rosto virado um pouco em minha direção, enquanto seus lábios se moviam gentilmente, tocando a taça da bebida que segurava em suas mãos, e exalando uma sensualidade, que, até esse momento não me recordo de ter visto em outra mulher, ou ao menos não assim, tão perto... Tangível. A forma como seu sorriso indicava uma certa ingenuidade e muita malícia ao mesmo tempo continua intacta, como que um convite ao passado, e um futuro próximo promissor. Vendo seu rosto lindo brilhando naquele lugar horrível, eu me sinto como um garoto. Dez, talvez até quinze mais anos mais novo. Meus hormônios estão pulsando, a mil. Tudo o que consigo pensar é que... “Você não vai me apresentar sua amiga, Miltão?” É que eu agradeço ao novato por me salvar de fazer algo idiota. Eu não deveria estar aqui, não é mesmo? Ainda tenho alguém me esperando em casa... Alguém de quem eu deveria estar cuidando... Idiota... Grande idiota... Eu preciso sair... Eu...
_ Você está quieto demais, Milton. Algum problema?
Não sei quem disse isso, e nem consigo verbalizar uma resposta. Meus olhos estão pesados, meu corpo mole como gelatina, a cabeça gira como um pião, e eu sei que, em algum momento dessa experiência eu acabo cochilando. Vendo o mundo piscar em flashes de luzes, sons estranhos e coisas bizarras, como num pesadelo de David Lynch com pessoas estranhas em expressões perturbadoras... Meu corpo imóvel apenas assiste a estes flashes incompreensíveis e incongruentes, constantemente me perguntando que diabo estou fazendo ali, e porque não consigo sair. Eu durmo de vez, e sei que dormi, apesar de continuar a ouvir o que está acontecendo ao meu redor. Sons, vozes, e risadas ainda ecoam e refletem em minha mente, mesmo ciente de que não estou mais acordado. Vejo Marina enquanto ouço esses ruídos e buchichos. Ela está na exata posição que quando sai de casa pela manhã. A mesma que estava no dia anterior, e no outro, e no outro... Eu coço meus olhos, pesadamente, sabendo que um rio de lágrimas parece querer sair e minha visão fica embaçada por algum tempo. A garganta fecha, trava por completo, áspera como lixa. A cabeça dói, e, curiosamente, sei que é pelo meu excesso na bebida, e não pela sensação... Pela frustração de ver Marina neste pesadelo... De viver neste pesadelo, sabendo que não existe nada que eu possa fazer para reverter isso, e, enquanto texto minha fé, avalio ao mesmo tempo se tenho forças suficientes para sobreviver a isso. Mesmo que de uma forma mesquinha e cretina, afinal, eu nem de longe estou lutando ou sofrendo... Como Marina ou como Virgílio.
Acordo com a cabeça apoiada em um banco, desses de praça pública, sentado e babando. Grogue e com a cabeça zunindo, eu vejo os primeiros raios de sol brilhando, e sei que é dia. Sei também que é o primeiro nascer do sol que vejo em anos... E que melhor maneira de apreciar a experiência.
_ Eis o espírito da festa! – diz uma voz feminina ao longe, tornando-se mais próxima, a um som repetitivo e estridente do bater de saltos de sapato contra o asfalto.
Verônica, carregando dois copos de café, senta-se ao meu lado.
Grogue demais para refutar ou argumentar, aceito um café, e, tudo que consigo perguntar são as horas.
_ Cinco e meia. Você obviamente não faz isso a um bom tempo, não?
Pensando bem, nunca fiz... Minhas noitadas sempre tiveram um fim em algum ponto delas, nunca seguiram noite adentro, ainda mais sem que eu soubesse o que diabos acontecera. Conversamos (ou melhor, ela fala e eu respondo com monossílabos, grunhidos e leves movimentos com a cabeça – uma vez que movimentos mais bruscos atiçam meu fígado a jogar pra fora o café que acabei de beber) por algum tempo enquanto tento me recompor, e vejo que obviamente será um dia péssimo de trabalho. Ela me ajuda a seguir meu rumo, me dá seu telefone, e vai embora.
Em nenhum momento penso em meu carro, na conta que deixei para trás ou mesmo no que acontecera com o novato. Não consigo manter pensamentos coerentes e complexos. Manter-me em pé, caminhando e respirando ao mesmo tempo é como uma partida de xadrez para minha mente nesse estado.
Às portas do apartamento, começo a procurar as chaves em meu bolso, e sofro bastante para ter alguma chance em fazê-lo. Tudo que noto é que as chaves do carro não estão ali, mas coisas que evidentemente não estavam, como um copo pequeno, daqueles usados para doses, uma barra de chocolates, dois chicletes e, estranhamente, um clipe de papel marcavam presença. Após localizar a chave (e, constatar ao mesmo tempo que nos bolsos de trás, minha carteira, bem mais leve, estava solitária sem a companhia do documento do carro), surge uma partida ainda mais complexa de xadrez, que é colocar a chave no buraco, virar e mover a maçaneta. Quase desisto quando sou surpreendido pela porta se abrindo sozinha.
Ou melhor, por minha mãe, do outro lado, o que me faz cair para dentro de casa. Ela aplica um longo sermão, que, acredito já ter ouvido quando menor e vivendo no mesmo teto que ela, sobre responsabilidade, porres e que tipo de exemplo isso seria para meus filhos, sendo que confesso nem entender ao certo o que ela estava fazendo ali, e, que meu maior esforço naquele momento estava sendo controlar o café que não estava satisfeito em suas acomodações. Sem qualquer noção de tempo ou do que estava acontecendo, vou ao banheiro tomar um banho para seguir direto pro trabalho.
Acabo passando uns bons vinte minutos me despedindo da noite anterior e do café desta manhã, antes de conseguir ficar em pé diante do chuveiro, e, com certeza, a água me ajuda bastante a administrar a sobriedade. Mas não muito. Ainda estou grogue e, não fosse só isso, estou extremamente cansado.
Vai ser um longo dia...
Loooongo dia...

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